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Domingo, Janeiro 30, 2005
Valor da Sinceridade
Amizade Sem Sinceridade?
Acredita-se ter encontrado um meio de tornar a vida deliciosa através da bajulação. Um homem simples que apenas diz a verdade é visto como o perturbador do prazer público. Foge-se dele porque não agrada a ninguém; foge-se da verdade que ele enuncia, porque é amarga; foge-se da sinceridade que proclama porque apenas traz frutos selvagens; tem-se receio dela porque humilha, porque revolta o orgulho que é a mais estimada das paixões, porque é um pintor fiel que nos faz ver quão disformes somos.
Não admira que seja tão rara: em toda a parte (a sinceridade) é perseguida e proscrita. Coisa maravilhosa, ela encontra a custo um refúgio no seio da amizade.
Sempre seduzidos pelo mesmo erro, só fazemos amigos para ter pessoas particularmente destinadas a nos agradarem: a nossa estima resume-se à sua complacência; o fim dos consentimentos acarreta o fim da amizade. E quais são esses consentimentos? O que é que mais nos agrada nos amigos? São os contínuos elogios que lhes cobramos como tributos.
A que se deve que já não haja verdadeira amizade entre os homens? Que esse nome não seja mais do que uma armadilha que empregam com vileza para seduzir? «É, diz um poeta (Ovídio), porque já não existe sinceridade.»
Com efeito, retirar a sinceridade da amizade é torná-la uma virtude teatral; é desfigurar essa rainha dos corações; é tornar quimérica a união das almas; é introduzir o artíficio no que há de mais santo e a perturbação no que há de mais livre.
Baron de Montesquieu, in 'Elogio da Sinceridade'
posted by ANDARILHA DESCALÇA 6:52 PM
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Sábado, Janeiro 29, 2005
Os Portadores de Sonhos
Gioconda Belli
Em todas as profecias está prevista a destruição do mundo.
Todas as profecias dizem que o homem criará sua própria destruição.
Porém os séculos e a vida que sempre se renovam criariam também uma geração de amantes e sonhadores; homens e mulheres que não sonharam com a destruição do mundo, e sim com a construção do mundo das mariposas e dos rouxinóis.
Desde pequeninos vinham marcados pelo amor.
Por trás de sua aparência cotidiana guardavam a ternura e o sol da meia-noite.
Suas mães os encontraram chorando por um pássaro morto e mais tarde muitos foram encontrados mortos como pássaros.
Estes seres coabitaram com mulheres translúcidas e elas ficaram prenhes de mel e de filhos reverdecidos por um inverno de carícias.
Foi assim que proliferaram no mundo os portadores de sonhos, atacados ferozmente pelos portadores de profecias que falavam de catástrofes.
Foram chamados iludidos, românticos, pensadores de utopias, disseram que suas palavras eram velhas -e de fato eram porque a memória do paraíso é antiga no coração do homem - os acumuladores de riquezas os temiam e lançavam seus exércitos contra eles, mas os portadores de sonhos faziam amor todas as noites e do seu ventre brotava a semente que não somente portava sonhos mas que os multiplicavam e os fazia correr e falar.
E assim o mundo criou de novo a sua vida da mesma forma que havia criado os que inventaram a maneira de apagar o sol.
Os portadores de sonhos sobreviveram aos climas gélidos e nos climas quentes pareciam brotar por geração espontânea.
Quem sabe as palmeiras, os céus azuis, as chuvas torrenciais tiveram a ver com isso, a verdade é que, como formiguinhas operárias estes espécimes não deixavam de sonhar e construir mundos formosos, mundo de irmãos, de homens e mulheres que se chamavam companheiros, que se ensinavam a ler uns aos outros, consolavam-se diante da morte, se curavam e se cuidavam entre si, se ajudavam na arte de querer e na defesa da felicidade.
Eram felizes em seu mundo de açúcar e de vento e de todas as partes vinha gente impregnar-se de alento e de suas claras percepções e de lá partiam os que os haviam conhecido
portando sonhos, sonhando com novas profecias que falavam de tempos de mariposas e rouxinóis,
onde o mundo não haveria de findar na hecatombe mas onde os cientistas desenhariam fontes, jardins, brinquedos surpreendentes para fazer mais gostosa a felicidade do homem.
São perigosos - imprimiam as grandes rotativas
São perigosos - diziam os presidentes em seus discursos
São perigosos - murmuravam os artífices da guerra
Devem ser destruídos - imprimiam as grandes rotativas
Devem ser destruídos - diziam os presidentes em seus discursos
Devem ser destruídos - murmuravam os artífices da guerra.
