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Terça-feira, Novembro 30, 2004
ARMÁRIO
Luiz Fernando Veríssimo
Eu queria senhora, ser o seu armário
e guardar os seus tesouros como um corsário
que coisa louca: ser seu guarda-roupa!
Alguma coisa sólida, circunspecta e pesada
Nessa sua vida tão estabanada.
Um amigo de lei (de que madeira eu não sei).
Uma sentinela do seu leito, com todo o respeito.
Ah, ter gavetinhas para suas argolinhas.
Ter um vão para seu camisolão
e sentir o seu cheiro, senhora, o dia inteiro.
Meus nichos, como bichos
engoliriam suas meias-calças, seus soutiens sem alças,
e tirariam nacos dos seus casacos,
E no meu chão, como trufas, as suas pantufas...
Seus echarpes, seus jeans, seus longos e afins.
Seus trastes e contrastes.
Aquele vestido com asa e aquele de andar em casa.
Um turbante antigo. Um turbante amigo.
Bonecas de pano. Um brinco cigano.
Um chapéu de aba larga. Um isqueiro sem carga.
Suéteres de lã e um estranho astracã.
Ah, vê-la se vendo no meu espelho, correndo.
Puxando, sem dores, os meus puxadores.
Mexendo com o meu interior, à procura de um pregador.
Desarrumando meu ser por um prêt-à-porter...
Ser o seu segredo, senhora, e o seu medo.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:40 PM
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Sábado, Novembro 27, 2004
VISTA CANSADA
Otto Lara Rezende
Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta
como se a visse pela última vez.
Pela última ou pela primeira vez?
Pela primeira vez outro escritor quem disse:
"Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente."
Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua,
não admira que Hemingway tenha acabado como acabou.
Fugiu enquanto pôde, de desespero que o roía com aquele tiro brutal.
Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta.
Um poeta é só isso: um certo modo de ver.
O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar.
Vê não vendo.
Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver.
Parece fácil, mas não é.
O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade.
O campo visual de nossa rotina é como um vazio.
Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta.
Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe.
De tanto ver, você não vê.
Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo
mesmo hall do prédio de seu escritório.
Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro.
Dava-lhe bom-dia e ás vezes lhe passava um recado ou uma correspondência.
Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.
Como era ele?
Sua "cara"?
Sua voz?
Como se vestia?
Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado,
o porteiro teve de morrer.
Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito,
pode ser também que ninguém desse por sua ausência.
O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem,
mas há sempre o que ver, gente, coisas, bichos.
E vemos? Não, não vemos.
Uma criança vê o que o adulto não vê.
Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo.
O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê.
Há pai que nunca viu o próprio filho.
Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas.
Nossos olhos se gastam no dia-a-dia opacos.
É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:02 AM
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Sexta-feira, Novembro 26, 2004
Quem jura mente!
Rosa Pena
Desta vez, paro de fumar e de lhe amar.
Juro que não sou mais poeta e que perdi a inspiração, porque deixei de lhe querer.
Na segunda sem falta eu começo a dieta e nunca mais lhe procuro.
Terça saio do micro e vou caminhar pelas ruas.Aqui não navego mais.
Afinal não sinto mais nada, nadinha por você.Ficar aqui pra quê?
Quarta é ida ao médico.Farei um eletro. Agora será notada a sua ausência .
Quinta, jogo fora o lexotan. Deixei finalmente minhas dependências.Todas!!!!!!!
Sexta, pinto os cabelos e vou pra night.
Sábado já tenho outro e afirmo que sou muito mais feliz com ele.
Domingo não vou a missa, nem rezo. Vergonha de confessar a Deus tantas mentiras.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:02 AM
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Quinta-feira, Novembro 25, 2004
Despedida
Entre meu amor e eu hão de levantar-se
trezentas noites como trezentas paredes
e o mar será magia entre nós.
De sereias várias ao inverso
Não haverá senão recordações.
Ó tardes merecidas pela pena
noites esperançadas de olhar-te
campos de meu caminho, firmamento
que estou vendo e perdendo...
Definitiva como um mármore
entristecerá tua ausência
outras tardes.
(Jorge Luís Borges)
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:49 AM
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Quarta-feira, Novembro 24, 2004
PRECISANDO DE AMOR ?
Quem não gosta de ser amado? Ser paparicado?
Receber atenção especial, presentinhos e beijinhos doces?
Quem não gosta de surpresinhas gostosas, beijo na boca e abraços apertados?
Quem de livre e espontânea vontade prefere a solidão a uma boa companhia?
Ora, todo mundo quer uma boa companhia e de preferência para todo o sempre.
