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[Terça-feira, Julho 25, 2006]
EM NOME DA TERRA, DOS ASTROS E DA PERFEIÇÃO
Depois erguemo-nos, mergulhámos nas águas. Quase estagnadas, só uma leve corrente as modulava. De vez em quando uma palavra chegava-me à boca mas não a deixo agora falar-Que palavra? Queria inventar uma agora para estar certa lá, não a sei. Sinto-a em mim mas não a digo para não existir de mais, é assim. Uma palavra é mortífera, querida. Terás tu falado? não me lembro, não quero ouvir. No fim difícil de uma vida, não quero. Terei de ouvi-las mais tarde, está bem. Palavras de angústia, solidão, alegria, que também tem o seu direito, não agora. Agora tenho apenas a imagem fresca de um bosque, ninfas, talvez, qualquer coisa em que a morte não esteja à porta do imaginar. É duro morrer, querida. Por fim saímos da água e os deuses olharam-nos, humilhados na sua inutlidade. Uma nova raça divina erguia-se em nós. Poderosos, imensos. Trazíamos uma mensagem dos confins das eras, a Terra esperava-nos. Trazíamos a notícia de um corpo incorruptível e perfeito.
- Jura-me que nunca hás-de envelhecer-disse-te.
-Juro.
-E que nunca hás-de morrer.
-Sim.
-E que a beleza estará sempre contigo. E a glória. E a paz.
-Juro.
Então baixei-me ao rio e trouxe água nas mãos em concha. E derramei-ta na cabeça imensamente. E disse, e disse
-Eu te baptizo em nome da Terra, dos astros e da perfeição.
E tu disseste João sacrílego. E eu disse agora podemo-nos vestir.
Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra
por Andarilha descalça * 8:45 PM
[Sábado, Julho 22, 2006]
Apesar de você...
Diz a canção: ¿apesar de você, amanhã há de ser outro dia¿. E se o poeta falou, tá falado, mas nem por isso o assunto foi enterrado, ficou esquecido. Os poetas costumam embrulhar metáforas em papel de pão amanhecido pra comilança da alma... Mais tarde. Na solidão das luas.
Apesar de você, meu dia passa, as estações do ano também. No reboco das novas casas, nos carros parados em frente a faróis indecisos, nos sons dos pratos das lanchonetes sendo lavados, o tempo esbarra. E há volúpia na valsa composta, exclusivamente, para aquele instante em que a lua e o sol parecem um.
Apesar de você, o mundo gira, a violência tenta, a todo custo, reverberar mais do que a paz. E os moleques lavam os pés nas valetas em dia de enxurrada, brincam de mocinho e bandido e acabam estendidos no chão, antecipando o fato que há de assolar suas biografias. Mas sorriem, os olhos voltados ao céu. A liberdade lambendo suas barrigas.
Apesar de você, os amores escasseiam e também acontecem. As luzes das casas são apagadas para a hora do sono, do pranto, do vergar à solidão e também para que mãos tateiem corpos alheios. E as pessoas envelhecem. Você envelhece. Eu. Nós. Os sonhos.
Apesar de você, amanhã há de ser e com todos seus melindres e bálsamos. Ainda que eu aquiete na espera de que, no acontecer de outro dia, você apareça no verso seguinte, na soleira da porta, um sorriso sincero de presente e um gole de realidade para assanhar a poesia.
Carla Dias
por Andarilha descalça * 6:43 PM
[Segunda-feira, Julho 17, 2006]
ou os meus
"A imaginação é a memória que enlouqueceu"
(Mario Quintana)
Não sei se estavam todos mortos ou se respiravam por guelras. Além disso, não saberia dizer se na minha imaginação ou dentro dos meus olhos ¿ e qual seria a diferença? ¿ havia uma praça árida com brinquedos feitos de troncos ou ossos, que se despedaçavam um a um como sonhos, para crianças sem pernas, mas felizes, brincarem.
