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Sábado, Junho 25, 2005
Lealdade, Fidelidade
Artur da Távola
Lealdade pode existir sem fidelidade. Fidelidade pode existir sem lealdade. Só fidelidade e lealdade juntos completam um quadro do raro amor. Mas embora complementares e indispensáveis à realização da estrutura monogâmica, fidelidade e lealdade raramente caminham juntos, daí tanto sofrimento.
A estrutura poligâmica era psicologicamente sábia quando exigia a lealdade como fator de união e consolidação da família de então. Liberta da obrigação da fidelidade, a lealdade podia se exercer plenamente. Obrigada, porém, à fidelidade, (como ocorre na sociedade que se diz monogâmica), a lealdade deixa de existir como necessária ou como o cimento principal da relação. Ela se transforma numa compulsória serva da fidelidade, porque estando imposta a fidelidade, mesmo que não haja sinceridade, a deslealdade jamais campeará, salvo no plano subjetivo. A fidelidade impõe a lealdade compulsória, que não é lealdade, é obrigação, dever etc.
Quando há fidelidade sem amizade, necessária à lealdade, esta, embora imposta aparentemente pela fidelidade, embora necessitando existir (porque todo ser humano necessita de lealdade), em vez de se direcionar para o ser amado, tem a sua energia dirigida para atividades derivativas ou de disfarce. Se a fidelidade é compulsória, a lealdade, que é um sentimento genuíno de amizade, fica reservada para outras escolhas da pessoa. Quem é fiel por obrigação em geral reserva a sua lealdade para outras atividades, pessoas ou instituições, raro para o ser amado.
Desobrigado da fidelidade, o ser humano poderia exercer uma lealdade muito profunda com o ser amado, ex-amado, ou apenas gostado, respeitado, deferido, reconhecido, gradações estas existentes tanto no amor como dentro da estrutura familiar. Sentimento sincero, a lealdade seria o grande cimento das relações de amor despido de paixão, ou o cimento daquela amizade superveniente depois do amor.
Fidelidade e lealdade, ficariam apenas para os casos de amor permanescente, aquele que não acabou, que prossegue independente das obrigações da fidelidade ou do compromisso. Fora desses casos, em toda a variada gradação dos sentimentos e das relações intrafamiliares, lealdade e fidelidade só existiriam quando fossem sinceras.
Mas sendo a fidelidade a regra essencial da relação monogâmica, imposta, portanto, por graves sanções, punições, anátemas etc, resta, para a lealdade, ser um sentimento importante aonde a fidelidade não é mais possível (formas não exaltadas de amor), sentimentos estes talvez até mais próprios ou indicados para a relação familiar, que a paixão ou o amor exaltado.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:29 AM
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Quarta-feira, Junho 22, 2005
O Mandamento
Há Mandamentos que precisam ser seguidos como aquele que o meu amigo Antônio costumava pregar em meio às suas bebedeiras: "há de criar espaço para os tolos que ainda acreditam na vida".
Num outro momento, talvez acabássemos por pensar sobre aquelas palavras como casuais, até mesmo bizarras já que estávamos vivos e era mais do que necessário acreditar na vida. Mas, não era assim quando nos encontrávamos nas longas noites de jogar conversa fora e de esquecer os limites do pensamento. Antônio sentava-se sempre num canto do bar que lhe desse visão a visão da rua. Perdia-se por um bom tempo a observar as pessoas que caminhavam pela calçada e acabava por moldar a tom grave as palavras descritivas que assolavam seu pensamento. É preciso entender que não se trata de boêmia deslavada, ainda que ela sempre tenha sido boa companheira. É mais um ritual que nos deixava a mercê de nós mesmos e fazia com que naquele momento de eterna entrega houvesse a impregnação do Mandamento "há de criar espaço para os tolos que ainda acreditam na vida".
E éramos tolos sim, na visão de bobe daqueles que se irritavam ao mais leve sinal de existência, pessoas que haviam perdido a prática e agora vacilavam quando o assunto era acreditar. Mas José não acreditava mais em Maria, acabava-se assim a dupla mais genial de todos os tempos e, se eles eram capazes de largar mão desta tolice, nós não.
