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Segunda-feira, Fevereiro 28, 2005
Bar
Raymundo Silveira
Vestia despojos de eleições. Comia quando havia. Não morava. Mas bebia. Passar podia sem vestir, comer nada e morar pouco. Beber sem? Nunca. Que bebida é quem dá vida. Só sentia vontade de viver quando bebia. Pedir, não adiantava, por isso adiava. Tinha quem desse sem pedir. Ofereciam. Às vezes até queriam forçar a aceitar. Cachaça, sim. Dinheiro, não. Por isso adorava ouvir a canção do Caetano. Pra que se amarrar em dinheiro se tinha quem desse o que ele podia comprar? Bar! Um som tão miúdo pra uma ação tão grandiosa. Barbaridade!
Rumo. Toda manhã tinha de tomar um rumo. Tão difícil, Deus meu! Tão mais fácil tomar um rum. Não tomaria nem cachaça se não tomasse um rumo. Imagina rum. Tomar um rumo é difícil sim. Quem diz que não é, está mentindo. Ou jamais provou o fel de uma ressaca. Com tremores. Com delírios. Com tudo. Contudo, é preciso. Há que arrebentar as correntes invisíveis que sujigam as pernas, o corpo a alma. Cada passada já passada um alívio. Cada passada por vir, um tormento. E o destino daquela via-sacra parece nem existir de tão pequeno que é o nome: Bar. Barbaridade!
Tanto inferno neste mundo, Deus meu. Tanta tortura. Mas não existe inferno maior do que um Bar fechado. Às sete da manhã. Ou quando o dono não deixa entrar. Mesmo tendo o maldito dinheiro não. Espanta a freguesia. O lucro da cachaça não compensa o prejuízo de não vender o café, os ovos, o pão. Estas mesquinharias que os não bêbados têm de comer todo dia. Como se daquilo viesse alguma vontade de viver. Não entendo como se vive sem vontade. Não entendo como se sente vontade tomando café, comendo pães. Comendo ovos. Sinto náuseas quando vejo alguém comer. Ainda mais às sete da manhã.
Tenho de esperar, então, por dois milagres: que se abra o Bar e que o dono me deixe entrar. Estarei salvo nos casos ambos. Mesmo que não tenha dinheiro não. Ninguém se recusa a pagar. Descer não é fácil, a primeira. Se não voltar, é o Céu. Um amor. O amor, nunca provei, mas pelo que ouço que dele dizem, deve ser como depois da primeira. O não amor é a própria. Lá vem o dono. E ri. Eu rio. A vida sorri. Só ri! Bar. Barbaridade!
Entretanto, é terrível o durante enquanto. Durante enquanto espero. Sinto que o andamento lento do dono é só de mal. Será? Não. Se não ele não sorria. Sinto uma vontade louca de voar. Ou pelo menos caminhar até ele e que se apresse pedir. Tenho de me conter. Tenho de agüentar. Se não, entrar ele não deixa. Os não bêbados falam diferente. Eu estranho muito estranho o falar dos não bêbados. Palavras das suas bocas escorrer parecem. Como as águas de um riacho. Como a aguardente da garrafa para o copo. Muito difícil como um deles falar. Às vezes tento e consigo e não consigo às vezes comigo.
Chegou. Chegou o dono do Bar. Barbaridade! Já disse que entrar... Eu posso...
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:35 AM
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Sexta-feira, Fevereiro 18, 2005
A POESIA É O ABSOLUTO DA COVARDIA! - Viegas Fernandes da Costa
Quem me contou, alvoroçada, foi a Rebeca, moça nova por estas bandas, fugida que foi do Ciclone ¿ ou furacão? ¿ Catarina.
- Pois Seu Viegas (chama-me de "Seu Viegas", estou ficando velho!), estava caminhando pela XV e lá pelas tantas vi aquele teu amigo, todo vestido de preto, na praça Doutor Blumenau, de pé sobre um banco, berrando "a poesia é o absoluto da covardia".
