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{Sexta-feira, Dezembro 30, 2005}

 

O balanço

24.dezembro.2005



Não tão nem menos do que. No tempo que antecede meu agora, fui. O que mais diria minha biografia se eu lhe desse o direito de me confidenciar seu ponto de vista? Não sei. Nem pretendo saber, pois a autoria da minha alma é impregnada de rebeliões. É mutante. No bojo onde repousa suas verdades, aninha-se a velocidade que torna tudo um rabisco. Um talvez. Um porta-retrato ausente de imagem, mas que atiça a imaginação.



Essa chuva caindo em meu corpo não desperta, mas sim interioriza. Tomando chuva na área de serviço, observando os telhados sambando. Poças de vontades e abandonos no meu dentro. Não entrei na roupa mais bonita. Não ganhei os prêmios da rifa. Não arrebanhei amor eterno. Não tive coragem necessária para dar o próximo passo. Não cuidei dos cabelos. Não gritei no meio da rua. Mas, sim, eu dramatizei meus enganos e depois me perdoei pelo exagero. E sim, parei para escutar o que me diziam aqueles que se importam comigo, portanto têm suas teorias sobre quem sou. E eu tenho as minhas sobre quem são eles. Na prática nos conhecemos diariamente. Somos, então, criações uns dos outros. Sim. Cavouquei vontades. Enterrei segredos.



No mesmo caldeirão as inquietudes e diferenças: crenças, desalento, devoção, afetos, poemas, fotografias. Jazem todas no súbito, como se não bastasse o tempo vir em partes: ao passado regresso; no presente me reinvento; no futuro me desapego de tudo que conheceria não fosse a mania de esperar demais de mim mesma. Sou o quê senão a pessoa que qualquer um poderia ser? Mas eis que a máscara me cabe e tão bem que não renego a dança. É onde deságua a identidade. Na loteria. E o olhar cravado na distância das coisas. O coração pulsando enganos.



O balanço... Não da matemática ou do desfrutar malogros, tampouco do ilusionismo. Balanço dos pés descalços aos ares, vezes embrulhados em sandálias coloridas. Peito apertado de tanta excitação pelo vôo sem asas. O balanço da infância e depois da mocidade; da delicadeza das emoções. Dos sonhos arraigados na esperança de realização. O balanço que fisga o ritmo das descobertas em qualquer momento da vida. Como resultado de diversas expectativas: nascemos da euforia do inusitado. E o que poderia ser mais intenso?

Carla Dias

posted by ANDARILHA DESCALÇA 6:16 PM

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{Terça-feira, Dezembro 27, 2005}

 


posted by ANDARILHA DESCALÇA 11:43 PM
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Banco de Praça
Glauco Arns Moretti


Não sou um cara absurdamente curioso, querido leitor, mas hoje, neste exato momento, se me perguntarem o que desejo ser na próxima encarnação (existe?), diria que gostaria de ser um banco de praça.

O banco de uma praça, seja lá onde for ou qual tamanho seja, é um objeto riquíssimo em experiências. E a experiência, já diria o mais sábio dos filósofos, é uma das grandes essências para o entendimento da vida. Além disso, pode também servir para um simples descanso, um lamento, um beijo... Um lugar comum.

Antes de me tornar um banco de praça, sentarei sozinho em algum desses, do centro, para desabafar, tomando sorvete, escutando os pássaros. Com a evolução dos tempos e das responsabilidades, é possível sentir a ausência de pessoas, mas não importa. Importante mesmo é estarmos a sós. A priori citarei família, amigos, trabalho. Contarei os detalhes, torcendo para que sopre uma brisa leve, suave, calma. Que nossa conversa seja tranqüila como um domingo de manhã.

Até chegar o dia em que os papéis se inverterão. Vou receber calor humano de pessoas más, tristes, pobres, lindas ou tantas outras. Quero um dia ser um banco de praça para poder desfrutar dos problemas alheios no papel de ouvinte, compartilhar angústias ou algo mais. No primeiro momento do dia, levanta-se o pobre, depois de uma noite de sono desconfortável, com barulhos noturnos, recolhendo seu papelão e correndo atrás do que comer, se quiser, outra vez, aqui dormir. Logo, um ancião ainda preocupado com os acontecimentos da humanidade senta-se e lê a inexplicável situação da política, chama os homens-bombas de desaforados e volta pra casa, pois o sol hoje, vem forte. Depois, quem pára e repousa é a gorda, torcendo para encontrar um banheiro próximo, pensando em que diabos comeu no café da manhã. Já à tarde, senta a jovem senhora, bonita, a olhar o neto brincando no escorregador, logo ali adiante. As duas amigas, claro, que não se encontravam há três semanas falam sobre o fim do casamento da Luciana, outra amiga em comum. ¿ Traição, foi? Foi.