Os portadores de sonhos conheciam seu poder e por isso nada achavam de estranho
E sabiam também que a vida os havia criado para proteger-se da morte que as profecias anunciam
E por isso defendiam sua vida até a morte
E por isso cultivavam os jardins de sonhos e os exportavam com grandes laços coloridos e os profetas obscuros passavam noites e dias inteiros
vigiando as passagens e os caminhos procurando essas cargas perigosas
que nunca conseguiram encontrar porque quem não tem olhos para sonhar
não enxerga os sonhos nem de dia, nem de noite.
E no mundo sucedeu um grande tráfico de sonhos
que os traficantes da morte não podiam estancar;
em todas as partes há pacotes com laços de fita
que só esta nova raça de homens pode ver
e a semente destes sonhos não se pode detectar
porque está envolta em corações vermelhos
ou em amplos vestidos de maternidade
onde pezinhos sonhadores sapateiam nos ventres que os carregam.
Dizem que a terra depois de os haver parido desencadeou um céu de arco-íris
e soprou de fecundidade as raízes das árvores.
Nós sabemos que os vimos
Sabemos que a vida os criou para proteger-se da morte
que as profecias anunciam.
(trad. Celso Japiassu)
posted by ANDARILHA DESCALÇA 8:47 PM
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Quarta-feira, Janeiro 19, 2005
Existe o certo, o errado e todo o resto
( Martha Medeiros )
O amor é certo, o ódio é errado e o resto é uma montanha de outros sentimentos, uma solidão gigantesca, muita confusão, desassossego, saudades cortantes, necessidade de afeto e urgências sexuais que não se adaptam às regras do bom comportamento. Há bilhetes guardados no fundo das gavetas que contariam outra versão da nossa história, caso viessem a público.
Todo o resto é o que nos assombra: as escolhas não feitas, os beijos não dados, as decisões não tomadas, os mandamentos a que não obedecemos, ou a que obedecemos bem demais - a troco de que fomos tão bonzinhos?
Há o certo, o errado e aquilo que nos dá medo, que nos atrai, que nos sufoca, que nos entorpece. Todo o resto nada tem a ver com nossos reducionismos: é nossa fome por idéias novas, é nosso rosto que se transforma com o tempo, são nossas cicatrizes de estimação, nossos erros e desilusões.
Todo o resto é muito mais vasto. É nossa porra-louquice, nossa ausência de certezas, nossos silêncios inquisidores, a pureza e a inocência que se mantêm vivas dentro de nós, mas que ninguém percebe só pq crescemos. A maturidade é um álibi frágil. Seguimos com uma alma de criança que finge saber direitinho tudo o que deve ser feito, mas que no fundo entende muito pouco sobre as engrenagens do mundo.
Todo o resto é tudo que ninguém aplaude e ninguém vaia, porque ninguém vê.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 4:05 PM
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Segunda-feira, Janeiro 17, 2005
O susto do amor
Artur da Távola
Por que surge, inevitável, um medo, uma angústia, embrulhados no amor? Por que certo mal-estar grudado no bom, no leve, no misteriosamente revelado, no anteriormente intuído e desejado? Por quê?
Será medo antecipado da dor da perda? Será a certeza de que alguma forma de perda cerca a alegria de cada encontro? Ou será que essa angústia é a certeza de que na vigência do amor estamos ao mesmo tempo protegidos e desguarnecidos, entregues inteiros em nossa fraqueza, desvalia, necessidade, dependência, vontade de querer?
Pode ser, ainda, que a angústia ou o medo que se associam à revelação do amor, prendam-se a alguma emoção muito antiga, a "emoção inaugural". Seria o inevitável susto diante de qualquer nova prova, talvez porque as primitivas experiências, as nossas e as da espécie, nos assustaram, não se sabe o porquê.
Há, também, a antecipação da certeza de que na vigência do amor, alguma parte antes livre começa a terminar, sucedida por graves responsabilidades: o amor gerará seres, fecundará vidas. Essa incubada certeza promove a rápida passagem de um fluxo de angústia que logo se mistura ao sentido de desabafo e alívio, determinado pela certeza de um encontro profundo.
Estar amando é, pois, sentir o medo da entrega encorajadora. É perceber-se pego em flagrante existencial, no exato momento em que roubava do próprio ser o principal tesouro escondido. É sentir-se marginal das próprias defesas. É não controlar o ficar vermelho, o encabular em hora errada (certa). Estar amando é viver em público a autodenúncia do melhor de que se é capaz.
O susto é uma forma súbita de enfrentar o que sempre tememos encontrar, aceitar ou admitir. O que nos é profundamente verdadeiro sempre vem de mãos dadas com as nossas maiores fraquezas, dependências, carências e necessidades. Daí o susto, daí a angústia, o frio gostoso do medo de amar, primo-irmão do medo de ser. Leia o idioma dos suspiros e lerá a fala do amor.