Só podia estar falando do Ernesto, claro!
- Não precisas te preocupar, Rebeca, ele sempre faz isso. É normal.
Sei que o tal "é normal" não é lá coisa que se pode aplicar ao Ernesto, pois de normal só mesmo sua anormalidade. Mas na hora veio o "é normal", e Rebeca entendeu. Agora, quem não entendeu fui eu! Afinal, o que estaria nosso poeta sem versos querendo dizer com aquela frase?
Lembrei-me do seu imenso carinho pelas palavras. "São como mulheres exóticas, excitam-me, provocam-me os sentidos, a curiosidade de saber o que escondem sob o contorno das letras que as constituem, seus sentidos obscuros, descobri-las, despi-las ao som tonitruante de um Tchaikovsky, conquistá-las" - repete-me sempre que seus olhos de lasso poeta recaem sobre aquelas palavras repletas de curvas, plenas de sentidos. Mas da poesia raramente fala, apenas destes poetas vencedores de concursos pagos, a quem devota seu mais sincero desprezo. Por que então tão importante acusação, bradada em praça pública, sob o testemunho das carrancudas fachadas dos edifícios comerciais? Precisava de ajuda, e fui encontrá-lo no único endereço que possui: a mesa oito do Farol.
Estava lá!
Sentei à mesa, o único que costuma sentar-se a sua mesa quando está só, e ele me cumprimentou com seu olhar verde. Taciturno, os cabelos jogados sobre os ombros.
- Rebeca me contou, esta tarde, tu, lá na Doutor Blumenau, berrando que...
- ... a poesia é o absoluto da covardia! ¿ interrompeu-me.
- É! O que significa?
Bebeu sua Malzbier, esvaziou o copo. Cíntia, que acabara de chegar da universidade, veio trazer outra garrafa. Tão bonita a filha da proprietária! Metade dos freqüentadores estão lá por sua causa, a outra metade pela música ao vivo. Pelo Ernesto, só eu mesmo, amigo que sou!
- Silvana me manda poemas, poemas viscerais, poemas inéditos...
- Silvana?
- Silvana, alguém que encontrei, alguém que me encontrou. Envia-me seus poemas, despe-se, no entanto permanece vestida. Os poetas são covardes, Viegas! Um bando de adoráveis covardes! São fingidores, como já dizia Pessoa, mas fingem porque temem, e ao mesmo tempo necessitam de se expor. Exibicionistas do íntimo, abrem suas capas e desvelam sua nudez sob a proteção das sombras da noite, recostados aos muros. A poesia é o absoluto da covardia, apenas isto. Descobri-o quando, com versos, respondi aos versos de Silvana.
Esvaziou o copo, obriguei-me a beber também. Confesso que senti falta do cálice de vinho, afinal, cerveja escura? Ah inverno, que chegue logo e me traga de volta o calor do vinho aquecendo meu corpo!
- Cada palavra cuidadosamente escolhida, cada verso o fragmento de um espelho fosco a me refletir. E eu que pensava encontrar a liberdade na poesia! Ah, leda ilusão, no poema apenas as brumas... apenas as brumas...
