|
Comments:
Terça-feira, Agosto 16, 2005
COREOGRAFIA INVISÍVEL
Não sei o que pensam os pássaros quando, nas tardes de sábado, dormem sobre os fios de alta tensão. Os pássaros têm sábados frustrados. Todas as coisas que podiam ter sido, não foram. Também não sei o que pensam os homens enquanto dormem os pássaros pelos sábados adentro. Sei que os homens têm insônia e fecham as janelas. Instituem a escuridão, apagam as palavras e desintegram-se em longos silêncios. As coisas que podiam ter sido? Tornaram-se banalidades. Em qualquer tempo há fios de alta tensão e pernas de mulheres com sangue fervendo. Tantas que chegam a ser ignoradas. Despojos do amor? A desproporção criou homens-deuses vulgares e divinizados. Criou profissionais especialistas em argumentação. Braços em torno do pescoço, bocas de estátuas coladas e música para preencher os vazios. Mas o objeto deste texto é o amor. O sujeito também. Amor em construção. Quatro paredes lentas e penosas do lado de cá do horizonte onde pretendo improvisar ninhos e desprender pássaros do sonho.
Mas o tempo urge, razão pela qual me deito, mesmo, à terra. Todas as coisas se revelam e se negam continuamente. Finjo não perceber. Repouso minha cabeça sobre o seio da ignorância. A metafísica rodeia os meus limites. Há coisas se encontrando, também, fora de nós. A ficção quer escrever minha história. Que imagem faria? Oh! vida, esse tempo desperdiçado dentro do olhar. Minha única tristeza não é triste. Incongruência? Limpe os olhos que este texto tem a loucura da forma. Plasticidade e linguagem. Os literatos, os eruditos e eu, e nada de concreto. Que sabemos sobre os pássaros frustrados sobre o fio de alta tensão? Somos carentes de amor, sexo e sonhos. Somos carentes de sabedoria. Um dia Deus apareceu homem entre os homens e o crucificaram. Daí meu medo de existir. Daí esse silêncio áspero de Sábado. Meus conflitos me apequena. Gritos surdos por dentro. Somente as palavras são capazes de secar as lágrimas. Palavras e dedos. Dedos escalavrados pelo tempo percorrendo traços e linhas do meu rosto. Doce ternura para quem partiu todos os espelhos e já não mais se reconhece. Eu que tenho em mim o movimento dos outros, o conhecimento dos outros, o idioma dos outros, a reação dos outros... eu sulcada pelos outros e estrangulada pelas minhas próprias mãos. Só o amor me salva. Só o amor produz essa lentidão sagrada de observar pássaros cheio de vôos. O amor sabe de cor os vôos e os movimentos. Conhece o lugar, o istmo onde os homens choram. Os homens são belos, sobretudo, quando choram. Homem-mar numa ilha de chuva. Uma imagem onde me completo. Não totalmente. Uma mulher satisfeita traz em si um ponto final. Eu tenho vocação para reticências e excessos. Amanheço e todas as bocas se abrem. Famigerada fome de idealismo. Não nos basta a vida?
O pássaro olha com todos os olhos mas nada avista. Tem os sentidos esquecidos. Esqueceu-se de quem era, de como era... só sabe cantar, cantar. Se respirasse uma idéia, tornar-se-ia gente com todo niilismo inerente. Gente que nega qualquer coisa a qualquer hora. Que nega a palavra, a raça, as idéias.. gente que nega a cruz, a história, a colonização... gente que ignora as tardes de sábado quando discretamente um pássaro voa estabelecendo ligações entre as coisas visíveis.
Lucilene Machado
posted by ANDARILHA DESCALÇA 11:30 PM
Comments:
Segunda-feira, Agosto 15, 2005
"Gaiolas e asas "
Rubem Alves
Os pensamentos me chegam de forma inesperada, sob a forma de aforismos. Fico feliz porque sei que Lichtenberg, William Blake e Nietzsche frequentemente eram tamb?m atacados por eles. Digo "atacados" porque eles surgem repentinamente, sem preparo, com a for?a de um raio. Aforismos s?o vis?es: fazem ver, sem explicar. Pois ontem, de repente, esse aforismo me atacou: "H? escolas que s?o gaiolas. H? escolas que s?o asas".