Pois éramos os tolos sem espaço, acreditando na vida numa versão pseudohippie, ainda que depois de horas de trabalho sem euforia, apenas sobrevivendo da sensação de que amanhã o rumo poderia ser outro. Ainda que as contas fosforescentes dos nossos colares caíssem todas no meio da multidão que assolava a cidade e se perdessem sob pés subjugados por horários, ainda assim, ríamos sempre para espantar fantasmas e o fazíamos com alegria típica de quem se envolve com a tolice que é não desacreditar.
E estava lá o Antônio, com o seu olhar de calçada, caçando desmazelos da rotina para reafirmar a sua crença. Só Deus sabe o quanto este Mandamento tem importância e o quanto pode resumir os outros 10. E mesmo aquele tendo sido o pior dia das nossas vidas, Antônio me deu sorriso de presente antes de virar o copo e acabar com a bebida que nele havia. Poderíamos até passar todos os anos das nossas vidas à procura deste espaço tão abstrato, mas se houvesse um olhar ou um sorriso que ainda fosse capaz de nos lembrar do Mandamento, nada seria capaz de nos desvincular um do outro. Algumas pessoas chamam isso de loucura, outras ainda de sintonia, eu e Antônio sabemos bem do que se trata, é uma daquelas certezas que precisam de companhia para resistir à todos os desajeitos que o cotidiano nos reserva, nos tornando pessoas capazes de não abrir mão daquilo que nos é mais fiel: a confiança de que há espaço para quem acredita na vida.
Carla Dias
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:11 AM
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Sexta-feira, Junho 17, 2005
Esta é uma redação feita por uma aluna do curso de Letras da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco - Recife), que obteve vitória em um concurso interno, promovido pelo professor titular da cadeira de Gramática Portuguesa.
Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice.
De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto. Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar. Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto. Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise, quando ela confessou que ainda era vírgula; e ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.
Estavam na posição de primeira e segunda pessoas do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão, forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história. Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou, e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino. O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:25 AM
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Segunda-feira, Junho 13, 2005
Eugênio de Andrade
Nasceu em Póvoa da Atalaia (Fundão). Funcionário público. No Porto existe uma Fundação com o seu nome. Tradutor, organizador de antologias, ficcionista e poeta. Nada melhor que as suas palavras para definir a sua obra: "( ... ) desde pequeno, de abundante só conheci o sol e a água... aprendi que poucas coisas há absolutamente necessárias. São essas coisas que os meus versos amam e exaltam. A terra e a água, a luz e o vento ( ... ) ".
Sobre Flancos e Barcos
Havia ainda outro jardim o da minha vida
exíguo é certo mas o do meu olhar
são talvez dois pássaros que se amam
um sobre o outro ou dois cães de pé
é sempre a mesma inquietação
este delírio branco ou o rumor
da chuva sobre flancos e barcos
o inverno vai chegar
sobre a palha ainda quente a mão
uma doçura de abelha muito jovem
era o sopro distante das manhãs sobre o mar
e eu disse sentindo os seus passos nos pátios do coração
é o silêncio é por fim o silêncio
vai desabar
Eugénio de Andrade, Véspera de Água
posted by ANDARILHA DESCALÇA 11:45 PM
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Quinta-feira, Junho 02, 2005
Um Cavalo Que Perdeu as Asas
Fazia tempo que voava por todos os cantos da invernada. Não sabia mais o que era botar os cascos no chão. Era bom var. Todos o admiravam por ser uma espécie rara de cavalo alado. As éguas todas o queriam para marido. Todas as sogras o queriam par genro. Vivia como se estivesse no paraíso. Bajulado como ninguém nunca havia sido antes dele. Parecia um rei, ou melhor um príncipe. Sempre é melhor um príncipe do que um rei. Este já esta velho esclerosado, desgastado, repetitivo, com poucos anos de vida. Mas o príncipe não. É tudo vigor, renovação, potência, idéias novas. A esperança do futuro. Mas voltemos ao nosso cavalo alado. Tudo nele resplandecia. Todos eram atraídos para ele.
