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Les Moulins De Mon Coeur/André Rieu

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Blog Destaque do Magia Gifs!

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9:01 AM


TORPOR

Não sei o que dizer. Não sei o que pensar. Flutuo como sombra imóvel de mim mesma, sem os antigos arremessos apenas espero, vendo até onde a vida me circunda, pairo como ar estagnado, vendo que ventos me sopram, eu, o último resquício de todos os meus sonhos, eu a espreitar a vida pelas frestas dos olhos, eu sangue estancado, eu grito contido, imóvel, doce, finalmente calma, eu que me aguardo com paciência, que me cerco nas esquinas cinzentas porque há de vir o sol, o inverno, o mau tempo, o outono onde todas as folhas mortas vão cair de mim

Eu torpor, silêncio, cisco no mundo, preciso instante entre o Antes e o Agora, evaporada gota, eu esconderijo nos barrancos a vigia o Tempo, camuflagem de pedras a espiar a Morte, eu Vida, onça, rajada, rápida, passageira, eu tique-e-taque sóbrio, pulsação de atabaques, instantes bolha viva

Eu poema surdo, papel guardado, riso frouxo, inermte me acompanho e cedo o lugar de mim, eu água parada, morna, turva, primeira namorada, derradeira curva eu me escuto, voz monossilábica, mansa, desatenta

Eu morte lenta, desmaio de gritos, compassiva, passiva, espectadora, eu mormoaço, madrugada, justo limite entre o Amanhecer e o Ontem, nuvem fotografada, branca, clara, que não chove a garoa da Vida tampouco se interpõe entre o sol e o mundo

Glória Horta


Rabiscado por Andarilha descalça

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10:25 AM


FELICIDADE

Disseram para aquele homem, que a felicidade estaria no sítio. E

agora ele está lá, as mãos encravadas nas reentrâncias do rochedo,

o corpo fustigado pelo vento, os olhos parados, fixos no pedaço de

felicidade. Acreditamos, que quaquer hora ele vai soltar as mãos

para tentar agarrar a felicidade, então veremos um corpo sendo

levado pelo vento, com um pedaço da felicidade nas mãos.

Oswaldo França Júnior
Do livro "As laranjas iguais", Nova Fronteira, 1985, RJ


Rabiscado por Andarilha descalça

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8:01 AM


Aqui estou eu envolta pela arte virtual e sua variedade opulenta e aterrorizante. Aqui, tudo o que é infinito em possibilidade fascina e espanta o espírito e nos contagia com os amortecimentos do saber. Entendemos que a vastidão condensa em si o fantástico, muitas vezes aleatório, e o inacessível. Pois tudo o que é fantástico e ilimitado é também a seu modo incansável por completo. Eu me sento circundada pelo espectro das informações sem as escutar nem as ver, mal as percebo. E, no entanto, notícias, pessoas, imagens e fatos consomem meu tempo. Quase nada eu sei, pois uma profusão me cega. Às vezes, ao contrário do provável, me desnutre até os ossos. Quando mergulho na saturação informativa da notícia, passada ou presente, perco aos poucos a capacidade sensitiva e o sabor de absorver com todo o tempo que a verdadeira compreensão solicita. Mas aqui estou eu, fascinada. De uma fascinação sôfrega, pendulante, cada vez mais contemplativa. Eu me sento diante do conhecimento da mesma maneira que descanso em frente à paisagem ou a elas, as paisagens, inúmeras, todas povoando o meu imaginário, meu arquivo lúdico de razão e lembrança. O resto é ordinário, e a reflexão me esgota. Afinal, toda paisagem é ainda mais bela em contraste com aquilo que experimentamos ao nos movermos por ela. A idéia em contraste com a ação, o abstrato frente a realidade. Só a constância do movimento é capaz de conferir esta estranha e hipnótica calma às observações feitas no distanciamento do mundo. Não é só isto. Tantas coisas me fascinam! Tantas coisas me sustentam distante, alheias ao seu cotidiano, adquirindo estes suspiros trágicos ou contornos, criando mistérios que aguçam a mente e os sentidos. Meus sentidos me fascinam, e os sentimentos que dali se formam. Um pensamento que não compreendo e uma imagem capturada de um momento qualquer aqui se reproduzem em outras mil imagens, como seqüências de uma animação. Gosto de pensar que a emoção me toma ao invés de ser fabricada pela combinação de dados de um arquivo biônico. Que a emoção me invade como um soro diluído pelas correntes sangüíneas e domina o pensamento, como dominam as demais partes do corpo outras substâncias produzidas em meu cérebro. Tenho apenas uma imagem sob os olhos, carrego esta imagem há horas sobre tudo o que eu vejo. Carrego um cheiro que se encontra no inspirar de tantos outros variados cheiros que me rodeiam. Sinto um som e sinto um toque que transpira de toda superfície que toco. E, no entanto, esta imagem é sonho puro, é qualquer magia de coisas que se pode ver, mas não se pode alcançar. Torno os olhos para o alto e percebo que falamos de estrelas o tempo todo. Estrelas entre eu e você, estrelas entre as montanhas. Fios que se entrelaçam e ocupam caminhos distintos numa sinfonia a princípio imperceptível, um sussurro regendo a imagem da forma que não se pode intuir. A forma que se dissolve pelo afastamento, a cor que desbota. Um enigma que se exibe a nós com a mesma doçura que exibe o céu, ostentando a curvatura sedutora das abóbadas. Ali adiante, no morrer entre o caminho e o horizonte há sempre a expectativa de que algo se revele e surja. Nesta imagem onde só cabe um dia, e o outro é uma surpresa. Esta imagem que nos circunda, nos atrai, cativa e se desdobra por sobre nossas cabeças, amplifica em seu interior as vozes de uma pregação e infiltra a alma com o contraste das coisas ao mesmo tempo reais e imaginárias, com a falsa proximidade que nos contagia, com mais que o maior fascínio das distâncias, com o vazio da contemplação.


