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{Sexta-feira, Julho 30, 2004}

 

Poetas em crise
Dalila Teles Veras


No princípio era o caos. A seu tempo, a natureza encarregou-se de ordenar o mundo, colocando coisas e seres nos seus devidos lugares. A certa altura, entraram em cena os poetas - seres insatisfeitos com a ordem natural das coisas - e desarrumaram o mundo, criando uma nova ordem através da palavra.

O poeta passou a ser filósofo - aquele que pensa - e a poesia um ato de fazer (poiésis) e exprimir idéias. Expulsos de muitas repúblicas, os poetas, perniciosos porque pensantes, puseram os pés na estrada e percorreram o mundo para depois narrar o que viram e ouviram, jamais da forma que viram ou ouviram, pois se assim fosse, seriam historiadores e não poetas.

Enquanto os poetas subvertiam através de um mundo onírico, os homens que nada entendiam de poesia, subvertiam a ordem verdadeira, substituíam valores éticos e morais por outros valores de pura esperteza e covardia.

Perplexos diante da subversão geral, os poetas, sem alternativa diante de tão desgastado termo, passaram a subverter apenas e tão somente a linguagem, tornando-a, muitas vezes, incompreensível à maioria dos mortais (tente ler, por exemplo, a recente tradução de Finnegans Wake, de Joyce, e veja até onde chegou toda essa subversão lingüística). Muitos, simplesmente, esqueceram do homem em sua poesia e voltaram o foco de suas preocupações apenas para a língua, que também pode ser a pátria (já o disse o poeta), mas, convenhamos, não é tudo o que a pátria deve ser. A poesia, na pós-modernidade, passou a falar só da própria poesia.

Por outro lado, como narrar ou (re)criar (no sentido da mimesis) o horror em que se transformou o mundo, o absurdo da força bruta dos pós-bárbaros, possuidores de tão poderosas e mortais armas, sem produzir mais horror? Narrar o horror implica recriá-lo e, ao que parece, o horror do horror tem levado o ser humano a fabricar mais horror. As crianças que tiveram substituídas as brincadeiras de roda, de pião, de bolinha de gude e outras inocências, por jogos (games) de horror e morte, que banalizam e incentivam o ato de matar e morrer, não estariam sendo vítimas desse ato exorcista? Vítimas hoje e prováveis algozes amanhã?

Diante de tanta perplexidade, os poetas em crise buscam um sentido para uma nova odisséia a ser narrada. Quem sabe? a fundação de outro admirável mundo novo, Ítaca renovada, onde a inteligência prevaleça sobre a força bruta e a poesia sobre a pirotecnia verbal.

posted by ANDARILHA DESCALÇA 8:28 AM

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{Quinta-feira, Julho 29, 2004}

 

O dia mais gostoso
Cissa de Oliveira


Que os domingos são os dias mais gostosos, todo mundo sabe. Mas quando é que eles são bons, mesmo? É quando a gente se levanta tarde, sem muito pra pensar, a não ser sobre as escolhas a fazer para relaxar? Alguns, ao contrário, dirão que é quando se levantam cedinho, e se aprontam correndo para aquele passeio, aquela visita ou aquele encontro. Cada um terá o seu motivo, mas que domingo é um senhor dia, lá isso é.


E os domingos de quando se é criança? Bem, no meu tempo, esse era o dia de se brincar, tomar guaraná, muito provavelmente o Antarctica, e isso não é propaganda - aquele na garrafa verdinha ¿ que delícia linda! Comer doce e sempre passear na casa da avó.


E as festas de domingo? Menino de camisa, calça curta, botina. Menina de vestido claro, rodado, bordado. Laço no cabelo, na cintura, no sapato. Demais, era sorriso na cara, flor no jardim, mesa a perder de vista, no quintal. Portão escancarado, música, toalha de festa, talher e copo bonito, brilhando na frente do prato, mas o que a meninada disputava mesmo, era o colorido dos canudinhos.

¿__ O amarelinho é meu! Trocar? Só se for pelo branco, ou então... pelo verde¿.


Domingo era o dia de se desgarrar a correr. Deixar o futuro bem longe. E, desconhecendo o fim da mágica, ensaiar as historinhas dos livros, como se fossem brincadeiras de roda.


Hoje, na maioria das casas, garrafas e latinhas, de guaraná ou não, ocupam diferentes espaços, na geladeira ou não, e ver os avós às vezes já não é questão de mágica de final de semana, mas de necessidade de todo dia enquanto os pais trabalham duro. Há que se garantir boa escola; há que se... tantas coisas! E no lugar dos antigos portões abrem-se as portas dos ¿shoppings¿, paraísos planejados, tentando oferecer alguma trava à insegurança. O menino e a menina usam camisetas, moletom, jeans e tênis de marca. Tem guaraná? Tem sim, senhor! Latinhas de todas as marcas e cores, tem. E tem canudinho? Tem sim, senhor. Sobre a graça em disputá-los é que eu já não sei.


Espero que no futuro alguém escreva com saudade sobre seus domingos. Porque o dia mais gostoso... Esse sempre há de existir.

Ah! Há de existir sim, senhor!

