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-Textos que falam, que contam histórias.. Textos percorridos pelo meu olhar, pelos meus passos. Enfim, um cantinho só de textos. Andarilha descalça Obrigada pelo carinho e reconhecimento : Blog Destaque do Magia Gifs! -

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[Domingo, Abril 23, 2006]


Será arte?
Eduardo Loureiro Jr.

O que será a arte? A mulher loura sentada numa toalha, na areia da praia, abraçando as pernas? Ou o homem moreno, ao longe, andando com uma picareta no ombro e um saco na mão?

O que será a arte? A mulher que se levanta, sacudindo a areia do corpo claro e do biquíni preto, que anda um pouco, passa na minha frente e caminha dengosa para o mar? Ou o homem que passa apressado por mim e vai até as pedras, até os recifes de corais, com a picareta e o saco azul de lixo vazio na mão?

O que será a arte? A mulher que entra tímida no mar, que se benze, que se arrepia com o frio da água, que mergulha apressada e que joga pra trás os cabelos molhados? Ou o homem que coloca o saco sobre a pedra e começa a cavar, ora aqui, ora acolá, procurando, procurando...?

O que será a arte? Meu olhar à sombra, escorrendo no corpo da mulher loura como gotas de sal e brilho de sol? Ou o olhar curioso dos banhistas para o homem que cava a pedra amolecida de água à procura de... de que, mesmo?

O que será a arte? A mulher que se vira, escorre o cabelo com as mãos e sai do mar devagarzinho, olhando pra mim? Ou o homem que pega uma coisa aqui e joga de volta nas pedras, outra acolá e coloca no saco, enquanto dois banhistas curiosos se aproximam?

O que será a arte? A mulher que atende ao meu olhar, e vem na minha direção e diz O banho 'tá tão gostoso!, e eu digo Você também!? Ou os banhistas que perguntam alguma coisa para o homem com a picareta que responde alguma coisa que faz os banhistas se agacharem e pegarem alguma coisa?

O que será a arte? A mulher que se agacha e me beija mole e devagar, com pouco sal, com muito sal, quente e frio, no lábio e no céu da boca? Ou o homem que volta a cavar e a preencher o saco de lixo azul, livre dos banhistas?

O que será a arte? A mulher que se levanta e caminha de volta para a sua toalha, tendo me dado tudo que eu poderia querer, mesmo sem desejar, mesmo sem pedir, mesmo sem agradecer? Ou o homem que coloca a picareta no ombro e vai sumindo devagar, bem devagar, sem eu jamais saber que coisas ele coloca em seu saco azul?


por Andarilha descalça * 7:30 PM

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[Quarta-feira, Abril 19, 2006]


Os flamboyants estão em flor: nada de novo sob o sol?
13.janeiro.2000

O flamboyant é uma árvore de ramagem bonita e frondosa, pinta-se verde o ano quase inteiro com suas vagens percussivas que lembram maracas e danças de índio. Seus troncos crescem abrindo os tantos braços em dança que se espraiam nos olhos de quem passa. Mas, nesses meses, quase não tem folhas. A paisagem são troncos nus e pétalas. Então, sempre que passeio olhos nessa árvore de belas flores rubras, fico imaginando em desejo: será que esse flamboyant foi plantado pelo tio do Zé Albano?

Vou contar a história: o fotográfo Zé Albano ¿ o gênio das garrafas coloridas que filtram o sol nas paredes de sua casa ¿ tinha um tio que lá pelos idos de 50/60 percorria Fortaleza plantando pés de flamboyants na cidade. E hoje, nesses meses entre sol, chuva e qualquer vento, os flamboyants da cidade estão em flor. Outra vez. Falo assim porque nem sempre estão com suas pétalas vermelhas filtrando os raios de sol que moram nessas bandas de Brasil. Aí venho falar de tempo e do velho Eclesiastes. Aquele da Bíblia antiga que repete e repete... "tudo é vaidade e vento que passa". Frase que gosto com exclamação. Um susto de tomar água em seguida. Para o pregador, tudo tem a sua hora, cada empreendimento tem o seu tempo debaixo do céu: "um tempo para nascer, um tempo para morrer / um tempo para plantar, um tempo para colher / um tempo..."