Lu Maimone



Rabiscado por Andarilha descalça

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7:26 PM


MENINO SENTADO NA ÁRVORE
(Poema em prosa dedicado a todos os meninos do Brasil)

Olhos negros contemplando a claridade do dia, menino sentado, sorrias, sorrias. Por que sorris, menino encantando? Por quais portas atravessa? Por quais? Portas de mundo-magia? De mundos naturais? De bichinhos, de pardais? De estilingue, de
pedrinhas, de pedradas? De tantas janelas quebradas? Por que sorris, ó menino, vamos, fala, conta para mim. Pensa em noites estreladas? Nas pontinhas amareladas daquela estrela sem fim? Ou será a namorada, a menina esperada, com cheirinho de
jasmim? Vamos, fala, menino, não fique aí me olhando desta foto envelhecida, por mãos do tempo tingida, em preto e branco da paz. Fala, menino, responde! Teus olhos fitam o longe? Teus olhos prescrevem o futuro, que não seja tão escuro, quanto os olhos que o vêem? Teus olhos sorriem, esperança? Mas tu és a criança, que teus olhos querem ver. És a criança calada, triste, só, abandonada, em teu mundo pueril. És o menino de rua, descalço, pernas tão nuas, imundo, sem mãe e sem pai. És órfão de caridade, és a própria orfandade. És menino-gaiola, dos espigões que se afloram, nas selvas dos matagais. És o menino-medroso, do pai ébrio e mãe gentil. És os meninos-meninos, teus olhos vêem os destinos, dos meninos do Brasil. És menino-esperança, que a vista sorri e alcança, um futuro bem melhor. És pobreza, a ruína, és também auto-estima, dos
que querem superar-se. És o medo e a coragem, é assim, tão-somente, pequenino, um menino, simplesmente, sentado, sorrindo, num tronco qualquer da árvore esquecida, da vida.


Ana Paula Sabbag


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8:35 AM


Ilha Deserta


Nada deserto. Nem ruas, àreas, nada. Ilhas, muito menos. Sempre tive essa estranheza. Se é deserto, vou saindo de fininho, ou melhor, nem entro. Quando eu era criança tinha medo de acordar num mundo sem gente ou sem meus bichos de estimação. Medo de acordar samambaia (já pensou?) e nem por isso numa ilha deserta porque mesmo uma samambaia tem o direito de observar algum movimento que não seja apenas o da natureza.

