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{Domingo, Março 27, 2005}

 
Enigma

Existe uma palavra intrigante desafiante.
Faz parte do mundo, é motivo de criação.
Pequeno vocábulo infinita significação.
Serve a todos todos o perseguem.
Profetas pregam como busca maior não indicam
seus caminhos -insondáveis-
Folósofos conjeturam, sua origem e se perdem
em sofismas -indecifrável-
Matemáticos arquitetam fórmulas a dedução
foge ao controle -impossível-
Astrônomos esquadrinham o universo falham
seus artefatos potentes -invisível-
Cientistas traçam teorias fantásticas
sua função não alcançam -inatingível-
Apesar dos desencontros tentativas e fracassos,
o homem o adivinha presente do Criador:
Bem no seu íntimo encontra florescente desperto
plantado dando sentimento
à vida o Amor.

( Cida Espósito *Urania )

posted by ANDARILHA DESCALÇA 10:09 PM

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{Quinta-feira, Março 24, 2005}

 

CRÔNICA DE AMOR POR ELAS
©Luiz Alberto Machado

Nada merece mais a nossa gratidão que o ventre materno, seja ela simples dona de casa alagoana ou uma resignada do mosteiro de Argenteuil.

Decerto todos nós passamos pelo canal de parturição, nós, vivos ou mortos, já viajamos nove meses na aeronave do ventre, dependentes da ternura materna até termos a consciência do oxigênio e da vida.

Nada seria interessante se não fosse o poder da concepção que elas carregam no ventre, seja ela secretária executiva de Natal ou trabalhadora de Orange.

Nada é mais admirável que a fecundação quando tudo se faz de prazer atravessando a zona pelúcida para gerar filhos da vida, adubados pelo carinho e a ternura da maternidade, seja de uma simples balconista de Terezina ou aquela de Guaratinguetá de Di Cavalcanti.

Admirável é a sua anatomia, o seu design belo de recipiente do amor e do prazer, seja ela gueixa de Kioto, Aprés le l bain de Degas ou vendedoras de frutas da Martinica. Ou mesmo a de Unamuno no banho, ou costureira do mercado de Abi Djan.

Que seja amada como uma simples rendeira de Aracati, ou mestiça do Gabão; ou tuaregue do Níger; ou ticoqueira da cana-de-açúcar.

Que seja amiga mesmo como camponesa nordestina ou do milharal do Haiti. Ou mesmo uma cachorrona sexy, maluca pauleira, fatal miss ou sedutora perversa.

Que seja malandra, dócil ou abestada, ou quitandeiras do Recife, prostitutas de Brasília ou a executante de alaúde de Caravaggio.

Sempre serão belas mesmo que seja uma simples jovem turca, ou esquimó da Groenlândia ou, mesmo, a Garota de Ipanema.

Sempre serão exuberantes mesmo na simplicidade daquela das colinas de Chittagong em Bangladesh ou aquela lavadeira de Portinari. Ou nativa birmanesa ou aquela marabá de Rodolfo Amoedo. Ou mesmo a colhedora de chá do Ceilão ou uma linda índia Kamayurá. Ou, ainda, Le bain au serail de Theodore Chasseriau.

Pode ser uma humilde tecelã de seda em Bali ou operária de qualquer montadora de São Bernardo do Campo. Ou a nômade Fars, ou humilde verdureira da feira de Caruaru.

Pode ser uma dedicada vendedora de cosméticos de Aracaju ou Nu à contre jour de Bonnard. Ou uma Diana de Lee Falk, ou a Danae de Rembrand.

Pode ser uma teimosa da vida ou Fleurs de la prairie de Maillol ou humilde enfermeira de um hospital de João Pessoa.

Pode ser uma adolescente eterna sonhadora ou a estudante de Anita Malfati ou uma nativa das ilhas Trobriand, ou a Vênus Anaduomene de Ingres ou As Artes de Van Gogh.

Que seja musa dos escritores, poetas e compositores ou mesmo uma perdida nas veredas da vida, ou Vairumati de Gaugin, Vênus de Brozino ou a que carda lã no Nepal.

Seja a Bovary de Balzac ou a dedicada submersa entre marido e filhos. Ou a Nu de Modigliani ou uma passageira de Olinda; seja a mãe de Almada Negreiros, ou de Gorki, ou Valentina de Guiido Crepax.

Seja ela Velta, ou Lôra Burra, a Vênus de Urbino de Ticiano ou Léda Atomique de Salvador Dali; ou femme de frisant de Toulouse-Lautrec; ou uma da cadeira de David Lingare.

Mas também que seja ela Safo, louca, aguerrida ou desgarrada. Que seja uma sumidade intelectual ou muçulmana de Oman, mestiça de Cuenca, mulata do Rio de Janeiro ou mesmo estabanada andrógina da noite na paulicéia desvairada.

Seja mesmo o que for: a "Mulher" de Geraldinho Azevedo & Neila Tavares, ou mesmo "Todas elas juntas num só ser" de Lenine & Carlos Rennó, ou tantas outras grandes e anônimas mulheres deste planeta, aqui só gratidão. Obrigado por existirem. Esta a minha homenagem, MULHER .






posted by ANDARILHA DESCALÇA 8:41 PM

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{Segunda-feira, Março 21, 2005}

 

EU SOU NORMAL!
Vânia Beatriz

Não é porque eu nasci no meio do mundo, tenha 40 e poucos (muitos) anos, um namorado de 23 (25) anos (de namoro, não de idade) e dois filhos adolescentes que junto medem 3,84(3,86) m, que eu não seja normal! Trata-se de uma verdade incontestável e a melhor prova disso é a própria afirmação. Qualquer mulher que não fosse normal, diria: eu não sou louca! A negação da loucura é o primeiro indicio de que não se é normal.

