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[Terça-feira, Agosto 29, 2006]


AS ESCOLHAS DE UMA VIDA
PEDRO BIAL


A certa altura do filme Crimes e Pecados, o personagem interpretado por
Woody Allen diz:


"Nós somos a soma das nossas decisões".

Essa frase acomodou-se na minha massa cinzenta e de lá nunca mais saiu.
Compartilho do ceticismo de Allen: a gente é o que a gente escolhe ser, o
destino pouco tem a ver com isso.
Desde pequenos aprendemos que, ao fazer uma opção, estamos descartando
outra, e de opção em opção vamos tecendo essa teia que se convencionou
chamar "minha vida". Não é tarefa fácil.
No momento em que se escolhe ser médico, se está abrindo mão de ser
piloto de avião.
Ao optar pela vida de atriz, será quase impossível conciliar com a
arquitetura.
No amor, a mesma coisa: namora-se um, outro, e mais outro, num
excitante vaivém de romances. Até que chega um momento em
que é preciso decidir entre passar o resto da vida sem compromisso formal
com alguém, apenas vivenciando amores e deixando-os ir
embora quando se findam, ou casar, e através do casamento fundar
uma microempresa, com direito a casa própria, orçamento doméstico e
responsabilidades. As duas opções têm seus prós e contras:
viver sem laços e viver com laços... Escolha: beber até cair ou
virar vegetariano e budista? Todas as alternativas são válidas, mas há um
preço a pagar por elas.
Quem dera pudéssemos ser uma pessoa diferente a cada 6 meses, ser casados
de segunda a sexta e solteiros nos finais de semana, ter
filhos quando se está bem-disposto e não tê-los quando se está
cansado.
Por isso é tão importante o auto conhecimento.

Por isso é necessário ler muito, ouvir os outros, estagiar em
várias tribos, prestar atenção ao que acontece em volta e não
cultivar preconceitos.

Nossas escolhas não podem ser apenas intuitivas, elas têm que
refletir o que a gente é. Lógico que se deve reavaliar decisões e trocar
de caminho:
Ninguém é o mesmo para sempre. Mas que essas mudanças de rota
venham para acrescentar, e não para anular a vivência do caminho
anteriormente percorrido.
A estrada é longa e o tempo é curto. Não deixe de fazer nada que
queira, mas tenha responsabilidade e maturidade para arcar com

as conseqüências destas ações.

Lembrem-se: suas escolhas têm 50% de chance de darem certo, mas
também 50% de chance de darem errado.
A escolha é sua...




por Andarilha descalça * 9:21 PM

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[Quinta-feira, Agosto 10, 2006]



NA ESPERA DO AMANHÃ
Affonso Romano de Sant'Anna

Vou dizer uma coisa banal: sem o mito do amanhã não

existiríamos.

igo e assumo essa fundamental banalidade. Não fora o

amanhã secaríamos à beira dos caminhos. O amanhã é que

fermenta o hoje, que fermenta o ontem.

Por que migram as aves sobre os oceanos?

Por que os peixes sobem cachoeiras procurando as

nascentes do futuro?

Os animais, aves e insetos ao redor, nos dão lição de

aurora.

Ganhei duas crisálidas de borboletas. Aprendi a ver

nesses casulos as asas que se desenharão em algum céu.

Seguro nas mãos essas formas vivas disfarçadas de

vegetal. Imagino o futuro dessas células. Mas tal

imaginação não é privilégio só meu. No meu quarto,

dependuradas num vaso de samambaia, duas crisálidas me

contemplam a mim. Elas sabem, mais que eu, a que horas

duas estupendas borboletas sairão do útero do tempo

para esbaterem contra as vidraças do dia.

A trepadeira no terraço, que avança dois-três

contímetros cada jornada, seguindo o fio de náilon do

tempo, me ensina a direção das coisas. O vento sopra

pelas costas de suas folhas e ela navega verde na

pilastra como uma caravela reinventando seu concreto

mar.

O suicida é o que decretou a morte do amanhã.

O idealista é o viciado que toma o amanhã nas veias,

aspira-o, esfrega-o nos olhos e gengivas.


No entanto, dizemos: "está difícil", "a vida está

dura", "assim não é possível", "esse país não tem mais

jeito", mas no dia seguinte, amarfanhados, caminhamos

junto ao mar para saudar a aurora.

Sábia é a natureza, nos dizem. Olhai os lírios do

campo, eles passam a vida tecendo e fiando a manhã. E o

jardineiro que parece um perverso podador, tão-somente

antecipa a floração da vida com suas lãminas de dor.

Em busca do amanhã as cobras perdem sua pele.

Penas caem na muda da plumagem airosa dos airões.

Cães ladram pressentindo o terremoto, que os homens

sequer percebem. Os cães, quando uivam para a Lua,

estão à sua maneira saudando o cio das madrugadas.

Em busca do amanhã uma nave passou por Marte e segue

rumo a Urano.

Alguns pré-videntes já estão legislando a constituição

do amanhã. E se acabarem com o amanhã aqui, ele

continuará com outros seres menos ferozes em outras

galáxias, mais humanas, talvez.

É assim que Penélope tecia e destecia seu amor nos fios

da madrugada esperando Ulisses atracar na enseada.

É assim que Sísifo- o mais otimista dos deuses

condenados- sempre rolava montanha acima a pedra que

sempre rolava montanha abaixo.

É assim que Fênix- a fabulosa ave queimada nos desertos

da Arábia- renascia das próprias cinzas e cantava

transfigurada.

Deus é o renovado amanhã.

O que fazem os amantes pelos bares e praias, junto às

árvores de noturnas ruas e nos leitos secretos, senão

cumprir o ritual de crença no amanhã.

E o ano mais uma vez termina. E estamos comendo e

bebendo as horas que faltam e ansiando por um novo dia.

Também são assim os primitivos, quando celebram o

potlach. Vão destruindo os objetos, as memórias que

ficaram para reinaugurarem um ano novo.

Oh, amanhã! Os que vão viver te saúdam.

por Andarilha descalça * 9:23 PM

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