Cecília Meirelles escreveu que numa ilha deserta é preciso encher o tempo e que ela levaria um dicionário, que ela batizou de "o livro da solidão". Eu costumo brincar que levaria 'Cem Anos de Solidão', de García Márquez, porque somente numa ilha deserta eu conseguiria terminar esse livro. Mas, na verdade, acho que a maioria de nós entraria em pânico, sem concentração para livros ou explorações por água doce. Talvez por isso o seriado "Lost" tenha uma legião de telespectadores - porque queremos ver nosso lado desbravador, destemido e ao mesmo tempo pequeno e amendrontado em cada personagem ilhado, em cada ser humano perdido em/e na ilha e por isso mesmo, perdido em si mesmo.

Numa ilha deserta, seríamos obrigados a nos deparar com nossa nudez de alma, a ficar cara à cara com nossa ilha interna e nossas defesas mal disfarçadas iriam ser vistas quase a olho nú, as fobias viriam à tona, seríamos forçados a ser livres talvez, como disse Sartre, e sabemos que ser livre não é para amadores. E se, ainda segundo Sartre, o inferno são os outros, porque a maioria de nós está sempre à procura de outras pessoas e raramente em busca de um espaço deserto por este mundão de Deus? Talvez porque a nossa vã filosofia precise se sentir acompanhada, precise de calor humano, precise unir emoções e neuroses em seu instinto tribal.

Mas esse papo está parecendo uma daquelas viagens na maionese, já que a probabilidade de você ou eu irmos parar numa ilha deserta deve ser infinitamente menor do que ganhar na Mega Sena. Ou, pelo menos, quase tão absurda quanto a probabilidade de acordar samambaia. Até porque não existem mais ilhas com água doce que já não sejam habitadas. As ilhas desertas foram parar no mesmo limbo dos mundos encantados, onde as nossas fantasias programam a vida - ou o tédio dela. De todo modo, se for pra acordar samambaia um dia - a gente nunca sabe onde estão fundamentados nossos medos infantis - que seja na cidade, rodeada de movimento por todos os lados.

Claudia Letti


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8:24 AM

Intimidade


Que seja assim!
Tardes que caem para que nasçam as noites.
Acordes que terminam para que a pausa prepare o som que virá.
A vida e seu movimento tão cheio de sabedoria.
Que seja assim! Que seja sempre assim!
Esquinas que dobramos com o desejo de alcançar outras esquinas.
Depois da chuva, o frescor. Tudo prepara uma forma de depois, como se o agora fosse uma passagem constante que nos conduz com seu cordão invisível.
Eu vou. Vou sempre. Não sei não ir.
Minha curiosidade me move para dentro de mim. Sou um desconhecido interessante.
A cada dia uma nova notícia me entrego. Eu me dou em partes, como se devolvesse o que já sou àquele que me deu totalmente.
Vivo pra desvendar... Esquinas, tardes caídas, manhãs que se levantam com o sol.
Ando amando mais. Meus amigos são tantos, meus limites também.
Cada vez mais eu, mais feliz. Eu sou sem medo de errar.
Eu desejo a sacralidade de cada dia. Deitar no chão da existência é tão necessário.
Eu me levanto mais devolvido, porque há muitas partes de mim esparramadas, caídas pelas esquinas da vida.
Recolher-me é obra que faço por Deus.
Estou em reformas. Deus o sabe.
Ele é que tirou a primeira pedra. Tirou. Não atirou.
Deus não sabe atirar. Prefere tirar. Eu deixo. Sou Dele. Quero ser sempre mais.
Em partes, pra ser todo. Ele me devolve a cada dia. Eu também.
Lição de casa que faço com gosto.
Vez ou outra Ele me olha nos olhos e me dita poemas.
Fico tão encantado que até esqueço as palavras.
Ele me manda prestar atenção. Digo que não sei.
Ele ri de mim. "Poetas são todos iguais" - conclui enquanto mexe no meu cabelo.
Eu o vejo de perto, bem de perto.
Por vezes sinto o desejo de lhe pedir o impossível, mas aí me falta coragem.
Aí peço que me dê só o necessário. Ele me surpreende com medidas que não mereço. Fico mudo, sem saber dizer.
Ele me socorre com seu sorriso. E de súbito, as palavras voltam a fazer parte de mim.

