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[Terça-feira, Março 28, 2006]


Crônica com chuva
Airton Monte

Faz domingo e chove.
Entanto, reina em meu coração um pequenino sol
tímido e nublado, mas cujo brilho e calor me bastam.
A tarde está bonita cheirando a mulher depois do banho.
Através da janela escancarada invade o quarto uma brisa suave
como um ruflar de asas, uma folha de papel adejando
sobre a minha mesa de escrever.
Deixo-me ficar olhando a chuva cair em grossos pingos
lentos e bebo meu vinho com uma satisfação
que há muito havia esquecido.
Ah, o sabor das coisas de que gosto,
o odor das coisas de que gosto, as sensações em meus sentidos.

Sei que a cidade me cerca feito um imenso e
invisível muro, sinto-me aprisionado pela cidade que me cerceia e
ao mesmo tempo tudo nela é raiz, âncora, umbigo enterrado
no quintal da casa de meu pai.
Minha cidade também é meu território poético,
onde aprendi minha linguagem de dizer as coisas
que sei e tudo que vivo.
A chuva faz brotar em mim tudo isso, essa memória de
tudo e de nada que resta em todo homem.
Olho-me num retrato antigo, jovem e bonito,
debruçado à máquina de escrever num terraço
de uma casa de praia. Parece não ser eu.

Ao meu redor reina a desordem: livros
empilhados sobre a cama, um desarrumo de roupas
sobre cadeiras, discos que se amontoam no chão,
dentro de caixas que eu sempre me prometo arrumar,
mas nunca faço. Será este quarto assim como o
espelho de minh'alma? Uma alma plena de desalinhos,
de sentimentos desencontrados, de emoções
sem rumo que fazem de mim uma criatura sempre em desencontro,
um poço sem fundo de conflitos e de contradições,
um ser repleto de dúvidas para as quais não encontro
respostas por mais que as procure e busque?

Olho novamente para meu retrato quando jovem
em busca de uma pálida semelhança e nada vejo
como se olhasse num espelho negro.
Todas as minhas fotos antigas em nada parecem comigo.
São fotografias de um estranho,
de um desconhecido que posso até haver visto em algum
lugar de que não lembro.
Ou as parecenças estão lá e sou eu que não desejo
percebê-las como se o passado me assombrasse o presente.
Não me agrada ou não me interessa pensar nisso por ora, o
domingo foi feito para se ficar em paz,
não remexer em velhas feridas. Sossego.



por Andarilha descalça * 9:06 PM

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[Segunda-feira, Março 27, 2006]


Às mulheres de São Luís, que não são de Atenas*.
(Rafaela Lima Marques)


Depois que o fogo engoliu Joana d¿Arc,
queimou vivas as operárias de uma fábrica
que reivindicavam salário igual ao dos
homens e transformou em cinzas sutiãs
em praça pública, a água vem banhar o
rosto das mulheres anônimas que, pouco
a pouco, modificam o mundo com
muita lágrima e suor.

Elas não se miram no exemplo das
mulheres de Atenas: sabem que é
preciso viver para encontrar
a felicidade. Quando fustigadas,
sim, elas choram, porque já aprenderam
que chorar não é crime, e já têm se
ocupado em ensinar isso aos homens,
que hoje se permitem o mesmo.

Choram porque fazem uso dos
sentimentos de uma forma que só
elas sabem: não para condoer-se
das dores do mundo e se abaterem
com elas, mas para encorajar-lhes
a mudança. Sim, as mulheres que
não são de Atenas sabem que é
preciso encorajar-se sempre e
que não há tamanho que seja
suficiente para guardar os
sentimentos.

No entanto, não é por causa do
choro que essas mulheres vêm
convertendo o elemento fogo em
elemento água.
É por causa do suor.
Tanto trabalho faz-lhes perceber
que a vida pode ser moldada, do
mesmo modo que as antigas artesãs
gregas faziam com o mármore,
mas dessa vez, para construir
novas realidades.