À noite, já se percebe o estalar do beijo de um lindo casal de adolescentes apaixonados. O rapaz afoito para apalpar discretamente os peitos da casta menina, e a casta menina fazendo seu papel de pura, tirando, contorcendo-se de todas as formas para evitar os avanços do seu namoradinho. Mais tarde, menos movimento, senta-se um moço, que tão logo tira uma pequena quantidade de pó de dentro da pasta, fazendo uma pequena carreira em cima do caderno que acabara de usar enquanto estava no colégio. Faz o terceiro ano. Prepara-se para o vestibular. Depois disso volta o pobre para o seu descanso desconfortável, feliz por hoje ter conseguido comida e esmola o suficiente para comprar aquele litro de cachaça. Canta baixo porque está feliz e não é louco. Bebe para esquecer que na manhã seguinte precisará acordar e seguir sua luta pela sobrevivência.

Quantas coisas poderei saber sendo um pequeno agrupamento de madeiras mortas. Vai dar saudade de ser vivo. Vai dar saudade de ser homem.


posted by ANDARILHA DESCALÇA 11:42 PM

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{Quarta-feira, Dezembro 21, 2005}

 


posted by ANDARILHA DESCALÇA 11:56 PM

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{Domingo, Dezembro 18, 2005}

 

Crônica de Natal (1)

Para Danuza Leão


Amanhã...antes de se preparar para ir ao analista, de pensar em parar numa butique e comprar uma bolsa nova de grife; antes de sair para o penoso trabalho fatigante, de ter que dirigir até a faculdade ver uma pendência velha; antes de se preparar vaidosamente para fazer uma importante entrevista difícil, páre um pouquinho. Sente-se calmamente na sua predileta poltrona confortável, no seu melhor espaço do lar, e, coloque para rodar o cedê que tem na seleção aquela maravilhosa música que você mais adora; que mexe com você, resgata você, traz o céu para dentro de você, coloca você de alguma forma mágica em algum lugar do passado, nalgum sítio vetor extraordinário como um milagre, fazendo a sua consciência neural viajar como se recebesse um favo de mel, como se entrasse em alfa, fazendo você se sentir iluminada e dentro do seu próprio coração. Já pensou? Sentiu o clima? Sintonize. Capte a idéia.

Beba a música, baby! Coma a música com afeição. Inspire-na como se ela tivesse vida própria no seu psicossomático. Esteja dentro dela. Deixe que a balada rica e bela e fluente entre por seus poros, todos os poros, aquilate seu espírito de guerreira, desmanche seus andaimes (de resistência à sensibilidade tão ferida) faça você sorrir como uma criança pura que alguma forma você ainda o é, ou faça você chorar como um bebê procurando colo de mãe e mingau de maizena, numa catarse de transformadora oxigenação, e então você, numa paz algo zen-tropical, possa se encontrar consigo mesma em alto astral, no mais profundo interior de si. Lave-se no embalo e eleve-se. Música Maestro!

Há um Deus!

Pode ser...que depois do caldo encantador de passar pela musicália dessa pelica divina; dessa seda espiritual, como uma espécie de purgação perenal, muito além dessa decantação tonificadora, talvez você não precise mais correr tanto, suar tanto, sofrer tanto, se exigir tanto, se cobrar tanto, se dar tanto, nem ter que provar nada pra ninguém; se aceitar assim mesmo pujante como você é, nem precisar mais ir ao bendito analista caro, nem levar flores ao cemitério da saudade, tampouco sofrer eventual azedume temporão ou mesmo hormônico por causa de crisálidas que não vingaram, nem perder precioso tempo com bijuterias mal resolvidas da depressão, nem perder horas e dias com neuras a partir de perdas fúteis, inquietudes vazias, sobressaltos bobos ou ilogicidades próprias de certas químicas sazonais femininas de meia estação. Bolsa de mulher?

Qualquer música...As Flores do Jardim da Nossa Casa. Memory. Danúbio Azul. Caros Amigos. Se as Flores Pudessem Falar. Esse Cara. Nabuco, de Verdi. Hey Jude, Elis Regina ou Elvis Presley. Alguma, qualquer música especial e edificante, há de mexer de forma extrema e saudavelmente doce com você, com seu inconsciente, com sua gaveta cheia de gravetos de falsas culpas, e fará você relaxar como uma nuvem de algodão xadrez, descobrir-se inteira e plena em sua própria posse, em seu próprio corpo, em seu próprio eixo, em sua própria luz. Ah se a mulher soubesse toda a força que tem, na alegria e na ternura, na batalha e no tricô, na graceza ou no pudim de leite moça.

Tudo é música. Não dizem que certas mulheres são tão sonoras quanto penteadeiras de ciganas?

Muito antes da espécie humana existir no tapete voador do espaço cosmonal, no canteiro divinal da terra, o solo das galáxias inundava o espaço sideral feito palco pluridimensional. A música atemporal dos ventos, das nuvens, das chuvas de meteoritos, das poeiras cósmicas. A música dos anjos cor-de-rosa anunciando a primeira reforma de Deus, após o molde número um em imperfeito Adão e a grande perfeição final em Eva.

A Música que você bem ouvir (e muito bem otimizar-se dela), aquela que você receptar inteiramente e mexer com você a partir dessa beberagem e degustação é a que você levará para onde for. Você não veio daqui e nem vai terminar aqui. Sacou ou precisa de um mapinha? Você será o instrumento depositário, portador e hospedeiro sagracial dela. Pegue o ritmo. Faça parte da orquestra sinfônica da natureza. Todo segundo de sua vida nesse plano é ensaio. Você não é amadora. Sintonize a sua sinfonia. Saque o batom mas também pegue o tom. E os metais.