Assim como todos o amavam, existia alguns que tinham uma inveja doentia. Morriam de raiva. Pensaram seriamente em destruí-lo. Mas como, se todos o observavam e, de certa forma, cuidavam dele. Ficaram matutando, matutando, até que um dia alguém sugeriu que era só cortar suas asas. "Cortar suas asinhas", como diz o dito popular. Então vamos colocar o plano em prática.
Uma noite, enquanto ele dormia, (cavalo dorme em pé), com uma pequena escada e uma tesoura muito afiada tentaram, em vão, cortar suas duas asas brancas. Alguém percebeu que elas não eram dele. Estavam apenas encaixadas em uma das ripas de sua costela. Então foi muito fácil, apenas puxou-a, desencaixando-a com naturalidade. E o cavalo perdeu as asas.
Seus inimigos ficaram felizes e propuseram-se esperar por alguns dias para ver o que aconteceria. Depois de uma semana, perceberam que a popularidade de seu desafeto havia aumentado. Que o amor e o carinho dos outros animais era mais intenso para com ele. Que todos continuavam adorando-o como se fosse um deus. E seus inimigos se pergunrtavam porquê, se agora ele tinha perdido o que o difernciava deles?
A resposta é a moral desta pequena parábola. O cavalo perdeu as asas, mas não perdeu sua essência que, de fato, era o que o caracterisava como alguém bom. Nem sempre as qualidades exteriores fazem a diferença, mas as interiores. E estas é que fazem alguém voar ou tornar-se príncipe muito querido.
Amani Spachinski de Oliveira
Filosofo, Poeta, Contista, Articulista e Escritor
posted by ANDARILHA DESCALÇA 11:42 PM
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Quarta-feira, Junho 01, 2005
Às vezes, fico me perguntando porque é tão difícil ser transparente... Costumamos acreditar que ser transparente é simplesmente ser sincero, não enganar os outros. Mas ser transparente é muito mais do que isso.
É ter coragem de se expor, de ser frágil, de chorar, de falar do que a gente sente... Ser transparente é desnudar a alma, é deixar cair as máscaras, baixar as armas, destruir os imensos e grossos muros que insistimos tanto em nos empenhar para levantar...
Ser transparente é permitir que toda a nossa doçura aflore, desabroche, transborde. Mas infelizmente, quase sempre, a maioria de nós decide não correr esse risco. Preferimos a dureza da razão à leveza que exporia toda a fragilidade humana.
Preferimos o nó na garganta às lágrimas que brotam do mais profundo de nosso ser... Preferimos nos perder numa busca insana por respostas imediatas a simplesmente nos entregar e admitir que não sabemos, que temos medo!!!
Por mais doloroso que seja ter de construir uma máscara que nos distancia cada vez mais de quem realmente somos, preferimos assim: manter uma imagem que nos dê a sensação de proteção.
E assim, vamos nos afogando mais e mais em falsas palavras, em falsas atitudes, em falsos sentimentos... Não porque sejamos pessoas mentirosas, mas apenas porque nos perdemos de nós mesmos e já não sabemos onde está nossa brandura, nosso amor mais intenso e não-contaminado...
Com o passar dos anos, um vazio frio e escuro nos faz perceber que já não sabemos dar e nem pedir o que de mais precioso temos a compartilhar... doçura, compaixão... a compreensão de que todos nós sofremos, nos sentimos sós, imensamente tristes e choramos baixinho antes de dormir, num silêncio que nos remete a uma saudade desesperada de nós mesmos... daquilo que pulsa e grita dentro de nós, mas que não temos coragem de mostrar àqueles que mais amamos.
Porque, infelizmente, aprendemos que é melhor revidar, descontar, agredir, acusar, criticar e julgar do que simplesmente dizer: "você está me machucando... pode parar, por favor!".
Porque aprendemos que dizer isso é ser fraco, é ser bobo, é ser menos do que o outro. Quando, na verdade, se agíssemos com o coração, poderíamos evitar tanta dor, tanta dor...
Sugiro que deixemos explodir toda a nossa doçura. Que consigamos não prender o choro, não conter a gargalhada, não esconder tanto o nosso medo, não desejar parecer tão invencíveis...
Que consigamos não tentar controlar tanto, responder tanto, competir tanto... Que consigamos docemente viver... sentir, amar...
Rosana Braga
posted by ANDARILHA DESCALÇA 11:21 PM
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