Mas não estou só, conheço muitas mulheres que são perfeitamente normais. O que dizer de uma mulher que tem como parâmetro das ações e decisões o numero três? Se benze três vezes, três pedras de gelo no suco, e não conta até dez, mas até três.

A mulher que abre mão de uma gratificação de mais de 3 salários mínimos, só porque achava que não estava fazendo nada para ser gratificada é normal, louca seria se estivesse rasgando dinheiro.

Conheço uma mulher que tendo madrugado no computador e precisando acordar cedo , ao invés de colocar um relógio para despertá-la, como fazem os loucos que existem por aí, ela toma três grandes copos d'água e vai dormir. Assim, tem certeza de que a bexiga cheia a fará acordar bem antes de fazer xixi na cama.
Que mulher normal , não beijou escondido, trocou cartas com desconhecidos e não tem na lembrança pelo menos uma grande aventura para contar? Mulheres normais deslavam a alma em confissões nos diários virtuais. Quando falam das dores de amores , essas mulheres deixam escapar o quanto não evoluíram, continuam as mesmas sentimentalóides, sofrendo e chorando pela falta de carinho, respeito e compreensão dos homens.

Há mulheres que são normais demais : falam sozinha ou cantam em voz alta no trânsito; competem com as filhas adolescentes, sonham beijar o galã da novela das oito, vestem casaco em tempo quente. As apenas normais são capazes de surpreender amigos com um buquê de flores ou um CD de um cantor desconhecido, sabem de cor um poema do Vinicius.

Mulheres normalmente cansadas de uma tripla jornada: trabalho, filhos, marido , ou trice-versa, as vezes cometem a loucura de revelar que encontram mais prazer em dormir do que em transar.

Não é porque uma mulher não encontre tempo para lavar seu carro, arrumar fotografias, escrever para a tia, e queira substituir gel por goma de tapioca no cabelo da filha , que ela não seja normal. Tampouco porque nunca assistiu Matrix, não leu Cem Anos de Solidão, nem sabe quem é Cora Ronai, mas sabe fazer , croché , cafuné e bonsai.

Conheço uma mulher que come uma comida que parece com estrume de boi e acha tudo uma delícia. Outra que continua a tratar o ex-marido pelo apelido carinhoso dos bons tempos: Paixão. Mulheres normais fazem amigos virtuais, surpreendem com presentes, sobem ao palco , escrevem livros, desfilam com um barrigão, sem frescura, só prá ser noticia no Sem Censura.

Infelizmente nem todas as mulheres são normais assim como essas que eu conheço e que existem em mim. Há umas três dezenas de mulheres loucas, que se reprimem, que não ousam, que vêem a vida passar sem se dar a chance de pelo menos por um dia ser normal.

posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:22 AM

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{Sexta-feira, Março 18, 2005}

 

Lindas de morrer!
Adilson Luiz Gonçalves

O padrão de beleza feminino é historicamente relativo...

Até a Renascença, a moda era ser gordinha... Magreza era considerada sinal de doença, o que era natural, num período marcado por pouca higiene e, por conseqüência, grandes epidemias... De repente, logo em seguida, os excessos adiposos tiveram que ser confinados em sufocantes espartilhos. Até a década de 1950, as principais atrizes de Hollywood eram voluptuosas, sim, mas tinham que usar vestidos dois números menores para serem notadas. Em suma, em algum momento alguém estabeleceu que ser bela era sinônimo de sofrimento físico, semelhante à máxima do boxe: "No pain, no gain!".

Obviamente, esses padrões só prevalecem para quem se dispõe a seguí-los. E existem muitas mulheres dispostas a fazê-lo...

O que se vê é pouca preocupação com o bem-estar e muita preocupação com os padrões de beleza impostos pelo mercado. E vale tudo para estar na moda: desde usar "modelitos", acessórios e maquiagem que, algumas vezes, beiram ao ridículo - mas basta tirá-los para voltar ao normal -, até danos ao corpo - como "piercings" e tatuagens -, que transformam seres normais em híbridos do monstro de Frankenstein com membro da Yakuza. Afinal: "Moda é moda!". A celebração das aparências!

Mas o que mais preocupa é o fascínio que o mundo "fashion" exerce sobre meninas cada vez mais jovens e imaturas, agravado por pais "distraídos" e agentes insensíveis. Porque tantas se lançam de corpo e alma - mas sem muito raciocínio - nesse universo de luzes e imagens?

Os meninos querem ser jogadores de futebol: atléticos, fortes, rápidos... Já as meninas querem ser modelos: magérrimas e frágeis!

Para muitas delas - mesmo antes do início da adolescência - "manter a forma" é uma obstinação recheada de dietas doidas, cirurgias e "malhações" insanas. O corpo, magro e alto, em vez de sadio e bem cuidado, fica susceptível à doenças típicas do meio, tais como: anemia, anorexia e bulimia. Seria curioso ver quem define esses padrões estéticos subnutridos desfilar nas passarelas... Será que eles os seguem? Além disso, é tragicômico realizar que, num mundo onde milhões de pessoas morrem de inanição, esqueléticas, por falta de alimento ou por não dinheiro para comprar o que comer; milhares de jovens passam fome, esquálidas, para alcançar fama e dinheiro!