Assim, dessa forma,
as mulheres foram se apropriando
dos costumes helênicos.
Só que ao contrário. Elas não tiveram
medo de falar, gritar, se impor.
E quando sentiram que o discurso
feminista estava perdendo a força,
partiram para a prática.

Assim, subiram nos ônibus ¿
não como cobradoras, mas
como motoristas.
Provaram ter competência para
administrar sua própria casa,
ao invés de esperar caladas
pela volta do soldado que partiu.
Disseram que queriam participar
das decisões que modificariam
suas vidas e conquistaram o
direito ao voto. Hoje,
na América Latina, uma mulher
é presidente do Chile.

Disseram que conseguiriam
equiparação salarial ¿ e
apesar das diferenças que
ainda existem, conseguiram
muitas vezes salários maiores.
Comandam portos, empresas, cidades...
E hoje não há um só lugar
onde elas não estejam.

Ao contrário das mulheres de Atenas,
elas têm defeitos e qualidades,
mas se preocupam antes de tudo em tentar...
E sabem que tentar é o primeiro
passo para um possível acerto.
Como há esperança, onde há fome,
sofrimento e violência? Só sabe
quem penetra o coração delas.
Elas continuam aninhando seus
filhos da mesma forma que as
atenienses, mas não mais o
preparam para a guerra: hoje,
os preparam para a felicidade.

Elas ainda fazem uso da delicadeza
e da meiguice, mas sabem cada vez
mais a hora de dizer não.
A mulher de hoje não é a
mulher moderna ¿ é a mulher
de todas as épocas, que
aprendeu que não é ruim ser mulher.
Não será mais preciso queimar
sutiãs ¿ nem ninguém mais irá
para a fogueira acusada de bruxaria.
Alegrem-se, mulheres!
E mudem novamente o
elemento da história:
encham os pulmões de ar,
tomem fôlego para
continuar o longo caminho.

Ainda há muito que fazer
para acabar com a violência
contra a mulher, para dar mais
espaços às negras, às pobres,
às flageladas e esquecidas.
Ainda há muito que denunciar
quando se fala em abuso sexual,
ainda há muito que mudar na cabeça
das pessoas para que cada dia mais
se possa inserir em cada recanto
da sociedade o jeito feminino de
lidar com os problemas ¿
com esperança e muita força de vontade.

Ensinem aos seus filhos e filhas
que sentimentos são mais necessários
do que a força ¿ façam com que eles
percebam que competência e igualdade
são importantes, mas que é preciso,
antes de tudo, compreender e
aceitar as diferenças.
E então, não será preciso
provar mais nada.

Só há uma coisa que as
mulheres de hoje não devem fazer ¿
é mirar-se no exemplo daquelas
mulheres de Atenas.



*Mulheres de Atenas é uma música de Chico Buarque.


por Andarilha descalça * 8:31 PM

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[Terça-feira, Março 21, 2006]


QUAL É O CAMINHO DO BEIJO?
ANA CLAUDIA CALOMENI

Ele começa no pensamento do gosto de outra boca,
escorre para a saliva, trinca os dentes no corpo.
O beijo não começa na língua, mas no desejo da
língua em outra língua.
Começa no corpo, começa na pele, no intimo ritmo.
O beijo não quer ser beijo, o beijo quer fugir da boca,
alcançar o corpo, festejar a vida.
O beijo que quer a boca quer o beijo que
não vem da boca. A boca que quer o beijo
quer o beijo do querubim de boca pintada.
O querubim pinta a boca, deseja o beijo que
vem do desejo, que se mistura no sêmen,
corrente viva, o beijo.
O beijo saliva na boca do querubim.
O beijo molha o canto dos olhos cheios de lágrimas.
O beijo molha os lábios molhados.
O beijo redunda. O beijo se confirma quando
escorrega pelo corpo. O corpo escorrega quando
confirma o beijo. O beijo começa antes mesmo
do barulho do beijo.
O beijo existe antes da boca e em todas as bocas
moram vários beijos: beijos secos, duros, molhados,
beijos estalados, enlatados, eróticos, amassados.
Beijos roubados moram em bocas abertas.
Beijos abertos moram em bocas molhadas.
Um beijo vale mais do que mil palavras e o
desejo de um beijo vale mais do que um beijo que
vale mais do que mil palavras.
Expoente. Um beijo vale mais do que mil salivas,
do que centenas de vivas. Um beijo bem dado é
tão vasto, tão imenso, que só pode ser
festejado com beijos.

