[Quarta-feira, Setembro 27, 2006]
M(eu) reflexo
Minha avó já falava que era o temor à morte que a fazia pular corda aos oitenta anos; que era o medo que a ressuscitava durante o dia para que pudesse viver a noite. Para mim, que sou leigo neste assunto, ainda que tenha experimentado o gosto amargo do depauperamento por várias vezes, acredito que, o que nos leva a dar o próximo passo, é o amor. Não aquele do qual ouvimos falar a todo o momento, mas aquele o qual nos faz grandes e fortes, que nos faz sentir como um menino de cabelos grisalhos que crê que o futuro é o agora, e não o depois. Esse sim; é o amor que conheço e quero cultivar como se fosse a última flor da próxima primavera. Espero que reguem os meus sonhos enquanto estou acordado e lúcido. Torço para que me entendam enquanto gente, e nunca quando estou arrepiado como um bicho enfurecido.
Nada pode ser mais gratificante que o sonho que sonhamos acordados, nada pode ser mais bonito que o amor que sentimos um pelo outro, mesmo que às vezes algumas palavras nos façam chorar ou pensar duas vezes, antes que o dia brote por trás da serra como uma bola de fogo.
Samuel Rosa, vocalista do Skank, cantou nos quatro cantos do mundo: vou deixar a vida me levar pra onde ela quiser. Eu não vou permitir que o destino me leve, acho complicado, muito difícil. Ele pode querer me conduzir para onde meu coração não quer. Prefiro levá-lo comigo para onde eu for e desejar, ainda que o tenha na algibeira mais profunda de minha alma. Não sou um iluminado, com certeza não sou! Também não sou um vadio a perambular de braço em braço. Posso até ser um louco, muito louco, mas meu caminho... Sou eu que faço.
Entre dois pontos referenciais, construo o meu mundo e, quem sabe, a minha casa?! Nada pode ser livre demais ou fragmentado ao extremo. Quando se perde a rédea, perde-se o rumo e o prumo; não raro, as calças e as cuecas.
Essa discussão, na maioria das vezes, se torna inútil, nos leva a lugar nenhum. Eu não quero convencer quem quer que seja que meus pensamentos são corretos ou inteiramente falsos. Cada lago tem a lua que merece e lhe cabe. Assim, vou desenhando os caminhos da minha vida, com vitórias e derrotas. Vou sem medo de pular etapas, lembrando o dia-a-dia de minha avó, que sabidamente dizia: Deus está em toda parte, mas o amor está restrito a pequenos detalhes, e nos homens que já nasceram grandes.
Pedro Cardoso
por Andarilha descalça * 10:03 PM
[Sexta-feira, Setembro 22, 2006]
A arte de calar
Gabriel Perissé
Ler, pensar e escrever
É sinal de inteligência e sabedoria falar pouco, falar bem e não falar mal de ninguém.
Contudo, calar-se é ainda mais importante, quando calar-se é dizer tudo.
Há quem se cale por não ter realmente nada para nos dizer, mas há também quem se cale por omissão, quando seria um dever falar, escrever, gritar, colocar a boca no trombone, como se dizia antigamente.
Calar-se na hora certa e pelos motivos certos é uma verdadeira arte cujas regras um pequeno livro do Abade Dinouart quer nos transmitir. Autor francês do século XVIII, suas admoestações para que façamos silêncio ainda hoje são pertinentes.
Sutileza não lhe falta. Ao mesmo tempo que recomenda o silêncio, lembra que há silêncios falsos, aqueles que simulam uma sabedoria que, de fato, inexiste. Nem sempre calar-se significa profundidade de pensamentos. Pelo contrário, é camada de verniz que recobre um vazio sepulcral.
Mas há ainda outros silêncios, e alguns deles diabólicos. Há o silêncio manipulador, o silêncio torturante, o silêncio chantagista, o silêncio rancoroso, o silêncio conivente, o silêncio da zombaria, o silêncio imbecil, o silêncio do desprezo. Há pessoas que matam com seu silêncio. Há silêncios que esmagam a justiça e a bondade, na calada da noite.