Que instrumento você quer ser e parecer? Que caixa de ressonância você é? Música é vento, som, ar, soma. Entre a aritmética e o átomo. Seja uma trombeta, uma harpa, um bandolim medieval. Seja um acordeão vermelho, uma flauta transversal, um sinal sonoro de catedrais e círios celestes.

Sendo música você soará eternamente. A vida é um estúdio. Gravando. Olhe o que você tem na sua bolsa de mulher. Rocambole de lágrimas? Tortas de perfumes? Omeletes de esperanças com rímel?

Deus é Sol Maior. E escreve por cifras tortas, pautas etéreas, pausas milenares. Solos de silêncios. Preces e almas naus.

Você é Lá. Versos brancos?

Eu, por mim mesmo, sou duas notas musicais: Si...lás...


E há ainda o descontente que não cabe em SI. Desafinado.

Ou você nunca vai querer ser a baliza lá na frente do festival de corais, preferindo assim ser uma nota musical chamada Ré menor? Fá sustenido? Ou viver sem Dó?

Seja a música. Soe alto. Vibre fé. O dial da Rádio Eterna nem precisa de antena.Você capta no coração. Conecte-se. Tudo é música. Que partitura perdida sem própolis você é? Você é opus de Deus,

Leia meu poema ao músico:

¿Todo músico é mágico/Todo pensador se sobressai acima do lótus da condição humana/E há ainda os versos/Que enriquecem rocamboles/De renúncias sublimadas/Viver não pode ser um desperdício/De espaço, massa, água, ar/Toda música quer cantar isso/Numa opus sublime, singular/Cabeça, tronco, membros/Melodia, harmonia e ritmo/Todo músico quer traduzir/A luz que o procura o espírito...¿

Deus é Música!

Silas Corrêa Leite
posted by ANDARILHA DESCALÇA 9:22 PM

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{Quarta-feira, Dezembro 14, 2005}

 

O Quarto Rei Mago
Uma história de Henry Van Dyke


Vocês sabem a história dos três reis magos que viajaram do Oriente para Belém para adorar a Jesus e Lhe ofertar as dádivas de ouro, incenso e mirra.

Vou-lhes contar a história do quarto rei mago que também viu a estrela e resolveu segui-la e do seu grande desejo de adorar o Rei Menino e Lhe oferecer as suas prendas.

Ele morava nas montanhas da Pérsia e o seu nome era Artaban. Era um médico, alto, moreno, de olhos bem escuros: a fisionomia de um sonhador, a mente de um sábio. Um homem de coração manso e espírito indominável.

Era um homem de posses. A sua moradia era rodeada de jardins bem tratados com árvores de frutas e flores exóticas. Suas vestes eram de seda fina e o seu manto da mais pura lã. Era seguidor de Zoroastro e numa noite se reuniu em conselho com nove membros da mesma seita. Eram todos sábios!

Artaban lhes falou sobre a nova estrela que vira e o seu desejo de segui-la. Disse-lhes: "- Como seguidores de Zoroastro aprendemos que os homens vão ver nos céus, em tempo apontado pelo Eterno, a luz de uma nova estrela e nesse dia, nascerá um grande profeta e Ele dará aos homens a vida eterna, incorruptível e imortal, e os mortos viverão outra vez! Ele será o Messias, o Rei de Israel." E continuou,

"- Os meus três amigos Gaspar, Melchior, Baltazar e eu, vimos a grande luz brilhante de uma nova estrela á vários dias e vamos sair juntos para Jerusalém para ver e adorar o Prometido, o Rei de Israel. Vendi a minha casa e tudo o que possuo e comprei estas jóias: uma safira, um rubi e uma pérola para oferecer como tributo ao Rei. Convido-os para virem comigo nesta peregrinação para juntos adorarmos o rei!¿

Mas um véu de dúvida cobriu as faces de seus amigos: "- Artaban! Isso é um sonho em vão. Nenhum rei vai nascer de Israel! Quem acredita isso é um sonhador!" E um a um, todos o deixaram. "- Adeus amigo!" Artaban pesquisando os céus viu de novo a estrela. "- É o sinal!" Disse ele. "- O Rei vai chegar e eu vou encontrá-lo."

Artaban preparou o seu melhor cavalo, chamado Vasda, e de madrugada saiu ás pressas, pois, para encontrar no dia marcado com Gaspar, Melchior e Baltazar, que já estavam a caminho, ele precisava cavalgar noite e dia. Já estava escurecendo e ainda faltavam mais ou menos três horas de viagem para chegar ao sítio de encontro e ele precisava estar lá antes de meia noite ou os três magos não poderiam demorar mais à sua espera!

¿- Mas, o que é isto?¿ Na estrada, perto de umas palmeiras, o seu cavalo Vasda, pressentindo alguma coisa desconhecida, parou resfolegando, junto a um objeto escuro perto da última palmeira.