Um beijo é um beijo é um beijo é um beijo e
não há pedra no caminho que impeça
um beijo de ser roubado.


por Andarilha descalça * 9:41 PM

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[Sábado, Março 18, 2006]


A funda de Davi
Augusto Monterroso


Era uma vez um menino chamado Davi N.,
cuja pontaria e habilidade no manejo da atiradeira
despertavam tanta inveja e admiração entre seus
amigos da vizinhança e da escola, que viam nele ¿
e assim comentavam entre si quando os pais não
podiam escutar ¿ um novo Davi.

O tempo passou.

Cansado do tedioso tiro ao alvo que praticava
disparando pedrouços contra latas vazias e
pedaços de garrafa, Davi descobriu um dia que
era muito mais divertido exercer contra os
pássaros a habilidade com que Deus o tinha
dotado, de modo que dali em diante a exercitou
contra todos os que se punham ao seu alcance,
em especial contra Pardais, Cotovias, Rouxinóis
e Pintassilgos, cujos corpinhos sangrentos
caíam suavemente sobre a grama, com o
coração ainda agitado pelo susto e
a violência da pedrada.

Davi corria alegre até eles e os enterrava
cristãmente.

Quando os pais de Davi se aperceberam
desse costume do seu bom filho se alarmaram
muito, lhe perguntaram o que é que era aquilo,
e denegriram a sua conduta com termos tão
ásperos e convincentes que, com lágrimas nos olhos,
ele reconheceu sua culpa, se arrependeu sincero,
e durante muito tempo se aplicou em disparar
apenas sobre os outros meninos.

Dedicado anos depois às Forças Armadas,
na Segunda Guerra Mundial Davi foi promovido
até general e condecorado com as cruzes mais
altas por matar sozinho trinta e seis homens,
e mais tarde degradado e fuzilado por deixar escapar
com vida um Pombo mensageiro do inimigo.


por Andarilha descalça * 8:21 PM

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[Sexta-feira, Março 17, 2006]


SONATA AO LUAR


Quem de nós não teve um momento
de extremada dor?
Quem nunca sentiu, em algum momento
da vida, vontade de desistir?
Quem ainda não se sentiu só,
extremamente só, e teve a sensação
de ter perdido o endereço
da esperança!
Nem mesmo as pessoas famosas,
ricas, importantes, estão isentas
de terem seus momentos de solidão
e profunda amargura...
Foi o que ocorreu com um dos
mais reconhecidos compositores
de todos os tempos, chamado
Ludwig Van Beethoven,
que nasceu no ano de 1770 em Bonn,
Alemanha, e faleceu em 1827,
em Viena, na Áustria.
Beethoven vivia um desses dias tristes,
sem brilho e sem luz.
Estava muito abatido pelo
falecimento de um príncipe da Alemanha,
que era como um pai para ele.

O jovem compositor sofria de
grande carência afetiva.
O pai era um alcoólatra contumaz
e o agredia fisicamente.
Faleceu na rua, por causa do alcoolismo.

Sua mãe morreu muito jovem.
Seu irmão biológico nunca o
ajudou em nada, e,
além disso, cobrava-lhe
aluguel da casa onde morava.
A tudo isto soma-se o fato de
sua doença agravar-se.
Sintomas de surdez começavam
a perturbá-lo, ao ponto de
deixá-lo nervoso e irritado.
Beethoven somente podia escutar
usando uma espécie de trombone
acústico no ouvido.
Ele carregava sempre consigo
uma tábua ou um caderno,
para que as pessoas escrevessem
suas idéias e pudessem se comunicar,
mas elas não tinham paciência
para isto, nem para ler seus lábios.
Notando que ninguém o entendia
nem o queriam ajudar,
Ludwig se retraiu e se isolou.
Por isso conquistou a fama de misantropo.