O limite entre o profissionalismo e a neurose é quase imperceptível, e as implicações psicológicas podem assumir as proporções de uma bola de neve descendo a montanha...

É natural buscar ser atraente, mas quando isso põe a saúde e a vida em risco, as tragédias mitológicas de Narciso e Helena de Tróia passam a fazer todo o sentido: A beleza vira um fardo... Um castigo!

Mas de quem é a culpa? Da imaturidade? Da ambição? Do mercado, que joga com o inconsciente das pessoas para impor modas, como se fossem "tendências"? Ou da sociedade, que se submete a esse "jogo", que em nome do "glamour" consome meninas que, via de regra: são selecionadas aos 13, atingem o "auge" aos 18, estão "decadentes" aos 25, e entram em depressão aos 28, quando não piram ou morrem, antes?
Enquanto a ditadura da moda mantiver essas exigências, quem escolhe esse rumo precisa estar atenta para não perder, literalmente, os sentidos ou a vida!
A vida é bela! E não há beleza física - efêmera, por natureza - que justifique seu desperdício ou perda!




posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:01 AM

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{Quarta-feira, Março 16, 2005}

 

Parábola da caverna

Havia seres humanos vivendo numa caverna subterrânea com uma abertura para o exterior e a luz. Eles estavam lá desde a infância, suas pernas e pescoços estavam acorrentados de tal modo que não podiam se mover, só podiam olhar para frente, para a parede do fundo da caverna, pois eram impedidos de virar a cabeça por causa de suas correntes. Havia fogo ardente, à distância, que projetava sobre a parede do fundo sombras de pessoas e objetos que passassem atrás.

Assim os prisioneiros da caverna, que só podiam olhar para aquela parede, acreditavam que as sombras que viam eram a realidade, e passaram a distingui-las e nomeá-las, associando-as às formas que viam e aos sons que ouviam . As sombras eram a sua verdade, a realidade de seu mundo.

Imaginado que um deles pudesse libertar-se das correntes, pôr-se de pé, virar a cabeça e olhar para o fogo, ele sofreria com a súbita intensa luminosidade e não poderia ver a nova realidade. Ele precisaria acostumar-se com a claridade do fogo e visão do mundo superior, além da caverna. Veria primeiro as sombras, depois os reflexos de homens e objetos na água e então os veria diretamente, depois veria o céu, o sol e poderia raciocinar sobre ele. Esta é a seqüência do conhecimento.

Imagine se este homem retornasse à caverna. Teria dificuldades para acostumar-se novamente à semi escuridão e para interpretar as sombras com habilidade, como seus antigos companheiros faziam. Estes diriam que ele voltara enxergando menos que antes e ridicularizariam suas idéias, não acreditando na estranha realidade que lhes era relatada.

Os prisioneiros concluíram então que era melhor não sair da caverna, não rejeitar as sombras tão familiares, e que era extremamente perigoso aventurar-se lá fora. E o que saiu seria julgado um perturbador da ordem e condenado por tal conduta ultrajante."

(Platão, extraído do livro "Renascença Organizacional " Fela Moscovici")
posted by ANDARILHA DESCALÇA 11:13 PM

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{Terça-feira, Março 15, 2005}

 

Einstein e Nisarga.
Prof. Ramirez

"O ser humano é uma parte do todo que nós chamamos
universo, uma parte limitada no tempo e no espaço. Ele
experencia a si mesmo, seus pensamentos e sentimentos,
como alguma coisa separada do resto - um tipo de
ilusão ótica de sua consciência. Esta ilusão é uma
prisão para nós, restringindo-nos a nossos desejos
pessoais e à afeição para apenas as poucas pessoas
mais próximas de nós. Nossa tarefa deve ser
libertar-nos desta prisão pela ampliação de nosso
círculo de compaixão para abraçar todos os seres vivos
e toda a natureza."
Albert Einstein
"Para que qualquer coisa aconteça, o universo inteiro
deve concorrer."
Nisargadatta Maharaj
As palavras de Einsten e de Nisargadatta nos fazem
compreender que somos responsáveis coletivamente pela
loucura deste mundo de hoje.
Somos nós que impulsionamos as guerras, que criamos as
armas, que combatemos em ambos os lados e morremos
como moscas em um monte de estrume. O conselho de
Einstein é realmente o conselho de alguém que
encontrou a Verdade.
Recebi este texto de uma amigo, Luiz Jorge Saliba, que
vive em Curitiba.
Ele é interessante porque desmistifica e mostra a
alienação em que nós, e sobretudo a juventude, vivemos
nos dias de hoje.
A televisão, por exemplo, está cada vez mais
"inassistível". Você quase não tem opção: é violência,
pornografia disfarçada, falta de inteligência. A
juventude vive alienada pelos programas imbecilizantes
e vazios.
A leitura é praticada por uma minoria, que logo é
rotulada como "nerd".
Será que encontraremos saída?
posted by ANDARILHA DESCALÇA 11:48 PM

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{Segunda-feira, Março 14, 2005}

 

Perdão
Mauricio Cintrão


Perdão é recomeço. E recomeçar é recomendável, sempre. É necessário, aliás. Mais do que isso: é fundamental. Recomeçar a partir do perdão é lavar o corpo sujo e ter a mente sã com os olhos voltados para o futuro. Perdoar é zerar os cartões amarelos, eliminar os pontos da carteira de motorista, é queimar o livro das contabilidades mesquinhas. Perdoar é podar a planta ressequida para que possa renascer.