Cissa de Oliveira



posted by ANDARILHA DESCALÇA 9:31 AM

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{Quarta-feira, Julho 28, 2004}

 


A vida ensina

A vida ensina.
Se você pensa que sabe; que a vida lhe mostre o quanto não sabe.
Se você é muito simpático mas leva meia hora para concluir seu pensamento; que a vida lhe ensine que explica melhor o seu problema, ou conta melhor o seu caso, aquele que começa pelo fim.
Se você faz exames demais; que a vida lhe ensine que doença é como esposa ciumenta: se procurar demais, acaba achando.
Se você pensa que os outros é que sempre são isso ou aquilo; que a vida lhe ensine a olhar mais para você mesmo.
Coma cebolas, muitas cebolas.
Fazem bem à saúde e muito ajudam contra chatos em close.
Chato em close é aquele que fala com a cara em cima da sua.
Você recua,ele avança.
Dá muito em coquetéis.
Se você pensa que viver é horizontal, unitário, definido, monobloco; que a vida lhe ensine a aceitar o conflito como condição lúdica da existência.
Tanto mais lúcida quanto mais complexa. Tanto mais complexa quanto mais consciente.
Tanto mais consciente quanto mais difícil. Tanto mais difícil quanto mais grandiosa.
Se você pensa que disponibilidade com paz não é felicidade; que a vida lhe ensine a aproveitar os raros momentos em que ela (a paz) surge.
Que a vida ensine a cada menino a seguir o cristal que leva dentro, sua bússola existencial não revelada, sua percepção não verbalizável das coisas, sua capacidade
de prosseguir com o que lhe é peculiar e próprio, por mais que pareçam úteis e eficazes as coisas que a ele, no fundo, não soam como tais, embora façam aparente
sentido e se apresentem tão sedutoras quanto enganosas.
Que a vida nos ensine, a todos, a nunca dizer as verdades na hora da raiva.
Que desta aproveitemos apenas a forma direta e lúcida pela qual as verdades
se nos revelam por seu intermédio; mas para dizê-las depois.
Que a vida ensine que tão ou mais difícil do
que ter razão, é saber tê-la.
Que aquele garoto que não come, coma. Que aquela que mata, não mate.
Que aquela timidez do pobre passe.
Que a moça esforçada se forme.
Que o jovem jovie.
Que o velho velhe.
Que a moça moce.
Que a luz luza.
Que a paz paze.
Que o som soe.
Que a mãe manhe.
Que o pai paie.
Que o sol sole.
Que o filho filhe.
Que a árvore arvore.
Que o ninho aninhe.
Que o mar mare.
Que a cor core.
Que o abraço abrace.
Que o perdão perdoe.
Que tudo vire verbo e verbe. Verde. Como a
esperança.
Como no princípio. Pois, do jeito que o
mundo vai, dá vontade de apagar e começar tudo de novo.
A vida é substantiva, nós é que somos adjetivos.

Por Artur da Távola

posted by ANDARILHA DESCALÇA 10:05 AM

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{Terça-feira, Julho 27, 2004}

 

Atalhos
Martha Medeiros


Quanto tempo a gente perde na vida? Se somarmos todos os minutos jogados fora, perdemos anos inteiros. Depois de nascer, a gente demora pra falar, demora pra caminhar, aí mais tarde demora pra entender certas coisas, demora pra dar o braço a torcer. Viramos adolescentes teimosos e dramáticos. Levamos um século para aceitar o fim de uma relação, e outro século para abrir a guarda para um novo amor, e já adultos demoramos para dizer a alguém o que sentimos, demoramos para perdoar um amigo, demoramos para tomar uma decisão. Até que um dia a gente faz aniversário. 37 anos. Ou 41. Talvez 48. Uma idade qualquer que esteja no meio do trajeto. E a gente descobre que o tempo não pode continuar sendo desperdiçado. Fazendo uma analogia com o futebol, é como se a gente estivesse com o jogo empatado no segundo tempo e ainda se desse ao luxo de atrasar a bola pro goleiro ou fazer tabelas desnecessárias. Que esbanjamento. Não falta muito pro jogo acabar. É preciso encontrar logo o caminho do gol.

Sem muita frescura, sem muito desgaste, sem muito discurso. Tudo o que a gente quer, depois de uma certa idade, é ir direto ao assunto. Excetuando-se no sexo, onde a rapidez não é louvada, pra todo o resto é melhor atalhar. E isso a gente só alcança com alguma vivência e maturidade.

Pessoas experientes já não cozinham em fogo brando, não esperam sentados, não ficam dando voltas e voltas, não necessitam percorrer todos os estágios. Queimam etapas. Não desperdiçam mais nada.

Uma pessoa é sempre bruta com você? Não é obrigatório conviver com ela.

O cara está enrolando muito? Beije-o primeiro.

A resposta do emprego ainda não veio? Procure outro enquanto espera.

Paciência só para o que importa de verdade. Paciência para ver a tarde cair. Paciência para sorver um cálice de vinho. Paciência para a música e para os livros. Paciência para escutar um amigo. Paciência para aquilo que vale nossa dedicação. Pra enrolação, atalho.

posted by ANDARILHA DESCALÇA 8:54 AM

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{Segunda-feira, Julho 26, 2004}

 

Para matar um grande amor

Muito se louvou a arte do encontro, mas poucos louvaram a arte do adeus. No entanto, não há
gesto tão profundamente humano quanto uma despedida. É aquele momento em que renunciamos não
apenas à pessoa amada, mas a nós mesmos, ao mundo, ao universo inteiro. O amor relativiza;
a renúncia absolutiza. E não há sentimento mais absoluto do que a solidão em que somos lançados
após o derradeiro abraço, o último e desesperado entrelaçar de mãos.
Arrisco mesmo a dizer: só os amores verdadeiros se acabam. Os que sobrevivem, incrustados
no hábito de se amar, podem durar uma vida inteira e podem até ser chamados de amor –
mas nunca foram ou serão um amor verdadeiro. Falta-lhes exatamente o Dom da finitude, abrupta
e intempstiva. Qualidade só encontrável nos amores que infundem medo e temor de destruição.
Não se vive o amor; sofre-se o amor. Sofre-se a ansiedade de não poder retê-lo, porque nossas
cordas afetivas são muito frágeis para mantê-lo retido e domesticado como um animal de estimação.
Ele é xucro e bravio e nos despedaça a cada embate – e por fim se extingue e nos extingue
com ele. Aponta numa única direção: o rompimento. Pois só conseguiremos suportá-lo se
ocultarmos de nossos sentidos o objeto dessa desvairada paixão.
Mas não se pense que esse é um gesto de covardia. O grande amor exige isso. O rompimento é sua
parte complementar. Uma maneira astuciosa de suspender a tragédia, ditada pelo instinto
de sobrevivência de cada um dos amantes. Morrer um pouco para se continuar vivendo. E poder
usufruir daquele momento mágico, embebido de ternura, em que a voz falseia, as mãos se
abandonam e cada qual vê o outro se afastar como se através de uma cortina líquida ou de um
vitral embaçado.
Há todo um imaginário sobre os adeuses e as separações, construído pela literatura e pelo
cinema. O cenário pode ser uma estação de trem, um aeroporto (remember Casablanca), um
entroncamento rodoviário. Pode ser uma praça ou uma praia deserta. Falésias ou ruínas de
uma cidade perdida. Pode estar garoando ou nevando, mas vento é imprescindível. As nuvens
devem revolutear no horizonte, como a sugerir a volubilidade do destino. Os cabelos da amada,
longos e escuros, fustigam de leve seus lábios entreabertos. Há sutis crispações, um discreto
arfar de seios. E os olhos, ah!, os olhos... A visão é o último e o mais frágil dos sentidos
que ainda nos une ao que acabamos de perder.
Uma grande dor, uma solidão cósmica, um imenso sentimento de desterro. Que se curam algum tempo
depois com um amor vulgar, desses feitos para durar uma vida inteira...

