
7:46 PM
VIAGENS NÃO ACABAM
"O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não
foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se
vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde
primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a
pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso
voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar
caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem sempre."
José Saramago - Viagem a Portugal
Rabiscado por Andarilha descalça
7:05 PM
CARTA AO FUTURO
Meu amigo:
Escrevo-te para daqui a um século, cinco séculos, para daqui a mil anos...É quase certo que esta carta te não chegará às mãos ou que, chegando, a não lerás. Pouco importa. Escrevo pelo prazer de comunicar. Mas se sempre estimei a epistolografia, é porque é ela a forma de comunicação mais directa que suporta uma larga margem de silêncio; porque ela é a forma mais completa de diálogo que não anula inteiramente o monólogo. Além disso, seduz-me o halo de aventura que rodeia uma carta: papel de ocasião, redigido numa hora intervalar, um vento de acaso o leva pelos caminhos, o perde ou não aí, o atira ao cesto dos papéis e do olvido, ou o guarda entre os sinais da memória. Por sobretudo, porém, agrada-me falar desde o centro deste Inverno e desta cidade mortal que me cercam. Ouço as vozes subterrâneas à alegria mecânica, aos passos cronometrados, à azáfama de nervo e esquecimento que adivinho ao longe, numa metrópole-síntese construída em arame e cimento, e é bom que essas vozes ressoem na minha boca.
Vergílio Ferreira, Carta ao Futuro
Rabiscado por Andarilha descalça
5:37 PM
PUXANDO UM TEXTO
Desenho no vácuo noturno, com os olhos arregalados, uma linha do tempo. Uma não, várias, empilhadas como prateleiras do tamanho do mexer de olho lado a lado.
Pontuo aqui e ali eventos que marcaram minha existência. Levantam-se na penumbra do tempo aqueles fatos para os quais pergunto por que foram do jeito que foi, se poderia ter sido diferente, etc.
Ora bolas, o que vale a pena é terem acontecido, afinal poderei expressar-me em murmúrio auricular, bem pertinho de Deus ou quem quer que tenha a chave da eternidade ou o marcador do livro da vida, a frase imitando Neruda: ¿Confesso que vivi¿.
Se bem que esse ¿vivi¿, poderia ser bem mais, não fosse o sono irregular que deixa acordada de noite e me faz zumbizar de dia.
A questão é a qualidade do estar acordado durante o dia. Não é a mesma coisa, o mesmo sentir, o olhar para as coisas é diferente, tudo é visto através de uma cortina, de um véu, não se dá a perfeita comunhão entre mim e o estar no mundo, como se ele fora um imenso palco e eu, não o sujeito que atua, mas a platéia que observa sem interagir no espetáculo. Na sociedade capitalista vigente é necessário produzir, ou no mínimo fingir que.
Maldito! É meu grito de revolta contra o estado de coisas que vige. Não aceito, rebelo-me e reajo decisivamente, porque preciso viver e isto agora se traduz em ter inspiração para escrever, em achar que vale a pena, mesmo que o assunto seja escrever sobre o nada, a satisfação de cruzar a rua em frente ao Lindas Carnes (é o açougue da esquina), ir até à padaria comprar pão fresquinho (vendido agora a quilo), cruzar com aquele garçom todo enfeitado de ouro (exibe penduricalhos e bugigangas no pescoço e braços). Não falo de atividades domésticas, trabalho remunerado, ginástica, não quero entrar nessa ótica.
O que faz a falta de sono e de assunto.
Consulto o relógio. Olho lá fora. A cor branco leitoso que o vidro mostra diz que amanhece, fresco e gostoso nestes dias de outono, logo as primeiras notícias comporão o horror dos noticiários (a mais nova é o estudante sul coreano-americano), tomarei em jejum um comprimido tireoidiano com um copo dágua e me aconchegarei mais um pouco debaixo do edredom. A madrugada se despede.
O filho se levanta, me dá um beijo e sai. O parágrafo é porque não quis misturar filho com a feiúra do anterior. E porque esta é a parte especial mesmo. Explicando melhor, especial, propriamente dito, é ele.
O problema de escrever assim ou de outro jeito é que ao fim e ao cabo eu me pergunto: ¿E daí?¿ O que mudou no mundo? A Terra continua a girar, o sol a brilhar ¿ ou não ¿ o Universo não está nem aí (pretensão a minha).