Artaban desmontou. A luz das estrelas revelou a forma de um homem caído na estrada. Um pobre hebreu entre os muitos que moravam por perto. A sua pele estava seca e amarela e o frio da morte já o envolvia. Artaban depois de examiná-lo, deu-o por morto e voltou-se com um coração triste pois nada podia fazer pelo pobre homem.

¿- Mas o que foi isto?¿ Um suspiro fraco e a mão óssea do hebreu fechou-se consultivamente no manto do sábio! Artaban, surpreso, sentiu-se frustrado! "- Que devo fazer? Se me demorar, os meus amigos procederão sem mim. Preciso seguir a estrela! Não posso perder a oportunidade de ver o Príncipe da Paz só para parar e dar um pouco de água a um pobre hebreu nas garras da morte!"

"- Deus da Verdade e da Pureza, dirige-me no teu caminho santo, o caminho da sabedoria que só tu conheces!" E Artaban carregou o hebreu para a sombra de uma palmeira e tratou-o por muitos dias até que êle se recuperou.

"- Quem és tu?" perguntou ele ao mago.

"- Sou Artaban e vou a Jerusalém à procura daquele que vai nascer: O Príncipe da Paz e Salvador de todos os homens. Não posso me demorar mais, mas aqui está o restante do que tenho: pão, vinho, e ervas curativas." O hebreu erguendo as mãos aos céus lhe disse: "- Que o Deus de Abraão, Isaac e Jacó o abençoe; nada tenho para lhe pagar, mas ouça-me: Os nossos profetas dizem que o Messias deve nascer, não em Jerusalém mas em Belém de Judá."

Assim, já era muito mais de meia noite e vários dias mais tarde quando Artaban montou de novo o seu cavalo Vasda e num galope rápido prosseguiu ao encontro de seus amigos.

Aos primeiros raios do sol, checou ao lugar do encontro. Mas... onde estavam os três magos? Artaban desmontou e ansioso, estudou todo o horizonte. Nem sinal da caravana de camelos dos seus amigos! Então entre uma pilha de pedras achou um pergaminho e a mensagem: "- Não pudemos esperar mais, vamos ao encontro do Rei de Israel. Siga-nos através do deserto."

Artaban sentou-se e cobriu a cabeça em desespero! "- Como posso atravessar o deserto sem ter o que comer e com um cavalo cansado? Tenho mesmo que regressar à Babilónia, vender a minha safira e comprar camelos e provisões para a viagem. Só Deus, o misericordioso, sabe se vou encontrar o Rei de Israel ou não, porque me demorei tanto ao mostrar caridade,"

Artaban continuou a via pelo deserto e finalmente chegou em Belém, levando o seu rubi e a sua pérola para oferecer ao Rei. Mas as ruas da pequena vila. pareciam desertas. Pela porta aberta de uma casinha pobre, Artaban ouviu a voz de uma mulher cantando suavemente. Entrou e encontrou uma jovem mãe acalentando o seu bebé.

Três dias passados Ela lhe falou sobre os três magos que estiveram na vila a que disseram terem sido guiados por uma estrela ao lugar onde José de Nazaré, sua esposa Maria, e o seu bebé Jesus estavam hospedados. Eles trouxeram prendas de ouro, incenso e mirra para o menino. Depois, desapareceram tão rapidamente quanto apareceram. E a família de Nazaré também saiu à noite, em segredo, talvez para o Egito.

O bebê nos seus braços olhou para o rosto de Artaban e sorriu estendendo os braçinhos para ele. ¿Não poderia essa criança, ser o Príncipe Prometido? Mas não! Aquele que procuro já não está aqui e eu preciso encontrá-lo no Egito!¿

A Jovem mãe colocou o bebê no berço e preparou um almoço para o estranho hospede que veio à sua casa. Subitamente, ouviu-se uma grande comoção nas ruas: gritos de dor, o chorar de mulheres, tocar de trombetas e o clamor: "- Soldados! os soldados de Herodes estão matando as nossas crianças!"

A jovem mãe, branca de terror escondeu-se no canto mais escuro da casa, cobrindo o filho com o seu manto para que ele não acordasse e chorasse.

Mas Artaban colocou-se em frente à porta da casa impedindo a entrada dos soldados. Um capitão aproximou-se para afastá-lo. A face de Artaban estava calma como se estivesse observando as estrelas. Fitou o soldado um instante e lhe disse: "- Estou sozinho aqui, esperando para dar esta jóia ao prudente capitão que vai me deixar em paz.¿ E mostrou o rubi brilhando na palma da sua mão como uma grande gota de sangue.

Os olhos do capitão brilharam com o desejo de possuir tal jóia! "- Marchem, Avante!" Gritou aos seus soldados. "- Não há criança aqui!" E Artaban olhando os céus orou: "- Deus da Verdade, perdoa o meu pecado! Eu disse uma coisa que não era, para salvar uma criança. E duas das minhas dádivas já se foram. Dei aos homens o que havia reservado para Deus. Poderei ainda ser digno de ver a face do Rei?"

E Artaban prosseguiu na sua procura entre as pirâmides do Egito, em Heliopólis, na nova Babilónia às margens do Nilo... Numa humilde casa em Alexandria, Artaban procurou o conselho de um velho rabi que lhe falou das profecias e do sofrimento do Messias prometido e receitado pelos homens. "- E lembre-se, meu filho: o Rei que procuras não o vais encontrar num palácio ou entre os ricos e poderosos. Isto eu sei: os que O procuram devem fazê-lo entre os pobres e os humildes, os que sofrem e são oprimidos."

