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Blog Destaque do Magia Gifs!

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10:27 PM


O silêncio

Começo da noite e a mulher acordou tropeçando no silêncio dele. Já ouvi isso em algum lugar. Quando se acorda e se tropeça no silêncio do outro é porque esse silêncio é grande demais. Pequenos silêncios você tira de letra mas os grandes são mais complicados. Quando você adormece deixa ele ali, ao pé da cama, esperando que quando acordar ele tenha desaparecido ou que você tenha se esquecido dele. Mas não ... ela acorda e tropeça ... ele está ali, surdo e cego como todo grande silêncio.

Impávido ! A esperá-la !!!

Se agita, desesperançada, mas a vida tem que continuar. Quem sabe se ela ficar muito linda, se perfumar toda, usar o vestido mais vermelho , escolher o brilho mais bonito para iluminar os olhos, quem sabe assim o silêncio fique constrangido e vá embora.
Ela começa a se arrumar toda fingindo que o silêncio não existe, ele grita alto, porque os silêncios são sempre cegos e surdos, mas nunca mudos. Silêncios quando são doloridos, quando são silêncios de verdade ,dos grandes, daqueles que nos cortam a pele e arranham os ossos, gritam alto, lamentam e é difícil você escapar deles. Ela faz ouvidos moucos, escova os cabelos , usa sua sandália mais delicada, o salto mais alto, põe aquele colar que ele gosta tanto, se veste de lantejoulas e quando o silêncio se distrai um pouco ela sai de mansinho fechando a porta

Dança a ciranda noite toda, e borra a boca e amassa a saia. Quase ao amanhecer volta e, pé ante pé, espreita a sala.

E lá está ele ! O silêncio, avolumado e surdo, refestelado na sua melhor poltrona, pronto para lhe engolir todo o coração !


Vera do Val


Rabiscado por Andarilha descalça

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10:25 PM


Bloco Monolítico de Amor Perdido na Distância

Ainda assim, nós nos amamos. Entre Eros e Thanatos; entre epístolas e bilhetes; entre risadas e sussurros; entre Drummond e Cecília; entre ausências e saudades; entre versos simbolistas e frases byronianas; entre Marte e Vênus; entre desejos etéreos e gemidos vazios; entre lágrimas e sorrisos em eclipses; entre personificação de lâminas e cicatrizes na alma; entre promessas vãs e decepções; entre dores transvividas e toques não sentidos; entre línguas e línguas; entre neologismos e metáforas; entre sonhos e ilusões; entre a tecnologia e o démodé; entre arrependimentos e curiosidades; entre mágoas e paixão; entre madrugadas invernais e tardes de verão; entre acusações e suspiros; entre idiomas e regionalismos; entre Sísifo e Prometeu; entre você e ela; entre eu e ele; entre eu e você. Ainda assim, nós nos amamos.

Ana Rachel Dantas


Rabiscado por Andarilha descalça

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12:07 PM


No mar sem hipocampos

Assim que anoiteceu, saiu para pescar. Peixes não, estrelas.
Afastou-se da casa, atravessou um campo até o seu limite.
Na linha do horizonte, sentado à beira do céu, abriu a caixa das frases poéticas que havia trazido como iscas.
Escolheu a mais sonora, prendeu-a firmemente na rebarba luzidia.
Depois, pondo-se de cabeça para baixo, lançou a linha no imenso azul, deixando desenrolar todo o molinete.

E paciente, enquanto a Lua avançava sem mover ondas, começou a longa espera de que uma estrela viesse morder o seu anzol.

Marina Colassanti Do livro "Contos de amor rasgados"


Rabiscado por Andarilha descalça

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8:59 AM


A língua me dá medo
Eu me chamo nirvana, vindo do fim para ser o começo do nada, escrevo, não leio palavras, escuto palavras, me magoam as palavras.

A língua me dá medo, como pode, o que fere tanto, nos dar tanto prazer na hora do beijo; eu falo, beijem sem língua e amarão para sempre.