A praça era filha de uma corredeira com um rio de alma enrijecida. No meio da praça havia uma árvore, retorcida como mão reumática, que era órfã do vento, pelada e seca portanto, tal qual um namibiano. Esta árvore chorava muito de frio, mas a corredeira e o rio roubaram suas lágrimas e a largaram dura na terra batida ¿ os galhos lhe rangendo a alma ¿ como se fosse um vendedor de camelos.
Apareci por entre folhas molhadas de inveja e desejos inapeláveis, sem avisar às estátuas humanas, que por lá circulavam com os olhos costurados, sobre o meu pequeno problema de ordem sentimental. Minhas mãos tinham as pontas de gelo, de modo que meus pés eram ralos ósseos por onde escorriam gotículas de verdades liquefeitas que a mentira, por sua vez, impunemente encerrou numa frase de efeito. E não seria a verdade apenas uma mentira faminta que se cansou de esperar e morreu?
Uma voz ecoou do esconderijo da tristeza e, aparentemente, apesar das sobrancelhas pontiagudas do pasto seco, apenas eu ouvi:
¿Lá vêm os almas-de-gato!¿
Olhei para cima e, das profundidades do cinza holocáustico, vi formar-se uma nuvem que se parecia muito com a minha própria cabeça, de lado, como esperando uma passagem para seguir em frente entre os montes necessitados de alguma explicação. Fiquei feliz vendo a cena e imaginando coisas irrelevantes, como uma maneira de ser nuvem, até que o barulho de muitas asas se batendo, como palmas para Maria Callas, ensurdeceu as folhas que murcharam imediatamente e rodopiaram pelo chão como em desespero ou valsa trágica. Os almas-de-gato haviam chegado, me disse um velho ruivo que, por causa do mato moribundo e do cheiro suicida ao redor, me lembrou Van Gogh, depois um avô alcoólatra de olhos inexplicáveis que cantava Lupicínio Rodrigues, depois uma fogueira com vício em cinzas.
¿Quem são eles?¿, perguntei ao velho.
Ele se virou como se me reconhecesse e não gostasse muito disso.
¿Eles são você¿, disse, ¿só que muito melhores...¿
¿Eles voam?¿, continuei, intrigado.
¿Garoto¿, ele disse irritado, ¿e por acaso você nunca viu uma alma?¿
¿Nunca vi¿, disse comigo mesmo, esperando para cima. ¿Elas voam então...¿
O velho saiu de perto e se acocorou sobre uma pedra. Sacou um pincel imaginário e começou a traçá-lo no ar, sem tinta ou tela. Fiquei olhando aquilo, convencido de que aquele velho era mesmo Van Gogh, ou maluco, ou estava salvo. Eu sempre soube de histórias nas quais grandes personalidades ressurgiam em momentos de pouco movimento, para pessoas especiais. Mas não me convenci imediatamente de que eu pudesse ser uma dessas pessoas.
Portanto me aproximei do velho mais uma vez. Ele continuou traçando no vazio.
¿Desculpe, mas preciso te perguntar...¿
Ele se levantou imediatamente, sem me olhar, e subiu na árvore seca que tinha sido assaltada pela corredeira e pelo rio, seus próprios pais, como num plágio de Shakespeare. Subiu até a copa vazia muito rapidamente, a princípio sem a ajuda dos pés, como se flutuasse, e ali se aboletou feito um monge e continuou a traçar o ar com seu pincel inimaginável.