O resto da noite, passamos ouvindo a música do negro cisne que empunhava seu violão. Nenhuma outra palavra trocada, apenas a cumplicidade de compartilhar do significado de uma frase lançada ao vento, incompreendida por Rebeca, e a certeza de que não mais poderia chamar Ernesto de poeta sem versos. Tinha-os, exclusivos, dedicados àquela misteriosa Silvana que nunca me apresentou.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:38 AM
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Domingo, Fevereiro 13, 2005
Escolha o seu Sonho
Cecília Meireles
Devíamos poder preparar os nossos sonhos como os artistas, as suas composições. Com a matéria sutil da noite e da nossa alma, devíamos poder construir essas pequenas obras-primas incomunicáveis, que ainda menos que a rosa, duram apenas o instante em que vão sendo sonhadas, e logo se apagam sem outro vestígio que a nossa memória. Como quem resolve uma viagem, devíamos poder escolher essas explicações sem veículos nem companhia - por mares, grutas, neves, montanhas, e até pelos astros, onde moram desde sempre heróis e deuses de todas as mitologias, e os fabulosos animais do Zodíaco. Devíamos, à vontade, passear pelas margens do Paraíba, lá onde suas espumas crespam correm com o luar por entre as pedras, ao mesmo tempo cantando e chorando. - Ou habituar uma tarde prateada de Florença, e ir sorrindo para cada estátua dos palácios e das ruas, como quem saúda muitas famílias de mármore... - Ou contemplar nos Açores hortênsias da altura de uma casa, lagos de duas cores e cestos de vime nascendo entre fontes, com águas frias de um lado e, de outro, quentes... - Ou chegar a Ouro Preto e continuar a ouvir aquela menina que estuda piano há duzentos anos, hesitante e invisível - enquanto o cavalo branco escolhe, de olhos baixos, o trevo de quatro folhas que vai comer... Quantos lugares, meu Deus, para essas excursões! Lugares recordados ou apenas imaginados. Campos orientais atravessados por nuvens de pavões. Ruas amareladas de pó, amareladas de sol, onde os camelos de perfil de gôndola estacionam, com seus carros. Avenidas cor-de-rosa, por onde cavalinhos emplumados, de rosa na testa e colar no pescoço, conduzem leves e elegantes coches policromos... ... E lugares inventados, feitos ao nosso gosto; jardins no meio do mar; pianos brancos que tocam sozinhos; livros que se desarmam, transformados em música. Oh! Os sonhos de "Poronominare"!... Lembram-se? Sonhos dos nossos índios: rios que vão subindo por cima das ilhas:...meninos transparentes, que deixam ver a luz do sol do outro lado do corpo... gente com cabeça de pássaros... flechas voando atrás de sombras velozes... moscas que se transformam em guaribas... canoas... serras... bandos de beija-flores e borboletas que trazem mel para a criança que tem fome e a levantam em suas asas... Devíamos poder sonhar com as criaturas que nunca vimos e gostaríamos de ter visto: Alexandre, o Grande; São João Batista; o Rei David, a cantar; o Príncipe Gautama... E sonhar com os que amamos e conhecemos, e estão perto ou longe, vivos ou mortos... Sonhar com eles no seu melhor momento, quando foram mais merecedores de amor imortal... Ah!... - (que gostaria você de sonhar esta noite?)
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:31 AM
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Sábado, Fevereiro 12, 2005
Era Uma Vez Um Príncipe
(Marcia Frazão)
Se há uma coisa que sempre me aborreceu nas histórias de fadas, é sem sombra de dúvida o papel secundário e enfadonho dos príncipes. Você já reparou que eles só aparecem no final da história? Já reparou como eles são bobões e arrumadinhos? E o beijo, então!? Você já viu beijo mais sem graça do que o do príncipe de história de fada?
Não sei se por um precoce pendor feminista, ou pela desilusão do primeiro beijo, eliminei da minha vida todo e qualquer príncipe até o dia em que conheci Jorginho Guinle.
Bem verdade que ele não combinava em nada com a descrição que os livros faziam dos príncipes. Não era alto, esbelto, estúpido, bem-comportado e nunca fora um sapo. Não era chegado a princezinhas igualmente estúpidas e choronas - daquelas tipo Branca de Neve e Cinderela -, que às custas de uma carinha de anjo e de alguns artifícios dignos da histeria freudiana estavam mesmo era à espera de um marido que as bancasse. Não, Jorginho! Se ele tivesse tido a oportunidade de conhecê-las, certamente teria romances com as madrastas! Dificilmente ele sucumbiria aos encantos cor-de-rosa de uma mocinha sonsa, estupidamente burra e sem graça como a Branca de Neve (essa, ele preferiu deixar para um príncipe inglês com cara de vela e cérebro guardado na gaveta da mãe).