Sou nirvana, no fim serei o começo de tudo, de todos o dono do jogo, a roleta Russa, o escudo trincado, os rins paralisados, o delírio do diabo, corações limpos e o ódio petrificado.

Não usem a língua, não delirem, sejam livres, livres sem receio da liberdade, sintam, gozem do gozo da vida que acaba tão rápido.

Não sou nirvana, não sou começo, não vi o fim, só quero um beijo de língua para min, com todo veneno, não me importo se só for assim, sem medo, eu creio no que ainda está por vir, a língua sem beijo, mas não creio que tão cedo seja assim.

Marcos Henrique


Rabiscado por Andarilha descalça

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8:14 PM


Por volta do ano 250 a.C., na China antiga, um certo príncipe da região de Thing-Zda, norte do país, estava às vésperas de ser coroado imperador, mas, de acordo com a lei, ele deveria se casar.

Sabendo disso, ele resolveu fazer uma disputa entre as moças da corte ou quem quer que se achasse digna de sua auspiciosa proposta.

No dia seguinte, o príncipe anunciou que receberia, numa celebração especial, todas as pretendentes e lançaria um desafio.

Uma velha senhora, serva do palácio há muitos anos, ouvindo os comentários sobre os preparativos, sentiu uma leve tristeza, pois sabia que sua jovem filha nutria um sentimento de profundo amor pelo príncipe.

Ao chegar em casa e relatar o fato à jovem, espantou-se ao ouvir que ela pretendia ir à celebração, e indagou incrédula:

- Minha filha, o que achas que fará lá? Estarão presentes todas as mais belas e ricas moças da corte. Tire esta idéia insensata da cabeça, eu sei que você deve estar sofrendo, mas não torne o sofrimento uma loucura.

E a filha respondeu:

- Não querida mãe, não estou sofrendo e muito menos louca, eu sei que jamais poderei ser a escolhida, mas é minha oportunidade de ficar pelo menos alguns momentos perto do príncipe, isto já me torna feliz, pois sei que meu destino é outro.

À noite, a jovem chegou ao palácio.

Lá estavam, de fato, todas as mais belas moças, com as mais belas roupas, com as mais belas jóias e com as mais determinadas intenções.

Então, finalmente, o príncipe anunciou o desafio:

- Darei, para cada uma de vocês, uma semente. Aquela que, dentro de seis meses, me trouxer a mais bela flor, será escolhida minha esposa e futura imperatriz da China.

A proposta do príncipe não fugiu as profundas tradições daquele povo, que valorizavam muito a especialidade de cultivar algo, sejam costumes, amizades, relacionamentos...

O tempo passou e a doce jovem, como não tinha muita habilidade nas artes da jardinagem, cuidava com muita paciência e ternura pois sabia que se a beleza das flores surgisse na mesma extensão de seu amor, ela não precisava se preocupar com o resultado.

Passaram-se três meses e nada surgiu.

A jovem de tudo tentara, usara de todos os métodos que conhecia, mas nada havia nascido e dia a dia ela percebia cada vez mais longe o seu sonho, mas cada vez mais profundo o seu amor.

Por fim, os seis meses haviam passado e nada ela havia cultivado, e, consciente do seu esforço e dedicação comunicou a sua mãe que independente das circunstâncias retornaria ao palácio, na data e hora combinadas, pois não pretendia nada além do que mais alguns momentos na companhia do príncipe.

Na hora marcada estava lá, com seu vaso vazio, bem como todas as pretendentes, cada uma com uma flor mais bela do que a outra, de todas as mais variadas formas e cores.

Ela estava absorta, nunca havia presenciado tão bela cena.

E finalmente chega o momento esperado, o príncipe chega e observa cada uma das pretendentes com muito cuidado e atenção e após passar por todas, uma a uma, ele anuncia o resultado e indica a bela jovem como sua futura esposa.