Quando li isso pela primeira vez, achei por demais trivial. Depois de um sono, porém, tornou-se uma pergunta não-expressa. David Steindl-Rast, monge beneditino, falou numa conversa com Capra: "Nossa própria vida é uma pergunta, um questionamento. E, de vez em quando, sem nenhuma razão em particular, de súbito, num estalo, sabemos a resposta. Mas a resposta não é soletrada. Dizemos apenas: 'É isso aí'. Pode ser apenas o sorriso de uma criança". Aí eu soletro: pode ser apenas um flamboyant em flor, e repouso nisso.

Há, sim, um tempo para procura e outro para perda. O lance é sentir onde pousam esses tempos no instante de cada um. Se flamboyants estão por aí pintando de vermelhos pedaços da cidade é porque alguém teve o sentimento de plantá-los. Agora flamboyants brincam de roda com o tempo. Ciranda. Eterno retorno de vermelho que se repete em tons diferentes. De maneira e sentimentos diferentes.

Poderia ser Nietzsche, mas é Eclesiastes que bate outra vez à porta: "Nada de novo sob o sol.(...) O que existe já existiu desde muito. O que existirá já está aqui".

No mais, o tempo bonito pra chuva faz ela cair debaixo do céu. O que há de novo nisso? A chuva ou meu jeito de senti-la?

Fabiano dos Santos




por Andarilha descalça * 10:20 PM

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[Terça-feira, Abril 18, 2006]


No mundo da lua


Estava no cartório esperando algumas cópias autenticadas ficarem prontas e ela puxou conversa, a mãe que conseguiu ¿completar¿ o horário do filho.


O pirralho, figurinha carimbada, sorridente, melando-se com algodão doce, não se pronunciou. Continuou ali, quietinho, enquanto a mãe listava os afazeres dele: cursos de computação, inglês, espanhol e futebol; aulas de matemática, geografia e português, melhor prevenir, né?, natação, terapia... A mãe sorria como quem conseguira, finalmente, colocar ordem na vida do garoto. Ele, ainda quietinho, respondeu mediante a insistência da mãe à pergunta mais chata depois de tua mãe tá aí?. A mulher, orgulhosa do que oferecia ao filho, perguntou o que ele queria ser quando crescesse, certa de que a resposta arrancaria de mim a mais profunda admiração. Eu, particularmente, estava pronta pra sair de fininho no caso de o menino bancar o adulto e começar a dar detalhes sobre as faculdades que desejava cursar. Porém, para a minha surpresa e deleite, ele respondeu, com uma naturalidade apreciável: num sei, manhê.

A mãe fechou a cara, indignada por estar dando tantas oportunidades ao filho e ele sequer pensar em retribuir isso, tendo as respostas na ponta da língua para quando ela quisesse mostrar a estranhos o trabalho que vinha fazendo.

Comigo eu pensava sobre como preencher o tempo pode ser perigoso. Obviamente, é positivo fazer cursos, aprender é alimentar a vida. Porém, eu olhava pro moleque, quanto? Cinco anos? Como alguém tão pequeno pode ter tantas responsabilidades?

Notei o olhar maroto que menino lançava para mim. Sorri. Ele gracejou. A mãe, faces vermelhas e a testa com gotículas de suor, paciência rasurada, disse para ele ficar quietinho e estudar, na cabeça dele, a tabuada. O menino olhou para a mãe que, se desse a devida atenção a ele, veria o agradecimento que ela tanta busca em outros lugares naquele olhar.

A mãe se distraíra com a discussão entre um atendente e um cliente. Burocracia é fogo! O menino não... Ele ainda me encarava, balançando as pernas, mãos espalmadas sobre o banco. Eu sustentava seu olhar com gosto e ele sabia que era bem-vindo. Então, desceu do banco de um salto e veio até mim, a mãe nem se deu conta, tão animada parecia a discussão adulta. Colocou suas mãos sobre meus joelhos e ficou nas pontas dos pés. Arqueei o corpo e, mão em concha, ele sussurrou no meu ouvido: três estrelas vezes duas estrelas é igual a seis estrelas. Afastou-se um pouco e sorria. Quero conhecer a lua quando for gente grande... Quer ser astronauta, menino? E ele balançou a cabeça, negativamente. Quero conhecer a lua quando for gente grande...

Quando a discussão entre atendente e cliente esquentou um pouco mais, a mãe do menino se levantou para ver melhor. Ele nem se mexeu, tampouco eu. Sorriamos, embevecidos um pela presença do outro. Pra que perder tempo com discussões se havia assunto mais importante sobre o qual pensar?