Foi por todas essas razões que
o compositor caiu em profunda depressão.
Chegou a redigir um testamento
dizendo que ia se suicidar.
Mas como nenhum filho de Deus
está esquecido, vem a ajuda espiritual
através de uma moça cega,
que lhe fala quase gritando.
Ela morava na mesma pensão pobre,
para onde Beethoven havia se mudado,
e daria tudo para enxergar uma noite de luar...

Ao ouvi-la Beethoven se emociona até as lágrimas...
Afinal, ele podia ver!
Ele podia escrever sua arte nas pautas...

A vontade de viver volta-lhe renovada
e ele compõe uma das músicas
mais belas da humanidade: Sonata ao luar.
No seu tema, a melodia imita os
passos vagarosos de algumas pessoas.
Possivelmente os dele e os dos
outros que levavam o caixão
mortuário do príncipe, seu protetor.

Olhando para o céu prateado de luar,
e lembrando da moça cega,
como a perguntar o porquê da morte
daquele mecenas tão querido,
ele se deixa mergulhar num momento
de profunda meditação transcendental...

Alguns estudiosos de música dizem
que as três notas que se repetem
insistentemente no tema principal do
1º movimento da Sonata,
são as três sílabas da palavra
por quê? ou outra palavra sinônima,
em alemão.

Anos depois de ter superado o sofrimento,
viria o incomparável Hino à alegria,
da 9ª sinfonia,
que coroa a missão desse notável
compositor, já totalmente surdo.

Hino à alegria expressa a sua
gratidão à vida e a Deus por
não haver se suicidado.

Tudo graças àquela moça cega que
lhe inspirou o desejo de traduzir,
em notas musicais, uma noite de luar...

Usando sua sensibilidade
Beethoven retratou,
através da melodia,
a beleza de uma noite banhada
pelas claridades da lua,
para alguém que não podia
ver com os olhos físicos...


Com base em história narrada pelo
músico Enrique Baldovino

(Meire Michelin)

por Andarilha descalça * 10:38 PM

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[Terça-feira, Março 14, 2006]





... como se uma chuva fresca de súbito caísse sobre minha
alma esbraseada, meus olhos vermelhos de chorar se
refrescam sobre estas lindas definições d' "O QUE É O AMOR" -
Ah se todos vos escutassem e entendessem,
amigos queridos!
Maria Petronilho


por Andarilha descalça * 8:45 PM

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[Domingo, Março 12, 2006]


O homem olha sempre para a sua rosa

Creio que todo aquele que ama, todo aquele que faz parte de um casal o
que mais teme neste mundo é «perder de vista» o ser amado.
É para quem ama, estas minhas palavras...
Não me perguntem se este escrito é real.
Não me perguntem se é apenas fruto da imaginação.
Nem em que momento do mesmo é que o real se
transforma em irreal, ou que se confundem.
Nem me perguntem onde está a fronteira. Nem se há fronteira.
Eu apenas respondo a perguntas que nunca ninguem me perguntou.


«O homem olha sempre para a sua Rosa»


- O que tens tu, Rosa?
- Nada, diz ela
- Nada como? sinto-te, murcha, diferente, transformada...
- Realmente por nada.
Ele insiste. Ela acaba por dizer:
- Os homens já não olham para mim!

Esta frase não jogava com ela, pensou.
As mulheres avaliam o seu grau de envelhecimento
pelo interesse ou desisteresse que os homens
manifestam pelo seu corpo.
Agora por mais que lhe oferecesse um ramo
de flores frescas e lhe dissesse que a achava muito
bonita e que a amava, o seu olhar amoroso
não poderia consolá-la.
Amava-a muito e sabia que tinha que fazer algo
para não a ver tão murcha, caida e triste....