A considerar os preceitos de algumas religiões, o perdão é um instrumento democrático. Perdoa-se a ricos e pobres, a sovinas e perdulários, a tarados e frígidas, a idiotas e gênios. Perdoa-se ao parceiro infiel, ao funcionário larápio e ao chefe injusto. Perdoa-se à mulher lasciva, ao vizinho barulhento e ao autor daquela música horrorosa.

Perdão é para todos, quase como o Sol. É claro que existe a noite e os casos de rancor sombrio que afastam a luz e o perdão. Nesses momentos, não há muito que fazer. O perdão custa uma eternidade. Não conceder perdão seria imperdoável se o perdão não fosse o mais genérico dos gestos generosos. Afinal, até a falta de perdão merece perdão.

E nunca se deve esquecer que recomeçar não depende apenas do saber perdoar, mas principalmente, de se reconhecer perdoado, ou melhor, de aceitar o perdão. Pois há aqueles que erram e não admitem o erro. Há aqueles que agridem e não sentem o peso da própria mão. E há ainda os que erram, reconhecem, mas não aceitam o perdão.

E quem foi que disse que o perdão é uma atitude educada? Perdoar não é nada social, assim como servir chá com bolachas. Perdoa-se à revelia, pois.

Cuidado com o falso perdão, porém. Às vezes, perdoar é instrumento de guerra. Não se perdoa, agride-se. Falar ¿eu te perdôo¿ é dizer ¿foda-se¿. O perdoar, nesses casos, é feito cusparada. Escorre pelo rosto do perdoado que, sem ação, limpa a gosma com a fralda da camisa, engole em seco e segue seu curso, sem perdão.

Prefiro o perdão da pessoa ferida que apesar da ferida e até por sua causa, perdoa para dar mais uma chance ao sonho. É o perdão da esperança. Perdão que é cerimônia de iniciação, rito de passagem da vida mundana para a esfera dos especiais. Só quem perdoou ou já foi perdoado nessas condições sabe o que é isso. É sopro de vida, é chuva no deserto.

Assim, perdoar é um ato de amor. E não existe amor que não recomece. Recomeçar é amar e perdoar é recomeçar amando. Perdôo porque amo. Amo porque recomeço. Recomeço porque houve perdão.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 10:44 PM

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{Domingo, Março 13, 2005}

 

A LIPOASPIRAÇÃO DO EGO...

A denúncia da psicóloga brasileira Anna Verônica Mautner, autora de "Cotidiano nas Entrelinhas", dá o que pensar:

"Abandonamos a era do pecado e nos instalamos na era do insalubre. Hoje, o que orienta o nosso bem-estar, são os ditames da medicina. Se ela diz que faz mal, então não pode. A saúde vence a ética, apoiando-se na estética."

Precisamos admitir e confessar, que a nossa preocupação hoje, não é com o pecado, mas com o açúcar refinado, com os óleos saturados, com os agrotóxicos e cigarros e vida sedentária e assim vai...

Temos dado muito mais valor à estética do que à ética. Daí as 185 mil cirurgias plásticas feitas no país no ano passado:(dois quartos delas, foram lipoaspirações).
Daí, a enorme quantidade de tempo que gastamos nas academias de ginástica...

O que vale, não é o interior, mas o exterior: as medidas das coxas, da cintura e do busto, o tamanho do nariz, a cor dos olhos, o bronzeamento da pele. Trocamos o caráter pela forma, a religião pela medicina, a Eternidade pelo curto período de tempo espremido entre o nascimento e a morte.

Na corrida frenética atrás da beleza simplesmente física, fazemos de tudo. É até possível recorrer aos meios de graça, para conseguir o que mais almejamos.


É o caso daquela personagem do romance "O Olho Mais Azul", da escritora americana Toni Morrison, Nobel de Literatura, que acreditava piamente na oração e suplicava todos os dias a Deus, que fizesse o milagre de trocar os seus olhos por um belo par de olhos azuis...(visite neste site a página "Olhos Azuis")

De fato, Pecola Breeldove, uma menina de 11 anos, não nascera bonita nem tinha orgulho de sua etnia e queria por que queria, os tais olhos azuis... O propósito da escritora é mostrar que "a beleza não é, e nem pode ser, encarada como virtude".

As denúncias de Anna Verônica e de Toni Morrison precisam ser reforçadas por outra denúncia proferida há mais de dois milênios, por Jesus Cristo:


"Vocês limpam o exterior do copo e do prato, mas por dentro

eles estão cheios de ganância e cobiça. (...)

Limpe primeiro o interior do copo e do prato, para que o exterior também fique limpo.

Vocês são como sepulcros caiados: bonitos por fora, mas por dentro

estão cheios de ossos e de todo tipo de imundície.

Assim são vocês: por fora, parecem justos ao povo

mas por dentro, estão cheios de hipocrisia e maldade".
(Mt 23.25-28, NVI).

O que Jesus quer dizer é que a verdade é mais importante que a mentira, a realidade é mais importante que a hipocrisia, a beleza interior é mais importante que a beleza exterior, o caráter é mais importante que a forma, a ética é mais importante que a estética, a disciplina moral é mais importante que a disciplina alimentar, o exercício vocacional é mais importante que o exercício físico, a lipoaspiração do ego é muito mais importante que a lipoaspiração subcutânea.

Se a ética não voltar a ser mais importante que a estética, cada vez seremos mais bonitos por fora e mais selvagens e feios por dentro, invertendo a ordem certa e perdendo a chance da verdadeira felicidade!.