E Artaban passou por lugares onde a fome era grande. Fez a sua morada em cidades onde os doentes morriam na miséria. Visitou os oprimidos nas prisões subterrâneas, os escravos nos mercados de escravos... Em toda a população de um mundo cheio de angústia ele não achou ninguém para adorar, mas muitos para ajudar! Ele alimentou os que tinham fome, cuidou dos doentes, e confortou os prisioneiros... E os anos passaram... 33 anos. E os cabelos de Artaban já não eram pretos, eram brancos como a neve nas montanhas. Velho, cansado e pronto para morrer era ainda um peregrino à procura do Rei de Israel e agora em Jerusalém onde havia estado muitas vezes na esperança de achar a família de Belém.

Os filhos de Israel estavam agora na cidade santa para a festa da Páscoa do Senhor e havia uma agitação e excitamento singular. Vendo um grupo de pessoas da sua terra, Artaban lhes perguntou o que se passava e para onde o povo se dirigia.

"- Para o Gólgota!" lhe responderam, "- ...pois não ouviste? Dois ladrões vão ser crucificados e com eles, um homem chamado Jesus de Nazaré, que dizem, fez coisas maravilhosas entre o povo. Mas os sacerdotes exigiram a Sua morte, porque disse ser o Filho de Deus. Pilatos O condenou a ser crucificado porque disseram ser Ele o Rei dos Judeus.¿

"Os caminhos de Deus são mais estranhos do que o pensamento dos homens," pensou Artaban. "Agora é o tempo de oferecer a minha pérola para livrar da morte o meu Rei!" Ao seguir a multidão em direção ao portal de Damasco, um grupo de soldados apareceu arrastando uma jovem rapariga com vestes rasgadas e o rosto cheio de terror.

Ao ver o mago, a jovem reconheceu-o como da sua própria terra e libertando se dos guardas atirou-se aos pés de Artaban: "- Tenha piedade!...¿, ela implorou,¿...e pelo Deus da pureza, salva-me! Meu pai era mercador na Pérsia mas faleceu e agora vão me vender como escrava para pagar seus débitos! Salva-me!"

Artaban tremeu. Era o velho conflito da sua alma entre a fé, a esperança e o impulso do amor. Duas vezes as dádivas consagradas foram dadas para a humanidade. E agora? Uma coisa ele sabia: ¿- Salvar essa jovem indefesa era um gesto de amor. E não é o amor a luz da alma?¿

Ele tirou a pérola de junto ao seu coração. Nunca ela pareceu tão luminosa! Colocou-a na mão da moça: '- Este é o teu pagamento, o último dos tesouros que guardei para o Rei!"

Enquanto ele falava uma escuridão profunda envolveu a terra que tremeu consultivamente! Casas caíram, os soldados fugiram mas Artaban e a moça protegeram-se de baixo do telhado sobre as muralhas do Pretório.

"- O que tenho a temer,¿ pensou ele,¿ ...e para quê viver? Não há mais esperança de encontrar o Rei, a procura terminou, eu falhei.¿ Mas mesmo esse pensamento lhe trouxe paz pois sabia que viveu de dia a dia da melhor maneira que soube. Se tivesse que viver de novo a sua vida não poderia ser de outra maneira.

Mais um tremor de terra e uma telha desprendeu-se do telhado e feriu o velho mago na cabeça. Repousou no chão e deitou a cabeça nos ombros da jovem com o sangue a escorrer do ferimento.

Ao debruçar-se sobre ele, ela ouviu uma voz suave, como música vindo da distancia. Os lábios de Artaban moveram-se como em resposta e ela escutou o que o velho mago disse na sua própria língua:

"- Não meu Senhor! Quando te vi com fome e te dei de comer? ou com sede e te dei de beber? ou quando te vi enfermo ou na prisão e fui te ver?

Por 33 anos eu te procurei, mas nunca vi a tua face, nem te servi, meu Rei!"

E uma voz suave veio, mas desta vez dos céus. A jovem também compreendeu as palavras.

"- Em verdade, em verdade vos digo que quando o fizeste a um destes meus irmãos a mim o fizeste!"

Uma alegria radiante iluminou a face calma de Artaban. Um suspiro longo e aliviado saiu de seus lábios.

A viagem para ele havia terminado.

O quarto mago, Artaban, compreendeu que havia encontrado o seu Rei durante toda a sua vida!

posted by ANDARILHA DESCALÇA 10:53 PM

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{Domingo, Dezembro 11, 2005}

 

UMA HISTÓRIA DE NATAL

Certo homem, chamado Mogo, costumava olhar o Natal como uma festa sem o menor sentido.

Segundo ele, a noite de 24 de dezembro era a mais triste do ano, porque muitas pessoas se davam conta de quão solitárias eram, ou sentiam muito a ausencia da pessoa querida que não esteve presente durante o ano.

Mogo era um homem bom.

Tinha uma família, procurava ajudar o próximo, e era honesto nos negócios.