Jamil Snege

posted by ANDARILHA DESCALÇA 1:29 PM

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{Sábado, Julho 24, 2004}

 


Aproveitas a vida
Omar Khayam, Rubaiat

Bem sabes que nenhum poder possuis sobre o destino. Por que te deixares atormentar pela incerteza do amanhã? Se és sábio, aproveita o momento presente. O futuro? Que podes sobre o futuro?
Convence-te disto: um dia, tua alma abandonará teu corpo e serás laçado para trás do véu que flutua entre o universo e o desconhecido. Enquanto esse dia não chegar, procura ser feliz. Rodeia-te de belas raparigas e acaricia-as.
Pára de te preocupar com o que não sabes. A vida é breve como um suspiro. A poeira que foi Djemchid ou Kai-Kobad gira na tempestade vermelha que estás contemplando. O mundo é uma miragem. A vida é um sonho.
Pobre homem, nunca saberás nada. Nunca conseguirás explicar um só dos mistérios do mundo. E já que as religiões prometem o paraíso só para depois da morte, cria um paraíso para teu gozo aqui na Terra. Pois o outro talvez não exista.

posted by ANDARILHA DESCALÇA 8:50 PM

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{Sexta-feira, Julho 23, 2004}

 

Trecho da carta de Vincent van Gogh para seu irmão Theo
Haia ¿ Dezembro 1881 ¿ Setembro de 1883

É preciso entender bem como eu considero a arte.

Para chegar à verdade, é preciso trabalhar longamente e muito. O que eu quero dizer e o que eu aspiro é tremendamente difícil, e, no entanto, não acredito estar aspirando alto demais.

Quero fazer desenhos que impressionem certas pessoas.

Seja na figura, seja na paisagem, eu gostaria de exprimir não algo sentimentalmente melancólico, mas uma profunda dor.

Em suma, quero chegar ao ponto em que digam de minha obra: este homem sente profundamente, este homem sente delicadamente. Apesar da minha suposta grosseria, você me entende? Ou precisamente por causa dela.

O que é que sou aos olhos da maioria ¿ uma nulidade ou um homem excêntrico ou desagradável ¿ alguém que não tem uma situação na sociedade ou que não a terá; enfim, pouco menos que nada.

Bom suponha que seja exatamente assim, então eu gostaria de mostrar minha obra, o que existe no coração de tal excêntrico, de tal nulidade.

Esta é minha ambição, que está menos fundada no rancor que no amor ¿apesar de tudo¿, mas fundada num sentimento de serenidade que na paixão. Ainda que freqüentemente eu esteja na miséria, há, contudo em mim uma harmonia e uma música calma e pura. Na mais pobre casinha no mais sórdido cantinho, vejo quadros e desenhos. E meu espírito vai nesta direção por um impulso irresistível.

posted by ANDARILHA DESCALÇA 9:03 AM

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{Quinta-feira, Julho 22, 2004}

 



SER ACEITO

Artur da Távola


Ser aceito não é receber a concordância. É receber até a discordância, mas dentro de um princípio indefinível e fluídico de acolhimento prévio e gratuito do que se é como pessoa.

Ser aceito é realizar a plenitude do sentido do verbo latino "accipio": - receber, tomar para si, acolher, perceber, ouvir, compreender, interpretar, sofrer, experimentar, aceitar...

Ser aceito é ser percebido antes mesmo de ser entendido. E ser acolhido antes mesmo de ser querido. E ser recebido antes mesmo de ser ouvido. É ser compreendido antes mesmo de ser conhecido. É, pois, um estado de compreensão prévia, que abre caminho para uma posterior concordância ou discordância, sem perda do respeito fundamental por nossa maneira de ser.

Quer fazer alguém feliz? Aceite-o. E depois discorde à vontade.

Ser aceito implica mecanismos mais sutis e de longo alcance do que apenas os racionais. Implica intuição, compreensão milagrosa, conhecimento efetivo e afetivo do universo interior, cuidado com as cicatrizes e nervos expostos. Ser aceito revela, renova e faz crescer a nossa melhor dimensão.

Ser aceito é rememorar um momento de medo que foi aplacado, um olhar de amor e carência que encontrou resposta e afago, uma perda de si mesmo atendida no instante em que se deu, um exercício de bondade que não encontrou reprimida, julgamento, cobrança, medo, desconfiança ou agressão.

