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{Segunda-feira, Outubro 31, 2005}

 

Não é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus.
(Clarice Lispector)
Um sopro de vida


posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:16 AM

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{Domingo, Outubro 30, 2005}

 

O doido da garrafa
Adriana Falcão


Ele não era mais doido do que as outras pessoas do mundo, mas as outras pessoas do mundo insistiam em dizer que ele era doido.

Depois que se apaixonou por uma garrafa de plástico de se carregar na bicicleta e passou a andar sempre com ela pendurada na cintura, virou o Doido da Garrafa.

O Doido da Garrafa fazia passarinhos de papel como ninguém, mas era especialista mesmo em construir barquinhos com palitos. Batizava cada barco com um nome de mulher e, enquanto estava trabalhando nele, morria de amores pela dona imaginária do nome. Depois ia esquecendo uma por uma, todas elas, com exceção de Olívia, uma nau antiga que levou dezessete dias para ser construída.

Batucava muito bem e vivia inventando, de improviso, músicas especialmente compostas para toda e qualquer finalidade, nos mais variados gêneros. Vai aí aquela da mulher de blusa verde atravessando a rua apressada, e o Doido da Garrafa imediatamente compunha um samba, uma valsa, um rock, um rap, um blues, dependendo da mulher de blusa verde, do atravessando, da rua e do apressada. Geralmente ficava uma obra-prima.

Gostava muito de observar as pessoas na rua, do cheiro de café, de cantar e de ouvir música. Não gostava muito do fato de ter pernas, mas acabou se acostumando com elas. De cabelo ele gostava. Em compensação, tinha verdadeiro horror a multidão, bermudão, tubarão, ladrão, camburão, bajulação, afetação, dança de salão, falta de educação e à palavra bife.

Escrevia cartas para ninguém, umas em prosa, outras em poesia, como mero exercício de estilo.

Tinha mania de dar entrevistas para o vento e já sabia a resposta de qualquer pergunta que porventura alguém pudesse lhe fazer um dia.

Ajudava o dicionário a explicar as coisas inventando palavras necessárias, como dorinfinita.

Adorava álgebra, mas tinha particular antipatia por trigonometria, pois não encontrava nenhum motivo para se pegar pedaços de triângulos e fazer contas tão difíceis com eles.

Conhecia mitologia a fundo.

Tinha angústia matinal, uma depressão no meio da tarde que ele chamava de cinco horas, porque era a hora que ela aparecia, e uma insônia crônica a quem chamava carinhosamente de Proserpina.

Sentia uma paixão azul dentro do peito, desde criança, sempre que olhava o mar e orgulhava-se muito disso.

Acreditava no amor, mas tinha vergonha da frase.

Às vezes falava sozinho, Preferia tristeza à agonia.

Todas as noites, entre oito e dez e meia, era visto andando de um lado para o outro da rua, método que tinha inventado para acabar de vez com a preocupação de fazer a volta de repente, quando achava que já tinha andado o suficiente. (Preferia que ninguém percebesse que ele não tinha para onde ir.) Enquanto andava, repetia dentro da cabeÇa incessantemente a palavra ecumênico sem ter a menor idéia da razão pela qual fazia isso.

Durante o dia o Doido da Garrafa trabalhava numa multinacional, era sujeito bem visto, supervisor de departamento, ganhava um bom salário e gratificações que entregava para a mulher aplicar em fundos de investimento.

No fim do ano ia trocar de carro.

Era excelente chefe de família.