Mas conviver com essa "boa companhia" diariamente por 3, 5, 10, 15, 25 anos é que é o difícil. No começo dos relacionamentos e até 1 ano de vida amorosa, tudo são mais ou menos flores, (se o seu relacionamento tem menos de um ano e já é mais de brigas e discussões, caia fora dessa fria).
Não adianta você dizer que depois de três meses apenas que "encontrou o amor de sua vida", porque o amor precisa de convivência para ser devidamente testado. Nesse mundo maluco e agitado, as pessoas estão se encontrando hoje, se amando amanhã e entrando em crise depois de amanhã.
Uma coisa frenética e louca que tem feito muita gente, que se julgava equilibrada, perder os parafusos e fazer muita besteira.
Paixão, loucura e obsessão, três dos mais perigosos ingredientes que estão crescendo nos relacionamentos de hoje em dia por causa da velocidade das informações e o medo de ficar sozinho.
As pessoas não estão conseguindo conviver sozinhas com seus defeitos, vícios e qualidades, e partem desesperadamente para encontrar alguém, a tal da alma gêmea, e se entregam muitas vezes aos primeiros pares de olhos que piscam para o seu lado.
Vale tudo nessa guerra, chat, carta, agência, festas e até roubar o parceiro de alguém.
É uma guerra para não ficar sozinho.
Medo? Com medo de se encarar no espelho e perceber as próprias eficiências?
Com medo de encarar a vida e suas lutas?
Então a pessoa consegue alguém (ou acha que está nascendo um grande amor), fecha os olhos para a realidade e começa a viver um sonho, trancado em si mesmo, nos quartos e no seu egoísmo, a pessoa transfere toda a sua carência para o(a) parceiro(a), transfere a responsabilidade de ser feliz para uma pessoa que na verdade ela mal conhece.
Então, um belo dia, vem o espanto, a realidade, o caso melado, o "falso amor" acaba, e você que apostou todas as suas fichas nesse romance fica sem amor e sem eira nem beira, e o pior: muitas vezes fica sem vontade de viver.
Pobre povo desse século da pressa!
Precisamos urgentemente voltar o costume "antigo" de "ter tempo", de dar um tempo para o tempo nos mostrar quem são as pessoas.
Namorar é conhecer, é reconhecer, é a época das pesquisas, do reconhecimento...
Se as pessoas não se derem um tempo, não buscarem se conhecer mais, logo em breve teremos milhares de consultórios lotados de "depressivos" e cemitérios cada vez mais cheios de suicidas", seres cansados de si mesmos...
Faça um bem para si mesmo e para os outros, quando iniciar um relacionamento procure dar tempo para tudo: passeie muito de mãos dadas, converse mais sobre gostos e preferências, conheça a família e mostre a sua, descubra os hábitos e costumes.
Parece careta demais?
Que nada, isso é a realidade que pode salvar o relacionamento e muitas vidas.
Pense nisso e se gostar, passe essa mensagem para frente quem sabe se juntos, não ajudamos alguém carente de amor a encontrar um motivo para ser feliz?
Muita pretensão?
Não, só vontade de te ver feliz.
Eu acredito em você! E acredito no amor que faz bem.....
Luis Fernando Veríssimo
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:52 AM
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Sábado, Novembro 20, 2004
Eu sou um professor.
Nasci no primeiro momento em que uma pergunta saltou da boca de uma criança.
Tenho sido muitas pessoas em muitos lugares.
Sou Sócrates, estimulando a juventude de Atenas para descobrir novas idéias usando perguntas.
Sou Anne Sullivan, tamborilando os segredos do universo sobre a mão estendida de Helen Keller.
Sou Esopo e Hans Christian Andersen, revelando a verdade por meio de muitas, muitas estórias.
Sou Darcy Ribeiro, construindo uma universidade a partir do nada no planalto brasileiro.
Sou Ayrton Senna, que transforma sua fama de herói esportista em recursos para educar crianças em seu país.
Sou Anísio Teixeira, na sua luta de democratização da educação para que todas as crianças brasileiras tenham acesso à escola.
Os nomes daqueles que exerceram minha profissão constituem uma galeria da fama da humanidade: Buda, Paulo Freire, Confúcio, Montessori, Emilia Ferreiro, Moisés, Jesus.
Eu sou também aqueles nomes e rostos que já foram esquecidos, mas cujas lições e cujo caráter serão para sempre lembrados nas realizações dos que educaram.
Já chorei de alegria em casamentos de ex-alunos, ri de felicidade pelo nascimento de seus filhos e me quedei de cabeça baixa, em dor e confusão, junto a sepulturas cavadas cedo demais para corpos jovens demais.
No decorrer de um dia já fui chamado para ser artista, amigo, enfermeiro, médico, treinador; tive de encontrar objetos perdidos, emprestar dinheiro, fui motorista de táxi, psicólogo, substituto de pai e mãe, vendedor, político e guardião da fé.