Aquilo não era possível. Me aproximei da árvore. Balancei a cabeça. Nada mudou. As palmas das asas aumentavam gradativamente de intensidade e, assustado, me joguei no chão, mesmo que não quisesse fazer isso. Alguma coisa me levou ao chão. Alguma coisa mais forte. Na verdade, o chão parecia ter se desnivelado subitamente, o que me derrubou. Olhei para cima com o rosto sujo de terra. Ali estava o velho com seu pincel fantástico, a árvore aleijada que agora parecia sorrir, o céu pequeno-burguês com um charuto na boca, as folhas dançando a mazurca. Olhei para os lados, quase surdo com o barulho que vinha de dentro do absurdo primordial. Todos os mortos haviam desaparecido. Restavam apenas ossadas de peixe, espalhadas pelo chão feito de veias furtivas. Gritei:
¿Ei, velho! Quem é você? E o que está pintando aí em cima?¿
Ele ria como se esperasse pelo que já soubesse. Continuou de pernas cruzadas, a barba ruiva como uma labareda fanática. Olhou para baixo depois de mastigar seu pincel delicadamente e lamber dedo por dedo.
¿O problema de vocês é que não sabem esperar por nada¿, disse por trás de um sorrisinho sórdido. ¿Por isso nunca vão reconhecer a mágica¿.
¿O problema é que não vejo nada¿, eu disse.
¿Isso porque você fala demais¿, ele disse enquanto limpava a terra dos joelhos.
Desceu da árvore como subiu, fez o movimento de como se estivesse recolhendo sua palheta e sua tela do chão ¿ mesmo que não houvesse nada ali ¿, olhou para mim com seus olhos de orquídeas temperamentais, tristes na sua caixa de ossos, mas tão límpidos, tão brilhantes e cheios de vida, tão nus que me pareceram mortos. Ou feitos a tinta. Ou parte de algum sonho amarelecido.
Ficamos assim por um tempo: narizes colados. Então ele apontou com o dedo para cima, ainda sorrindo como quem bebeu demais. Com a outra mão tirou o chapéu em reverência.
¿Você deveria saber¿, ele me disse, ¿que é quando se esquece que se sabe mais¿.
Então uma revoada de pássaros brancos, em movimento sincrônico, surgiu do vão entre as nuvens, fez sorrir as pedras e aterrissou sobre os galhos secos da árvore deserdada. Esticaram suas asas ao mesmo tempo, para se espreguiçar, e depois se transformaram em bolinhas de algodão. A árvore seca ficou toda branca. Exatamente como a foto que um dia se apagou da minha memória sépia. E era como se eu a tivesse recuperado ali, naquele instante, por entre a hesitação do vento e a desolação dos grilos. Bem ali, no delicioso mistério das rugas do velho ruivo de olhos bonitos. Como se ontem, amanhã já tivesse sido. No momento exato em que, dentro de mim, algo vago e firme se mexeu. Algo que havia adormecido na cegueira dos pedidos escritos nas linhas do medo.
O velho abriu a boca com o dedo em riste, sorriu mais uma vez, dessa vez um sorriso de dever cumprido por estar incompleto, vestiu seu chapéu de feltro e desapareceu na neblina que o acompanhava, não sem antes dizer:
¿Preste menos atenção e verá tudo¿.
No que senti algo me molhar os ossos, enquanto a sincronia dos pássaros enviesava os olhos do romance perdido. Depois decolaram como os garranchos do absurdo, que insistimos em não ler porque preferimos soletrar com os olhos fechados para dentro.
Andei muito, andei sozinho. Sem saber o que fazer com aquelas imagens. Sem saber onde guardá-las. Minha inclinação era anotá-las, por insegurança. Mas palavras nunca são suficientes quando se trata de olhos. Pensava se de fato alguma coisa poderia ser feita daquilo, ou de mim, ou se não passávamos da redundância de coisas não feitas. Pensava também em tudo o que havia para ser visto, em tudo o que me havia passado despercebido, porque eu tinha falado, tinha falado quando precisava escutar, tinha falado demais sobre o que me calava fundo, por medo do silêncio das coisas inauditas, que comandam os erros e as paixões. Lágrimas me rolavam pelo rosto, caudalosas e grossas como pinceladas impressionistas. Não entendia porque chorava. Não sabia para onde estava indo. Nem as lágrimas. Sentia falta delas, mal me escorriam. Sentia fraqueza, vertigem, como se tivesse respirado pela primeira vez, aos borbotões de placenta. Como se o abandono das lágrimas justificasse algo imperdoável. Algo sólido em mim que se havia dissolvido em tudo aquilo que eu não pude desejar com mais força, pela necessidade de ter.