Ser aceito é não ser preciso explicar. É não ser preciso definir. É não ser preciso ter para dar. É não ser preciso agradar. É não ser preciso embelezar, dourar a pílula, contabilizar o afeto ou ficar bem com os outros. Ser aceito é o milagroso mistério do afeto dos que não cobram retorno ou gratidão.

posted by ANDARILHA DESCALÇA 8:26 AM

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{Quarta-feira, Julho 21, 2004}

 



"A memória é uma paisagem contemplada de um comboio em movimento. Vemos crescer por sobre as acácias a luz da madrugada, as aves debicando a manhã, como a um fruto. Vemos, além, um rio sereno e o arvoredo que o abraça. Vemos o gado pastando lento, um casal que corre de mãos dadas, meninos dançando o futebol, a bola brilhando ao Sol (um outro Sol). Vemos os lagos plácidos onde nadam os patos, os rios de águas pesadas onde os elefantes matam a sede. São coisas que correm diante dos nossos olhos, sabendo que são reais, mas estão longe, não as podemos tocar. Algumas estão já tão longe, e o comboio avança tão veloz, que não temos a certeza que realmente aconteceram. Talvez as tenhamos sonhado. (...) Lembro-me de factos soltos, incoerentes, fragmentos de um vasto sonho. Uma mulher numa festa, já no fim da festa, naquela vaga embriaguez de fumo, de álcool de puro cansaço metafísico, agarrando-me por um braço, sussurrando-me ao ouvido:
'Sabe, a minha vida daria um romance, não um romance qualquer, um grande romance...'"

José Eduardo Agualusa, O Vendedor de Passados

posted by ANDARILHA DESCALÇA 8:20 AM

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{Terça-feira, Julho 20, 2004}

 


Mude
(Edson Marques)
incluído no livro "Solidão a mil"

Mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade.
Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os teus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.
Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama... depois, procure dormir em outras camas.
Assista a outros programas de tv, compre outros jornais... leia outros livros,
Viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade. Durma mais tarde. Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos, novas cores, novas delícias.
Tente o novo todo dia. o novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor. a nova vida. Tente.
Busque novos amigos. Tente novos amores.
Faça novas relações.
Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado... outra marca de sabonete, outro creme dental... tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores. Vá passear em outros lugares. A
me muito, cada vez mais, de modos diferentes.
Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro, compre novos óculos, escreva outras poesias.
Jogue os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores.
Abra conta em outro banco. Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros, visite novos museus.
Mude. Lembre-se de que a Vida é uma só.
E pense seriamente em arrumar um outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais light, mais prazeroso, mais digno, mais humano. Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.
Seja criativo. E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas. Troque novamente. Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa. O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia.
Só o que está morto não muda !

posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:16 PM

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{Segunda-feira, Julho 19, 2004}

 

DA TARTARUGA
Paulo Coelho

Claudia Martins vem servir nossa mesa - num café em San Diego, Califórnia. Conheci Cláudia no Brasil há quatro anos, e conto aos amigos a vida que está levando nos EUA: dorme apenas três horas - pois trabalha no café até de madrugada, e é baby-sitter durante o dia inteiro.
- "Não sei como aguenta", diz alguém.
- "Existe um conto budista sobre uma tartaruga", responde uma argentina em nossa mesa. "Ela caminhava por um pântano, suja de lama, quando passou diante de um templo. Ali viu um casco de tartaruga todo adornado de ouro e pedras preciosas. "Não te invejo, antiga amiga", pensou a tartaruga. "Você está coberta de jóias, mas eu estou fazendo o que quero"".

posted by ANDARILHA DESCALÇA 8:45 AM

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{Sexta-feira, Julho 16, 2004}

 


Amai-vos um ao outro, mas não façais do amor um grilhão.
Que haja, antes, um mar ondulante entre as praias de vossa alma.


Enchei a taça um do outro, mas não bebais da mesma taça.


Dai do vosso pão um ao outro, mas não comais do mesmo pedaço.


Cantai e dançai juntos, e sede alegres,


mas deixai cada um de vós estar sozinho.


Assim como as cordas da lira são separadas e,


no entanto, vibram na mesma harmonia.


Dai vosso coração, mas não o confieis à guarda um do outro.


Pois somente a mão da Vida pode conter vosso coração.


E vivei juntos, mas não vos aconchegueis demasiadamente.


Pois as colunas do templo erguem-se separadamente.


E o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro.



- Gibran Kahlil Gibran -


posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:01 PM

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{Quinta-feira, Julho 15, 2004}

 

Aprendendo...
(Mário Quintana)


Aprenda a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você...
A idade vai chegando e, com o passar do tempo, nossas prioridades na vida vão mudando...
A vida profissional, a monografia de final de curso, as contas a pagar.
Mas uma coisa parece estar sempre presente... A busca pela felicidade com o amor da sua vida. Desde pequenas ficamos nos perguntando "quando será que vai chegar?"
E a cada nova paquera, vez ou outra nos pegamos na dúvida "será que é ele?"
Como diz o meu pai: "nessa idade tudo é definitivo", pelo menos a gente achava que era.
Cada namorado era o novo homem da sua vida.
Faziam planos, escolhiam o nome dos filhos, o lugar da lua-de-mel e, de repente...
Plaft! Como num passe de mágica ele desaparecia, fazendo criar mais expectativas a respeito "do próximo".
Você percebe que cair na guerra quando se termina um namoro é muito natural, mas que já não dura mais de três meses.
Agora, você procura melhor e começa a ser mais seletiva.
Procura um cara formado, trabalhador, bem resolvido, inteligente, com aquele papo que a deixa sentada no bar o resto da noite.
Você procura por alguém que cuide de você quando está doente, que não reclame em trocar aquele churrasco dos amigos pelo aniversário da sua avó, que jogue "imagem e ação" e se divirta como uma criança, que sorria de felicidade quando te olha, mesmo quando está de short, camiseta e chinelo.
A liberdade, ficar sem compromisso, sair sem dar satisfação já não tem o mesmo valor que tinha antes.
A gente inventa um monte de desculpas esfarrapadas, mas continuamos com a procura incessante por uma pessoa legal, que nos complete e vice-versa.
Enquanto tivermos maquiagem e perfume, vamos à luta... E haja dinheiro para manter a presença em todos os eventos da cidade: churrasco, festinhas, boates na quinta-feira.
Sem falar na diversidade que vai do Forró ao Beatles.
Mas o melhor dessa parte é se divertir com as amigas, rir até doer a barriga, fazer aqueles passinhos bregas de antigamente e curtir o som...
Olhar para o teto, cantar bem alto aquela música que você adora.
Com o tempo, voce vai percebendo que para ser feliz com uma outra pessoa, você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela.
Percebe também que aquele cara que você ama (ou acha que ama), e que não quer nada com você, definitivamente não é o homem da sua vida.
Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você.
O segredo é não correr atrás das borboletas... É cuidar do jardim para que elas venham até você.
No final das contas, você vai achar não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você!