Fonte: Revista Ultimato

posted by ANDARILHA DESCALÇA 6:19 PM

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{Sábado, Março 12, 2005}

 

Nas Conversações

Não se irrite com o interlocutor, se não lhe corresponde à expectativa. Talvez não tenha sido você suficientemente claro na expressão.

Se o interpelado não atende, de pronto, cale as reclamações. É provável que ele seja gago e, se o não for, a descortesia é uma infelicidade em si mesma.

Quando alguém não lhe der a informação solicitada, com a presteza que você desejaria, não se aborreça. Recorde que a surdez pode atacar a todos.

Evite os assuntos desconcertantes para o ouvinte. Todos temos zonas nevrálgicas no destino, sobre as quais precisamos fazer silêncio.

Não pergunte a esmo. Quem muito interroga, muito fere.

Cultive a delicadeza com os empregados de qualquer instituição ou estabelecimento, onde você permaneça de passagem. Sua mente, quase sempre, está despreocupada em semelhantes lugares e ignora os problemas de quem foi chamado a servi-lo.

Seja leal, mas fuja à franqueza descaridosa. A pretexto de ser realista, não pretenda ser mais verdadeiro que Deus, somente de cuja Autoridade Amorosa recebemos as revelações e trabalhos de cada dia.

Se o companheiro lhe fere o ouvido com má resposta, tenha calma e espere o tempo. Possivelmente já respondeu com gentileza noventa e nove vezes a outras pessoas, ou, talvez, acabe de sofrer uma perda importante.

Ajude, conversando. Uma boa palavra auxilia sempre.

Lembre-se de que o mal não merece comentário em tempo algum.

Xavier, Francisco Cândido.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 3:17 PM

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{Sexta-feira, Março 11, 2005}

 

Acorde final

Eu havia colocado no toca-discos aquele disco com poemas de Vinícius e do Drummond, disco antigo, long-play, o perigo são os riscos que fazem a agulha saltar, felizmente até ali tudo tinha estado liso e bonito, sem pulos e sem chiados, o próprio Vinícius, na sua voz rouca de uísque e fumo, havia recitado os sonetos da separação, da despedida, do amor total, dos olhos da amada. Chegara finalmente o último poema, meu favorito, "o haver" - o Vinícius percebia que a noite estava chegando, tratava então de fazer um balanço de tudo o que se fez e disso, o que foi que sobrou? Por isso as estrofes começam todas com uma mesma palavra, "resta..." - foi isso que sobrou.
Resta essa capacidade de ternura, essa intimidade perfeita com o silêncio...
Resta essa vontade de chorar diante da beleza, essa cólera cega em face da injustiça e do mal entendido...
Resta essa faculdade incoercível de sonhar e essa pequenina luz indecifrável a que às vezes os poetas tomam por esperança...
Começava naquele momento a última quadra, e de tantas vezes lê-la e outras tantas ouvi-la, eu já sabia de cor as suas palavras, e as ia repetindo dentro de mim, antecipando a última, que seria o fim, sabendo que tudo o que é belo precisa terminar.
O pôr-do-sol é belo porque as suas cores são efêmeras, em poucos minutos não mais existirão.
A sonata é bela porque sua vida é curta, não dura mais que vinte minutos. Se a sonata fosse uma música sem fim é certo que o seu lugar seria entre os instrumentos de tortura do diabo, no inferno.
Até o beijo... Que amante suportaria um beijo que não terminasse nunca?
O poema também tinha de morrer para que fosse perfeito, para que fosse belo e para que eu tivesse saudades dele, depois do seu fim. Tudo o que fica perfeito pede para morrer. Depois da morte do poema viria o silêncio, o vazio. Nasceria então outra coisa no seu lugar: a saudade. A saudade só floresce na ausência.
É na saudade que nascem os deuses - eles existem para que o amado que se perdeu possa retornar - que a vida seja como o disco, que pode ser tocado quantas vezes se desejar. Os deuses - nenhum amor tenho por eles, em si mesmos. Eu os amo só por isso, pelo seu poder de trazer de volta para que o abraço se repita. Divinos não são os deuses. Divino é o reencontro.
A voz de Vinícius já anunciava o fim. Ele passou a falar mais baixo.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio pelo momento a vir, quando, emocionada, ela virá me abrir a porta como uma velha amante...
E eu, na minha cabeça, automaticamente me adiantei, recitando em silêncio o último verso: ".. Sem saber que é a minha mais nova namorada."
Foi então que, no último momento, o imprevisto aconteceu: a agulha pulou para trás, talvez tenha achado o poema tão bonito que se recusava a ser uma cúmplice do seu fim, não aceitava a sua morte, e ali ficou a voz morta do Vinícius repetindo palavras sem sentido: "sem saber que é a minha mais nova"..."sem saber que é a minha mais nova"..."sem saber que é a minha mais nova..."
Levantei-me do meu lugar, fui até ao toca-discos, e consumei o assassinato: empurrei suavemente o braço com o meu dedo, e ajudei a beleza a morrer, ajudei-a a ficar perfeita. Ela me agradeceu, disse o que precisava dizer, sem saber que é a minha mais nova namorada... Depois disso foi o silêncio.
Fiquei pensando se aquilo não era uma parábola para a vida, a vida como uma obra de arte, sonata, poema,coreográfico. Já no primeiro momento quando compositor, ou o poeta ou o dançarino preparam a sua obra, o último momento já está em gestação. É bem possível que o último verso do poema tenha sido o primeiro a ser escrito por Vinícius. A vida é tecida como as teias de aranha: começam sempre do fim. Quando a vida começa do fim ela é sempre bela por ser colorida com as cores do crepúsculo.
Não, eu não acredito que a vida biológica deva ser preservada a qualquer preço.
"para todas as coisas há o momento certo. Existe o tempo de nascer e o tempo de morrer" (eclesiastes 3, 1s).
A vida não é uma coisa biológica. A vida é uma entidade estética. Morta a possibilidade de sentir alegria diante do belo, morreu também a vida, tal como Deus no-la deu - ainda que a parafernália dos médicos continue a emitir seus bips e a produzir ziguezagues no vídeo.
A vida é como aquela peça. É preciso terminar.
A morte é o último acorde que diz: está completo. Tudo o que se completa deseja morrer".
(by: Rubem Alves).