De repente pensei que gostaria de ter sido como aquele velho pintor de fábulas, que apenas coloca o chapéu e parte sorrindo. Procurei por ele. Procurei como se estivesse procurando pela minha memória enlouquecida. Procurei pelos cantos da floresta órfã, pensando no quanto não soube esperar. No quanto palavras haviam enganado meus anseios mais legítimos.
Quando olhei para trás estava tudo cinza como um pedaço de verdade esquecido num quadro dentro de uma gaveta úmida. Havia crianças no parque, nem felizes nem tristes, apenas fadadas. Uma árvore saturada começava a dar as primeiras flores, todas implorando em vão por uma outra chance. Havia um velho de boina pintando um quadro ao pé da árvore.
Corri feito louco até o velho de boina. Era um velho pálido, magro, entrevado, um tanto gótico, com olhos fundos e distantes. Usava suspensórios esgarçados e havia uma garrafa de vinho barato ao seu lado, derrubada no chão. Mordia a língua com a testa retraída. Olhava para a árvore, depois para longe, então tirava medidas com o polegar. Contornei seu espaço para ver o que pintava. Era um menino sentado num banco de pedra. Um menino não muito bonito, mas muito atraente, que chorava lágrimas amarelas. As lágrimas iam dos seus olhos até a copa da árvore.
Olhei em volta, na busca do menino. Em cima de um banco de pedra sujo o encontrei: não tão menino, não tão atraente, parecia mal-tratado pelo tempo, meio trêmulo, com os sapatos desamarrados, as roupas esburacadas fora de estação, cercado por crianças revoltadas, fustigado pelo vento cínico, anotando num papel amarrotado umas mentiras sobre aquilo que foi perdido e que portanto precisava ser reinventado em olhos, para que ele pudesse se esquecer de como havia perdido os seus ¿ ou os meus.
Leonardo Marona
por Andarilha descalça * 8:27 PM
[Domingo, Julho 09, 2006]
O MENINO E A BORBOLETA ENCANTADA
Rubem Alves
Mil e uma noites haviam se passado desde que o Pássaro Encantado partira. Então ele voltou. Era madrugada. A Menina o viu tão logo a luz alegre do sol fez brilhar as suas penas. Ela o estava esperando. Os apaixonados esperam sempre... Ah! Como foi bom aquele abraço de saudade! Desta vez as suas penas estavam coloridas com as cores das florestas sobre as quais voara. O Pássaro Encantado pôs-se então a cantar os seres das matas, árvores, orquídeas, regatos, cachoeiras, elfos e gnomos... A Menina não se cansava de ouvir. Ouvia e pedia que ele contasse de novo as mesmas estórias, do mesmo jeito. E assim viviam os dois se amando por dias e dias. Mas sempre chegava o momento em que o Pássaro dizia: ¿Menina, o vôo me chama. Preciso partir. É preciso partir para que o nosso amor não tenha fim. O amor precisa de saudade para viver...¿ A Menina chorava baixinho mas compreendia. E assim o amor acontecia entre partidas e retornos.
As asas do Pássaro pareciam incansáveis. Estavam sempre à procura de lugares desconhecidos. Ele já visitara montanhas encantadas, planícies geladas, lagos, rios, abismos, castelos, uma cidade construída na divisa entre a realidade e a fantasia, um reino onde era proibido estar triste, lugares sagrados, vulcões, o país dos dragões verdes e dos gigantes amarelos, jardins, selvas verdes, mares azuis, praias brancas... Sobre todos esses lugares ele lhe contara estórias. A Menina não tinha asas. Mas ela voava nas estórias que o Pássaro lhe contava.
