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[Terça-feira, Junho 20, 2006]
Relembrando... Exupéry
"E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira.
- Quem és tu? Perguntou o principezinho. Tu és bem bonita.
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste.
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa, disse o principezinho.
- Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços".
- Criar laços?
- Exactamente, disse a raposa. Você não é para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E você não tem também necessidade de mim. Não passo de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se você me cativar, nós teremos necessidade um do outro. Será para mim único no mundo. E eu serei para você única no mundo também.
(...)
A raposa calou e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor.Cativa-me! Disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se você quere um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? Perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Você ste sentará primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e você não dirá nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, se sentará mais perto.
(...)
E o principezinho cativou a raposa. Mas quando se aproximou a hora da despedida:
(...)
- Adeus...
- Adeus - despediu-se a raposa. Agora vou te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
- O essencial é invisível para os olhos - repetiu o princepezinho, para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que você perdeu com a sua rosa que a tornou tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa - repetiu o princepezinho, para nunca mais se esquecer.
- Os homens já não se lembram desta verdade - disse a raposa. Mas você não deve esquecer dela. Você se torna eternamente responsável por aquilo que cativa"
por Andarilha descalça * 1:35 PM
[Segunda-feira, Junho 19, 2006]
A rua e o tempo
Helio de Araujo Evangelista
Lá vai o garoto pequeno a olhar distraidamente as fachadas das velhas casas.
Algumas mal conservadas e até abandonadas.
Através dos pequenos passos, guiados pela senhora, nota a presença dos pássaros, da diversidade de espécies das árvores e da gostosa sombra produzida pelas mesmas.
Mal sabia ele que a cada passo que dava deixava para trás um tempo, uma imagem irrecuperável, uma rua que deixou de sê-la.
O local do passeio, da curiosidade, da sutileza, deixava espaço, paulatinamente, para o trânsito brusco, aos cartazes luminosos feéricos e à rápida troca de gestos e palavras entre as pessoas.
Daquele círculo de amigos de infância, daquela cadeia de relações cristalizada, o tempo cumpriu de mostrar a sua decomposição.
Já não existe mais o freguês, já não existe o ato de comprar numa loja, ou de solicitar uma prestação de serviço acompanhada de uma cordial conversa do tipo:
¿Como vai a Patroa?¿
Lá vai.
Lá vai o tempo.
O sinal está aberto.
A criança sentada.
A senhora desaparecida.
Só que desta vez a criança não é aquela mencionada acima pois já está crescida, mas sim outra, empobrecida, sem pai nem mãe, que vaga pelas ruas dos automóveis, a procura de uma solidariedade escondida nos homens assustados por uma sociedade cujo princípio é: ¿Tudo que é sólido desmancha no ar¿.
por Andarilha descalça * 2:57 PM
[Terça-feira, Junho 13, 2006]
Para meus amigos que estão solteiros:
O amor é como uma borboleta.
Por mais que tente pegá-la, ela fugirá.
Mas quando menos esperar, ela estará ali do seu lado.
O amor pode te fazer feliz, mas às vezes também pode te ferir.
Mas o amor será especial apenas quando você tiver o objetivo de se dar somente a um alguém que seja realmente valioso.
Por isso, aproveite o tempo livre para escolher.
Para meus amigos não solteiros:
Amor não é se envolver com a "pessoa perfeita", aquela dos nossos sonhos.
Não existem príncipes nem princesas.
Encare a outra pessoa de forma sincera e real, exaltando suas qualidades, mas sabendo também de seus defeitos.
O amor só é lindo, quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser.
Para meus amigos que gostam de paquerar:
Nunca diga "te amo" se não te interessa.
Nunca fale sobre sentimentos se estes não existem.
Nunca toque numa vida, se não pretende romper um coração.
Nunca olhe nos olhos de alguém, se não quiser vê-lo se derramar em lágrimas por causa de ti.
A coisa mais cruel que alguém pode fazer é permitir que alguém se apaixone por você, quando você não pretende fazer o mesmo.
Para meus amigos casados:
O amor não te faz dizer "a culpa é", mas te faz dizer "me perdoe".
Compreender o outro, tentar sentir a diferença, se colocar no seu lugar.
Diz o ditado que um casal feliz é aquele feito de dois bons perdoadores.
A verdadeira medida de compatibilidade não são os anos que passaram juntos, mas sim o quanto nesses anos, vocês foram bons um para o outro.
Para meus amigos que têm um coração partido:
Um coração assim, dura o tempo que você deseje que ele dure, e ele lastimará o tempo que você permitir.
Um coração partido sente saudades, imagina como seria bom, mas não permita que ele chore para sempre.
Permita-se rir e conhecer outros corações.
Aprenda a viver, aprenda a amar as pessoas com solidariedade, aprenda a fazer coisas boas, aprenda a ajudar a própria vida.
A dor de um coração partido, é inevitável, mas o sofrimento é opcional.
E lembre-se: é melhor ver alguém que você ama feliz com outra pessoa, do que vê-la infeliz ao seu lado.
Para meus amigos que são inocentes:
Ela se apaixonou por ti, e você não teve culpa, é verdade.
Mas pense que poderia ter acontecido com você.
Seja sincero, mas não seja duro; não alimente esperanças, mas não seja crítico; você não precisa ser namorado, mas pode descobrir que ela é uma ótima pessoa, e pode vir a se tornar uma grande amiga.
Para meus amigos que têm medo de terminar:
Às vezes é duro terminar com alguém, e isso dói em você.