posted by ANDARILHA DESCALÇA 4:45 PM

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{Quarta-feira, Julho 14, 2004}

 


Gostar é tão fácil
Arthur da Távola

Talvez seja tão simples, tolo e natural que você nunca tenha parado para pensar:
aprenda a fazer bonito o seu amor. Ou fazer o seu amor ser ou ficar bonito.
Aprenda, apenas, a tão difícil arte de amar bonito.
Gostar é tão fácil que ninguém aceita aprender.


Tenho visto muito amor por aí, Amores mesmo, bravios, gigantescos, descomunais, profundos, sinceros, cheios de entrega, doação e dádiva,
mas esbarram na dificuldade de se tornar bonito. Apenas isso: bonitos,
belos ou embelezados, tratados com carinho, cuidado e atenção.
Amores levados com arte e ternura de mãos jardineiras.


Aí esses amores que são verdadeiros, eternos e descomunais de repente se percebeu ameaçados apenas e tão somente porque não sabem ser bonitos: cobram;
exigem; rotinizam; descuidam; reclamam; deixam de compreender;
necessitam mais do que oferecem; precisam mais do que atendem;
enchem-se de razões. Sim, de razões. Ter razão é o maior perigo no amor.
Quem tem razão sempre se sente no direito (e o tem) de reinvindicar,
de exigir justiça, equidade, equiparação, sem atinar que o que está sem razão talvez
passe por um momento de sua vida no qual não possa ter razão. Nem queira.
Ter razão é um perigo:
em geral enfeia o amor, pois é invocado com justiça mas na hora errada.
Amar bonito é saber a hora de ter razão.


Ponha a mão na consciência. Você tem certeza que está fazendo o seu amor bonito?
De que está tirando do gesto, da ação, da reação, do olhar, da saudade,
da alegria do encontro, da dor do desencontro, a maior beleza possível?
Talvez não. Cheio ou cheia de razões, você espera do amor apenas aquilo
que é exigido por suas partes necessitadas, quando talvez dele devesse pouco esperar,
para valorizar melhor tudo de bom que de vez em quando ele pode trazer.
Quem espera mais do que isso sofre, e sofrendo deixa de amar bonito.
Sofrendo, deixa de ser alegre, igual criança.
E sem soltar a criança, nenhum amor é bonito.


Não tema o romantismo. Derrube as cercas da opinião alheia.
Faça coroas de margaridas e enfeite a cabeça de quem você ama.
Saia cantando e olhe alegre.
Recomendam-se: encabulamentos; ser pego em flagrante gostando;
não se cansar de olhar, e olhar; não atrapalhar a convivência com teorizações;
adiar sempre, se possível com beijos, ¿aquela conversa importante que precisamos ter¿,
arquivar se possível, as reclamações pela pouca atenção recebida.
Para quem ama toda atenção é sempre pouca.
Quem ama feio não sabe que pouca atenção pode ser toda atenção possível.
Quem ama bonito não gasta o tempo dessa atenção cobrando a que deixou de ter.


Não teorize sobre o amor (deixe isso para nós, pobres escritores que vemos a vida
como criança de nariz encostado na vitrine, cheia de brinquedos dos nossos sonhos):
não teorize sobre o amor, ame. Siga o destino dos sentimentos aqui e agora.


Não tenha mêdo exatamente de tudo o que você teme, como: a sinceridade;
não dar certo; depois vir a sofrer (sofrerá de qualquer jeito); abrir o coração;
contar a verdade do tamanho do amor que sente.

Jogue pro alto todas as jogadas, estratagemas, golpes, espertezas,
atitudes sabidamente eficazes (não é sábio ser sabido): seja apenas você no auge
de sua emoção e carência, exatamente aquele você que a vida impede de ser.
Seja você cantando desafinado, mas todas as manhãs. Falando besteiras,
mas criando sempre. Gaguejando flores. Sentindo o coração bater como no tempo
do Natal infantil. Revivendo os carinhos que instruiu em criança.
Sem mêdo de dizer, eu quero, eu gosto, eu estou com vontade.


Talvez aí você consiga fazer o seu amor bonito, ou fazer bonito o seu amor,
ou bonitar fazendo seu amor, ou amar fazendo o seu amor bonito
(a ordem das frases não altera o produto), sempre que ele seja a mais verdadeira expressão de tudo o que você é e nunca, deixaram, conseguiu, soube, pôde, foi possível, ser.


Se o amor existe, seu conteúdo já é manifesto.
Não se preocupe mais com ele e suas definições. Cuide agora da forma.
Cuide da voz. Cuide da fala. Cuide do cuidado. Cuide do carinho. Cuide de você.
Ame-se o suficiente para ser capaz de gostar do amor
e só assim poder começar a tentar fazer o outro feliz.


posted by ANDARILHA DESCALÇA 10:24 PM

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{Terça-feira, Julho 13, 2004}

 

Asas do Amor
(Mônica F. Camargo)