E se Jorginho tivesse tido um caso com a madrasta, certamente o final da história seria outro. Aquele reino insosso teria ganho vida, glamour e sensualidade. Branca de Neve certamente seria banida para um condomínio medíocre, onde passaria as tardes assistindo aos filmes açucarados de Doris Day. O príncipe idiota venderia enceradeiras e passaria os domingos em frente à TV, entupindo-se de cerveja e sonhando com uma loura a entrar pelo buraquinho de uma garrafa.
No reino de Jorginho e da madrasta ouviria-se jazz e bossa nova e a tv só seria ligada se houvesse alguma coisa que valesse a pena assistir. Em vez das novelas bobocas que arrancavam os suspiros da Branca de Neve, o povo teria o teatro. As peças de Ibsen, Brecht e Eurípides teriam muito mais audiência do que o Big Brother. Em vez da poética fuleira das éguinhas pocotó, o povo beberia as palavras de Noel Rosa, Chico Buarque, Caetano, Ferreira Gullar, João Cabral de Melo Neto, Gil, Cartola, Nélson Cavaquinho e de um milhão de poetas. No rádio, o verdadeiro pagode de Clementina de Jesus e de Dona Ivone Lara substituíria os acordes esganiçados de pagodeiros "belos".
Mas como as histórias (e a sociedade) têm a péssima mania de escolher a mediocridade, na hora H escolheram os Charles, as Dianas e as Brancas de Neve da vida como ícones da realeza. Porém, como ensinou Freud, as escolhas podem esconder atos falhos. Assim, quando nomearam Jorginho Guinle como "playboy", ironicamente deixaram visível o significado de um verdadeiro príncipe: um menino que brinca.
Jorginho foi o príncipe que me ensinou que para ser real e valer a pena, a vida deve ser brincada e sorvida até o último suspiro!
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:22 AM
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Sexta-feira, Fevereiro 04, 2005
Governado Pelos Mortos
(fala com um descamponês)
MIA COUTO
Os mortos perderam acesso a Deus. Porque eles mesmo se tornaram deuses. E têm medo de admitir isso. Querem voltar a ser vivos. Só' para poderem pedir a alguém.
¿ E estes campos, tradicionalmente vossos, foram-vos retirados?
¿ Foram. Nós só' ficamos com o descampado.
E agora ?
Agora somos descamponeses.
- E bichos, ainda ha' aqui bichos ?
- Agora, aqui, só' ha' inorganismos. Só' mais lá', no mato, e' que ainda abundam.
- Nós ainda ontem vimos flamingos...
- Esses se inflamam no crepúsculo: são os inflamingos.
- E outras aves da região. Pode falar delas ?
- Antes de haver deserto, a avestruz pousava em arvore, voava de galho em flor. Se chamava de arvorestruz. Agora, ha' nomes que eu acho que estão desencostados...
- Caso do beija-flor. E' um nome que deveria ser consertado. A flor e' que levaria o titulo de beija - pássaros. ..."
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:07 AM
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Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005
O ciclo de um vocativo
Lucilene Machado
Criei João em prosa e verso. Vocativo da minha solidão. Rima da minha paixão e superlativo do meu desejo. A escrita, a história, o desenho. Comecei pelo desenho. Queria que minha ficção tivesse uma imagem que eu pudesse memorizar e repensá-la sempre ao amanhecer. A primeira idéia de João foi de uma sombra atravessando uma estrada. Pernas longas, uma cadência firme ao se mover e muita coerência. João seria coerente da cabeça aos pés, do amanhecer ao anoitecer. Mas teria de ter uma carência afetiva não muito comum aos homens. Deveria chorar por amor e ter desejos simples como o de se levantar no meio da noite para dividir uma pizza com uma mulher. Mulher, não, comigo! Porque João era meu, só meu, aliás a idéia de inventá-lo partiu de mim. Nada mais justo do que ser exclusiva na vida dele.