posted by ANDARILHA DESCALÇA 7:29 PM

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{Terça-feira, Março 08, 2005}

 

Mulheres
Edson Marques

Não me bastam os cinco sentidos para perceber-lhes toda a beleza. Não me bastam os cinco sentidos para viver com totalidade o mistério profundo que elas trazem consigo. Eu tenho é que tocá-las, cheirá-las, acariciá-las, penetrar-lhes o sorriso, sentir o seu perfume, beijar-lhes o céu da boca, ouvir suas histórias, transformá-las em deusas. Tenho que dar-lhes o amor que o meu corpo conduz e sustenta-me a alma. O belo amor natural de todos os corpos e almas e coisas do mundo. Como espelho de paixões em labareda, tenho que sentir nos seus olhos um raro brilho diamante.
Eu as respeito e as venero, com a graça de um cisne satisfeito nadando num lago tranqüilo e a ousadia de um touro selvagem recém-despertado. Não lhes faço perguntas, não as pressiono por nada, não quero mudá-las jamais. Sempre imagino o que possam sonhar, e procuro suavemente entrar no sonho delas. Cavalgo o vento para visitar-lhes as razões, as emoções, as loucuras. E como um deus escandaloso e surpreso por sua própria criatura, eu entro então no coração de cada uma delas, deliciosamente, como se entrasse numa pulsante catedral. Mergulho na essência dos seus desejos e cada vez me espanto mais com tanta fantasia, com tanta formosura. Os cinco sentidos, por não serem precisos, ainda não bastam, e eu preciso mais do que isso para compreendê-las.
Toda mulher é silenciosa por dentro. A existência pura se manifesta em cada detalhe. Assim na terra como no céu, amar as mulheres é uma experiência religiosa. E eu as amo, fina substância, como deve amar quem ama de verdade -- incondicionalmente. Sem ciúmes. Eu amo as morenas, as loiras, as baixinhas, as altas, as lindas, as quase feias. Amo as virtuosas, as magras, as gordinhas, as diabólicas, as tímidas, e até as mentirosas. As iluminadas, as pecadoras, e as santíssimas. Amo as virgens, as pobres, as ricas, as loucas, as muito vivas, as inocentes. As bronzeadas pelo sol, e as branquinhas. As inteligentes, e as nem tanto. Desde que sensíveis, eu amo as jovens, as velhas, as solteiras, as casadas, as separadas. As bem-amadas, e as abandonadas. As livres, e as indecisas. E se me dessem o poder, o tempo, e, principalmente, a chance, eu a todas elas daria, todos os dias, um orgasmo cósmico e sublime. Poeticamente.
Apanharia flores silvestres, tomaria sol com todas elas. Andaríamos descalços na areia, contemplaríamos crepúsculos cor de abóbora, jantaríamos à luz de velas, dançaríamos, tomaríamos vinho branco, olharíamos as estrelas. E eu lhes faria poesias de amor. Puro como um anjo, amaria cada uma delas eternamente ¿ uma por vez. Com delicadeza, com doçura, com profundidade, com inocência. Entusiasmado, como se cada uma fosse a única. Como se no mundo inteiro não houvesse mais nada, nem ninguém.
Todas as noites, passaria cremes e encantos no seu corpo. Falaria sobre fábulas, contaria histórias românticas, as veria dormir. Ao som de Vangelis, velaria por um tempo o sono delas, e de madrugada, antes do sol raiar, antes do primeiro pássaro cantar, as cobriria com o resto de luar que ainda houvesse, e sairia em silêncio. Como um felino lógico, sensual e saciado, deslizaria pelo cetim azul-celeste dos lençóis, saltaria por sobre todas as metáforas -- e sorrindo iria embora.
Enfim, se fosse Deus, eu com certeza não mais cuidaria do universo e dessas coisinhas banais. Não iria ficar controlando o destino das pessoas, o tempo, a pressa, os compromissos, as horas, o caminho dos planetas, a economia, o cotidiano, o infinito, a Internet, a geografia... Não!
Eu somente iria amar as mulheres, como elas merecem. E como nunca foram amadas.
Só isso, definitivamente. Nada mais, nada mais!



posted by ANDARILHA DESCALÇA 10:25 PM

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{Domingo, Março 06, 2005}

 


Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.
Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.
Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.

Clarice Lispector


posted by ANDARILHA DESCALÇA 4:48 PM

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{Sábado, Março 05, 2005}

 

As babás eletrônicas
Rosy Beltrão


Taí uma coisa que me pergunto hoje...

O que será que essa geração deixará para seus filhos lembrarem amanhã?