Alguns dias depois, quando ela abriu o
seu mail encontrou uma mensagem desconhecida.
Abriu-a com alguma segurança como se
recomenda nestes casos e leu:

«Sigo-a por todo o lado onde anda.
Você é muito bonita. Estou à sua volta e você não o percebe.
Estou sempre a observar tudo o que você faz.
Minha paixão por si é tão intensa.
Você é a pessoa mais perfeita que eu já vi! Amo-te! »

A primeira sensação foi desagradavel.
Quem,sem a sua autorização chamava a sua atenção?
Depois pensou tratar-se de uma coisa sem importancia
pois por certo muitas mulheres já receberam e
recebem continuamente uma mensagem assim....
Deveria mostrar a mensagem ao seu companheiro?
seria como vangloriar-se! Deveria destruir o mail?
Pensou muito mas depois de tantas perguntas que
fez a si propria, guardou-o secretamente num local
impossivel de ser por alguem descoberto.
Desde então por causa daquele mail começou
a julgar-se perseguida e observada.
Habitualmente ignorava as pessoas que encontrava
na comunidade que frequentava.
Será que seria alguem de lá que a ficava
a observar quando entrava na sala? Mas quem?
No dia seguinte pela manhã encontrou novo
mail com as mesmas referências do desconhecido.
« Ontem, você chegou pelas 11 horas da noite,
mais cedo do que habitual ... ».
Descrevia-lhe a forma como ela sorriu a toda a gente
e adivinhava a forma como ela estava vestida.
Pôs-se a reflectir sobre o texto: certamente aquele homem
viu-me e se me viu eu também por certo o vi. Mas quem será?
Como da primeira vez, não sabia o que fazer a
este segundo mail, mas acabou por o guardar
juntamente com o outro no seu arquivo mais secreto.
Estava a acabar de o fazer quando reparou que o
seu companheiro estava a entrar em casa.
Ele aproxima-se, olha para ela como nunca a
olhara antes, com um olhar desagradavelmente concentrado.
Ela perturbada fica incapaz de dizer seja o que for.
Então ele aperta-a contra si e olhando-a nos olhos e a sorrir diz-lhe:
«Estas com um brilho novo no olhar».
«Não percebo nada do que estás para ai a dizer»-
respondeu ela descontraida, fugindo de repente
do assunto que a conversa levava.
Para tentar identificar quem seria o seu correspondente
anónimo, olhava á sua volta, discreta mas atentamente.
Mas nada. Tinha agora alguns dias livres para poder
frequentar a net com mais assiduidade uma vez que o
seu companheiro estava fora em viagem. Iria conseguir
identifica-lo, agora que dispunha de mais tempo livre?
Claro que iria, pensou decidida a tal.
Outras mensagens foram chegando e ela foi-se sentindo
cada vez mais incapaz de não lhes dar importância.
Eram mensagens inteligentes, decentes,
nada ridiculas, nada importunas.
O seu correspondente e admirador anónimo nada
lhe pedia, não insistia em nada. Tinha a sabedoria
(ou a manha) de deixar na sombra a sua
personalidade própria, a sua vida, os seus sentimentos,
os seus desejos. Era um espião. Só escrevia sobre ela.
Não eram mails de sedução mas de admiração.
Porem o mail que acabara de receber era mais ousado:´

« Perdi-a de vista durante alguns dias.
Quando tornei a vê-la, fiquei maravilhado com a
sua postura tão leve. Imaginei-a como uma rosa vernelha,
praticamente nua apenas vestida com uma camisa de noite vermelha,
num quarto vermelho,
numa cama vermelha iluminada por velas vermelhas».

Poucos dias mais tarde, ela comprou uma camisa de noite vermelha.
E estava a mirar-se ao espelho com ela vestida,
mirando a sua pele branca a sua beleza quando o seu
companheiro a surpreendeu. Ela tentou-lhe fugir mas ele
perseguiu-a por toda a casa fascinado pelo jogo de uma
mulher perseguida pelo homem.
Ela correu fascinada pelo jogo de uma mulher
que corre à frente do homem que a deseja....
Nesse dia ele amou-a com uma força nova e inesperada
e ela de subito teve a impressão de que alguem no
quarto os observava com uma atenção louca.
E ao imaginar o desconhecido que lhe impôs a
camisa de noite vermelha , que lhe impôs este
acto de amor, gritou o seu prazer...
Depois de tudo acalmar ele então sussurou-lhe
maciamente ao ouvido, contendo o riso:

«Sigo-a por todo o lado onde anda. Você é muito bonita.
Estou à sua volta e... ».