Como assim menino? Como você quer conhecer a lua? Sentou-se ao meu lado. Olhava-me de baixo para cima. Quando eu for grande vou deitar no jardim lá de casa, mas de noite, e conhecer a lua. Vou falar com ela, depois vou escrever tudo o que eu acho bonito no meu caderno com capa do Pernalonga, que é o meu preferido.

A mãe percebeu que o filho não estava ao lado dela e, assustada, girou nos calcanhares, dando com ele a me dizer o que aprendera nas aulas de inglês, espanhol e francês: Lua... Moon... Luna... Lune... Sem saber direito sobre o que ele falava, a mãe abriu um sorriso quilométrico, mostrando todos os dentes. Eu não disse? Estudioso, meu menino...

Meus documentos ficaram prontos e a discussão entre atendente e cliente fora apaziguada pelo segurança. Paguei a conta e, antes de sair, ajoelhei-me diante do menino que ainda sorria... Ele sorria o tempo todo. Cuide bem da lua... e a mãe, cuidando dos sonhos que idealizara para o filho, disse logo que ele será advogado ou médico, não astronauta. Mas quem falou em ser astronauta?

Vou embora guardando comigo o segredo do menino que, quando crescer, conhecerá a lua deitado no jardim e rabiscará coisas bonitas sobre ela em seu caderno. E que, ao invés de astronauta, será poeta. Escreverá poemas sobre a lua... sobre a moon... sobre a luna... sobre a lune.

Carla Dias


por Andarilha descalça * 10:40 PM

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[Quarta-feira, Abril 12, 2006]


Viagem ao fundo do armário



Aproximadamente de três em três anos, por um motivo qualquer como por exemplo a coincidência da lua estar fora de curso e em oposição a Saturno ou talvez pelo céu amanhecer cinzento e tocar ¿Nem um dia¿ no rádio; eu resolvo arrumar o meu armário.



Coloco tudo para fora. Roupas que não servem mais ou que ficaram fora de moda são doadas. Biquínis que pareciam sumidos, aparecem. Brincos avulsos ficam à espera, para saber se ao final reencontrarão o seu par. Remédios vencidos e embalagens de bala vão para o lixo.



Sempre o mesmo ritual. E sempre um pequeno susto, ao me deparar com uma caixa escondida lá no fundo. Nem preciso abrir para saber que dentro dela se encontram recordações em papel, lembranças há 10 anos já esquecidas, que só provam a sua existência devido a esse recipiente de papelão que as abriga, também já meio puído pelo tempo.



Assim como o resto, há também um cerimonial para as memórias. Sento-me no chão, abro a caixa e começo minha viagem anacrônica.



Não sei o que surpreende mais. Perceber como eu era criança, ou constatar como você era adulto. Ler registro por registro da inocência que eu já não tenho, ou sentir o coração ainda apertar pela perfeição que você me transmitia. Imaginar se foi tudo ilusão, ou se realmente aconteceu e não soubemos aproveitar.



Depois de horas perdida no passado, um suspiro me avisa que a chuva já terminou e que não é mais Djavan quem está cantando. Levanto-me, olho uma última vez para aquelas cartas e, como sempre, penso se já não é o momento de queimá-las. Uma angústia toma conta de mim, como se destruir o papel também extinguisse o que foi vivido, o que poderia ter sido vivido.



Guardo tudo rapidamente e fecho aquela caixa com força, para que minhas lembranças não fujam. Enfio-a novamente no fundo do armário e coloco por cima blusas, lenços, toalhas e bolsas, listas de compras, agenda de compromissos, despertadores, e tudo o mais que me lembre que o presente me chama.



Termino a arrumação rapidamente, como se o meu armário tivesse se transformado em uma ameaça.



Espero agora os próximos três anos. Com sorte, a lua não estará retrógrada e o dia será de sol. Ou talvez, por acaso, o tempo apague de vez a tinta já desbotada da minha memória.