Eu sei que texto de net precisa ser curto, pequeno como tudo na cultura atual, mas não posso perder esse ímpeto criador, esse derrame de idéias insolentes do qual fui acometida.
Os motivacionais dirão que o importante é não desistir, insistir. Aliás, eu poderia ter encerrado este texto alguns parágrafos acima, mas percebi que o ato de escrever estimula, a gente pega gosto, vence censuras, fica desavergonhado com as palavras. E depois há o desejo de ser absolutamente autêntico.
No entanto, objetivo a ocupar apenas uma página na tela do computador. É ela quem dita o término desse meta-texto-devaneio. E está quase terminando o reallity show literário, como no final dos filmes estrangeiros antigos, aparecerá The End, sem final definido, ou como naqueles que quando acendem as luzes a gente exibe aquele cara de vontade de xingar mas não pode, ou exibe semblante de satisfeito ou inteligente, ou fala que é filme de debate e reflexão, cujo entendimento fica para depois. Tem os que terminam com a cena dos personagens cada vez mais longe, a câmera se afastando, se afastando, se afastando, se afastando, se afastando, se afastando, etc. etc.
Eu queria dar um final de filme inteligente, final indefinido, final de dúvida, de pergunta, mas ocorreu-me deixar no final a frase: ¿Claro que vale a pena, afinal estamos vivos!¿
E terminar com uma frase de cunho positivo: ¿Bendito existir!¿. Disse o poeta (quem?) ¿Tudo vale a pena se a alma não for pequena¿.
Minha tendência contestadora manda corrigir o poeta: ¿Quase tudo¿.
20/04/2007
Diana Goncalves
Rabiscado por Andarilha descalça
11:15 PM
Faz parte do meu show
Em outras palavras 'mulher: procura-se'. Interpretação racionalista para um anúncio que tenta mostrar romantismo, 'Amor: procura-se'? Talvez.
Ainda insegura, selecionou algumas fotos e escreveu a carta. Não tinha certeza do que estava fazendo, e nem se estava fazendo. Enfim, fez. Há alguns anos, mesmo sem perceber, passou a levar a vida muito a sério. Seus amigos, os melhores, haviam mudado para diferentes cidades. Era muito difícil confiar em outras pessoas. Nós sabemos como é isso. Se um amigo vai embora, parece que nunca poderá ser substituído. A verdade é que ninguém é insubstituível...
Os últimos meses tinham demorado muito a passar, sentia-se só. Cada vez mais só, cada vez melhor. A solidão inspira. Monotonia cansa. Enviou a carta. É estranho o efeito que a ansiedade causa. Bom e ruim. Doce e amargo. Quente e frio. Horas passavam como se fossem dias.
A resposta veio em uma tarde chuvosa. Em cada pingo uma dúvida. Em cada canto um olhar. A ansiedade era inversamente proporcional à data do encontro. A hora era aquela. Aprontou-se para aprontar. Penteou os finos cabelos, escolheu uma roupa simples. Acreditava que as coisas belas da vida giravam em torno da simplicidade. Saiu de casa, trancou a porta. Havia algo de estranho, mas não era ansiedade. Foi caminhando calmamente pelas ruas observando cada folha que voava ao vento, cada flor que havia secado. Há muito tempo não passeava pelos parques e jardins. Há muito tempo sua vida era uma foto em preto e branco. Deveria virar à esquerda para chegar ao local marcado. Seguiu reto. Era difícil confiar nas pessoas e, mais do que nunca, a solidão inspirava.
Yvelize Wielewicki
Rabiscado por Andarilha descalça
11:59 PM
Escrevo, logo existo!
É no momento da escrita que sinto minha existência. Existo, logo escrevo? Escrevo, porque existo. Sou matéria. Sonho. Saio do momento planejado e me concretizo. Viajo pelos rios, sinto o cheiro da mata, salvo vidas, alimento aos animais; pelos homens peço perdão, às mulheres dou razão. Procuro um mundo justo, cujos seres não se atropelem. Onde a água não seja poluída; onde as garotas não sejam prostituídas. Onde a discriminação racial seja algo cometido em um passado eternamente distante. Sou homem, mulher, mendigo, rei, passarinho, menino, empregado, patrão; sou bicho, sou irmão. Embriago-me na paixão, mas quando vem a solidão... Escrevo para ser feliz, para atingir aos leitores vorazes, dotados de muita sensibilidade e que me ofereçam críticas. Nada caminha sem a interferência do semelhante. Aposto no processo modificador da espécie humana através da escrita, do texto bem elaborado, da palavra empregada corretamente, dos mais belos e fantásticos pensamentos. Sou aquilo o que eu escrevo.