Pe Fábio de Melo, scj


Rabiscado por Andarilha descalça

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12:13 AM


Rubem Azevedo Alves
Alguns Pensamentos

"Nós temos uma capacidade quase infinita de suportar a dor, desde que haja esperança. Se diz que a esperança é a última que morre. Mas o certo seria dizer: a penúltima. Porque sua morte é o prenúncio da última morte, a morte daquele que conclui que não há mais razões para viver. Quando morrem as razões para viver, entram em cena as razões para morrer." (Preferiram Morrer, em Teologia do Cotidiano, 1944)"Cada momento de alegria, cada instante efêmero de beleza, cada minuto de amor, são razões suficientes para uma vida inteira. A beleza de um único momento vale a pena de todos os sofrimentos." (Valeu a Pena? em Teologia do Cotidiano, 1994)"A saudade é flor que só floresce na ausência. É nela que se dizem as orações suplicando dos deuses a graça da repetição da beleza. E é só para isso que existem os deuses: para garantir o retorno do belo."(Tempo de Morrer, em Teologia do Cotidiano, 1994)"Tem beleza demais no universo, e Beleza não pode ser perdida. E Deus é esse Vazio sem fim, gamela infinita, que pelo universo vai colhendo e ajuntando toda a Beleza que há, garantindo que nada se perderá, dizendo que tudo o que se amou e se perdeu haverá de voltar, se repetirá de novo. Deus existe para tranqüilizar a saudade..." (Deus Existe?, em Teologia do Cotidiano, 1994)"Minha alma é um quarto onde os objetos mais estranhos estão colocados, um ao lado do outro, sem ordem, sem nenhuma intenção de fazer sentido." (Prefácio de O Quarto do Mistério)"O jardim é o rosto de nossas entranhas; somos o jardim que plantamos. Ou o jardim que amamos, sem que o tenhamos plantado, mas que outro plantou. E quando isso acontece, podemos ter certeza de que sonhamos sonhos parecidos. É possível que possamos nos tornar conspiradores... Eu e o outro jardineiro. O fim de todo trabalho cósmico foi a criação de um jardim. O jardim é o fim de tudo que se faz. Puro prazer, ressurreição do corpo..." (O Jardim, em O Quarto do Mistério, 1995)"O crepúsculo é belo por causa do rio, o fluir do tempo faz as cores mudarem... A vida e a beleza só existem por causa da Morte, que torna possível que elas dancem." (O Tempo Foge, Curta o Dia, em O Quarto do Mistério, 1995)"As sombras se encontram sempre mais além da luz."(Bosques Escuros, Lanternas Claras, em O Quarto do Mistério, 1995)"Pensar dói muito. A morte não é algo que nos espera no fim. É companheira silenciosa que fala com voz branda, sem querer nos aterrorizar, dizendo sempre a verdade e nos convidando à sabedoria de viver. A branda fala da Morte não nos aterroriza por nos falar da Morte. Ela nos aterroriza por nos falar da Vida. Na verdade, a Morte nunca fala sobre si mesma. Ela sempre nos fala sobre aquilo que estamos fazendo com a própria Vida, as perdas, os sonhos que não sonhamos, os riscos que não tomamos (por medo), os suicídios lentos que perpetramos. Embora a gente não saiba, a Morte fala com a voz do poeta. Porque é nele que as duas, a Vida e a Morte, encontram-se reconciliadas, conversam uma com a outra, e desta conversa surge a Beleza... Ela nos convida a contemplar a nossa própria verdade. E o que ela nos diz é simplesmente isto: "Veja a vida. Não há tempo para perder. É preciso viver agora! Não se pode deixar o amor para depois...". (A Morte Como Conselheira, em O Quarto do Mistério, 1995)"Assim são os meus mapas. Olho para vastos espaços. Identifico rios, montanhas, mares, cidades. Não me dizem coisa alguma. Não me produzem nenhum riso. Mas há uns poucos lugares que brilham como estrelas. São