Entretanto, não podia admitir que as pessoas fossem ingênuas a ponto de acreditar que um Deus havia descido à Terra só para consolar os homens.

Sendo uma pessoa de princípios, não tinha medo de dizer a todos que o Natal, além de ser mais triste que alegre, também estava baseado numa história irreal - um Deus se transformando em homem.

Como sempre, na véspera da celebração do nascimento de Cristo, sua esposa e seus filhos se prepararam para ir à igreja.

E, como de costume, Mogo resolveu deixá-los ir sozinhos, dizendo:
_ Seria hipócrita da minha parte acompanhá-los. Estarei aqui esperando a volta de vocês.

Quando a família saiu, Mogo sentou-se em sua cadeira preferida, acendeu a lareira, e começou a ler os jornais daquele dia.
Entretanto, logo foi distraído por um barulho na sua janela, seguido de outro... e mais outro.

Achando que era alguém jogando bolas de neve, Mogo pegou o casaco para sair, na esperança de dar um susto no intruso.

Assim que abriu a porta, notou um bando de pássaros que haviam perdido seu rumo por causa de uma tempestade, e agora tremiam na neve.

Como tinham notado a casa aquecida, tentaram entrar, mas, ao se chocarem contra o vidro, machucaram suas asas, e só poderiam voar de novo quando elas estivessem curadas.
"Não posso deixar essas criaturas aqui fora", pensou Mogo.
"Como ajuda-las?"

Mogo foi até a porta de sua garagem, abriu-a e acendeu a luz. Os pássaros, porém, não se moveram.
"Elas estão com medo", pensou Mogo.

Então, entrou na casa, pegou alguns miolos de pão, e fez uma trilha até a garagem aquecida.

Mas a estratégia não deu resultado.
Mogo abriu os braços, tentou conduzi-los com gritos carinhosos, empurrou delicadamente um e outro, mas os pássaros ficaram mais nervosos ainda - começaram a se debater, andando sem direção pela neve e gastando inutilmente o pouco de força que ainda possuíam.
Mogo já não sabia o que fazer.
_ Vocês devem estar me achando uma criatura aterradora - disse, em voz alta. _ Será que não entendem que podem confiar em mim?

Desesperado gritou: _ Se eu tivesse, neste momento, uma chance de me transformar em pássaro só por alguns minutos, vocês veriam que eu estou realmente querendo salvá-los!

Neste momento, o sino da igreja tocou, anunciando a meia-noite.

Um dos pássaros transformou-se em anjo, e perguntou a Mogo:
_ Agora você entende por que Deus precisava transformar-se em ser humano?

Com os olhos cheios de lágrimas, ajoelhando-se na neve, Mogo respondeu:
_ Perdoai-me anjo. Agora eu entendo que só podemos confiar naqueles que se parecem conosco e passam pelas mesmas coisas pelas quais nós passamos.

Tradução de SergioBarros do texto de David Langerfeld

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posted by ANDARILHA DESCALÇA 7:16 PM

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{Domingo, Dezembro 04, 2005}

 


Azul
Carla Dias


O que vê, são pedras que o tempo cuidou para que se transformassem numa "obra além da arte".

Obra de arte em si, era tudo o que fosse concebido como resultado de uma ânsia por liberdade.

O que ele assistia, tratava-se da própria liberdade ... extensa e transparente.

As pedras moldavam o corpo de um homem .Cabeça sobre os joelhos,

apoiada,

escondendo-se os vestígios de seu olhar.

Sempre o mesmo homem, curvado sobre si mesmo.

A vida andava confusa e confessava sua fragilidade.

Ele sorriu. Havia descoberto curiosos seres, rebordosos até, alguns com seus largos sorrisos.

Às vezes, as lágrimas invadiam seus olhos ... choravam alguns pela confissão humana de que o tempo desenha sonhos em corações ansiosos.

As palavras não substituíam a estampada beleza da terra, e ele chorava a tolice e mediocridade daqueles que têm medo de jogar-se ao infinito. Brotavam sussurros das "pedras-homem" e eles eram pensamentos.

A poesia vestia a tentativa de redescobrir o infindável desejo de voar!

A liberdade dolorida havia cravado unhas na sua carne de jovem sem rumo. E por mais que ele tentasse, era impossível desviar-se dela, porque a liberdade sorria ... riso jocoso, ironia própria da originalidade ... doce ... venenosa.

Queria ultrapassar.

Ele bebia sua bebida com gosto de nada.

A solidão havia lhe concedido olhos azuis e eles enxergavam além ... olhares distantes e ausentes.

A solidão havia lhe emprestado um enorme desejo de consumi-la e depois, gentil como sempre, ele tentaria livrar-se dela, esperando que viscerais sentimentos o fizessem homem com vida.

Ele não queria ser definido. Queria algo que se esparramasse e se transformasse em "gotas de alma" ... raros toques em suaves peles. Profundos toques em verdadeiras fantasias ... cálidas flores a beira da estrada, de terra.

Amava amar o amor, poética, louca e eternamente. Uma eternidade que provocava sua imaginação ... o espaço ... a cura para o esquecimento e para o tempo era não tê-los!