Mas os anos foram se passado. O Pássaro envelheceu. Suas asas já não eram as mesmas da juventude. E também os seus sonhos já não eram os sonhos da mocidade. Deseja-se partir quando é manhã. Mas quando o sol se põe o que se deseja é voltar. E assim um desejo novo surgiu no coração do Pássaro crepuscular: voltar...
O sol acabara de se pôr. Vênus brilhava no horizonte. Foi então que a Menina o viu. Suas penas pareciam incendiadas pelo sol. Depois do abraço ele disse para a Menina algo que nunca lhe dissera antes: ¿Menina, conte-me as estórias da minha ausência...¿ E foi assim que, pela primeira vez, o Pássaro se calou e a Menina lhe contou estórias.
Por muitos dias o Pássaro e a Menina gozaram do seu amor. Mas o Pássaro já não era o mesmo. Algo acontecera com os seus olhos. Já não procuravam horizontes longínquos. Eles olhavam as coisas simples que havia na sua casa, coisas que sempre estiveram lá, mas que ele nunca havia visto. Não vira porque o seu coração estava em outro lugar. É o coração que nos diz o que é para ser visto.
Aconteceu então, num dia como os outros, o Pássaro abraçou a Menina, e ele sentiu, nas costas da Menina, algo que nunca sentira.
¿Menina, o que é isso?¿ ele perguntou. Ela enrubesceu e respondeu:
¿Asas, pequenas asas... Estão crescendo nas minhas costas...¿
E para que ele as visse baixou sua blusa. E ele viu. Sim, pequenas asas, delicadas asas, asas de borboleta, coloridas, diáfanas, frágeis... E ele percebeu que a Menina se preparava para voar. Sua Menina se transformara numa borboleta...
O Pássaro sorriu uma mistura de alegria e de tristeza. Sentiu um leve tremor nos lábios, aquele mesmo tremor que vira nos lábios da Menina a primeira vez que lhe dissera: ¿Eu quero partir...¿ Chegara a hora em que ela partiria e ele ficaria. Ele seria, então, aquele que esperaria. Como é dolorido ficar! A solidão de quem fica é maior que a solidão de quem parte! Quem parte vai para mundos novos, cheios de maravilhas desconhecidas. Quem fica, fica num espaço vazio, de objetos velhos, esperando, esperando, contando os dias.
O momento da despedida chegou. A Menina, flutuando com suas grandes asas de borboleta, disse ao Pássaro: ¿Preciso partir...¿
O Pássaro teve vontade de chorar. Queria lhe dizer: ¿Não vá. Eu a amo tanto.¿ Mas não disse. Lembrou-se de que essas haviam sido as palavras que a Menina lhe dissera, quando ele partira pela primeira vez. O Pássaro temia por ela. Suas asas eram tão frágeis, asas de borboleta que quebram-se atoa. Queria estar com ela para consolá-la na solidão e no cansaço. Mas não fez gesto algum. Ele sabia que os abraços que não se abrem são mortais para o amor.
Ele estendeu a sua mão num gesto de despedida. A Borboleta voou e nela pousou. Ele se aproximou dela, como se fosse beijá-la. Mas não beijou. Apenas soprou suas asas suavemente. ¿Voa, minha linda Borboleta¿, ele disse, se despedindo. A Borboleta bateu suas asas, voou e desapareceu na distância.