O misterioso correspondente desconhecido até ao momento
estava por fim identificado. Acabara de ouvir e reconhecer
as primeiras palavras que o correspondente lhe tinha escrito...
Es tu,meu amor, afinal o meu admirador anónimo, concluiu ela de imediato.
Como foi que nunca pensei que fosses tu? Amaram-se novamente.
Enquanto o faziam ele ao seu ouvido segredava palavras
sobre a rosa vermelha nua...a sua belissima rosa.
Depois tudo acalmou: diante dos olhos dela restava
apenas a um canto da cama, a sua camisa vermelha
amarrotada pelos corpos.
Aquela mancha vermelha transformara-se num canteiro
de rosas e ela cheirava novamente o perfume quase esquecido...
Ainda deitados e iluminados pela luz vermelha de
um pequeno candeeiro de mesa de cabeceira,
ele com a nuca apoiada num travesseiro e
ela debruçada por cima dele, ela disse-lhe:

« Nunca mais tirarei os olhos de ti, meu amor.
Vou olhar para ti sem parar».
E depois de uma ligeira pausa
« tenho medo quando fecho os olhos.
Medo de que durante esse tempo se introduza no meu olhar outro homem ».
Ele tentou erguer-se um pouco para lhe tocar os lábios.
Ela abanou a cabeça « Não. Só quero olhar para ti»
E depois: « Vou deixar o candeeiro aceso toda a noite.
Todas as noites».

Jorge Peres

Bem hajam
Até sempre


por Andarilha descalça * 7:55 PM

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[Quarta-feira, Março 08, 2006]



O que mais as espanta é que , de repente ,
elas percebem que já são balzaquianas.
Mas poucas balzacas leram
A Mulher de Trinta, do Honoré de Balzac,
escrito há mais de 150 anos .
Olhe o que ele diz:

¿Uma mulher de trinta anos tem atrativos irresistíveis .
A mulher jovem tem muitas ilusões , muita inexperiência .
Uma nos instrui, a outra quer tudo aprender e acredita ter dito
tudo despindo o vestido . (...) Entre elas duas há a distância
incomensurável que vai do previsto ao imprevisto , da força à fraqueza .
A mulher de trinta anos satisfaz tudo , e a jovem ,
sob pena de não sê-lo, nada pode satisfazer ¿.
Madame Bovary, outra francesa trintona, era tão maravilhosa que
seu criador chegou a dizer diante dos tribunais :
¿ Madame Bovary c¿ést moi¿. E a Marylin Monroe que fez tudo aquilo
entre 30 e 40? Mas voltemos à nossa mulher de trinta, a brasileira-tropicana,
aquela que podemos encontrar na frente das escolas pegando os
filhos ou num balcão de bar bebendo um chope sozinha .
Sim , a mulher de trinta bebe. A mulher de trinta é morena .
Quando resolve fazer a besteira de tingir os cabelos de
amarelo-hebe passam, automaticamente a terem 40.
E o que mais encanta nas de trinta é que parecem que
nunca vão perder aquele jeitinho que trouxeram dos 20.
Mas , para isso , como elas se preocupam com a barriguinha.

A mulher de trinta está para se separar .
Ou já se separou. São raras as mulheres
que passam por esta faixa sem terminar um casamento .
Em compensação , ainda antes dos quarenta elas
arrumam o segundo e definitivo .

A grande maioria têm dois filhos . Geralmente um casal .
As que ainda não tiveram filhos se tornam um perigo ,
quando estão ali pelos 35. Periga pegarem o primeiro
quarentão que encontrarem pela frente . Elas querem casar .