As pessoas presentes tiveram as mais inusitadas reações, ninguém compreendeu porque ele havia escolhido justamente aquela que nada havia cultivado, então, calmamente ele esclareceu:

- Esta foi a única que cultivou a flor que a tornou digna de se tornar uma imperatriz, a flor da honestidade, pois todas as sementes que entreguei eram estéreis.

Neusa Behrend



Rabiscado por Andarilha descalça

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2:57 PM


os sombras

Os sombras não existem.

Reside aí a singular natureza destes monstros dotados de braços e pernas e cabelos e que tendo se convertido numa suposição encantada andam à nossa órbita modesta como se existissem.
Anteriores ao tempo que é apenas o simulacro despedaçado da eternidade, os sombras, embora não existam, são bichos puros e, não raro, obsedantes.
Mas se não existem nem nunca existiram, como conferir a eles um status de coisa viva, dotada de braços, pernas, cabelos e um secreto ritmo?
Para os eleatas, que tinham o feio hábito de prender os sombras em câmaras escuras, se eles existissem, os homens e as coisas não existiriam.
E explicavam o aparente paradoxo com uma exortação simples ¿ atentemos para eles, os sombras, que, se constituindo em nossas visagens, andam conosco e nos perseguem, inexatos desenhando-os as formas no chão, nos muros, pelas paredes.
Deixar que existam é permitir que sejamaos deles apenas um cambiante reflexo.

Wilson Bueno


Rabiscado por Andarilha descalça

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2:50 PM


Carta aberta ao homem que me fez feliz
(ou História sobre o homem que me faz sorrir)

É assim deitada sobre as costas desta saudade que

desliza mansa e sem qualquer resignação que eu confesso que nada

está definitivamente tranqüilo neste coração que ainda bate

cadenciado no amor que te pertence. E se ouso revelar este segredo

quase ingênuo não posso - e deveria?! - mais ignorar este

desencontrado e contraditório amor que me despertou do enganoso

esquecimento de ser feliz, desde que, ainda menina, te amei pela

primeira vez e descobri que não haveria, em qualquer outra, amor

senão aquele que desde sempre viveu encasulado entre desacertos e

naufrágios. Os mesmos que tantas vezes me desinventaram e foram a

escola onde aprendi a ser atriz pra fingir que um sorriso era,

mesmo pálido e desdentado, sinônimo de saber parecer feliz, ainda

que em todo tempo a morte continuasse viva e, me pendurando na

parede que revela o que não podemos ser, decorasse minha cara com

bocas e olhos desorganizados.

Mas neste agora - que não aconteceu por escolha e

muito menos por mero acaso - vivo dias onde não havendo espaço pra

mentiras e nem encantação, floresço brisa e exatidão que me

libertam da escuridade dos sentimentos que disfarçavam meus

conflitos, entrego-me ao mistério das palavras e anulando todo

silêncio obscuro me transformo em letra e sangue. E se é verdade

que tudo isso me desobriga a permanecer calada é meu dever e

compromisso falar.

Ou cantar, mesmo neste resto de voz , um beijo

(re)partido que alegre e refaça o homem amado.

Há tanto tempo és a medida inteira e desmedida do

que é amar - e falo de um tempo que não se mede em dias e meses ou

anos porque só fica registrado no âmago da alma que pra viver te

respira dia e noite - que se me perguntassem, é certo que não

saberia responder desde quando te elegi meu homem e aprendiz de

mim. Única - e qualquer outra seria desnecessária e mentirosa -

razão porque me fiz lua e flor, rainha e menina de duas cores.

Assim como também fui sol e água porque era urgente te fazer

feliz.

Somente hoje percebo que tudo isso independia do

meu querer, já que todo adiamento acabaria, mais dia menos noite

ou vice-versa, me conduzindo a este homem que ao nascer me

estremeceu e assumiu o meu destino.