Apesar de mapas, gráficos, fórmulas, verbos, histórias e livros, na verdade não tive nada a ensinar aos meus alunos porque o que eles de fato têm de aprender é quem eles são. E eu sei que é preciso um mundo para ensinar a uma pessoa quem ela é.
Eu sou um paradoxo. Quanto mais escuto, mais alta se faz ouvir minha voz. Quanto mais estou disposto a receber com simpatia o que vem de meus alunos, mais tenho para oferecer-lhes.
Riqueza material não faz parte dos meus objetivos, mas eu sou um caçador de tesouros, dedicado em tempo integral à procura de novas oportunidades para meus alunos usarem seus talentos e buscando sempre descobrir seu potencial, às vezes enterrado sob o sentimento do fracasso.
Sou o mais afortunado dos trabalhadores.
Um médico pode trazer uma vida ao mundo num só momento mágico. A mim é dado cuidar que a vida renasça a cada dia com novas perguntas, melhores idéias e amizades mais sólidas.
Um arquiteto sabe que, se construir com cuidado, sua estrutura pode durar séculos. Um professor sabe que, se construir com amor de verdade, sua obra com certeza durará para sempre.
Sou um guerreiro que luta todos os dias contra a pressão de colegas, a negatividade, o medo, o conformismo, o preconceito, a ignorância e a apatia. Mas tenho grandes aliados: a inteligência, a curiosidade, o apoio dos pais, a individualidade, a criatividade, a fé, o amor e o riso. Todos vêm reforçar minha trincheira.
E a quem devo agradecer pela vida maravilhosa que tenho senão a vocês, pais, que me honraram ao me confiar seus filhos, que são sua maior contribuição para a eternidade.
E assim tenho um passado rico em recordações. Tenho um presente desafiador, cheio de aventuras e alegrias, porque me é dado passar todos os meus dias com o futuro.
Sou um professor... e agradeço a Deus por isso, todos os dias.
(John W. Schlatter é um ex-professor americano.
Seu poema foi extraído do best seller Chicken Soup for the Soul
(Canja de Galinha para a Alma), de Jack Canfield e Mark Victor Hansen.)
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:57 AM
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Sexta-feira, Novembro 12, 2004
Quando plantamos uma roseira, notamos que ela fica dormindo muito tempo no seio da terra, mas ninguém ousa criticá-la, dizendo:
"Você não tem raízes profundas" ou "Falta entusiasmo na sua relação com o campo".
Ao contrário, nós a tratamos com paciência, água e adubo.
Quando a semente se transforma em muda, não passa pela cabeça de ninguém condená-la como frágil, imatura, incapaz de nos brindar imediatamente com as rosas que estamos esperando.
Ao contrário: nos maravilhamos com o processo do nascimento das folhas seguido dos botões, e, no dia em que as flores aparecem, nosso coração se enche de alegria.
Entretanto, a rosa é a rosa desde o momento em que nasce até seu período de esplendor, e termina murchando e morrendo.
A cada estágio que atravessa - semente, broto, botão, flor - expressa o melhor de si.
Também nós, em nosso crescimento e constante mutação, passamos por vários estágios: vamos aprender a reconhecê-los, antes de criticar a lentidão de nossas mudanças.
(W. Timothy Gallway)
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:05 AM
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Segunda-feira, Novembro 08, 2004
MUDE
Edson Marques
Mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.
Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas,
calmamente,
observando com atenção
os lugares por onde
você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os teus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.
Tire uma tarde inteira
para passear livremente na praia,
ou no parque,
e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama...
depois, procure dormir em outras camas.
Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais...
leia outros livros,
Viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia
numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores,
novas delícias.
Tente o novo todo dia.
o novo lado,
o novo método,
o novo sabor,
o novo jeito,
o novo prazer,
o novo amor.
a nova vida.
Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.
Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida
compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo,
jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado,
outra marca de sabonete,
outro creme dental...
tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.
Ame muito,
cada vez mais,
de modos diferentes.
Troque de bolsa,
de carteira,
de malas,
troque de carro,
compre novos óculos,
ecscreva outras poesias.
Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores.
Abra conta em outro banco.
Vá a outros cinemas,
outros cabeleireiros,
outros teatros,
visite novos museus.
Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só.
Arrume um outro emprego,
uma nova ocupação,
um trabalho mais light,
mais prazeroso,
mais digno,
mais humano.
Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as.
Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores,
mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
o movimento,
o dinamismo,
a energia.
Só o que está morto não muda!
posted by ANDARILHA DESCALÇA 1:01 AM
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Sábado, Novembro 06, 2004
O CASAL PERFEITO.