João haveria de gostar de flores. Flores de qualquer espécie e ser romântico para que eu não me sentisse ridícula. Teria de ter traços másculos, simétricos, para compensar a desordem da minha inspiração. Nele conviveriam o ar despojado de poeta e o arrojo de um intelectual. A insegurança de um menino e a firmeza de um ancião. O sorriso doce e o olhar misterioso. O discurso seguro e a liberdade para dizer, vez em quando, coisas sem nexo. Deveria gostar de ler e, nas tardes longas de Domingo, abriria o livro vermelho e, na página marcada por uma rosa seca, leria para mim versos de Fernando Pessoa: "Vem sentar-se comigo, Lídia, à beira do rio..." e eu, Lídia de todas as horas adormeceria com as últimas frases de Pessoa: "eu nada terei de sofrer ao lembrar-me de ti. Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim ¿ à beira do rio, pagã triste e com flores no regaço."
Além da vocação para poesia, João haveria de ser gentil e cavalheiro. Teria idéias próprias, discordaria de mim algumas vezes e diria "não" sempre que necessário. Homem decidido que sabe o que quer, a que veio e para aonde está indo. Um homem que me surpreendesse com jantares à luz de velas e passeios românticos. Que me acompanhasse numa noite escura e me acalentasse em minhas frustrações. Que não me deixasse tão solta, nem tão presa. Que vez por outra jogasse milho aos pombos, pão aos peixes e gostasse de animais.
E, nessa minha ânsia de tê-lo, atravessei dias e noites insones como uma deusa a arrastar as tranças compridas, com os olhos sempre postos nas campinas, no céu, mar e em todas as páginas que pudessem ajudar-me na construção do meu homem ideal. Busquei o coração de João nas ondas do mar e sua alma num pássaro leve que só conhece a transparência do mundo. Eu quis João puro, livre e solto, correndo por algum parque ou por algum facho de estrela. Dei a ele toda geografia do mundo. Mas que me acenasse sempre com bandeiras rodeadas de distâncias. Sua maior qualidade? o amor. Ele haveria de me amar apesar do vento que sopra as palavras para outras direções, apesar das marés que carregam os navios para outros continentes e apesar do tempo que teima em soterrar as palavras ditas.
Quando avistei João com flores vermelhas nas mãos, não tive dúvidas em correr e abraçar aquele corpo ainda cheio de espaços vazios. Eu era um navio de verão ancorando num mar azul, trazendo alegrias e criando situações. O mar era calmo, calmo e lento como nós, mas cantava ao longe uma chuva fininha enfeitiçando nossos olhares. Fomos nos descobrindo, como quem descobre uma pátria já vista antes no mapa. Linhas conhecidas no desenho abria-se num horizonte mágico. Aprendemos os caminhos das mãos e das pontas dos dedos. Marcamos no mapa nossos pontos de identificação, medimos nossas distâncias com a língua e quebramos todos os silêncios com o arfar de nossas respirações. Afora isso, desafiamos todos os conceitos estéticos com as nossas coreografias noturnas e dormimos o sono dos bem-aventurados. Tínhamos então o desenho e a história.
Depois do ápice, João passou a acenar-me cada vez menos. Muitas vezes perdi o sono imaginando que ele pudesse estar aterrissando em luas de outros planetas. Descobri cedo que não tinha domínios sobre minha criação, mais que isso, perdi a sintonia com a minha obra poética. Tentei consertá-la, reinventá-la, aceitá-la já com outras influências, detê-la com forças telepáticas... mas, nada. As notícias que me chegavam a pássaros lentos, já estavam vencidas. João vivia outras paixões. Paixões caladas, deflagradas, circunscritas.