O que ainda me escapa, neste tempo de madura

adolescência é o entendimento da simplicidade desta nossa história

sem passado, tecida neste circunstancial comprometimento de trocas

tantas e tamanhas, que compartilhadas entre amanheceres continuam

nos deslocando pro futuro do presente. E tanto mais me desnudo

diante da memória incontestável deste intraduzível encontro, mais

largas e profundas se tornam as paralelas paradoxais de vida e

saudade que vorazmente alegres ainda pulsam intensamente, porque

continuamos de mãos dadas, nestes dias e horas que se recontam

neste amor continuamente gritado no longe perto.

De repente, penso que talvez esta seja a mesma e

perigosa lucidez que Clarice - a Lispector - ao descobrir, definiu

como sendo o perfeito cálculo matemático porém desnecessário.

Então, também por isso, é necessário que eu revele

este instante, comprometida que pra sempre estarei em não permitir

que façam infeliz ou desamado este homem que jorra em minhas veias

e me isentou do medo de sentir-me venturosa. Tanto e mais e depois

que me povoou com fogo e voz, passos e mãos, sorrisos e carícias,

bocas, línguas e suores frios sobre a cama que foi um mundo

inteiro e só de nós dois, corpos esbraseados e úmidos, quase

apaziguados nas margens da insatisfeita esperança, que permanece

exposta entre nossas pernas que ainda tremem, enquanto lanho nas

paredes do meu peito maneiras novas e delicadas que sustentem o

homem que amo na explícita e inenarrável redescoberta de ser

feliz, pra eu não desaprender a sorrir.

Eliane Malpighi


Rabiscado por Andarilha descalça

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9:42 AM


Desuso (desabafo)
(dedicado aos amigos desaparecidos)

Acho que desuso é motivo para desvanecer amizades, amores,

casamentos...

Quando a pessoa se cala, porque tem certeza que o outro vai

compreender o silêncio...Quando a pessoa deixa de dizer: ¿ Como

vai? Tudo bem? E passa a dizer: ¿ Oi? E, recebe como resposta, um

outro oi, isso não é só economia de palavras, é desinteresse pela

resposta. Perguntar: ¿ Como vai?... pode nos fazer saber, que o

outro não vai muito bem.

Adoramos abrir a caixa de correio eletrônico e encontrar uma

mensagem carinhosa. Mas, parece tão difícil responder: ¿ Obrigado!

E, nem mesmo teremos que endereçar. O computador faz tudo por nós.

Só precisamos ter vontade de agradecer e retribuir a gentileza.

Temos certeza, que o remetente sabe que gostamos. Só o que não

sabemos é, que no futuro, ele vai deixar de nos enviar mensagens

porque, também, tem certeza que não iremos responder.

Sou daquelas pessoas que consegue perceber, nas palavras,

intenções não expressas. Não consigo porém, descobrir as intenções

de um silêncio.

Quando deixo de usar seu nome, seu email, o número de seu

telefone... deixo de usar a memória. Por falta de uso, seu nome,

seu email e seu telefone, ficam guardados em um caderninho de

endereços, junto a muitos outros, que por desuso, não guardo mais

na memória.