Lya Luft
A solid?o dos homens tem a medida da solid?o de suas mulheres. Isso eu disse eescrevi - e repito - em dezenas de palestras por este pa?s afora. A? me pedempara escrever sobre o casal perfeito: bom para quem gosta de desafios.O casal perfeito seria o que sabe aceitar a solid?o inevit?vel do ser humano,sem se sentir isolado do parceiro - ou sem se isolar dele. O casal perfeitoseria o que entende, aceita, mas n?o se conforma com o desgaste de qualquerconv?vio e qualquer uni?o?Talvez se possa come?ar por a?: n?o correr para o casamento, o namoro, o amante(n?o importa) imaginando que agora ser?o solucionados ou suavizados todos osproblemas - a chatice da casa dos pais, as amigas ou amigos casando e tendofilhos, a mesmice do emprego, chegar sozinha ?s festas e sexo dif?cil e semafeto.N?o cair nos bra?os do outro como quem cai na armadilha do "enfim nunca maiss?!", porque a? ? que a coisa come?a a ferver. Conviver ? enfrentar o pior dosinimigos, o insidioso, o silencioso, o sempre ? espreita, o incans?vel: o t?dio,o desencanto, esse inimigo de dois rostos.Passada a primeira fase de paix?o (desculpem, mas ela passa, o que n?o significat?dio nem fim de tes?o), a gente come?a a amar de outro jeito. Ou a amar melhor;ou, a? ? que a gente come?a a amar. A querer bem; a apreciar; a respeitar; avalorizar; a mimar; a sentir falta; a conceder espa?o; a querer que o outrocres?a e n?o fique grudado na gente.O cotidiano baixa sobre qualquer rela??o e qualquer vida, com a poeira dodesencanto e do cansa?o, do t?dio. A conta a pagar, a empregada que n?o veio, ofilho doente, a filha complicada, a m?e com Alzheimer, o pai deprimido ousimplesmente o emprego sem gra?a e o patr?o de mau humor. E a gente explode equer matar e morrer, quando cai aquela ?ltima gota - pode ser uma trivial?ssimagota - e nos damos conta: nada mais ? como era no come?o.Nada foi como eu esperava. N?o sei se quero continuar assim, mas tamb?m n?o seio que fazer. Como a gente n?o desiste f?cil, porque afinal somos guerreiros ounem estar?amos mais aqui, e tamb?m porque h? os filhos, os compromissos, a casa,a grana e at? ainda o afeto, ? preciso inventar um jeito de recome?ar,reconstruir.Na verdade devia-se reconstruir todos os dias. Usar da criatividade numarela??o. O problema ? que, quando se fala em criatividade numa rela??o, amaioria pensa logo em inova??es no sexo, mas transar ? o resultado, n?o o meio.Um amigo disse no anivers?rio de sua mulher uma das coisas mais belas que ouvi:"Todos os dias de nosso casamento (de uns 40 anos), eu te escolhi de novo comominha mulher".Mas primeiro ter?amos de nos escolher a n?s mesmos diariamente.Ao menos de vez em quando sentar na cama ao acordar, pensar: como anda a minhavida? Quero continuar vivendo assim? Se n?o quero, o que posso fazer paramelhorar?Quase sempre h? coisas a melhorar, e quase sempre podem ser melhoradas. Aindaque seja algo bem simples; ainda que seja mais complicado, como realizar o velhosonho de estudar, de abrir uma loja, de fazer uma viagem, de mudar de profiss?o.N?s nos permitimos muito pouco em mat?ria de felicidade, alegria, realiza??o esobretudo abertura com o outro. Velhos casais solit?rios ou jovens casaissolit?rios dentro de casa s?o terrivelmente tristes e terrivelmente comuns.? dif?cil? ? dif?cil. ? duro? ? duro. Cada dia, levantar e escovar os dentes j?? um ato her?ico, dizia H?lio Pellegrino. Viver ? um hero?smo, viver bem um amormais ainda.O casal perfeito talvez seja aquele que n?o desiste de correr atr?s do sonho deque, apesar dos pesares, escolheria novamente, e am?m.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:15 AM
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Quinta-feira, Novembro 04, 2004
O bom e o ruim
Letícia Thompson
É a gente que mede a intensidade e os valores da vida.
A alegria e a tristeza, o riso e a dor são tão comuns
que deveríamos aceitá-los como parte do quotidiano.
Mas não.
Aceitamos o bom e rejeitamos o ruim
como se este não tivesse importância,
como se não fosse através dele
que aprendemos a saborear as grandes alegrias.
Isso por que só chegamos ao êxtase da alegria
quando antes descermos ao fundo da melancolia,
da tristeza, da solidão.
Aquele que sabe sofrer uma grande dor
sabe apreciar uma grande alegria ao seu justo valor.
Porém, permancecer em um estado de espírito
ou em outro depende muito de cada um de nós.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 10:14 PM
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