Não era mais doido do que as outras pessoas do mundo, mas sempre que ele passava as outras pessoas do mundo pensavam, lá vai o Doido da Garrafa, e assim se esqueciam das suas próprias garrafas um pouquinho.


posted by ANDARILHA DESCALÇA 11:05 PM

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{Sexta-feira, Outubro 28, 2005}

 

Pão e beleza
Leonardo Boff

Nos inícios de maio começou no Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis, entidade que existe há mais de 20 anos, o projeto Pão e Beleza. Muitas são as frentes de trabalho, como o Pro Vita, de proteção às testemunhas ameaçadas de morte, mulheres que sofrem violência e que fazendo e comercializando massas melhoram sua renda, projeto de arte e educação com jovens sob risco que confeccionam belíssimos cartões ecológicos, assistência jurídica às periferias e a cooperativa de construção de casas populares (já foram construídas mais de 300). Mas o Pão e Beleza concretiza a visão de ser humano subjacente a todos os projetos, que vê o ser humano com muitas dimensões que devem ser atendidas de modo integrado. Ele tem fome de pão e por isso precisa comer e cuidar de sua saúde. Mas também tem fome de beleza, vale dizer, de reconhecimento, de instrução, de participação nos bens culturais, como escutar música, ver algum vídeo, produzir alguma coisa e conscientizar-se de seus direitos. Pois é esse o propósito que o projeto Pão e Beleza procura realizar.
Trata-se de oferecer diariamente a cerca de 300 pessoas que vivem na rua, e somente a elas, uma refeição abundante e de qualidade, por um real. E simultaneamente a possibilidade de satisfazer a dimensão de beleza: transitar pelos vários espaços, aí se deter e participar de atividades como ser alfabetizado, conversar sobre seus problemas, ouvir histórias, ver e discutir um vídeo juntos, escutar música e outras. E até dormir, pois dormir na calçada (eles não querem que se diga que dormem na rua mas na calçada, pois na rua dormem os mendigos embriagados) é sempre muito perigoso. Tudo é feito numa atmosfera de acolhida com educadores preparados que se orientam pela pedagogia do cuidado.
Com apenas um mês de funcionamento já presenciamos uma irradiação benfazeja que envolve os próprios usuários, que se descobrem como gente e começam a mudar. Logicamente se assistem a fenômenos curiosos: alguns comem montanhas de comida (podem repetir), como se quisessem comer pelo ontem, pelo hoje e pelo amanhã. Chegam até a desmaiar. Outro, depois de três dias, se levanta no meio do refeitório e diz aos companheiros: agora sei que também sou gente, pois entrei aqui e me apertaram a mão. Há 15 anos ninguém apertava minha mão. Outro viu na mesa próxima um companheiro que o havia assaltado há três dias e lhe levado o capote. Chamou a coordenadora e disse: vou chamar a polícia para prender esse ladrão. A coordenadora lhe explicou que aqui é diferente, pois se acredita no ser humano capaz de se corrigir. Foi ao que havia roubado o capote e lhe perguntou se estaria disposto devolvê-lo, pois o roubado estava ali e o havia descoberto. Ele concordou. Foram apresentados um ao outro. Devolveu-lhe o capote. Aí o roubado comentou: você deve ter tido frio, porque não vendeu o capote. O outro respondeu, sim, estou passando muito frio. Então o roubado lhe disse: eu tenho outro capote, pode ficar com esse. E se abraçaram.
Soube-se que um deles tinha naquele dia aniversário. Um bolo foi improvisado e todos cantaram parabéns. Ele se levantou e disse: eu estava sozinho no mundo. Agora sei que tenho irmãos e irmãs e que aqui está a minha família. Sou pobre mas posso ser feliz.
Uma convicção cresce em nós: nada está perdido; tudo pode ser resgatado, se houver bondade amorosa e cuidado.


posted by ANDARILHA DESCALÇA 11:37 PM

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{Quinta-feira, Outubro 27, 2005}

 



CADA QUAL TEM "SUA HORA",
"SUA OPORTUNIDADE"