Através da escrita posso viajar sem pagar, posso conhecer lugares dantes nunca imaginados; posso mergulhar pela vida alheia sem ser chamado de fofoqueiro; posso empregar as mais diversas e adversas opiniões que depois as justifico como produtos da ficção. Faço presente nas mais variadas e imponentes celebrações. Acabo provando dos doces e quitutes mais apetitosos, mas não deixo de perambular dentre os desfavorecidos ¿ esquecidos pelo poder público. Tento dar conselhos, mas muitas das vezes não sou ouvido. Fazem-se de surdos. Calam-se quando peço sua atenção. Sou ignorado, procuro o silêncio e me faço na escrita. Construo-me da escrita. Da tinta da caneta, do cheiro do papel, do corpo do texto. Nasço. Sou eu. É você. Somos nós. É um texto. É a escrita. Faço-me existir.
Sergio Augusto Santanna
Rabiscado por Andarilha descalça
11:55 PM
O limite da razão
Outro dia você me disse que a solidão tem seu limite e esse limite está na tolerância do tempo, pois quando se envelhece as pernas dão mais importância à segurança do que à liberdade. Você me disse isso com uma dúvida incontida e um intransigente casaco quando na verdade (você sabe disso) perder a liberdade é procurar no pássaro empalhado a razão do vôo.
Sidnei Olivio
Rabiscado por Andarilha descalça
10:02 PM
TORNO A OUVIR O MARULHO DAS ÁGUAS NEGRAS
Somos as nossas imagens. Quem imagina um deserto, no dia irrestituível, se refugia em sua própria desolação. A planície se abre para quem deseja evadir-se ou perder-se no mundo como uma dessas formigas transviadas que a ambição desviou do carreiro. O marulho das águas negras de uma lágrima, que eu ouvia durante a minha infância em Maceió, e tornei a escutar em Veneza, impõe em mim a direção de um universo em que os elementos mais contrários reclamam adesão e conluio.
A presença de mundos apartados, de matérias situadas antes das partilhas, é como a respiração dos amantes após o amor: ainda enlaçados e aprofundados um no outro, e misturados em suas águas cúmplices, já se acham contudos afastados pela súbita supressão do êxtase. Na lama fétida da lagoa, escondem-se a água universal do oceano e a areia profanada pelos miasmas desagregadores. Na cronologia pulverizada em que sou, ao mesmo tempo, sumiço e aparição, o minuto que passa tem uma fervilhação de formigueiro aberto! e as imagens profundas mais uma vez disputam o reconhecimento solar de um dia ofuscante como o verão que ilumina os lagartos entre as pedras. O vento, passageiro como um deus, deixa intactos os ninhos.
As mangueiras que palpitavam sob as chuvas grossas das madrugadas antigas ¿ quando o lençol do menino insone se levanta como a brisa nas veias dos galeões pejados de ouro dos piratas ¿ voltam a arfar na alameda mentirosa que franja meus sonhos devastados pelo martelar monótono das ondas. As estrelas mudam, repentinamente de posição, como as luzes dos aviões na curva celeste que antecipa a proximidade do aerporto. E eis-me de novo diante do dia, que é uma sucessão infindável de janelas abertas; e eis-me de novo diante da noite recendente aos laranjais em flor.
Mas todavia desabrimos a mão da massa confusa de seres e lembranças, sonhos e desconsolações, trabalhos e cóleras. E de todo o cadastro pessoal resta apenas, lumalha na escuridão, a imagem de um menino diante do Oceano, e que escuta, nas vagas e ventos acumulados ao redor do estaleiro apodrecido, a longa melodia da memória para sempre vitoriosa ¿ essa música abafada, essa euforia das águas golfejantes e reunidas na foz do tempo, essa respiração do mundo que, importunando os vivos com a sua reiteração, já não tem prestígio sobre aqueles que, defuntos, estão além da desolação e da morte.
Lêdo Ivo
Rabiscado por Andarilha descalça