Lenise Resende


Rabiscado por Andarilha descalça

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12:55 PM


O Silêncio Sem Fim do Sabiá

O sabiá jazia inerte sobre a mureta de cimento que rodeia o pinheiro. Parecia ainda quente o seu corpo repleto de formigas. Algumas roíam-lhe as pálpebras, outras ficaram com o bico, umas trinta preferiram a asa esquerda, a que estava para o alto.
Parecia um mendigo atropelado, ou um bêbado dormindo na calçada sob o sol das duas, qualquer coisa, menos um sabiá que não sabia que o pinheiro bem perto do outro pinheiro não era sequer pinheiro, era apenas o reflexo, um fantasma de pinheiro em vidro espelhado do prédio da ADMINISTRAÇÃO CENTRAL DO POSITIVO.
Certamente quis passar voando veloz entre os galhos do ¿pinheiro¿ (como aliás fazem todas as aves com os pés nas nuvens) e acabou se surpreendendo com a dureza do ar entre aqueles galhos de Araucaria angustifolia, com o sósia plano de vidro espelhado que chocou o bico contra o seu bico, as asas contra as suas asas, os sonhos contra os seus sonhos...
E o sabiá caiu atônito, mas não mais surpreso, pois ele agora conhecia todas as ciladas dos homens, porque toda a sua longa vida de dois anos e meio passou diante dos seus olhos, os olhos que não sabiam que o ¿pinheiro¿ não era pinheiro, era apenas a foto diurna do pinheiro no vidro espelhado do prédio da ADMINISTRAÇÃO CENTRAL DO POSITIVO.
E se fosse fêmea o sabiá? E se tivesse filhotes o sabiá? E se ao invés de ter nascido homem eu nascesse sabiá no fim do milênio em curitiba? Em seu silêncio, o sabiá me contava o que aconteceu e o que acontece quase todos os dias: dezenas de sabiás, e outros pássaros, que não distinguem o pinheiro real do pinheiro virtual de vidro espelhado do prédio da ADMINISTRAÇÃO CENTRAL DO POSITIVO, morrem por semana. Pensavam que a natureza tinha produzido um milagre, um pinheiro de 30 metros em menos de dois anos, para constatar em seguida que o ¿milagre¿ era humano e que ¿milagres humanos¿ agradam apenas a olhos humanos, acostumados a tanta ¿arte¿, tanto ¿estilo¿, tanta indiferença com a vida... Pássaros não conhecem espelhos, a vaidade deles é coisa pouca, ou nula. Agora nunca mais a voz maviosa do canto do sabiá num canto qualquer da cidade...
De que adiantou ter peito alaranjado, liberdade, voar? Não estava preparado para o pinheiro ilusório de vidro espelhado do prédio da ADMINISTRAÇÃO CENTRAL DO POSITIVO e morreu. Sem descobrir o objetivo da vida, nem a vantagem de ter asas num planeta de seres sem pena.

Aluísio de Paula


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8:47 AM


Tarô

Foi naquela tarde, joguei as cartas do baralho cigano, em busca de respostas e portas que me mostrem algo além de onde estou. A colcha feita com retalhos de pano e de mim. Posso ser mais, eu sei, posso ir além, mesmo errando. Não se enfrenta o mundo de costas, eu vou de peito aberto, o mesmo peito que te abriga. Estico o jogo, estico os símbolos, e me embolo nos sentidos. Sem sentido é nosso romance, sem início, sempre projeto sem alcance. Alheia ao Acaso, ignoro mensagens e ainda te busco entre desenhos. A Morte. Nosso fim. O Louco.
Sou eu. Minhas mãos lembram as tuas, pergunto às cartas sobre prelúdios, interlúdios e se há dor que mascaras. Antes que partas, elas mostram vazios e taras.

Christine Ferreira



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8:47 AM


Mel Cereléu

Eu bem que devia ter desconfiado que as fadas andavam soltas no dia que Mel Cereleu chegou aqui em casa. O céu, numa abanada de rabo, abriu-se num jorro de anil salpicado de centelhas douradas. A avenca do jardim, insociável e rabujenta, arrepiou-se em verdes e afofou a terra para que Mel Cereléu passasse. As cambaxirras do telhado desenharam círculos alados sobre o encrespado molosso do corpo doce de Mel. Os gambás do sotão escalaram os galhos do abacateiro em flor só para ficarem perfumados e chegarem perto do pote dourado de Mel. Os lagartos, preguiçosos ao sol do meio-dia, abriram asas e viraram dragões. Mel Cereléu chegou anunciando brisas, furacões e ventanias num bufar babado de mel. Trouxe estrelas dentro dos olhos que de vez em quando piscam cometas e favos de mel. Trouxe o pólem das flores que já não mais existem mas que insistem em provocar espirros de mel. Trouxe o arco-íris com os seus duendes e um pote de mel.
Mel Cereleu chegou como chegam as fadas: banhadas no ouro do mel. Chegou como chegam as sereias: espumadas nas águas do mel. Chegou como chegam os assombros: embrulhada na reticência de um céu de mel.

Marcia Frazão





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