
6:56 PM
O Canto de um Rio em sua Vida
Adino Bandeira
Há dias ouvia o canto de um rio em sua vida.
Tanto que resolveu consultar o mar,
pai e mãe donde vêm e pronde vão todas as águas.
Perguntou-lhe do rio cantante e do que trazia.
“Alegrias e tristezas, mas felicidade ao fim do dia”.
Enigmático, enfiou os pés na areia onde
onda se bronzeia, molhou-se até quando não mais
podia e correu idéias por toda praia que se fez imaginar.
Lavou-se em essência e seguiu tranqüilo,
sereno como o fim da tarde.
Rabiscado por Andarilha descalça
5:25 PM
CONTINUO SEM SABER DE MIM
Carla Dias
Estava nessa correria, tropecei, caí, levantei, sacudi a poeira e dei a volta pela sala, procurando bugigangas que arquivo na alma, enquanto falava com as paredes, reiterando o mantra: essa não sou eu.
Não sou a pessoa que encontro a cada manhã, o olhar enevoado, a rotina desprovida daqueles gracejos usuais, provocados pela vontade de pensá-la colorida; a rotina lírica, atrevida.
A ousadia me dispensou há tempos, pois até mesmo ela tem de se alimentar. E ando dando de comer a ela somente as raspas, os restos, a letargia. As esperas vãs.
Hoje um estranho me pediu informação sobre ônibus e, do nada, disse para eu não cortar mais os cabelos. Será que ele enxergou do lado contrário do espelho, alcançando o quando eu parecia mais certa, cabendo em mim, ainda que descabida de tudo? E, certamente, mais descabelada...
Dei a informação sobre o ônibus e ignorei os cabelos.
Antes que me esqueça de esclarecer: não era apenas sobre ônibus pra Lapa e cabelos cortados. O estranho disse que era recado de Iemanjá. E eu sorri da ironia... O que desejaria a rainha do mar de uma pessoa que mantém os pés no concreto há tanto tempo?
Há pessoas sensíveis nessas ruas e, às vezes, encontro alguma que me faz re-experimentar o passado e o trampolim para o futuro; desvendar delícias no presente. E a confusão amarga, mas depois se torna agridoce.
Estava zanzando, rodopiando sem destino pelo quarto. Sambei tristezas ancestrais; distraí mágoas com meio-sorrisos. Invadi o passado e trouxe de volta as lembranças de mim, quando pensava no amanhã como ele fosse um milagre certeiro: acordar, enxergar, tocar, experimentar.
No meu dentro, a rotina ainda tem seus momentos de excentricidade: flerta com distâncias, embarga mágoas; tem amor arisco, doce, tresloucado. Nessa rotina, os sabores se misturam, os perfumes também.
Assopro samambaias, balelas me inspiram verdades. E clamo para que precipícios cuspam frenesis e eu possa colhê-los feito buquê de noiva que foi lançado. Quero noivar com indecências, das que apimentam amor à beira da mesmice.
Meus erros me fortalecem, mas também me levam a ensimesmar. E lá no mais profundo de mim, necessito de gritos, tambores alucinados, noites a sós com as promessas de realização sendo cumpridas.
Há uma de mim que vive meu fora, e ela é cética, prática, medrosa. Há uma de mim que vive meu dentro, e ela não é, porque se transforma constantemente, com a mesma euforia dos sentimentos. Elas se sentam, lado a lado, parecem irmãs, mas brigam pela minha alma. E é justamente essa uma de mim, a que nasce dessa disputa, que busco reconquistar, porque ela tem flores nos cabelos, esperança no coração, música na alma, poesia nas veias.
A miscelânea de sensações me faz doer o estômago, ao mesmo tempo em que me acalma: ainda tenho jeito.

Rabiscado por Andarilha descalça