Acho que diferente de nós, que tivemos a liberdade de andar nas ruas, nossos filhos terão muito pouco a contar.

A gente brincava de roda, de amarelinha,

jogava volei no meio da rua

Íamos ao circo ver o Carequinha, o Arrelia e o Pimentinha...jogávamos bolinha de gude, empinávamos papagaio,

tocávamos a campainha na casa dos outros e saíamos correndo...

Que delícia era fazer comida de mentirinha,

aniversário de bonecas...

brincar de pula-mula, esconde-esconde...de médico... hum... esse era um perigo!

Ficávamos todos uns olhando para os outros...mas, brincávamos assim mesmo.

Fazíamos a tarefa da escola sim e, ninguém saía antes de ter ajudado em casa, fôsse o que fosse.

Televisão?

A gente assistia mas, tinha horário... era o Programa Pim Pam Pum...o Capitão Sete, desenhos do Tom e Jerry, picapau, Zé Colmeia... o Reizinho, o Gato Felix... puxa! Os programas eram bastante infantis e sempre tinham alguma lição moral no final... nada de briga ou mata-se e morre-se como hoje nos jogos de video game em que todos os personagens têm aqueles olhos estranhos (feitos por japoneses), topetes infindáveis e armas mirabolantes!

Nos jogos ou desenhos de hoje, muda-se de arma como nós comíamos balas do goma... toda hora.

O objetivo é deixar a criança superior ao seu amiguinho... é que a disputa será acirrada no futuro e os pais, por essa pretensa luta por uma vaga de alto executivo que sonha para o filho... deixa-o ao encargo das babás eletrônicas, que são em muito, mais eficientes do que um ser humano, afinal ensina sem "cobrar" nada(??!!).

A mãe sai para trabalhar e ajudar no orçamento doméstico porque os custos são altíssimos e a família precisa ter um aparelho de TV de 29", uma câmara digital, um aparelho de DVD, outro de Karoquê e sei lá mais o quê...

Então, mais fácil é colocar a babá eletrônica para funcionar.

Qual é o custo?

Além das altas cifras da conta de luz?

Sem dúvida, a visão distorcida de seu filho, que por horas a fio ficou em frente ao computador... ou da TV ou do videogame, a tal "babá eletrônica" cobra depois, bem mais tarde, ela ficará com a mente, o caráter , além de ir de embrulho também a alma de seu filho.

Porque o que ele aprende não é o que você deu a ele para que assumisse responsabilidades, tivesse filhos, sobrevivesse com alegria e fôsse feliz...

A retribuição vem na mesma linha que o ensinou, você, as "babás eletrônicas", as escolinhas irresponsáveis, as mais ou menos ou aquela que você deixa uma nota pretíssima mas, deixa seu filho à mercê dos traficantes, asteróides e anabolizantes, porque ou se é drogado por dependênci química, ou pela aparência que se tem de ter, ser "sarado" como dizem por aí...

Aí eu pergunto:

O que você terá no final da sua vida?


Se tiver sorte, um asilo tranquilo, porque aquilo é o que ele aprendeu com você!

Acha que quando você estiver velha irá parar aonde?

E, ele em tudo estará correto, sabe porque?

Ele não terá tempo para você .

Você o ensinou que outros podem fazer isso por ele . Você o fez assim quando o colocou nas escolinhas quando ele só tinha 1 ano e meio de idade... sim, na escolinha de inglês, de futebol, de natação... e aí pergunto: porque ele terá de ter tempo para você, já que você foi uma pessoa ocupada a vida inteira?

E. nem sequer lembrou que ele poderia ter sua voz por perto, seu carinho, seu Amor.

Ensinando-o a contar histórias, a criar, a se machucar rolando no piso da cozinha,

no parque, na praia...

Mas, pronto para o que der e vier na vida ...e, se ele for um perdedor, um viciado, um bandido?

A culpa será sua?

A responsabilidade é sua?

As respostas são sempre as mesmas:

" Ah! É porque as drogas estão em todo lugar, porque não há o que fazer, não há o que ou como combater..."

"A culpa será do governo... do vizinho, do seu irmão... mas, sua? Ah! Essa não!"

Por que será que hoje em dia, os jovens não dão valor a nada?

Por que será que perdem-se no que o grupo exige dele?

Nós também não passamos por essas pressões?

Não é próprio de cada geração passar pela adolescência e perder a inocência de ser criança?

Acho que estamos passando por cima de tudo isso sem querer olhar que o problema começa em casa, com a família e a estrutura moral, ética baseada no Amor ao próximo.

Como diz o Joelmir Betting,

essa é para pensar na cama...


posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:15 AM

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{Terça-feira, Março 01, 2005}

 
O natal já passou mas outros virão....
Então atentem.

Andarilha

A felicidade é a empada do ¿Bigode¿
Arnaldo Jabor

Nossa visão de alegria é não ver o mal do mundo. No fim de ano todo mundo começa a falar: ¿Feliz natal, feliz ano novo!¿. Mas, ser feliz, como? O sujeito passou o ano todo quebrando a cara, reclamando da mulher, batendo nos filhos, lutando contra o desemprego, sendo humilhado pelos patrões, e aí, chega o fim do ano e todo mundo diz: ¿Seja feliz!¿ E aí o sujeito tem de estampar um sorriso alvar no rosto, uma baba simpática, um olhar vazado de luz bondosa, faz uma arvorezinha de Natal com bolotas coloridas, mata um peru magro e pensa: ¿Sou feliz!¿ ¿O ano que vem vai melhorar!¿

Felicidade muda com a época. Antigamente, a felicidade era uma missão, a conquista de algo maior que nos coroasse de louros, a felicidade demandava o ¿sacrifício¿, a luta por cima de obstáculos. Felicidade se construía ¿ por sabedoria ou esforço criávamos condições de paz e alegria em nossas vidas.