Escolas que s?o gaiolas existem para que os p?ssaros desaprendam a arte do v?o. P?ssaros engaiolados s?o p?ssaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode lev?-las para onde quiser. P?ssaros engaiolados sempre t?m um dono. Deixaram de ser p?ssaros. Porque a ess?ncia dos p?ssaros ? o v?o.
Escolas que s?o asas n?o amam p?ssaros engaiolados. O que elas amam s?o os p?ssaros em v?o. Existem para dar aos p?ssaros coragem para voar. Ensinar o v?o, isso elas n?o podem fazer, porque o v?o j? nasce dentro dos p?ssaros. O v?o n?o pode ser ensinado. S? pode ser encorajado.
Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri conversando com professoras de segundo grau, em escolas de periferia. O que elas contam s?o relatos de horror e medo. Balb?rdia, gritaria, desrespeito, ofensas, amea?as... E elas, timidamente, pedindo sil?ncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, como dar o programa, fazer avalia??es... Ouvindo os seus relatos, vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras ? mostra - e a domadoras com seus chicotes, fazendo amea?as fracas demais para a for?a dos tigres.
Sentir alegria ao sair de casa para ir ? escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos? O sonho ? livrar-se de tudo aquilo. Mas n?o podem. A porta de ferro que fecha os tigres ? a mesma porta que as fecha com os tigres.
Nos tempos de minha inf?ncia, eu tinha um prazer cruel: pegar passarinhos. Fazia minhas pr?prias arapucas, punha fub? dentro e ficava escondido, esperando... O pobre passarinho vinha, atra?do pelo fub?. Ia comendo, entrava na arapuca e pisava no poleiro. E era uma vez um passarinho voante. Cuidadosamente eu enfiava a m?o na arapuca, pegava o passarinho e o colocava dentro de uma gaiola. O p?ssaro se lan?ava furiosamente contra os arames, batia as asas, crispava as garras e enfiava o bico entre os v?os. Na in?til tentativa de ganhar de novo o espa?o, ficava ensanguentado... Sempre me lembro com tristeza da minha crueldade infantil.
Violento, o p?ssaro que luta contra os arames da gaiola? Ou violenta ser? a im?vel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes de periferia? Ou ser?o as escolas que s?o violentas? As escolas ser?o gaiolas? V?o me falar sobre a necessidade das escolas dizendo que os adolescentes de periferia precisam ser educados para melhorarem de vida. De acordo. ? preciso que os adolescentes, que todos, tenham uma boa educa??o. Uma boa educa??o abre os caminhos de uma vida melhor. Mas eu pergunto: nossas escolas est?o dando uma boa educa??o? O que ? uma boa educa??o?
O que os burocratas pressup?e sem pensar ? que os alunos ganham uma boa educa??o se aprendem os conte?dos dos programas oficiais. E, para testar a qualidade da educa??o, criam mecanismos, provas e avalia??es, acrescidos dos novos exames elaborados pelo Minist?rio da Educa??o.
Mas ser? mesmo? Ser? que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica com o ideal de uma boa educa??o? Voc? sabe o que ? "d?grafo"? E os usos da part?cula "se"? E o nome das enzimas que entram na digest?o? E o sujeito da frase "Ouviram do Ipiranga as margens pl?cidas de um povo her?ico o brado retumbante"? Qual a utilidade da palavra "mes?clise"? Pobres professoras, tamb?m engaioladas... S?o obrigadas a ensinar o que os programas mandam, sabendo que ? in?til. Isso ? h?bito velho das escolas. Bruno Bettelheim relata sua experi?ncia com as escolas: "Fui for?ado (!) a estudar o que os professores haviam decidido que eu deveria aprender. E aprender ? sua maneira".