lugares onde moram pessoas que eu amo. Somente os amantes sabem que os mapas facilmente se transformam em corpos. Basta, para isso, que a despedida aconteça..." (Os Mapas, Sobre o Tempo e a EternaIdade)"A alma é uma borboleta. Há na vida, um momento em que uma voz nos diz que chegou o momento de uma grande metamorfose: é preciso abandonar o que sempre fomos para nos tornarmos uma outra coisa." (Odisséia, Sobre o Tempo e a EternaIdade)"O rio sabe todas as coisas. Dele pode-se aprender todas as coisas. As vozes de todas as criaturas vivas podem ser ouvidas na sua voz." (O Rio, Sobre o Tempo e a EternaIdade)"Amamos as pessoas não pela beleza que existe nelas, mas pela beleza nossa que nelas aparece refletida. Por isto, somos mendigos de olhares. Olhos são espelhos..." (A Madrasta e o Espelho, O Retorno e Terno)"Amor é bibelô de louça. Ciúme é a consciência dolorosa de que o objeto amado não é posse: ele pode voar a qualquer momento. Por isso, o amor é doloroso, está cheio de incertezas. Discreto tocar de dedos, suave encontro de olhares: coisa deliciosa, sem dúvida. E é por isso mesmo, por ser tão discreto, por ser tão suave, que o amor se recusa a segurar. Amar é ter um pássaro pousado no dedo..." ( Até que a Morte, O Retorno e Terno)"A alma é uma coleção de belos quadros adormecidos, os rostos envolvidos pelas sombras." (A Cena, O Retorno e Terno)"Existe uma felicidade que só mora na beleza. E esta, a gente só encontra na melodia que soa, esquecida e reprimida, no fundo da alma." (Sobre Príncipes e Sapos, O Retorno e Terno)"O crepúsculo e o Outono nos fazem retornar à nossa verdade. Dizem o que somos. Metáforas de nós mesmos, eles nos fazem lembrar que somos seres crepusculares, outonais. Também somos belos e tristes..."(O Outono, O Retorno e Terno)"Velhice é saudade. Isso explica que haja jovens e mesmo crianças que, tendo vivido só um punhadinho de anos, já são velhos. É que a saudade pode florescer já nas manhãs... Percebi, então, que a velhice não era coisa nova. Ela tinha morado sempre comigo. Eu tinha saudade sempre, mesmo sem saber do que. Saudade sem saber do que pode parecer contra-senso, pois a saudade é sempre saudade de alguma coisa: de um rosto, de um lugar, de um tempo passado. Você nunca sentiu isso? Uma saudade inexplicável de algo que não sabe o que é? A saudade aparece, então, como tristeza no seu estado puro, sem objeto. Quando você sentir isso, não se aflija. É que os seus olhos estão andando pelos bosques misteriosos onde nasce a poesia. São os bosques da saudade. Todos os poetas já nascem velhos..." (Velhice, Sobre o Tempo e a EternaIdade)"A saudade faz bem ao amor, pois que é justamente na dor da separação que o coração faz a operação mágica de re-encantar os amantes que o cotidiano só faz banalizar. Saudade é um buraco dolorido na alma. A presença de uma ausência. A gente sabe que alguma coisa está faltando. Um pedaço nos foi arrancado. Tudo fica ruim. A saudade fica uma aura que nos rodeia. Infelizmente, o amor é feito com muitos "nunca mais" - a expressão mais triste que existe. (Aos Namorados, com Carinho..., Sobre o Tempo e a EternaIdade)"Você não entende porque a gente chora diante da beleza? A resposta é simples. Ao contemplar a beleza, a alma faz uma súplica de eternidade. Tudo o que a gente ama a gente deseja que permaneça para sempre. Mas tudo o que a gente ama existe sob a marca do tempo. Tudo é efêmero. Efêmero é o por do sol, efêmera é a canção, efêmero é o abraço, efêmera é a casa construída para o resto da vida. A gente chora diante da beleza porque a beleza é uma metáfora da própria vida." (Cantiga Triste, Sobre o Tempo e a EternaIdade)