Suavidade e frescor da natureza, deliciosa aragem invade o coração.
Deixo embalar amor com leveza libertando antiga e doce paixão.
Com brilho e luz estória marcou o amor de insuperável grandeza.
Capítulos que o destino traçou, páginas viradas com rica beleza.
Livre, sem destino, sigo o caminho e fascina sentir minh'alma se abrindo.
Vestindo amor, espalhando carinho do compasso da espera me despedindo.
Sábio viver sem escoltar o passado que salvaguardado fica na lembrança.
Mesmo só entre o lençol amassado, feliz adormeço e o amanhã avança.
Renasço cada instante mais forte das cicatrizes sorvi aprendizado.
Avesso de cada sonho que importe não mais resgatará amor deixado.
Pauto minha vida no ensaio de amar sem trocas ou mesmo sem par, deixando amor e muito mais, quando o coração se encantar.
Amar, inato sentimento pela alma regado, floresce e com desprendimento no peito aconchegado é sempre levado.
Lanço nas vertentes do amor aromas do perfume amante e que na passagem encante, sob pétalas de sonhos calados margeando a vida lado a lado nas ondas dos sentimentos, nas emoções dos momentos.
Não importa se o amor vai e vem, se espera ou não alguém, mas nunca será pela solidão absorvido, pela dor denegrido, pelo coração esquecido.
Será sim, eternamente assumido seja qual for o colorido que lhe tenha dado sentido enquanto vivido.
Com asas do amor vou sempre planar e em viagens que permitam bem mais que sonhar e ao me levar quem sabe aterrissar se o amor chamar quando ecos encontrar.
Vou amar sim, só sei viver assim mas sem nunca mais esquecer de mim.


posted by ANDARILHA DESCALÇA 10:08 PM

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{Segunda-feira, Julho 12, 2004}

 

Viver nao doi
Carlos Drummond de Andrade

Viver nao doi. Definitivo, como tudo o que e simples.

Nossa dor nao advem das coisas vividas, mas das coisas que foram
sonhadas
e
nao se cumpriram. Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente nao sofrer, apenas agradecer por termos conhecido
uma
pessoa tao bacana, que gerou em nos um sentimento intenso e que nos fez
companhia por um tempo razoavel, um tempo feliz.
Sofremos por que? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado
e
passamos a sofrer pelas nossas projecoes irrealizadas, por todas as
cidades
que gostariamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e nao conhecemos,
por todos os filhos que gostariamos de ter tido junto e nao tivemos, por
todos os shows e livros e silencios que gostariamos de ter
compartilhado,
e
nao compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.
Sofremos nao porque nosso trabalho e desgastante e paga pouco, mas por
todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para
conversar
com um amigo, para nadar, para namorar.
Sofremos nao porque nossa mae e impaciente conosco, mas por todos os
momentos em que poderiamos estar confidenciando a ela nossas mais
profundas
angustias se ela estivesse interessada em nos compreender.
Sofremos nao porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.
Sofremos nao porque envelhecemos, mas porque o futuro esta sendo
confiscado
de nos, impedindo assim que mil aventuras nos acontecam, todas aquelas
com
as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.
Como aliviar a dor do que nao foi vivido?
A resposta e simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenco de que o desperdicio da vida esta
no

amor que nao damos, nas forcas que nao usamos, na prudencia egoista que
nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos tambem a
felicidade.
A dor e inevitavel.
O sofrimento e opcional.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:54 PM

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{Domingo, Julho 11, 2004}

 

ECOLOGIA INTERIOR
Frei Betto

Por um minuto, esquece a poluição do ar e do mar, a química que contamina a terra e envenena os alimentos, e medita: como anda o teu equilíbrio ecobiológico? Tens dialogado com teus órgãos interiores? Acariciado o teu coração? Respeitas a delicadeza de teu estômago? Acompanhas mentalmente teu fluxo sanguíneo?

Teus pensamentos são poluídos? As palavras, ácidas? Os gestos, agressivos? Quantos esgotos fétidos correm em tua alma? Quantos entulhos - mágoas, ira, inveja - se amontoam em teu espírito?

Examina a tua mente. Está despoluída de ambições desmedidas, preguiça intelectual e intenções inconfessáveis? Teus passos sujam os caminhos de lama, deixando um rastro de tristeza e desalento? Teu humor intoxica-se de raiva e arrogância? Onde estão as flores do teu bem-querer, os pássaros pousados em teu olhar, as águas cristalinas de tuas palavras? Por que teu temperamento ferve com freqüência e expele tanta fuligem pelas chaminés de tua intolerância?

Não desperdiça a vida queimando a tua língua com as nódoas de teus comentários infundados sobre a vida alheia. Preserva o teu ambiente, investe em tua qualidade de vida, purifica o espaço em que transitas. Limpa os teus olhos das ilusões de poder, fama e riqueza, antes que fiques cego e tenhas os passos desviados para a estrada dessinalizada dos rumos da ética. Ela é cheia de buracos e podes enterrar o teu caminho num deles.

Tu és, como eu, um ser frágil, ainda que julgues fortes os semelhantes que merecem a
tua reverência. Somos todos feitos de barro e sopro. Finos copos de cristal que se quebram ao menor atrito: uma palavra descuidada, um gesto que machuca, uma desconfiança que perdura.

Graças ao Espírito que molda e anima o teu ser, o copo partido se reconstitui, inteiro, se fores capaz de amar. Primeiro, a ti mesmo, impedindo que a tua subjetividade se afogue nas marés negativas. Depois, a teus semelhantes, exercendo a tolerância e o perdão, sem jamais sacrificar o respeito e a justiça.

Livra a tua vida de tantos lixos acumulados. Atira pela janela as caixas que guardam mágoas e tantas fichas de tua contabilidade com os supostos débitos de outrem. Vive o teu dia como se fosse a data de teu renascer para o melhor de ti mesmo - e os outros te receberão como dom de amor.

Pratica a difícil arte do silêncio. Desliga-te das preocupações inúteis, das recordações amargas, das inquietações que transcendem o teu poder. Recolhe-te no mais íntimo de ti mesmo, mergulha em teu oceano de mistério e descobre, lá no fundo, o Ser Vivo que funda a tua identidade. Guarda este ensinamento: por vezes é preciso fechar os olhos para ver melhor.

Acolhe a tua vida como ela é: uma dádiva involuntária. Não pediste para nascer e, agora, não desejas morrer. Faze dessa gratuidade uma aventura amorosa. Não sofras por dar valor ao que não merece importância. Trata a todos como igual, ainda que estejam revestidos ilusoriamente de nobreza ou se mostrem realmente como seres carcomidos pela miséria.