O sujeito da educa??o ? o corpo, porque ? nele que est? a vida. ? o corpo que quer aprender para poder viver. ? ele que d? as ordens. A intelig?ncia ? um instrumento do corpo cuja fun??o ? ajud?-lo a viver. Nietzsche dizia que ela, a intelig?ncia, era "ferramenta" e "brinquedo" do corpo. Nisso se resume o programa educacional do corpo: aprender "ferramentas", aprender "brinquedos".
"Ferramentas" s?o conhecimentos que nos permitem resolver os problemas vitais do dia-a-dia. "Brinquedos" s?o todas aquelas coisas que, n?o tendo nenhuma utilidade como ferramentas, d?o prazer e alegria ? alma.
Nessas duas palavras, ferramentas e brinquedos, est? o resumo da educa??o. Ferramentas e brinquedos n?o s?o gaiolas. S?o asas. Ferramentas me permitem voar pelos caminhos do mundo.
Brinquedos me permitem voar pelos caminhos da alma. Quem est? aprendendo ferramentas e brinquedos est? aprendendo liberdade, n?o fica violento. Fica alegre, vendo as asas crescer... Assim todo professor, ao ensinar, teria de se perguntar: "Isso que vou ensinar, ? ferramenta? ? brinquedo?" Se n?o for, ? melhor deixar de lado.
As estat?sticas oficiais anunciam o aumento das escolas e o aumento dos alunos matriculados. Esses dados n?o me dizem nada. N?o me dizem se s?o gaiolas ou asas. Mas eu sei que h? professores que amam o v?o dos seus alunos.
H? esperan?a...
posted by ANDARILHA DESCALÇA 10:46 PM
Comments:
Quinta-feira, Agosto 11, 2005
A Lua é a mesma
Mauricio Cintrão
É início da manhã, quase madrugada. Saio cedo para o trabalho, de carro. Ainda há Lua no céu, que desmancha porque míngua. Um bonito espetáculo na manhã fria e sonolenta.
Lua no céu é uma das poucas visões gratuitas que não mudou nos últimos anos, salvo por alguns choques de meteoritos histéricos ou pegadas de astronautas bêbados.
Mas isso eu não enxergo daqui, com os olhos arranhando de sono. Só vejo a velha e boa Lua, que continua bonita. Como são bonitas as comerciárias que aguardam condução, ali na calçada. Interessante notar enquanto o farol não abre. Elas estão mais preocupadas com as coisas da Terra do que com a Lua.
Nos divertimos, eu e a Lua, observando as moças que não ligam para o céu, nem para mim. Olham lá longe, no fundo da avenida, à espera da visão redentora do ônibus. Talvez seja comum haver Lua e motoristas observadores pela manhã e por isso nem liguem para nós.
Se eu fosse uma comerciária, parada no ponto de ônibus a uma hora dessas, a última coisa que notaria seria a Lua no céu ou alguém observando do carro. Mas eu não sou comerciária, nem moça, muito menos espero condução. Tenho o privilégio de observar a Lua e as moças comerciárias sob a luz tímida do dia que nasce. E fico feliz com isso.
Vai ver é influência da Lua. Quem sabe? Afinal, ela mexe com as marés, com os humores e com os cachorros, sem contar os lobisomens que, verdadeiros ou falsos, não teriam motivo para uivar se não fosse a gloriosa Lua, noturna ou matinal.
Lua enigmática que, de órbita em órbita, muda um pouco de trajetória. Pode estar para cá ou para lá do prédio em frente de casa. Sei disso com precisão, pois se está do lado de cá, posso contemplá-la sem problemas. Do lado de lá, só esticando o pescoço.
Lua que iluminou meus sonhos, o primeiro beijo na beira da praia, as madrugadas angustiadas na expectativa do primeiro filho e outras expectativas não menos complexas pelos três que vieram depois.
¿Tomo banho de Lua, fico branca como a neve...¿.
Engraçado lembrar agora da menina que cantava essa música e me fazia sonhar, na adolescência. Nos conhecemos na praia, quando a obsessão era tostar a pele ao Sol e não embranquecer feito suspiro. Mas ela cantava como Cely Campello e eu adorava a idéia da suposta brancura de seu corpo entre meus braços. Não lembro o nome dela. Também, não ganhei nem um beijinho!