Rabiscado por Andarilha descalça

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1:51 PM


PRIMEIRO AMOR
Maria Angélica Fontes Pereira de Mello



Tua mão procurou a minha e a tocou.
O calor do teu corpo percorreu minhas veias e tornou meu sangue quente. Senti as pernas tremerem e aconcheguei-me mais fundo, na cadeira do cinema.
Fiquei parada, saboreando o momento sem te olhar. Queria que nunca acabasse e que a tua mão forte cobrisse a minha com esta firmeza doce que me inebriava.
Fechei os olhos e gravei na memória, cada pingo de prazer para não esquecê-los através do presente e do futuro.
Olhei-te timidamente e uni meu sorriso ao teu. Era meu primeiro grande amor e não queria chegar atrasada, estava pronta e feliz.
Eu te amava e não soltaria nunca mais a tua mão.
Se eu vi o filme?
Nem lembro que filme era...


Rabiscado por Andarilha descalça

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11:44 AM




palavras que sempre ficarão...
Vale apena relembrar.

"Ela: E se eu ficar feia?
Ele: Eu fico míope.
Ela: E se eu ficar triste?
Ele: Eu viro um palhaço.
Ela: E se eu ficar gorda?
Ele: Eu quebro o espelho.
Ela: E se eu ficar velha?
Ele: Eu fico velho junto.
Ela: E se eu ficar rouca?
Ele: Eu fico surdo.
Ela: E se eu ficar chata?
Ele: Eu te faço cócegas.
Narrador: "O importante na vida é ter com quem contar e amar pelo que se é..."



Propaganda do Bradesco


Rabiscado por Andarilha descalça

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10:59 AM


Me pedem palavras
então :

começo o novo ano
sem culpas, tormentas ou arrependimentos.
Alguns poemas por publicar
algumas fotografias por catalogar.
Alma consonante com o corpo.
Corpo leve
mente tranquila
alguns livros por ler
e vários caminhos por percorrer..
Nem cansada nem aflita como a maioria dos mortais
simplesmente muitos sonhos por conseguir.

Andarilha descalça

ps* os primeiros passos serão com certeza pela "Estrada Real" porque um pouco de meditação
não faz mal a ninguém


Rabiscado por Andarilha descalça

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8:19 AM


Bobagens


Eu queria cometer bobagens hoje...
Te dar, por exemplo, a cópia de uma chave.. a que abre a porta da frente de uma casa, que, até ontem, era só minha...

Sim, quero, hoje, preocupar-me com a gola da minha camisa. Se está limpa, se não está amassada e, caso esteja, me apressar, antes que você estacione o seu carro, para ¿ mesmo sem jeito ¿ engomá-la. Quero vesti-la e sorrir como se estivesse te aguardando apenas há poucos minutos...

Não, na verdade, não quero fingir que estava tranqüilo ou sossegado. Quero, na verdade, não esconder meu sorriso, surpreso, desmedido, talvez até espantado, ¿aperriado¿. Aquele... quando, simplesmente, digo: esperaria o dia todo por você. Mas, não demore nenhum segundo a mais antes dessa porta...

Sim, quero muito dizer que não importa a hora marcada. Se houve ou não avisos de que você viria naquela noite e me volto a uma sexta-feira. Na verdade, não tanto importa. Eu quero mesmo é abraçar esse inesperado, que dispensa os costumes, que despreza as distancias... ou o pensamento, aquele mais polido e racional.

Sim, quero te dizer ¿SIM¿. Dizer ¿sim¿ com a confissão mais tola e sem ¿repenso¿. Quero essa bobagem, a de olhar em teus olhos e dizer que essa casa agora também é tua. Que vesti a melhor camisa pra jogar fora os relógios. E que a tua saída é pra mim, na verdade, a saudade de todo um dia. E que a tua chegada é, assim, o sentido de toda uma vida.

Ubiratan Jr.


Rabiscado por Andarilha descalça

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10:37 PM


Qual é a música?



─ Qual era a música?


─ Agora é tarde.


─ Eu jamais adivinharia que você gostava desse tipo de música.


─ Já disse. É tarde.


─ É tarde, da Bossa Nova, ou Agora é tarde, da Jovem Guarda?


─ Você é burro ou está se fazendo de burro?