Águas caiam sobre sua pele queimada por um sol que lhe abria caminho tão sinuoso quanto sua própria busca. Caía sobre seu corpo as águas choradas pelas pedras ... gota a gota, e seu som de sonho, de indefinida cor, de si. E ele escutava sons!

Desejava um fim de tarde, um gosto totalmente novo e que permitisse saborear ... um gosto de presença.

Enquanto o mundo seguia, através de caminhos tão tortuosos, a procura de esquecido orgulho, ele jogava seus pensamentos ao vento, olhando através da janela do quarto, vendo sua ansiedade abrir-se feito leque ...

o abismo estendia suas mãos, sedosas e brancas, tecitura de bálsamo ... o alívio é um engano, uma inesperada ilusão.

E havia aquele que optava pela inerte indiferença.

Ele queria a provocante sensação de existir.

Tocando um segundo de estática fantasia, viu-se sem chão ,

sem precisar deixar marcas na areia branca. Pensou que a "pretensão" sempre foi uma forma de evitar o desejo,

o gosto,

o gozo.

Seus olhos ... azuis ... de quase bucólica tristeza. Seus olhos azuis e sem alicerces, feito o céu, cantavam a alegria de pura beleza e que, de tão mal entendida, era tido feito tristeza. Chamavam de tristeza a alegria dolorida e febril do poeta que é vida. Alegria que, sábia, concedia à ele o gosto do vinho bom, de torpor onírico e lírico gozo ... e a solidão espalhou-se dentro de seu peito, tomando conta do susto que foi a companhia que lhe beijou os olhos. E ficaram as xícaras de café cheias de conhaque, e os cigarros acesos, em sintonia com os primeiros raios de luz de uma manhã gritante, ainda que muda.

O que há entre seu dia e sua noite?

Ele, feito um quadro nascido de um fim de tarde frio, daqueles em que desejamos extrair até a última loucura. A minha frente, outra criação que não é minha, mas leva a minha alma, merece meu sangue, pede pela minha essência. E ele caminha entre campos floridos e campos minados, estilhaçando flores e colando ideais ... explodindo em distintas realidades!

Desdobra-se a imaginação e, um único pôr-do-sol torna-se a luz de todos os dias de uma vida ...

e uma única lua está refletida nas águas que banham seus pés e matam minha sede.

Há um baú cheio de revelações e,

apesar da necessidade de revira-lo,

jogar para for cada peça das vestes da peculiaridade de acordar sem deixar pistas sobre a noite que chega ao fim, ele espera que o coração se aquiete para retornar ao inviolável sono.

E eu,

passo derrubando tudo e tentando escandalizar o óbvio ... escandalizar à mim!

É que eu amo ...

E por amá-lo é que sinto sua presença durante a noite, enquanto olho a escuridão com curiosidade felina. Por amá-lo, consumo um instante de vampirismo alucinante e busco à mim, em paz ... a paz que adormece sobre outro instante.

Sobre a prateleira, aviões simbolizam sua vontade de tocar o céu e sua boca, seca, está a procura de palavras que possam umidecê-la.

Brinca com suas asas metálicas, perdendo-se no tempo de propósito, e deixando pistas para que eu possa encontrá-lo. E a agonia que o toca, tão típica dos que saboreiam a fome por vida, desce pela sua garganta junto com um gole de conhaque, aquecendo e tranqüilizando.

Os aviões sobre a prateleira esboçam sua imaginação ... montanhas minando mistérios

e dias passando enquanto ele desenha seu castelo no ar.

Tem sua roupa de guerreiro guardada e precisa - sente a necessidade rasgar-lhe a carne - reconhecer a vida, ao invés de abandoná-la ao obsoleto.

Então, amo um sonho inquieto,

um homem que vive a caminhar ...

ele corre, vez ou outra, movido pelo desespero que o tédio lhe causa e ensinando que Ícaro pecou ao subestimar o próprio sonho. Alguns sonhos são intocáveis e, por essa razão, querem dizer mais do que o desejo de tocá-los.

Passa por ele uma folha ... voa a tal, quase seca e sem paradeiro.

Ele a pega,

beleza ressequida e de essência medieval,

visão inusitada ... a instantânea fotografia do abandono,

lá está estampada!

Pousam olhos azuis sobre o arco-íris refletido nas águas da cachoeira.

O mar, azul, não tem profundidade tão torpe.

Pousam olhares azuis de "ele"

que ama e confunde-se ao sentir

o beijo que não aconteceu.

Azul ... tão azul é o dia que nasce e comemora a fascinação!

Falta fascínio naqueles que não enxergam a cor do espaço, salpicado de estrelas reluzentes e flutuantes planetas.

O quadro umedece a seca e estéril realidade.

Holofotes deixam pelo caminho a luz azul que sai dos olhos do "menino-homem" de asas escondidas e que esculpiu a imaginação nas pedras desta terra.

Por detrás de um silêncio profundo, de aviões, asas partidas e montanhas envolvidas em mistérios, esconde-se o "ele" a cometer pecados e crimes que não ferem à ninguém, além de si próprio, como se a sentença lhe desse a condição de realizador do exorcismo da solidão e provocasse o próximo passo em direção à si mesmo.