Sabe por que você não tem conseguido
obter o que deseja?
É que você mesmo acha
impossível obtê-lo.
Sabe por que você não consegue
vencer o desânimo?
Porque pensa que precisa
aceitar essa falta de perspectiva.
Você pensa que a meta
desejada está longe,
fora do seu alcance?
Está enganado(a).
Ela está, desde o princípio
dentro de você mesmo(a).
E, justamente por isso, surge em
você o desejo de atingi-la.
Você não deve se
considerar fraco(a);
não deve pensar que seja
incapaz de melhorar.
Mesmo que no momento você
não esteja indo bem nos estudos,
no trabalho ou em qualquer
outra área de sua vida,
não precisa se preocupar.
O abrunheiro floresce antes
que a cerejeira, mas isso não
significa que a cerejeira perca para
o abrunheiro.
Cada planta tem sua hora,
sua vez de florescer.
A peônia e a glicínia, por exemplo,
têm floração bem depois
que o abrunheiro,
mas nem por isso são inferiores
a este último.
Assim também são as pessoas.
Cada qual tem sua hora,
sua vez de "florescer".
Acredite nisso e continue estudando,
trabalhando, VIVENDO com afinco.

Masaharu Taniguchi
posted by ANDARILHA DESCALÇA 10:14 PM

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{Quarta-feira, Outubro 26, 2005}

 

O sexo dos anjos
Carlos Heitor Cony

Durante anos, quando caía na tentação de achar que sabia tudo, procurava um jeito de me humilhar, lendo bulas de remédio das quais nada entendia. Funcionava. O resultado é que ia para o pólo oposto, achando que não sabia nada, que estava por fora do mundo e da vida. Evidente que ficava mais perto da verdade.

Outro dia, tive a graça de encontrar novo recurso para a humildade, quase diria, para a humilhação. Passei por um canal que exibia um papo descontraído de entendidos em bandas, ritmos novos, tão novos que o "velho rock" era considerado pré-histórico, do tempo das cavernas, anterior à criação do mundo, quando reinavam o caos e as trevas.

Esforcei-me para acompanhar aquilo que me parecia o raciocínio dos rapazes, espalhados informalmente por um cenário informal, um de cócoras, outro em posição fetal, todos acreditando que viviam o máximo em termos de estar por dentro.

E estavam mesmo. Bem verdade que não consegui captar o "dentro" deles. Faziam distinções entre dois tipos de banda que emitiam os mesmos compassos, os mesmos berros. As letras, obviamente, em inglês, sendo que dois dos rapazes confessavam que não sabiam inglês, mesmo assim se declaravam amarrados no que elas diziam, ou melhor, pregavam, todas tinham um apelo contra o consumo --besta negra da turma que, contraditoriamente, mais consome.

Sem nada entender daquilo, tive a impressão de que estava assistindo a um dos concílios medievais em que se discutia o sexo dos anjos. O entusiasmo com que debatiam as tendências, os últimos lançamentos, só era menor quando chegavam ao consenso de que, depois deles, nada mais de novo existiria sob a luz do sol --por sinal, uma verdade que foi dita por Salomão, muito antes de Cristo e do rap nascerem.

posted by ANDARILHA DESCALÇA 11:23 PM

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{Segunda-feira, Outubro 17, 2005}

 


posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:18 AM
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"... Não é preciso ser um serial killer. Pode ser o profissional que trai o amigo por ambicionar seu cargo; a mulher que calunia outra por mero ressentimento; ou simplesmente alguém querendo ver o circo pegar fogo. Embora sejamos tantas vezes bons, magníficos, altruístas, generosos, capazes do belo, até do extraordinário, algo espreita em nós, pronto para o salto, a mordida, o gosto de sangue na boca e o brilho demente no olhar. Algo que quer o sofrimento da vítima, aprecia seus gritos, tem prazer com sua humilhação: é o monstro que também somos. E que precisamos, a cada hora de cada dia, domesticar, controlar, sublimar.

O homem é um anjo montado num porco, disse Tomás de Aquino. O problema é que, de vez em quando, esse precário equilíbrio desanda, e aí salve-se quem puder. Salvemo-nos."


(Lya Luft)

posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:09 AM

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{Domingo, Outubro 09, 2005}

 

Amor - O Interminável Aprendizado
Affonso Romano de Sant'Anna


Criança, ele pensava: amor, coisa que os adultos sabem. Via-os aos pares namorando nos portões enluarados se entrebuscando numa aflição feliz de mãos na folhagem das anáguas. Via-os noivos se comprometendo à luz da sala ante a família, ante as mobílias; via-os casados, um ancorado no corpo do outro, e pensava: amor, coisa-para-depois, um depois-adulto-aprendizado.