Faze da justiça o teu modo de ser e jamais te envergonhes de tua pobreza, de tua falta de conhecimentos ou de poder. Ninguém é mais culto do que o outro. O que existem são culturas distintas e socialmente complementares. O que seria do erudito sem a a arte culinária da cozinheira analfabeta? Tua riqueza e teu poder residem em tua moral e dignidade, que não têm preço e te trazem apreço.

Porém, arma-te de indignação e esperança. Luta para que todos os caminhos sejam aplainados, até que a espécie humana se descubra como uma só família, na qual todos, malgrado as diferenças, tenham iguais direitos e oportunidades. E estejas convicto de que convergimos todos para Aquele que, supremo Atrator, impregnou-nos dessa energia que nos permite conhecer a abissal distância que há entre a opressão e a libertação.

Faze de cada segundo de teu existir uma oração. E terás força para expulsar os vendilhões do templo, operar milagres e disseminar a ternura como plenitude de todos os direitos humanos.

Ainda que estejas cercado de adversidades, se preservares a tua ecobiologia interior serás feliz, porque trarás em teu coração tesouros indevassáveis.

posted by ANDARILHA DESCALÇA 1:30 PM

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{Sábado, Julho 10, 2004}

 

O Jeito Deles
Martha Medeiros

O que é que faz a gente se apaixonar por alguém? Mistério misterioso. Não é só porque ele é esportista, não é só porque ela é linda, pois há esportistas sem cérebro e lindas idem, e você, que tem um, não vai querer saber de descerebrados. Mas também não basta ser inteligente, por mais que a inteligência esteja bem cotada no mercado. Tem que ser inteligente e... algo mais. O que é este algo mais? Mistério decifrado: é o jeito.

A gente se apaixona pelo jeito da pessoa. Não é porque ele cita Camões, não é porque ela tem olhos azuis: é o jeito dele de dizer versos em voz alta como se ele mesmo os tivesse escrito pra nós; é o jeito dela de piscar demorado seus lindos olhos azuis, como se estivesse em câmera lenta.

O jeito de caminhar. O jeito de usar a camisa pra fora das calças. O jeito de passar a mão no cabelo. O jeito de suspirar no final das frases. O jeito de beijar. O jeito de sorrir. Vá tentar explicar isso.

Pelo meu primeiro namorado, me apaixonei porque ele tinha um jeito de estar nas festas parecendo que não estava, era como se só eu o estivesse enxergando. O segundo namorado me fisgou porque tinha um jeito de morder palitos de fósforo que me deixava louca - ok, pode rir. Ele era um cara sofisticado, e por isso mesmo eu vibrava quando baixava nele um caminhoneiro. O terceiro namorado tinha um jeito de olhar que parecia que despia a gente: não as roupas da gente, mas a alma da gente. Logo vi que eu jamais conseguiria esconder algum segredo dele, era como se ele me conhecesse antes mesmo de eu nascer. Por precaução, resolvi casar com o sujeito e mantê-lo por perto.

E teve aqueles que não viraram namorados também por causa do jeito: do jeito vulgar de falar, do jeito de rir - sempre alto demais e por coisas totalmente sem graça -, do jeito rude de tratar os garçons, do jeito mauricinho de se vestir: nunca um desleixo, sempre engomado e perfumado, até na beira da praia. Nenhum defeito nisso. Pode até ser que eu tenha perdido os caras mais sensacionais do universo.

Mas o cara mais sensacional do universo e a mulher mais fantástica do planeta nunca irão conquistar você, a não ser que tenham um jeito de ser que você não consiga explicar. Porque esses jeitos que nos encantam não se explicam mesmo.


posted by ANDARILHA DESCALÇA 6:42 PM

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{Terça-feira, Julho 06, 2004}

 

O viajante
Gibran Khalil Gibran

Uma vez , chegou a corte do príncipe de Birkaska uma dançarina com seus músicos.
E foi admitida à corte, e dançou diante do príncipe a música do alaúde e da flauta e da cítara.
Dançou a dança das chamas, e a dança das espadas e lanças; dançou a dança das estrelas
e a dança do espaço. E depois, dançou a dança das flores ao vento.
Depois disso, ficou de pé diante do trono do príncipe e curvou o corpo ante ele .
E o príncipe mandou-lhe que se aproximasse, e disse-lhe :
"Bela mulher, filha da graça e do deleite, de onde vens? E como é que comandas todos os elementos em teus ritmos e tuas canções?"
E a dançarina curvou-se novamente ante o príncipe, e respondeu:
- Poderosa e benévola majestade, não sei responder a vossa pergunta.Só sei isto:
"A alma do filósofo mora em sua cabeça; a alma do poeta está em seu coração; a alma do cantor reside em sua garganta; mas a alma da dançarina mora em todo o seu corpo."


posted by ANDARILHA DESCALÇA 10:33 AM

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{Segunda-feira, Julho 05, 2004}

 