Ao olhar de novo para si mesmo ele não se reconheceu. Já não era o Pássaro de penas coloridas. Era um Menino que esperava a volta da Borboleta Encantada que lhe contaria estórias. Ele sorriu e se perguntou: ¿Que estórias ela irá me contar quando voltar?¿
* * *
Esta ¿estória¿ tem uma ¿história¿. Trata-se da continuação da estória ¿A Menina e o Pássaro Encantado¿ (Edições Loyola) que escrevi para minha filha pequena, Raquel. Devia ser o ano de 1980. Eu iria fazer uma viagem longa para o exterior e ela chorava. Eu devia ter 46 anos, bastante cabelo preto e energia para conquistar o mundo. Os anos se passaram, minhas asas se cansaram e agora nem tenho energia e nem vontade de conquistar o mundo. Ainda tenho prazer em viajar mas as viagens freqüentemente me cansam. Não é cansaço físico. É um cansaço na alma, com aquele descrito no primeiro capítulo do livro de Eclesiastes. Quando todo mundo está viajando eu quero mesmo é ficar. Karl Jaspers dizia que não viajava porque na casa dele estavam todas as coisas dignas de serem conhecidas. Minha loucura ainda não chegou perto da dele. Mas o fato é que há, na minha casa, uma infinidade de coisas interessantíssimas que eu deveria gastar tempo em conhecer. Tantos poemas e contos que não li, tantos livros de arte, tantos CDs que ainda não ouvi... E há também Pocinhos do Rio Verde, meu mosteiro... Esse é o destino dos pais. Há um momento em que os filhos batem as asas e se vão. Os pássaros sabem disso e não reclamam. Muitos pais e muitos avós tratam de fazer lugares deliciosos para seus filhos e netos passarem os fins de semana! Na viagem para Pocinhos do Rio Verde passo sempre defronte a um ¿Sítio do Vovô¿. Imagino o Vovô e a Vovó sozinhos na varanda do sítio, esperando os filhos e os netos que não vêm. Eles estarão provavelmente em algum clube ou praia... Há um momento na vida em que o destino dos pais é esperar...Os apaixonados são aqueles que esperam...
por Andarilha descalça * 3:18 PM
[Sexta-feira, Julho 07, 2006]
O teto do mundo
Ela descansou a fartura do busto. Lançando os braços à frente, em desafio à proteção do muro da calçada superior do viaduto, fez com que as mãos apalpassem de leve, muito de leve, por um longo instante, o vazio limitado pelo corredor de altos prédios e o Morro de Santa Teresa ao fundo, como que provando a textura daquele abismo. Depois, satisfeita, trouxe-as de volta à amurada, compondo com os braços a moldura inferior do retrato. Ficou assim por um longo tempo. A cabeça girava lentamente, de um lado a outro, acompanhando o movimento dos olhos que tentavam registrar, na eloqüência dos detalhes, toda a vaga amplitude do quadro.
Na avenida que penetra o viaduto Otávio Rocha, o trânsito era lento no final da manhã. Quem passasse lá embaixo, naquele momento, voltando os olhos para o alto e através da rama das árvores, teria agora a visão da namoradeira flertando de sua janela. A distância e o inusitado davam essa graciosa falsidade à cena. Mas quem se aproximasse, vindo pela rua de cima, encontraria à frente uma mulher sólida, a roupa de seda, blusa solta e saia evasê, o salto alto e a bolsa, de bom couro e boa marca. Poderia até passar por uma executiva na hora do almoço, maquilada com discrição e apuro, valendo-se da qualidade do corte e dos tecidos na tentativa de trazer um pouco de harmonia às carnes abundantes que ali dentro se comprimiam. A idade era imprecisa. Faltavam-lhe talvez os óculos de grau e algumas rugas. Não demonstrava ter a energia ou o senso prático das mulheres que trabalham fora: que boa profissional poderia, numa segunda-feira de março - quando todos estão de volta e o ano de fato começa em Porto Alegre -, dar-se ao luxo de perder tão precioso tempo na superfluidade, contemplando um vazio sem graça alguma? Ou qualquer pequena coisa que lhe tivesse despertado o interesse naquele entorno, o que seria quase o mesmo.
À esquerda, na calçada lateral do viaduto, o prédio com grandes aberturas em arco, pretensamente moderno, contrastava com a velha e sisuda arquitetura dos vizinhos. Ela se demorou a observá-lo, como se estudasse detalhadamente a construção e o estilo. Um garoto desatento, afoito com a saída do colégio, quase arrastou-a por entre os pedestres, que se multiplicavam àquela hora. Mas o olhar não vacilou, permanecendo duro e fixo nas janelas semi-abertas.