Hoje, felicidade é ser desejado. Felicidade é ser consumido, é entrar num circuito comercial de sorrisos e festas e virar um objeto de consumo. Hoje, confundimos nosso destino com o destino das coisas... Uma salsicha é feliz? Os peitos de silicone são felizes?
A felicidade não é mais interna, contemplativa, não é a calma vivência do instante, ou a visão da beleza. A felicidade é ter um ¿bom funcionamento¿. Marshall McLuhan falou que os meios de comunicação são extensões de nossos braços, olhos e ouvidos. Hoje ,
inverteram-se. Nós é que somos extensões das coisas. Fulano é a extensão de
um banco, sicrano comporta-se como um celular, beltrana rebola feito um liquidificador. Assim como a mulher deseja ser um objeto de consumo, como um eletrodoméstico, um ¿avião¿, uma máquina peituda, bunduda. Claro que mulheres lindas nos despertam fantasias sacanas mas, em seguida, pensamos: ¿E depois? Vou ter de conversar...e aí?¿ Como conversar com um ¿avião¿ maravilhoso, mas idiota? (aliás, dizem que uma das vantagens do Viagra é que, esperando o efeito, os homens conversam com as mulheres sobre tudo, até topam ¿discutir a relação¿).

Mas, o homem também quer ser ¿coisa¿, só que mais ativa, como uma metralhadora, uma Ferrari, um torpedo inteligente e, mais que tudo, um grande pênis voador, pássaro superpotente, mas irresponsável, frívolo, que pousa e voa de novo, sem flacidez e sem angústias. Seu prazer é cumulativo, feito de apropriações indébitas, dando-lhe o glamour de uma eterna juventude que afasta a idéia de morte ou velhice.E eu não falo isso como crítica. Não. Eu tenho inveja, a verde, viscosa e sinistra inveja dessa ausência de angústia, dessa ignorância gargalhante que adivinho sob os seios de mulheres gostosérrimas ou nos peitos raspados de garotões lindos. Quero ser feliz, mas carrego comigo lentidões, traumas, conflitos. Sinto-me aquém dos felizes de hoje. Posso ter uma crise de depressão em meio a uma orgia, não tenho o dom da gargalhada frouxa, posso broxar no auge de uma bacanal. Fui educado por jesuítas e pai severo, para quem o riso era quase um pecado. O narcisismo de butique de hoje reprime dúvidas e tristezas óbvias. Eles têm medo do medo e praticam uma espécie de fobia eufórica, uma síndrome de pânico ao avesso: gargalhadas de pavor. E ainda atribuem uma estranha ¿profundidade¿ a esta superficialidade, porque, hoje, esse diletantismo tem o charme raso de ser uma sabedoria elegante e ¿pós-tudo¿. Mas, falo, falo e não digo o essencial. Hoje, a felicidade é entrar num pavilhão de privilegiados. Eu queria não pensar, queria ser um imbecil completo sem angústias ¿ (meus inimigos dirão: ¿Você tem tudo pra isso. Sou uma esponja que se deixa tocar por tudo, desde a crise da dívida pública até o muro da Cisjordânia. Lembro a personagem de Eça de Queiroz que dizia: ¿Como posso ser feliz se a Polônia sofre?¿

Hoje, a felicidade está na relação direta com a capacidade de não ver, de negar, de ¿forcluir¿ como dizem os lacanianos. Felicidade é uma lista de negativas. Não ter câncer, não ler jornal, não olhar os meninos miseráveis no sinal, não ver cadáveres na tv, não ter coração. O mundo está tão sujo e terrível que a felicidade é se transformar num clone de si mesmo, num andróide sem sentimentos, sem esperança, sem futuro, só vivendo um presente longo, como uma ¿rave¿ sem fim. Pedem-me previsões para o ano que vem. Tudo pode acontecer. Quem imaginaria o 11 de Setembro?

Osama nos legou o fatalismo dos árabes. Daqui para frente, teremos de aprender com eles a dizer: ¿-Maktub!¿ ¿ tudo estava escrito, nada nos surpreenderá mais. Só nos resta a orientalização, a religião evangélica louca ou a ¿objetificação¿ do consumo. Ou então, viver a felicidade das pequenas coisas. Outro dia, eu estava comendo uma empada de palmito na porta da Globo (na Kombi do ¿Bigode¿, que faz as melhores empadas do mundo) quando, sem quê nem porquê, fui invadido por uma infinita ventura, uma felicidade que nunca tive. Durou uns minutos. Não sei a razão; acho que foi um protesto do corpo, um cansaço da depressão. Mas, logo depois, passou e voltei ao duro show da vida.

Hoje felicidade é o brilho de um solitário que suga o prazer, sem conflitos, sem afetos profundos, mas sempre com um sorriso simpático e congelado, porque é mais ¿comercial¿ ser alegre do que o velho herói dos anos 60, que carregava a dor do mundo. O herói feliz acha que não precisa de ninguém, que todos devem se aprisionar em seu charme, mas ele é ninguém. Para o herói criado pela mídia, o mundo é um grande pudim a ser comido. Feliz natal e feliz ano novo.



posted by ANDARILHA DESCALÇA 8:49 PM

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