Ah, o ônibus chegou.
Nuvens começam a se formar.
O dia clareou e o farol abriu.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 11:46 PM
Comments:
Sobre o Amor
(Eustáquio Braga )
Não. Não direi nada sobre o Amor,
pois se o dissesse tão bem em versos,
jamais poderia sentí-lo como o penso sentir...
Não responderei o que queres saber sobre tal sentimento, pois não o conheço por inteiro/completo.
Cada um o sente de uma forma e/ou com proporções e intensidade distintas.
No niilismo do desdizer o digo: Talvez, o amor não exista. Talvez o criamos em nossas mentes e o comandamos para o resto do corpo sentí-lo.
Quem sabe o inventamos para satisfazer os nosso desejos mais egoístas;
quem sabe gostamos tanto de nós mesmos que, nos induzimos a querer um outro alguém, que nos queira nas mesmas proporções;
quem sabe, depois de nove meses sozinhos no útero, quando saímos para a vida externa, nos agarramos aos que nos eram mais próximos e, a partir daí, não conseguimos mais viver sem as outras pessoas;
quem sabe aprendemos a gostar do peito que nos alimentou e das bocas que beijaram?
quem sabe, não seja apenas o espírito gregário do homem falando mais alto?
Não me indaguem sobre o amor, pois depois de amar tanto os outros me esqueci o quanto me amo. Acho que esqueci a essência do amor.
Aqui, talvez, falaremos do amor no campo das aparências, pois o amor não foi inventado para ser dito, mas sim, para sentí-lo.
Como dizia um outro poeta numa metáfora da negação: "o amor é paradoxo".
Logo, o homem também é um paradoxo, pois um não vive sem o outro e, o outro, não vive sem um...
O amor é um misto de tormento, alegria e sofrimento que todos que pensam ter sentimento um dia o sentiu, mesmo sendo-o somente por si.
Sim. Se se existisse o amor, como o diz essa miscelânea de sentimentos, o amor e o ódio chegariam ao fim...
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:06 AM
Comments:
Quinta-feira, Agosto 04, 2005
Sete sóis
Yvelize Wielewicki
Era uma vez esse rapaz.
Ele surgiu de um tilintar de copos; foi como se todo aquele vinho doce tivesse tomado forma de homem, ou de rapaz, ou de homem.
E ele me tirou para uma dança. Segurava minha mão como se segura o mais fino e frágil cristal. E balançava como se estivesse a ouvir o líquido sendo despejado na taça.
Seus olhos brilhavam, e às vezes eu até tinha a impressão de que soltavam faíscas em cima de mim. O sorriso era mais branco que uma tela virgem. E eu tinha vontade de pintar aquele sorriso. Deixá-lo ainda mais branco, branco de Caillebotte.
Era tão bom estar ao seu lado... era um só brilho, uma só luz, um só gole. Era viver dentro de uma tela de Klimt: tudo era detalhe, dourado, delicado.
E continua sendo... é verdade que alguns dias são chuvosos, cinzas, frios. Nestes dias eu pinto um sol dourado no canto da sala. Fico esperando a chuva passar e, enquanto isso, ele se diverte com as gotinhas na vidraça.
O sol volta. Eu não gosto do sol. Mas ele volta amarelo, dourado e laranja. E o rapaz vai. E ele demora, mas volta... volta todo cheio de cor.
E ele foi. Mas ainda não voltou. O sol dourado está no canto da sala. E o sol fica esperando enquanto eu durmo. E ao acordar, um brilho colorido irá surgir dos lençóis.
Eu sei.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 10:14 PM
Comments:
Quarta-feira, Agosto 03, 2005
E o Mundo que se Apresse
Claudia Letti
Começo de ano letivo, fui participar da primeira reunião do ano na escola da minha filha, que está cursando a oitava série do ensino fundamental. A reunião mal tinha começado e o assunto dos pais me soava meio esquisito, a pauta parecia estar caminhando para o último ano do ensino médio e o inevitável vestibular. Olhei para os lados. Quem sabe distraída, eu tivesse entrado na reunião errada. Mas reconheci três ou quatro mães de anos anteriores e a coordenadora acabava de citar a oitava série em sua breve apresentação do grupo de professores. Eu estava na sala certa, afinal.