Elas talvez não saibam, mas são as mais
bonitas das mulheres . Acho até que a idade
mínima para concurso de miss deveria ser 30 anos .
Desfilam como gazelas ,
embora eu nunca tenha visto uma ( gazela ).
Sorriem e nos olham com uns olhos claros .
Já notou que elas têm olhos claros ?
E as que usam uns cabelos longos e ondulados e
ficam a todo momento jogando as melenas para trás ?
É de matar .

O problema com esta faixa de idade é achar uma
que não esteja terminando alguma tese ou TCC.
E eu pergunto: existe algo mais excitante do que
uma médica de 32 anos , toda de branco , com
o estetoscópio balançando no decote do seu jaleco
diante daqueles hirtos seios ?
E mulher de trinta guiando jipe ? Covardia .

A mulher de trinta ainda não fez plástica .
Não precisa . Está com tudo em cima .
Ela , ao contrário das de vinte, nunca ficaram. Quando resolvem vão pra valer .
Fazem sexo como se fosse a última vez .
A mulher de trinta morde, grita , sua como ninguém .
Não finge. Mata o homem , tenha ele vinte ou 50.
E o hálito , então ? É fresco . E os pelinhos nas costas , lá pra baixo ,
que mais parecem pele de pêssego , como diria o
Machado se referindo a Helena que , infelizmente , nunca chegou aos 30?

Mas o que mais me encanta nas mulheres de trinta
é a independência . Moram sozinhas e suas casas
tem ainda um frescor das de 20 e a maturidade das de 40.
Adoram flores e um cachorrinho pequeno .
Curtem janelas abertas . Elas sabem escolher um travesseiro .
E amam quem querem, a hora que querem e onde querem.
E o mais importante : do jeito que desejam.

São fortes as mulheres de trinta.
E não têm pressa pra nada .
Chegam lá atrás , no Balzac:
¿a mulher de trinta anos satisfaz tudo ¿. Ponto . Pra elas .

Mario Prata


por Andarilha descalça * 11:00 PM

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[Segunda-feira, Março 06, 2006]


Paz na Terra aos homens de botequim
Paulo Pellota


Beber bem e bater papo são duas artes pp com
grandes afinidades entre si.
E o melhor lugar para exercitá-las é o botequim.

Há um consenso entre os grandes praticantes de que o bar,
feito exclusivamente para beber e conversar,
é o ambiente onde essas artes evoluem com notável fluência.
Fluência que é percebida nas mesas de profissionais,
gente que leva a sério 0 supremo ofício de rir e conversar.

A função social do bar é justamente liberar os espíritos
e fazer aflorar as identidades a fim de facilitar a conversa.
Os temas vão surgindo naturalmente e vai-se falando de
tudo um pouco. Importantes decisões sobre os destinos
da humanidade são tomadas. Política, futebol, discos voa-
dores, o melhor chopp da cidade, tudo é discutido.
Meu amigo Pérsio, competente em matéria de botequim,
afirma que há nessas mesas uma fantástica cornucópia
de onde brotam os mais interessantes assuntos.
Médicos falam sobre direito, advogados tratam de medicina,
empresários palpitam sobre música, músicos discutem
política, vagabundos pontuam sobre direito do trabalho,
em desordem alternada, podendo mudar o ponto de vista
a qualquer momento. A lógica, a coerência, podem perfeitamente
ficar do lado de fora, já que o bom papo de boteco
não tem censura nem admite cobranças posteriores.

Já os amadores, que vão ao bar de vez em quando
para comemorar um aumento de salário ou para falar sobre
a crise, são facilmente identificáveis ela monotonia notada
em suas mesas."Será que chove? Hoje está mais quente
do que ontem." são as mais acaloradas discussões.
0 papo não anda, estão sempre a olhar o relógio,
como questionando se deveriam estar mesmo no bar ou
poderiam estar gastando seu tempo na
academia ou correndo
em volta do quarteirão. Se forem realmente amadores,
podem questionar à vontade, mas, se por algum motivo
se tornaram aprendizes, é dever lembrá-los que os
exercícios físicos, hoje tão comuns para cultuar
o corpo, não passam de modismos.
Como tal, apresentam-se como fenômeno passageiro
e, mais dia menos dia, pelo perigo que representam,
serão extirpados da sociedade.