Mas dói muito mais quando alguém rompe contigo, não é verdade?
Mas o amor também dói muito quando ele não sabe o que você sente.
Não engane tal pessoa, não seja grosso e rude esperando que ela adivinhe o que você quer.
Não a force terminar contigo, pois a melhor forma de ser respeitado é respeitar.
E a melhor forma de respeitá-la é sendo verdadeiro e sincero.
Lembre-se, o tempo passa e não volta atrás; não adianta dar murro em ponta de faca.
Para terminar:
Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata...
"Somos donos de nossos atos, mas não somos donos de nossos sentimentos.
Somos culpados pelo que fazemos, mas não somos culpados pelo que sentimos.
Podemos prometer atos, não podemos prometer sentimentos...
Atos são pássaros engaiolados, sentimentos são pássaros em vôo.¿
(Texto de Mário Quintana)
por Andarilha descalça * 8:24 AM
[Sexta-feira, Junho 09, 2006]
O padeiro
Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento - mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a "greve do pão dormido". De resto não é bem uma greve, é um lock-out, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo.
Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando:
- Não é ninguém, é o padeiro!
Interroguei-o uma vez: como tivera a idéia de gritar aquilo?
"Então você não é ninguém?"
Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: "não é ninguém, não senhora, é o padeiro". Assim ficara sabendo que não era ninguém...
Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina - e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno.
Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; "não é ninguém, é o padeiro!"
E assobiava pelas escadas.
(Rubem Braga)
Texto extraído do livro:
Para gostar de ler, Vol I -Crônicas .
Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e
Rubem Braga.
por Andarilha descalça * 10:06 PM
[Sexta-feira, Junho 02, 2006]
Mon Animal
(Elisa Lucinda)
Eu a vejo quase todas as manhãs. Não é exatamente bonita. Aliás ela é de uma feiúra estranha como se carregasse uma boniteza espalhada em si, nos gestos e não nos traços exatamente. Não importa. Importa é que a vejo acompanhada perenemente pelo seu cão.
Um pastor alemão com cara de bom companheiro. E o é. Eu vejo. Olha-a muito, encaixa seu focinho entre os joelhos dela, brinca com ela, gane querendo dengo. Ela também, essa minha vizinha de uns quarenta e vividos anos, brinca de não-solidão com esse cachorro específico; gosta dele, ri: Não Duque, assim não, deixa o moço, Duque, me espere. Não vá na minha frente assim, cuidado com o carro, menino. Ele a olha como quem agradece. E vão os dois, não em vão, pelas ruas de Copacabana sob o sol, felizes que só vendo. Eu vejo.
Ela é camelô; nos encontramos no elevador e eu: - Vocês se divertem tanto, é tão bonito. - É, nos conhecemos na rua. Ele olhou pra mim bem nos meus olhos. Eu estava trabalhando. Vi logo que era um cão bem cuidado fisicamente mas faltava-lhe carinho. Deixei minhas bugigangas (ela vende coisas que querem imitar jóias antigas) por não sei quanto tempo e fiquei agachada na calçada na Avenida Nossa Senhora, só namorando ele. Decidimos que ele viveria comigo. Naturalmente. Tudo aconteceu ¿naturalmente¿, ela frisou, como se quisesse dissipar de mim qualquer sombra de suspeita de um possível roubo. Noutro dia no mesmo elevador, ela com seu carrinho de balangandãs, eu e Duque. O elevador apertado e ela continuou femininamente a conversa do último elevador nosso: - Tenho certeza que ele é de câncer. É muito sensível. Só falta falar. Né Duque? ... ele não é lindo? Eu disse: Lindíssimo. E você que signo é? - Ah, sou capricórnio mas com ascendente em câncer, combina sim. Eu vejo Duque lambendo as mãos dela, as magras mãos cujos dedos ela oferecia de propósito e distraidamente a imordida dele. Eu olho admirando receosa por conta dos afiados dentes dele.
Quase não entendo de cães. Você tem medo... ô não ofenda ele; Duque entende pensamentos e não gostou do que você pensou. Jamais me morderia, jamais me trairia. Né Duque? Senti o pensamento de Duque latindo que jamais a trairia. Achei bonito. Chegamos. Tchau, bom trabalho. Tchau Duque. Fui para a rua pensando longamente nos dois. Depois pensei nos mistérios da astrologia e perdi o fio do meu pensamento.
Ao final da tarde avistei pela janela Duque e Angela indo ver o crepúsculo na praia. Depois vi os dois voltando sorridentes e caninos, sob a noite estrelada; ela com fitas de vídeo penduradas ao braço; sempre conversando com ele. Tenho inveja de Angela.
O animal que eu quero não mora comigo, não almoça mais comigo, não brinca mais, não me telefona, não me advinha os pensamentos, não me acompanha ao crepúsculo, não gane querendo dengo, nossos signos parecem não mais combinar. O animal que quero, pensa demais e por isso não passeia mais comigo. E o pior: Não me lambe mais.
por Andarilha descalça * 4:18 PM
[Quinta-feira, Junho 01, 2006]
O Livro sobre Nada
Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.
Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.
A inércia é o meu ato principal.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Por pudor sou impuro.
Não preciso do fim para chegar
De tudo haveria de ficar para nós um sentimento
longínquo de coisa esquecida
na terra __ Como um lápis numa península.
Do lugar onde estou já fui embora
Manoel de Barros
por Andarilha descalça * 3:29 PM