Mal a coordenadora terminou de falar, uma mãe perguntava qual era o percentual de aprovação da escola no curso de Medicina. E não era uma medicina qualquer, era uma com um segundo nome que me fugiu agora, talvez porque eu mesma nunca tenha ouvido falar dela. A coordenadora respondeu com toda boa vontade, com números na ponta da língua. E assim foi, um pai queria saber de um conteúdo de História que havia sido tema minucioso em recente vestibular. Outro começou a discorrer sobre a importância de ler um determinado autor, porque era certo que o escritor e suas obras "caíam" no vestibular.
E foi então que eu percebi que eu estava na sala certa, na reunião da série correta e a errada ali era eu. Até então eu sequer havia investido hora do meu tempo para pensar no vestibular da minha filha. Eu queria dizer em alto e bom som, "alô gente, ainda temos quatro anos para discutir vestibular". Mas, certamente eu seria voz vencida diante da ansiedade daqueles pais.
O mercado de trabalho anda violento mesmo, todo mundo sabe disso. O mar não está para peixe. Hoje é preciso dominar, além da sua profissão, inglês, espanhol, informática e conhecimento tipo exportação. E manter o currículum atualizado com cursos, workshops, congressos e uma lista infindável de recursos para não estagnar. O mundo globalizado pede urgência, rapidez, percentuais na ponta da língua. O homem está ficando obsoleto. E seus valores também.
Mas eu sou uma mãe otimista-realista, assim mesmo, em palavra composta, porque eu acredito na Educação, acredito na capacidade e na força de vontade da minha filha mas, não ignoro a realidade: ela é uma adolescente e como tal, às vezes adota aquela postura de quem sabe mais do que o mundo pode lhe ensinar. Por isso aquela reunião era importante. Eu não estava pensando nos dados que a escola poderia me transmitir quanto ao índice de aprovação do vestibular. Eu queria saber onde e como a aluna que me levara ali, pode e deve melhorar para chegar lá. Mas me senti estrangeira, falando uma língua exótica para ouvidos exigentes e impacientes.
Em nenhum momento, em que a coordenação da escola e seus professores responderam à todas as perguntas, numa paciência e competência invejáveis, eu ouvi um pai, um único sequer, perguntar como o seu filho está aproveitando tudo o que a escola - e esta é uma boa escola - tem a oferecer. Como o filho se comporta, se tem problemas de aprendizado, se é disperso ou se mostra interesse pelos assuntos tratados em sala de aula? Nenhuma curiosidade a este respeito. E afinal, a escola tem um papel importantíssimo na educação e na aprovação, não só do vestibular, mas do ano em questão, mas ela é apenas uma ferramenta, ainda que possa ser uma ferramenta de alta qualidade. Como o aluno usa essa ferramenta é um percentual que eu realmente gostaria de saber.
Saí dessa reunião preocupada com os valores que estamos passando para nossos filhos, que devem se sentir pressionados e questionados à exaustão, em persuasões mal disfarçadas, sobre a faculdade que querem/podem/devem exercer. E fiquei ainda mais preocupada quando soube que um pai queria saber o índice de aprovação no vestibular de uma determinada escola para matricular seu filho no Maternal. É demais para minha cabeça... O vestibular não me fez perder o sono, mas esta informação com certeza, sim.
Talvez não estejamos criando futuros profissionais bem sucedidos, mas pessoas que chegarão à idade adulta frustrados pela pressa e pela importância que estamos dando ao seu desempenho competitivo. Não estamos perguntando como se sentem, como se definem, porque querem isso ou aquilo. Estamos induzindo e introduzindo essas crianças e adolescentes num mundo apressado e impessoal onde percentuais tem peso de vitória.