Sua sentença : permanecer preso pelas próprias asas, como todo poeta vive preso ao que sente , e isso explode e morre, unindo num só instante a prisão e a liberdade.

A vida fere e cura.

Voa ... voa "ele", azul e gigante ... tão gigante quanto o ar. Eu o respiro ... respiro porque, somente assim, posso amar corpo e alma de um "menino-homem" que vive do desejo de voar e da sedução das pedras e estradas. Só assim, poderei chegar ao fim de outra tarde ...



tecendo sonhos ...





colhendo luas ....





olhando o céu ... azul.


posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:21 AM

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{Sábado, Dezembro 03, 2005}

 

Clarice Lispector
entrevista Tom Jobim


17 de julho de 1971


- Tom, toda pessoa muito conhecida, como você, é no fundo o grande desconhecido. Qual é a sua face oculta?

- A música. O ambiente era competitivo, e eu teria que matar meu colega e meu irmão para sobreviver. O espetáculo do mundo me soou falso. O piano no quarto escuro me oferecia uma possibilidade de harmonia infinita. Esta é a minha face oculta. A minha fuga, a minha timidez me levaram inadvertidamente, contra a minha vontade, aos holofotes do Carnegie Hall. Sempre fugi do sucesso, Clarice, como o diabo foge da cruz. Sempre quis ser aquele que não vai ao palco. O piano me oferecia, de volta da praia, um mundo insuspeitado, de ampla liberdade - as notas eram todas disponíveis e eu antevi que se abriam os caminhos, que tudo era lícito, e que poderia ir a qualquer lugar desde que fosse inteiro. Sùbitamente, sabe, aquilo que se oferece a um menor púbere, o grande sonho de amor estava lá e este sonho tão inseguro era seguro, não é Clarice ? Sabe que a flor não sabe que é flor ? Eu me perdi e me ganhei, enquanto isso sonhava pela fechadura com os seios de minha empregada. Eram lindos os seios dela através do buraco da fechadura.

- Tom, você seria capaz de improvisar um poema que servisse de letra para uma canção?

Ele assentiu e, depois de uma pequena pausa, me ditou o que se segue:

Teus olhos verdes são maiores que o mar.
Se um dia eu fosse tão forte quanto você eu te desprezaria e viveria no espaço.
Ou talvez então eu te amasse.
Ai! que saudades me dá da vida que nunca tive!


- Como é que você sente que vai nascer uma canção?

- As dores do parto são terríveis. Bater com a cabeça na parede, angústia, o desnecessário do necessário, são os sintomas de uma nova música nascendo. Eu gosto mais de uma música quanto menos mexo nela. Qualquer resquício de savoir-faire me apavora.

- Gauguin, que não é meu predileto, disse uma coisa que não se deve esquecer, por mais dor que ela nos traga. É o seguinte: "Quando tua mão direita estiver hábil, pinta com a esquerda; quando a esquerda ficar hábil, pinta com os pés". Isso responde ao seu terror do savoir-faire?

- Para mim a habilidade é muito útil mas em última instância a habilidade é inútil. Só a criação satisfaz. Verdade ou mentira, eu prefiro uma forma torta que diga, do que uma forma hábil que não diga.

- Você é quem escolhe os intérpretes e os colaboradores?

- Quando posso escolher intérpretes, escolho. Mas a vida veio muito depressa. Gosto de colaborar com quem eu amo, Vinícius, Chico Buarque, João Gilberto, Newton Mendonça, etc. E você?

- Faz parte de minha profissão estar mesmo sempre sòzinha, sem intérpretes e sem colaboradores. Escute, todas as vezes em que eu acabei de escrever um livro ou um conto, pensei com desespero e com toda a certeza de que nunca mais escreveria nada. Você, que sensação tem quando acaba de dar à luz uma canção?

- Exatamente a mesma. Eu sempre penso que morri depois das dores do parto.

Veio a cerveja.

- A coisa mais importante do mundo é o amor, a coisa mais importante para a pessoa como indivíduo é a integridade da alma, mesmo que no exterior ela pareça suja. Quando ela diz que sim, é sim, quando ela diz que não, é não. E durma-se com um barulho desses. Apesar de todos os santos, apesar de todos os dólares. Quanto ao que é o amor, amor é se dar, se dar, se dar. Dar-se não de acordo com o seu eu - muita gente pensa que está se dando e não está dando nada - mas de acordo com o eu do ente amado. Quem não se dá, a si próprio detesta, e a si próprio se castra. Amor sozinho é besteira.

- Houve algum momento decisivo na sua vida?

- Só houve momentos decisivos na minha vida. Inclusive ter de ir, aos 36 anos, aos Estados Unidos, por força do Itamarati, eu que gostava já nessa época de pijama listrado, cadeira de balanço de vime, e o céu azul com nuvens esparsas.

- Muitas vezes, nas criações em qualquer domínio, podem-se notar tese, antítese e síntese. Você sente isso nas suas canções? Pense.

- Sinto demais isso. Sou um matemático amoroso, carente de amor e de matemática. Sem forma não há nada. Mesmo no caótico há forma.

posted by ANDARILHA DESCALÇA 10:44 PM

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