Num instante se recompôs. Aprumou a saia, ajeitou os cabelos e atravessou a rua com passo firme. Um perfume de café passado na hora sobrepunha-se ao cheiro das comidas e dos carros. Ela entrou no bar e pediu um cortado. Bebeu lentamente, saboreando-o até a última gota. Deixou o dinheiro no balcão, dispensando o troco. De novo na rua, esperou pacientemente que o trânsito permitisse a travessia de volta. Dois porteiros vestidos a caráter guardavam a porta, ela passou com um sereno bom-dia, sem ser por eles importunada.
No saguão, o pai dizia ao menino o que afinal significava o nome daquele hotel. Antes que a porta do elevador se fechasse, ela escutou o homem explicar que a escalada era um feito para poucos, uma prova de grande coragem, pela dificuldade e pelo perigo que representava. Mas quem o conquistasse teria a recompensa de conhecer o mundo visto do ponto mais alto de seu teto.
Tratei de, à sua completa revelia, batizá-la: Dalva. Soube depois que era argentina, o que em parte explicava a brancura da pele, nas pernas disfarçada pelas meias de náilon. Descobri também seu verdadeiro nome, do qual não me recordo nem quero recordar. O salto de um dos sapatos já estava meio gasto, o único que pude ver, pois um pé estava descalço. A seda não me pareceu ser de boa procedência, talvez nem seda fosse, e a bolsa já estava um pouco fora de moda. A maquilagem não era correta mas meio exagerada, feita sem cuidado. Mais que robusta, Dalva era gorda, muito gorda, e a saia levantada sem escrúpulos punha à mostra a flacidez e o despudor de uma grossa e feia coxa.
Mas o olho muito azul, aberto, esgazeado, parecia ver além do bloqueio imposto pelo muro daquele poço de luz do Hotel Everest..
Luiz Paulo Faccioli
por Andarilha descalça * 10:35 AM
[Quarta-feira, Julho 05, 2006]
há dias cheios de raiva,
há dias cheios de lágrimas.
Mas depois...
Existem dias cheios de amor
que nos dão a coragem de ir em frente,
todos os dias de nossas vidas.
M. Batagglia
por Andarilha descalça * 10:18 AM
[Terça-feira, Julho 04, 2006]
Quase uma história de amor
ELA
Em algum lugar no mundo, vivia uma mulher que tinha um sonho. Sonhava que, um dia, iria viver um grande amor. Por mais efêmeros que fossem seus relacionamentos. Por mais que a chamassem de tola e dissessem que amor era coisa de novela.
Não se importava com o que lhe diziam. Com os rótulos que lhe eram atribuídos. Tinha coragem para verbalizar que tinha um sonho. E que era um sonho de amor.
Sonhava que, em algum lugar, existia alguém que a esperava, que também desejava encontrá-la. Ela era sua amada. Ele era seu amado. Embora não soubessem onde e quando iriam se encontrar. Acreditava que, um dia, em alguma circunstância, estariam diante um do outro e se reconheceriam no primeiro instante em que seus olhos se tocassem. Haveria um brilho diferente no olhar de cada um, cujo código apenas eles, aprendizes da espera, saberiam decifrar.
Ela o procurava em cada olhar, em cada novo encontro, nas entrelinhas de cada relacionamento. Sentia saudade de alguém que não conhecia. Recordava o futuro. Por maiores que fossem os desencontros, o sonho a ajudava a perseverar na busca. Acreditava que quando o encontrasse tudo se tornaria mais belo. Que a cara da vida seria mais risonha. Que o mundo se tornaria mais viável. Isso fazia parte do sonho, e tinha liberdade para sonhar o que quisesse.