Numa tarde doente, enquanto eu tentava descobrir o meu erro, meu primeiro erro, senti os passos surdos de João. Movimentava-se com incoerência. Estava longe de ser o mesmo. Amor desgovernado pelo vento dos assombros. Distâncias invertidas, rumos trocados, olhos confabulando palavras cortantes. Ataquei-o com as forças de uma fera ferida. Desequilibrei-me e caí com o corpo sangrando. Não sei se foi por defesa, piedade ou desprezo, sei que João me matou. E deixou flores para enfeitar minha morte. Terminei como Lídia: "Pagã triste e com flores no regaço." Fez-se o desenho, a escrita e a história, triste.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:15 AM
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Quarta-feira, Fevereiro 02, 2005
À procura de um amor
"Você está aí sozinho. Devora um saco de batatinha frita
enquanto espera o telefone tocar.
Bem que poderia ser hoje, um amor novinho em folha!
Trrrimmmmmm!!! É a sua mãe, quem mais poderia ser?
Amor nenhum faz chamadas por telepatia.
Amor não atende com hora marcada.
Ele pode chegar antes e encontrar você numa fase galinha, nem aí para relacionamentos.
Pode chegar tarde demais e ver você desiludido com a vida, desconfiado.
Por que ele nunca chega na hora certa?
Agora, por exemplo, você está de banho tomado,
empregado e com dinheiro para ir ao cinema!
Agora que você pintou o apartamento, organizou o seu quarto.
E justo agora está com o coração às moscas e morrendo de frio.
O amor aparece quando se menos imagina.
Você passa a festa inteira hipnotizado alguém que nem lhe enxerga e mal repara no outro alguém que só tem olhos para você.
O amor é que nem tesourinha de unhas.
Nunca está onde a gente pensa. O amor pode estar num corredor de supermercado, numa fila de banco, ou numa livraria, ao seu lado, num carro parado ali no trânsito.
O amor está em todos os lugares. Você é que não procura direito.
Então, a primeira lição está dada: o amor é onipresente.
A segunda é mais imprevisível:
não espere ouvir eu te amo num jantar a luz de velas.
Amor não gosta de clichês.
É bem possível que aquele "eu te amo" aconteça numa terça-feira,
à tarde, depois de uma discussão.
Idealizar é sofrer. Amar é surpreender. "
(AD)
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:08 AM
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Terça-feira, Fevereiro 01, 2005
Liberte-se do Passado
Uma história zen
Na vida que em geral levamos há muito pouca solidão. Mesmo quando estamos sós, nossa vida está tão repleta de influências, de conhecimentos, de memórias e experiências, de ansiedade, aflição e conflito, que nossa mente se torna cada vez mais embotada e insensível, funcionando numa monótona rotina. Estamos sós, alguma vez? Ou estamos transportando conosco todas as cargas do passado?
Conta-se uma história interessante de dois monges que, caminhando de uma aldeia para outra, encontraram uma jovem sentada à margem de um rio, a chorar. Um dos monges dirigiu-se a ela, dizendo: "Irmã, por que choras?". E ela respondeu: "Estás vendo aquela casa do outro lado do rio? Eu vim para este lado hoje de manhã e não tive dificuldade em vadear o rio; mas agora ele engrossou e não posso voltar; não há nenhum barco. "Oh! - disse o monge -, "isto não é problema" - e levantou nos braços a jovem e atravessou o rio, deixando-a na outra margem. Em seguida, os dois monges prosseguiram juntos a viagem. Passadas algumas horas, disse o outro monge: "Irmão, nós fizemos o voto de nunca tocar numa mulher. O que fizestes é um horrível pecado. Não sentiste prazer, uma sensação extraordinária, ao tocar uma mulher?"
E o outro monge respondeu:
- "Eu a deixei para trás há duas horas. Mas tu ainda a estás carregando, não é verdade?"
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:37 AM
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