Minha filha já quis ser professora, depois achou melhor ser atriz e ultimamente anda falando em fazer cinema. Enquanto ela não decide, precisa aprender geografia e matemática, não pelo vestibular, mas para chegar ao final deste ano, sabida nas matérias. Pode ser que eu seja a obsoleta e alienada mas teimo em acreditar que os filhos precisam entender que a escola que frequentam é boa o suficiente para que se esforcem e aproveitem ao máximo. E estejam cientes de que felicidade se conquista, começando por valorizar o que se tem, explorando ao máximo a capacidade que se ganhou sem esforço. Não sei realmente qual profissão minha filha escolherá e duvido muito que não mude de idéia mais algumas vezes, mas a minha preocupação, nem de longe é essa. Minha expectativa é que seja uma mulher, uma pessoa realizada na profissão que escolher, mas que não esqueça de ser solidária, humanista e de bem com a vida.
E o mundo que se apresse por não saber para onde vai.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 10:16 PM
Comments:
Segunda-feira, Agosto 01, 2005
Ah! Os horóscopos
Wanderlino Arruda
Confesso que entre as minhas muitas leituras quase não posso passar sem as dos horóscopos. Por exemplo, não ponho um jornal de lado enquanto não estiver lida a coluna que fala da sorte no dia ou na semana. Não me importa se vai ou não vai acontecer coisa alguma, se devo ou não acreditar. Interessa me, porque acho gostosa a combinação de idéias, o tom otimista dos autores, a sensação de mistério, o número de probabilidades fantásticas. E sei que não estou só nessa empreitada, porque senão os jornais e as revistas não falavam tanto do assunto. Deve haver até muitos leitores muito mais apaixonados do que eu e do que você. Será?
Conheço mais o que diz respeito aos nascidos no signo de Virgem, um povo leal e dedicado, afeito às letras, ao jornalismo, à contabilidade, a tudo que concerne a papel e que é nele escrito. Práticos, homem e mulher virginianos, são organizados e gostam de tudo certinho, arrumado como um relógio de hora certa, previsível, a ponto de sustentar uma eterna crítica deles mesmos. Quando um virginiano casa se com uma virginiana, fazem mais do que um casamento: fundam uma organização com Características interessantíssimas, incluindo nessa organização os devaneios e as fantasias, desde que obedeçam a esquema traçado. Ponho como testemunhas disso meus bons irmãos e colegas Míriam e Dárcio, meus vizinhos de aniversário.
A mulher de libra não tem nenhum critério na escolha do companheiro? Tudo o que ela quer é unir se a alguém muito elegante, inteligente e que decida por ela, a quem ela possa dedicar se e que satisfaça seus caprichos sofisticados. É cheia de etiquetas e está sempre comprometida com as normas sociais. A libriana sempre se preocupa com a opinião das pessoas. Já a mulher de Escorpião traz dentro de si o grito da liberdade instintiva. Inconformada, não sabe reprimir sua exuberância afetiva e sensorial, sempre cheia de empatia e intuição. De grande força de trabalho, assume tudo com garra. Outra mulher que adora a liberdade de movimentar se é a aquariana. Para ela, o ir e vir, conforme lhe convier, é o essencial, assim como o relacionamento e a participação na vida das pessoas. Já a canceriana é uma mulher sensível, dotada de grande capacidade de emocionar se, permeável ao meio ambiente, misto de mãe e mulher, quase nem sabendo separar essas duas funções. As leoninas são protegidas pelos deuses, segundo a mitologia, parentes do fogo e, por isso, fáceis de incendiar se. Brilhantes, intransigentes e dominadoras, pensam como bem entendem. As mulheres de Gêmeos expressam com suas fantasias através do amor, ao contrário das taurinas, que são bastante realistas a ponto de recusar as ilusões e só ver a segurança e o que é real.
Sem compromisso, variada, leve, não sei se pode haver leitura melhor do que as dos horóscopos. Pelo menos mais gostosa não há! Nem a de poesia bem feita!
posted by ANDARILHA DESCALÇA 9:41 PM
|
 |