Quantas entorses, quantas lesões musculares, fraturas,
distensões. Quantos infartos esses esforços
violentos têm causado. O negócio é tão perigoso que
se pedem diversos exames médicos antes de iniciar
qualquer atividade física.

No botequim nada disso acontece.
Não ha registros de mortes súbitas em mesas de bar.
Muito menos se comete a indelicadeza de pedir
atestado médico antes de um chopp bem tirado.

Claro que é preciso estar em forma.
Tanto profissionais como aprendizes sabem que
precisam eleger seus bares preferidos e freqüentá-los
com assiduidade. Perseverar. Como tudo que se queira
fazer bem feito, freqüentar botecos também demanda tempo,
dedicação e treinamento.
E no bar, é na prática do cotidiano que se
aprende com freqüentadores de outras mesas.
E uma alegre tarefa do grupo melhorar a atuação
individual e coletiva, com a abordagem de temas
originais, com a capacidade de surpreender, usando com
competência e humor a liberação dos espíritos proporcionada
pela atmosfera do ambiente.

Se disciplina é fundamental, também é importante
que o novato reconheça que muitas vezes poderá
cometer pequenos deslizes, como dar uma caminhada
mais longa ou até mesmo uma corrida. Isso não deve
ser motivo para pânico , principalmente se não acontecer
com freqüência. No começo, isso é normal, porque o
iniciante não tem o condicionamento necessário para evitar
certos programas e talvez tenha dificuldade para dizer "não".
No fundo, o bom mesmo é rir dessa situação e no dia seguinte
compensar esse tropeço tomando algumas doses
a mais com os amigos.

Os mais assíduos freqüentadores de bares têm plena
consciência de que rir e conversar são importantíssimos
para manter-se sempre rindo e conversando.
Parece uma redundância, mas é muito mais
profundo do que isso e, se houver dúvida,
o tema poderá ser experimentado na próxima mesa.

0 aprendiz deve levar em conta a tradição.
O hábito humano de reunir-se para conversar,
beber, rir e comemorar faz parte da História do Mundo.
A cerveja parece ter sido criada no antigo Egito,
Noé carregou vinho na arca e produziu cerveja
ao chegar no monte Ararat,
Cristo consagrou o pão e o vinho como alimentos
do corpo e do espírito, os vitoriosos unem-se e brindam.

*


Até na Santa Ceia todos sentaram-se à mesa e tomaram vinho ¿
o único que não quis tomar nada e saiu mais cedo foi
bem sóbrio receber os trinta dinheiros.

Não há, no entanto, menções históricas dando conta de
que algum imperador, grande general, profeta ou o mais divino
dos seres tenha dado uma corrida e voltado para o
mesmo lugar, certo de que estava abafando.

Há que estar preparado, portanto, para a Novíssima Era
que está chegando, em que homens e mulheres
não discutirão se têm alguns quilos a mais ou
alguns centímetros a menos na barriga.
Estarão, sim, reunidos em torno de copos e garrafas,
usufruindo do grande prazer de comer sem ter fome e
de beber sem ter sede, de compartilhar experiências e
de rir com os outros e de si mesmos.


por Andarilha descalça * 10:09 PM

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Comments:

[Sexta-feira, Março 03, 2006]


Queixas
Ana Flores


Ele mesmo dissera que se ela não estivesse satisfeita
que fosse se queixar ao bispo.
E ela foi.
Contou tudo o que havia se passado entre eles:
a acusação de ser ela a culpada dos pesadelos dele,
os encontros só em dias sorteados no calendário,
e não deixou de mencionar que ele não a queria com
as unhas dos pés pintadas de vermelho,
como ela sempre usara até conhecê-lo.
Quando ela terminou, o bispo apenas disse,
com a voz baixa e calma de quem passou a vida a
ouvir queixas:
"Volte hoje à noite, às dez.
E venha com as unhas dos pés pintadas de vermelho."



por Andarilha descalça * 10:39 PM

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