Os dias não lhe pareciam iguais. Para quem tem um sonho, cada dia é novo, porque vem com ele a possibilidade do encontro com o objeto da espera. Era feliz porque tinha um sonho. E quem sonha acredita sinceramente já possuir o que deseja.
ELE
Em algum lugar do mundo, vivia um homem que tinha um sonho. Sonhava que um dia iria viver um grande amor. Por mais efêmeros que fossem seus relacionamentos. Por mais que lhe chamassem de tolo e dissessem que amor era coisa de novela.
Não se importava com o que lhe diziam. Com os rótulos que lhe eram atribuídos. Era corajoso o bastante para assumir que tinha um sonho. De amor.
Sonhava que, em algum lugar do mundo, existia uma mulher que já o amava. Não sabia onde ela estava, mas acreditava que viria, um dia. Que traria o prazer e a vida que nenhuma outra havia trazido.
Também para ele, cada dia era um dia novo, porque o sonho lhe dizia que poderia encontrá-la a qualquer momento.
Também ele era feliz, porque, em alguma região de seu sonho, ela já estava com ele. Não a conhecia, mas sentia a falta dela.
Ele a procurava em cada olhar. Em todos os lugares. Não a encontrava, mas tinha um sonho. Quem sonha, busca.
O TEMPO
Muitos dias se passaram. Semanas. Meses. Anos. Com o tempo, vieram muitos encontros, que se foram sem deixar a mínima pista do amor que sonharam encontrar.
Em algum ponto do caminho, depois de tanto buscarem, o peso da descrença esmagou o sonho. Entupiu as veias onde a vida se misturava com a esperança. E só uma coisa não pode faltar ao sonhador: a esperança.
Esqueceram o ideal. Buscaram a cômoda e definitiva companhia de outras pessoas, que nada tinham a ver com seus sonhos. Concordaram com aqueles que lhes chamaram de tolos. Sentiram-se enganados, porque esperaram durante muito tempo algo que nunca encontraram. Que já acreditavam sequer existir. Acostumaram-se a ter só realidade, como a maioria das pessoas. Não se sentiam mais felizes e todos os dias pareciam absurdamente iguais.
O (DES)ENCONTRO
Em certa ocasião, num mesmo lugar do mundo, passaram um pelo outro. Ele voltou e pediu uma informação qualquer a ela. Pela primeira vez, estavam diante do que sempre buscaram. Pela primeira vez, seus olhos se tocavam.
Ao olharem nos olhos um do outro, tiveram a impressão de já terem caminhado naquele momento. Desconcerto. Por alguns segundos, emudeceram. Como se nenhuma pergunta houvesse sido feita. A emoção gritava algo que a razão não conseguia ouvir. Só a pele.
Ela deu a informação. Ele agradeceu. Ao se afastarem, sentiram vontade de olhar para trás. De voltar. De dizer alguma coisa que a boca não sabia. Não olharam. Não voltaram. Não disseram mais nada. Cada um seguiu seu rumo. Confundiram-se novamente à multidão, onde se procuraram durante tantos anos.
Juntaram-se para sempre ao exército dos covardes que têm armas voltadas para o melhor deles próprios e que as disparam diante de qualquer possibilidade de ser feliz.
E disseram para os filhos de seus filhos que amor era coisa de novela.
Lucas Bachien
por Andarilha descalça * 2:41 PM
[Segunda-feira, Julho 03, 2006]
A namorada
Manoel de Barros
Havia um muro alto entre nossas casas.
Difícil de mandar recado para ela.
Não havia e-mail.
O pai era uma onça.
A gente amarrava o bilhete numa pedra presa por
um cordão
E pinchava a pedra no quintal da casa dela.
Se a namorada respondesse pela mesma pedra
Era uma glória!
Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira
E então era agonia.
No tempo do onça era assim.
Texto extraído do livro "Tratado geral das grandezas do ínfimo"
por Andarilha descalça * 11:01 AM