Se enganava.

Se enganava porque o aprendizado de amor não tem começo nem é privilégio aos adultos reservado. Sim, o amor é um interminável aprendizado.

Por isto se enganava enquanto olhava com os colegas, de dentro dos arbustos do jardim, os casais que nos portões se amavam. Sim, se pesquisavam numa prospecção de veios e grutas, num desdobramento de noturnos mapas seguindo o astrolábio dos luares, mas nem por isto se encontravam. E quando algum amante desaparecia ou se afastava, não era porque estava saciado. Isto aprenderia depois. É que fora buscar outro amor, a busca recomeçara, pois a fome de amor não sabia nunca, como ali já não se saciara.

De fato, reparando nos vizinhos, podia observar. Mesmo os casados, atrás da aparente tranqüilidade, continuavam inquietos. Alguns eram mais indiscretos. A vizinha casada deu para namorar. Aquele que era um crente fiel, sempre na igreja, um dia jogou tudo para cima e amigou-se com uma jovem. E a mulher que morava em frente da farmácia, tão doméstica e feliz, de repente fugiu com um boêmio, largando marido e filhos.

Então, constatou, de novo se enganara. Os adultos, mesmo os casados, embora pareçam um porto onde as naus já atracaram, os adultos, mesmo os casados, que parecem arbustos cujas raízes já se entrançaram, eles também não sabem, estão no meio da viagem, e só eles sabem quantas tempestades enfrentaram e quantas vezes naufragaram.

Depois de folhear um, dez, centenas de corpos avulsos tentando o amor verbalizar, entrou numa biblioteca. Ali estavam as grandes paixões. Os poetas e novelistas deveriam saber das coisas. Julietas se debruçavam apunhaladas sobre o corpo morto dos Romeus, Tristãos e Isoldas tomavam o filtro do amor e ficavam condenados à traição daqueles que mais amavam e sem poderem realizar o amor.

O amor se procurava. E se encontrando, desesperava, se afastava, desencontrava.

Então, pensou: há o amor, há o desejo e há a paixão.

O desejo é assim: quer imediata e pronta realização. É indistinto. Por alguém que, de repente, se ilumina nas taças de uma festa, por alguém que de repente dobra a perna de uma maneira irresistivelmente feminina.

Já a paixão é outra coisa. O desejo não é nada pessoal. A paixão é um vendaval. Funde um no outro, é egoísta e, em muitos casos, fatal.

O amor soma desejo e paixão, é a arte das artes, é arte final.

Mas reparou: amor às vezes coincide com a paixão, às vezes não.

Amor às vezes coincide com o desejo, às vezes não.

Amor às vezes coincide com o casamento, às vezes não.

E mais complicado ainda: amor às vezes coincide com o amor, às vezes não.

Absurdo.

Como pode o amor não coincidir consigo mesmo?

Adolescente amava de um jeito. Adulto amava melhormente de outro. Quando viesse a velhice, como amaria finalmente? Há um amor dos vinte, um amor dos cinqüenta e outro dos oitenta? Coisa de demente.

Não era só a estória e as estórias do seu amor. Na história universal do amor, amou-se sempre diferentemente, embora parecesse ser sempre o mesmo amor de antigamente.

Estava sempre perplexo. Olhava para os outros, olhava para si mesmo ensimesmado.

Não havia jeito. O amor era o mesmo e sempre diferenciado.

O amor se aprendia sempre, mas do amor não terminava nunca o aprendizado.

Optou por aceitar a sua ignorância.

Em matéria de amor, escolar, era um repetente conformado.

E na escola do amor declarou-se eternamente matriculado.


Texto extraído do livro "21 Histórias de amor", Francisco Alves Editora ¿ Rio de Janeiro, 2002, pág.11.



posted by ANDARILHA DESCALÇA 7:43 PM

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