A constatação do amor trai uma pequena angústia, um medo no meio de tanta alegria! Mas condensa toda a carga do susto pela proximidade do enfrentamento da nossa verdade, seja qual for. É uma verdade da qual se tem distante noção e com a qual a gente prefere ou aprende a se relacionar apenas através de enigmas, fantasias e encantamentos, nunca com ela mesma, como é, do jeito que é.
O susto de estar amando, porém, pode ser, tão-somente, o abalo, o tremor, a inchação, o começo da excitação, aquele sentido da procura, modo e medo que faz as espécies se fundirem na noite dos tempos, na eterna tarefa de perpetuar a vida, não se sabe o porquê. Só se sabe que é bom, necessário, imperioso, determinado, vital, instintivo. Futuro e passado ao mesmo tempo: medo e emoção inaugural - a emoção de estar sendo eterno no que é dolorosamente provisório.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:16 AM
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Domingo, Janeiro 16, 2005
O Caminho da Vida
(Charles Chaplin)
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódios... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
("O Último discurso", do filme O Grande Ditador)
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:21 AM
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Sábado, Janeiro 15, 2005
Hoje é festa dentro de mim
(Danuza Leão)
Resolvi dar férias para as dores, tristezas e decepções.
Cansei de ficar reclamando, de achar culpados para a minha angústia.
Resolvi mandar tudo plantar batatas e decidi: vou fazer uma festa dentro de mim!
Prá começar eu vou para o espelho ensaiar o meu melhor sorriso, vou retirar essas marcas da minha testa,
vou jogar fora essa máscara de dor que me acompanha há tantos dias, e preparem-se: eu quero é ser feliz,
quero conhecer pessoas como você que é alegre, prá cima, alto astral, prá falar a verdade, eu também era assim,
até que uma decepção me jogou para baixo.
Mas, hoje eu não quero falar de tristeza, quero saber é de coisas boas, quero ir ao cinema,
sabe há quanto tempo eu não vou ao cinema? ...
e tem mais, eu vou escolher o filme, chega de "gente" ficar escolhendo o que eu quero.
Hum! acho que vou passar no cabeleireiro antes, vou pintar os cabelos, cortar umas pontas,vou me agradar,
só para o meu prazer.
Engraçado, agora que eu falei nisso,
sabe que eu estava em um relacionamento onde eu fazia tudo para agradar a pessoa que estava comigo,
fazia isso, não fazia aquilo para não magoar, não usava aquela roupa, usava aquele perfume, tudo para acertar,
para manter o "clima", para fazer o gosto da pessoa e resolveu o quê?
Ganhei um pé no traseiro, e perdi a vontade de viver.
Você sabe onde eu errei?
Hoje eu sei!
Eu errei na hora de anular os meus desejos, em transferir a minha vida para as mãos de outra pessoa,
e é lógico, quando eu percebi que era o fim, fiquei sem chão, sem mundo, sem vida.
Mas, hoje é dia de festa e só para o meu prazer vou tomar um banho demorado,
e vou fazer de conta que a água do chuveiro é água de batismo e vou "renascer para a vida".
Sai da minha frente que eu quero viver!
Quem quiser que me acompanhe.....
posted by ANDARILHA DESCALÇA 9:38 PM
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Quinta-feira, Janeiro 13, 2005
Sobre estar sozinho...
(Flávio Gikovate - médico psicoterapeuta)
Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o inicio deste milênio. As relações afetivas também estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito de amor. O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual existe individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.
A idéia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer, neste início de século. O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentirmos completos.
Muitas vezes, ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente, tem atingido mais a mulher. Ela abandona suas características, para se amalgamar ao projeto masculino.
A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: o outro tem de saber fazer o que eu não sei. Se for manso, ele deve ser agressivo, e assim por diante. Uma idéia prática de sobrevivência, e pouco romântica, por sinal.
A palavra de ordem deste século é parceria. Estamos trocando o amor de necessidade, pelo amor de desejo. Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é muito diferente. Com os avanços tecnológicos, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficar sozinha, e aprendendo a conviver melhor consigo mesma.
Elas estão começando a perceber que se sentem frações, mas são inteiras. O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração. Não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma. É apenas um companheiro de viagem.
O homem é um animal que vai mudando o mundo, e depois tem de ir se reciclando, para se adaptar ao mundo o que fabricou. Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo. O egoísta não tem energia própria; ele se alimenta da energia que vem do outro, seja ela financeira ou moral.
A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado. Visa a aproximação de dois inteiros, e não a união de duas metades. E ela só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar sua individualidade. Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva.
A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são ótimas são muito parecido com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem.
Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado. Cada cérebro é único. Nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém. Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto.
Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal. Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo, e não a partir do outro. Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um. O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 8:14 AM
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Quarta-feira, Janeiro 12, 2005
Havia várias formas de dizer-te nada. Eu nada dizia, você nada falava, e tudo quanto se calava nos repetia a cada instante que havia amor ali, mais nada. Havia várias formas de sentir-te amada. Uma delas, em silêncio, celebrava o sono, o sexo, o carinho que mudava a minha vida e insinuava que o tempo ali passou, mais nada. Havia várias formas de cantar-te, cada canção que inconscientemente recordava a dor de algo que a gente já perdia pelos cantos, sem ruídos, se escondendo, até que logo não se achou mais nada. Havia várias formas de virar-te a cara. Fingir que não a vi, quando passava por todos os lugares onde eu ia, presente ou não, psíquica cilada disposta a se vingar, mais nada. Havia várias formas de dizer-te nada. Eu nada dizia, você nada falava, e tudo quanto se calava nos repetia a cada instante que havia amor ali, mais nada.
(Márvio dos Anjos)
posted by ANDARILHA DESCALÇA 4:46 PM
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Segunda-feira, Janeiro 10, 2005
Querem saber como vivo?
"Lhes direi...
Vivo do vento que me mantém lúcida e acordada
para que eu não adormeça na caminhada.
Vivo do mar que me limpa do cansaço da luta
e me recompõe para que eu continue.
Vivo das cores que me ensinam os remédios e os alimentos para que eu sobreviva forte para trabalhar.
Planto-o por onde passo, não perco nem mesmo a terra de um vaso quebrado, pois ali a semente germina.
E sou feliz assim.
Sou simples, pois preciso de pouco.
Sou calma, pois aprendi a esperar.
Tudo vem.
E o campo arado e adubado produz coisas melhores, que valem a pena ser preservadas.
Falo pouco, pois optei por grandes ocupações,
como um trabalho escolhido de ouvir
e por isso não me sobra tempo para as palavras.
Penso muito, mas corretamente.
Desejo só o necessário, ocupo pouco espaço e por isso não sofro por possuir.
Sou feliz, sou abençoada, sou reconfortada e apreciada.
Sou aquilo que todos lutam para obter.
Querem saber quem sou eu,
já que sabem como vivo?
"A PAZ".
(AD)
posted by ANDARILHA DESCALÇA 3:58 PM
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Quinta-feira, Janeiro 06, 2005
Uma parábola
Rabindranath Tagore
"Eu mendigava de porta em porta, pelo caminho da aldeia, quando um carro de ouro surgiu à distância e parecia um sonho esplêndido. Perguntei a mim mesmo quem seria esse Rei de todos os reis. Minhas esperanças subiram ao céu. Eu pensava: terminaram os meus dias nefastos. E tive esperança de esmolas espontâneas e de riquezas soltas na areia. O carro parou onde eu estava. Ele me olhou e disse sorrindo. Eu senti que afinal chegara o dia da minha felicidade. E de repente estendeu-me a mão direita, perguntando: "Que tens para mim?" Ah, teu gesto real de estender a mão direita a um mendigo! Confuso, perplexo, meti a mão na sacola e, devagar, retirei um pequeno grão de trigo, que lhe ofereci. Mas, à tardinha, foi enorme a minha surpresa. Esvaziando a minha sacola, vi um grão de ouro entre os de trigo. Chorei lágrimas amargas e lamentando-me dizia: "Por que não lhe dei tudo?"
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:31 AM
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Quarta-feira, Janeiro 05, 2005
A descoberta do mundo
Clarice Lispector
Se o meu mundo não fosse humano,
também haveria lugar para mim:
eu seria uma mancha difusa de instintos,
doçuras e ferocidades, uma trêmula irradiação de paz e luta:
se o mundo não fosse humano eu me arranjaria sendo um bicho.
Por um instante então desprezo o lado humano da vida
e experimento a silenciosa alma da vida animal.
É bom, é verdadeiro, ela é a semente do que depois se torna humano.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:38 AM
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Domingo, Janeiro 02, 2005
"Fico com medo. Mas o coração bate. O amor inexplicável faz o coração bater mais depressa. A garantia única é que eu nasci. Tu és a forma de ser eu, e eu uma forma de te ser: eis os limites de minha possibilidade.
Estou numa delícia de se morrer dela. Doce quebranto ao te falar. Mas há a espera. A espera é sentir-me voraz em relação ao futuro. Um dia disseste que me amavas. Finjo acreditar e vivo, de ontem para hoje, em amor alegre. Mas lembrar-se com saudade é como se despedir de novo."
Clarisse Lispector :" Água Viva"
posted by ANDARILHA DESCALÇA 7:42 PM
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