─ Você está com raiva de mim?


─ E por que eu estaria com raiva de você?


─ Também não vejo motivo.


─ Não vê motivo?!


─ Foi você mesma que disse que não via motivo.


─ Ah, me deixa em paz.


─ Quer que eu lhe deixe ou que eu lhe deixe em paz?


─ Por que é que você está todo sedutor agora?


─ Porque você está sem os fones no ouvido.


─ E eu fico mais atraente sem fones de ouvido?


─ Eu não gosto de interromper quem ouve música.


─ Música não é sexo, dá pra interromper.


─ Prefiro interromper o sexo.


─ Típico. O homem pára o sexo pra não gozar logo e deixa a mulher na vontade.


─ Que idade você tem?


─ O suficiente para transar com você no primeiro encontro.


─ Isso é um oferecimento?


─ Não, estou apenas lhe informando que você já perdeu sua oportunidade.


─ Já falei que não queria...


─ Pois é, não queria mesmo.


─ Mas eu quero.


─ Quem não quer agora sou eu.


─ Por isso está com raiva?


─ Você que deveria estar com raiva de si mesmo.


─ Você tem raiva de si mesma porque continua querendo, mas, agora que tem a oportunidade, é incapaz de admitir que está querendo.


─ Muito longa essa frase.


─ Posso fazer menor: deixe de ser besta e venha comigo.


─ Nem morta.


─ Finja-se de morta que eu banco o necrófilo.


─ Não gosto de quem fala difícil.


─ Não é pior do que bancar a difícil.


─ Não estou bancando a difícil. Eu sou difícil.


─ Pelo visto, só a partir da segunda vez.


─ Eu não estava me oferecendo da primeira vez.


─ E o que é sentar na mesa à minha frente sem pedir nada à garçonete?


─ E você nem pra pedir algo pra mim.


─ Quem quer ser abordada não usa fones de ouvido.


─ Mas que fixação que você tem em fones de ouvido.


─ Eu gosto de fazer sexo com fones de ouvido.


─ Isso não é sexo, é masturbação.


─ Eu não ouço música.


─ Típico: escuta o noticiário esportivo.


─ Coloco um microfone na minha parceira.


─ Quanta besteira!


─ Não quero ouvir nada além de seus gemidos.


─ Eu tacaria um grito pra estourar seus ouvidos tarados.


─ Por que lhe irritou tanto eu não ter falado com você?


─ Eu perdi 100 reais por sua causa, sabia?


─ Ah, é isso? Posso pagar os 100 reais.


─ Eu não sou puta.


─ Você ia gostar de ser puta.


─ Seu filho da...


─ Puta.


─ Isso mesmo. Quer ser minha mãe hoje?


─ Eu tinha outra imagem de você.


─ Decepcionada?


─ Passada.


─ Também posso ser aquilo que você pensou.


─ Só se for um completo maluco.


─ Eu sou um completo maluco.


─ Não sei como você é professor daqui.


─ Toda profissão é uma máscara.


─ É verdade.


─ Também estou estranhando você ser aluna daqui.


─ Eu não sou aluna daqui.


─ Mas você estava falando com a professora Cláudia.


─ Eu sou colega dela.


─ Qual a sua idade?


─ Quantos anos você me dá?


─ Se conheço bem as mulheres, elas não querem receber mais anos além dos que já têm.


─ Boa resposta.


─ Eu também sei ser simpático.


─ Você me dá é medo.


─ Posso lhe dar outras coisas também.


─ Você ficou todo manso depois que soube que eu sou professora.


─ Você que perdeu a raiva quando tirou a máscara.


─ Interessante a idéia do fone de ouvido.


─ Pensei que não tinha gostado.


─ Eu posso cantar pra você.


─ Agora é tarde?


─ Vai se vingar?


─ Estava falando da música.


─ Ah, eu lhe canto minhas próprias músicas.


─ Não acredito. Uma cantora.


─ Só esperando meu público de um homem só.


─ Então vamos.


─ Mas antes me paga aqueles 100 que eu perdi na aposta com a Cláudia.



Eduardo Loureiro Jr.


Rabiscado por Andarilha descalça