Paula Pimenta


por Andarilha descalça * 11:50 PM

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[Quinta-feira, Abril 06, 2006]


"Existe uma lenda de um pássaro que só canta uma vez na vida, com mais suavidade que qualquer outra criatura sobre a Terra. A partir do momento em que deixa o ninho, começa a procurar um espinheiro alvar e só descansa quando o encontra. Depois, cantando entre os galhos selvagens, empala-se no acúleo mais agudo e mais comprido. O pássaro com o espinho cravado no peito segue uma lei imutável; impelido por ela, não sabe o que é empalar-se, e morre cantando. No instante em que o espinho penetre não há consciência nele do morrer futuro; limita-se a cantar e canta até que não lhe sobra vida para emitir uma única nota. E, morrendo, sublima a própria agonia e despede um canto mais belo que o da cotovia e do rouxinol. Um canto superlativo, cujo preço é a existência. Mas o mundo inteiro pára para ouvi-lo, e Deus sorri no céu. Pois o melhor só se adquire à custa de um grande sofrimento... Mas nós, quando enfiamos os espinhos no peito, nós sabemos. Compreendemos. E assim mesmo o fazemos. Assim mesmo o fazemos." (Collen Mc Cullough)







por Andarilha descalça * 10:19 PM

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[Domingo, Abril 02, 2006]


DANUZA LEÃO
Era bem bom

[11 Março 18h54min 2006]


A coisa mais difícil que existe é
dar uma festa de aniversário.
Como temos várias personalidades temos,
conseqüentemente, vários tipos de amigos.
Juntar todos eles é difícil; muito difícil.

Tem os do PT e os do PSDB, os ricos
e os pobres, os sofisticados e os
totalmente simples, os intelectuais
e os que nunca leram um livro, o
s famosos, os anônimos, e por aí vai.
É bom ser versátil,
mas não é fácil juntar pessoas
tão diferentes que têm uma única
coisa em comum: você.
É nisso que dá ter colecionado gente
tão diferente ao longo da vida.

Quando você percebe que seu amigo
banqueiro está conversando com aquele
que fez passeata contra a alta dos
juros vai rolar um certo estresse,
é claro. E quando você percebe que
aquela modelo/manequim, que foi
convidada só para enfeitar a festa,
está pendurada no pescoço do marido
de sua maior amiga ou, quem sabe,
no do seu, faz o quê?
Dá uma de Daniela Cicarelli?

Fora esse pequeno problema da lista,
existem todos os outros pelos
quais passam todos os insensatos
que resolvem dar uma festa.
Às 7 da noite começa a paranóia.
Será que vem alguém?
E se vierem todos e cada um
trouxer um amigo, em vez de
serem 50 vão ser 100, e aí a
comida não vai dar.
E a bebida? E os copos?
E o gelo? Que vida;
pra que foi inventar?

Marcada para as 9, às 10h30 chegam
os primeiros convidados, e você,
que tomou sua primeira tequila às
9 em ponto, está na quarta,
e já achando o mundo uma maravilha.
Como alguns amigos não aparecem e
outros trazem mesmo alguém, o número
permanece o mesmo: 50. Mas será que
tudo vai correr bem, as pessoas vão
se divertir? E a música,
deve ser de dança ou quem sabe clássica,
bem baixinho, para criar um clima fino,
digamos assim? Como clima fino jamais
animou festa alguma,
é melhor começar logo com
I will survive, e pronto.

Não pode se impedir de lembrar
dos anos 70, quando havia festa
todos os dias - e se não houvesse,
se inventava. Olhando para trás,
foram anos incríveis.
Ninguém era rico, ninguém tinha dinheiro,
ninguém trabalhava - não muito-,
mas todo mundo vivia razoavelmente bem,
éramos todos felizes, e as festas eram assim:
para começar, nenhuma delas tinha
uma só flor, nem DJ, nem jantar.

Como eram inventadas de manhã,
na praia, era só dizer a dois
ou três amigos ''hoje tem festa lá em casa''
que eles se encarregavam de dizer
para os outros.
Como todo mundo pertencia à mesma turma,
não tinha essa de telefonar para convidar,
e a hora marcada era 11.

A bebida era uísque nacional, e só;
uísque, muito gelo, e água do filtro -
nem club soda existia.
E comida, nem pensar.
Havia um toca-discos muito mixuruca,
alguns amigos traziam uns LPs emprestados,
e todo mundo tinha direito a trocar
o disco na hora que quisesse.

Não era como agora, que tem decorador,
florista, DJ, bebidas variadas,
lista na porta, manobrista -
até porque pouquíssimos tinham carro.
A festa não saía na coluna social,
acabava com o dia raiando e
o objetivo era um só: a gente se divertir.

E como se divertia.



por Andarilha descalça * 12:20 AM

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