Por isso o silêncio rico de significado é ainda mais apreciável e luminoso.
Falo do silêncio que prenuncia novas palavras.
Falo do silêncio que é solidariedade na dor.
Falo do silêncio que soluciona cisões.
Falo do silêncio que pergunta.
Falo do silêncio que perdoa.
Falo do silêncio que ama.
O silêncio mais puro é aquele que guarda a confidência. Este silêncio jamais é excessivo. Não se deve apregoar aos quatro ventos o que foi murmurado na intimidade da amizade e do amor.
O silêncio mais sábio é aquele que fazemos diante dos impertinentes, intolerantes e desbocados. É o silêncio do Cristo inocente diante dos acusadores, o silêncio dos espaços infinitos diante da quase infinita capacidade nossa de falar ou escrever sem razão.
Calar da maneira certa é deixar que uma voz mais profunda seja ouvida. A voz severa, a voz serena, a voz suave e firme da verdade.
O verdadeiro silêncio diz a verdade que não se pode calar.
O verdadeiro silêncio nunca será cedo demais.
Quero ouvir o silêncio que tudo explica.
A arte de calar, Martins Fontes, 2001, 80 páginas
por Andarilha descalça * 9:50 PM
[Terça-feira, Setembro 05, 2006]
Amores
Mal-resolvidos
Quem é que não tem um amor mal-resolvido???
Olhe para um lugar onde tenha muita gente:
Uma praia num domingo de 40º, uma estação de metrô, a rua principal do centro da cidade. Metade deste povaréu sofre de Dor de Cotovelo. Alguns trazem dores recentes, outros trazem uma dor de estimação, mas o certo é que grande parte desses rostos anônimos tem um Amor Mal resolvido, uma paixão que não se evaporou completamente, mesmo que já estejam em outra relação.
Por que isso acontece?
Tenho uma teoria, ainda que eu seja tudo, menos teórico no assunto. Acho que as pessoas não gastam seu amor. Isso mesmo. Os amores que ficam nos assombrando não foram amores consumidos até o fim. Você sabe, o amor acaba. É mentira dizer que Não. Uns acabam cedo, outros levam 10 ou 20 anos para terminar, talvez até mais. Mas um dia acaba e se transforma em outra coisa: lembranças, amizade, parceira, parentesco, e essa transição não é dolorida se o amor for devorado até o fim. Dor de Cotovelo é quando o amor é interrompido antes que se esgote. O amor tem que ser vivenciado. Platonismo funciona em novela, mas na vida real demanda muita energia sem falar do tempo que ninguém tem para esperar. E tem que ser vivido em sua totalidade. É preciso passar por todas etapas: atração, paixão, amor, convivência, amizade, tédio, fim. Como já foi dito, este trajeto do amor pode ser percorrido em algumas semanas ou durar muitos anos, mas é importante que transcorra de ponta a ponta, senão sobra lugar para fantasias, idealizações, enfim, tudo aquilo que nos empaca a vida e nos impede de estarmos abertos para novos amores. Se o amor foi interrompido sem ter atingido o fundo do pote, ficamos imaginando as múltiplas possibilidades de continuidade, tudo o que a gente poderia ter dito e não disse, feito e não fez. Gaste seu amor. Usufrua-o até o fim. Enfrente os bons e maus momentos, passe por tudo que tiver que passar, não se economize. Sinta todos os sabores que o amor tem, desde o adocicado do início até o amargo do fim, mas não saia da história na metade.
Amores precisam dar a volta ao redor de si mesmo, fechando o próprio ciclo. Isso é que libera a gente para Ser Feliz Novamente. Não existe pessoa certa, todas as pessoas são certas e todas são únicas, portanto, se você alguma vez achar que perdeu o amor da sua vida, outros amores virão ou mesmo o velho amor pode pintar outra vez.
Arnaldo Jabor
por Andarilha descalça * 9:50 PM