Eu canto a mulher sofrida
Arthur da Távola

Sofrida é a mulher por quem a vida passou machucando uma sensibilidade menina, feita de dádiva, confiança no próximo, esperança de melhorar o mundo. Sofrida é a mulher que não viveu em vão, na delícia burguesa de ser objeto de sexo, admiração fácil ou mimo, preferindo o caminho penoso da independência, a procura honrada da própria dimensão pessoal, existencial e política. Sofrida não é a pessoa derrotada ou apenas sofrente, fonte de dores e masoquismo sem fim: sofrida é a pessoa que tem energia e nervos para enfrentar na carne todas as disposições e contradições necessárias a viver e a conquistar o direito à vida, à liberdade, à solidão, ao afeto dos seus. Sofrida é a pessoa que olha ao seu lado a miséria social e humana e não fica impassível ou indiferente, apenas porque se supõe livre de idêntico perigo. Sofrida é a mulher de uma geração que assistiu à castração de seu sonho político, embora o veja crescendo, melhorando e se transformando pelo mundo afora. Sofrida é a mulher que viveu várias décadas em cada uma das três últimas. É a pessoa que soube incorporar ao seu viver todas as dores necessárias à libertação: dos preconceitos próprios e alheios; dos atrasos ancestrais; da dor de viver adiante no tempo; das agressões retrógradas; das maldades profissionais; do medo da sua mensagem renovadora. Sofrida é a mulher que teve restrições na sua carreira, ameaças, invasões do seu espaço vital por causa das suas idéias; por causa da sua capacidade de viver com intensidade tudo aquilo em que estava crendo do fundo de sua sincera convicção. Sofrida é a mulher que assistiu à queda de muitos, ao cansaço de outros, à morte de terceiros, à dor, à tortura, ao vício, à desistência, à loucura, à resistência, à tenacidade ou a convicção de todos que se insurgiram contra qualquer forma de agressão humana, de opressão ou de injustiça. Sofrida é a mulher que aí está, cada vez melhor porque de costas erguidas a despeito de tudo o que viu, sofreu e passou. Sofrida é a mulher que não desistiu de ser; que não se alienou; que não fugiu da dor; que se embelezou com as rugas conseguidas; que se purificou com as impurezas que em si descobriu; que mergulhou com igual coragem na própria miséria e na própria grandeza, saindo melhor de ambas.


posted by ANDARILHA DESCALÇA 10:50 AM

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{Domingo, Julho 04, 2004}

 

RUBEM BRAGA


Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.

Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.

Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.

O Desaparecido - do livro A Traição das Elegantes

posted by ANDARILHA DESCALÇA 5:02 PM

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{Sábado, Julho 03, 2004}

 

O AUTO-CONHECIMENTO

Khalil Gibran


Então, um homem se dirigiu a ele:

Fala-nos do conhecimento de si.
E ele respondeu:

Os vossos corações conhecem, no silêncio,
os segredos dos dias e das noites.
Mas os vossos ouvidos têm sede de ouvir, no final,
o eco do saber dos vossos corações.

Gostaríeis de saber pelo verbo
o que sempre soubestes pelo pensamento.

Gostaríeis de sentir com os dedos
o corpo nu dos vossos sonhos.
E está certo que assim o queirais.

A fonte oculta da vossa alma deve necessariamente
jorrar e correr, murmurando, até o mar;
e o tesouro das vossas profundezas infinitas
deve revelar-se aos vossos olhos.

Mas que não haja balança
que pese o vosso tesouro desconhecido;
e não procureis explorar os abismos do vosso saber
com a vara ou com a sonda,
pois o eu é um mar sem limites e sem medida.

Não digais: «Encontrei a verdade»,
mas antes: «Encontrei uma verdade.»
Não digais: «Encontrei o caminho da alma.»
Mas antes: «Cruzei-me com a alma no meu percurso.»
Pois a alma caminha por todas as vias.
A alma não anda sobre uma linha
nem se alonga como uma vara.
A alma abre-se a si mesma,
como se abre um lótus de incontáveis pétalas.

posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:36 AM

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{Sexta-feira, Julho 02, 2004}

 

Leiam, copiem decorem

Martha Medeiros


Temos a mania de achar que o amor é algo que se busca.

Buscamos o amor nos bares, buscamos o amor na internet,

buscamos o amor na parada de ônibus.

Como num jogo de esconde-esconde, procuramos pelo amor

que está oculto dentro das boates, nas salas de aula,

nas platéias dos teatros.


Ele certamente está por ali, você quase pode sentir seu cheiro,

precisa apenas descobri-lo e agarra-lo o mais rápido possível,

pois só o amor constrói, só o amor salva, só o amor traz felicidade.

Há quem acredite que amor é medicamento. Pelo contrário.



Se você está deprimido, histérico ou ansioso demais, o amor

não se aproxima e, caso o faça, vai frustrar sua expectativa,

porque o amor quer ser recebido com saúde e leveza, ele não

suporta a idéia de ser ingerido de quatro em quatro horas,

como um antibiótico para combater as bactérias da solidão

e da falta de auto-estima.

Você já ouviu muitas vezes alguém dizer: "Quando eu menos esperava, quando eu havia desistido de procurar,

o amor apareceu".

Claro, o amor não é bobo, quer ser bem tratado, por isso escolhe

as pessoas que, antes de tudo, tratam bem de si mesmas.



O amor, ao contrário do que se pensa, não tem de vir antes de tudo.

Antes de estabilizar a carreira profissional, antes de fazer amigos,

de viajar pelo mundo, de curtir a vida. Ele não é uma garantia

de que, a partir de seu surgimento, tudo o mais dará certo.

Queremos o amor como pré-requisito para o sucesso nos outros setores, quando, na verdade, o amor espera primeiro você ser feliz

para só então surgir, sem máscara e sem fantasia.



É esta a condição. É pegar ou largar.
Para quem acha que isso é chantagem, arrisco-me a sair

em defesa do amor: ser feliz é uma exigência razoável,

e não é tarefa tão complicada.

Felizes são aqueles que aprendem a administrar seus conflitos,

que aceitam suas oscilações de humor, que dão o melhor de si

e não se auto-flagelam por causa dos erros que cometem.

Felicidade é serenidade.



Não tem nada a ver com piscinas, carros e muito menos

com príncipes encantados. O amor é prêmio para quem relaxa.

As pessoas ficam procurando o amor como solução para todos

os seus problemas quando, na realidade, o amor é a recompensa

por você ter resolvido os seus problemas.

Aprendi. Decorei. Estou serena como um Buda.


Agora venha Dr. Braz Campos Durso, mestrado em patologia bucal e especialista em estomatologia: "Amar não é ter sempre certeza é aceitar que ninguém é perfeito pra ninguém é poder ser você mesmo e não precisar fingir".


posted by ANDARILHA DESCALÇA 2:20 PM

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{Quinta-feira, Julho 01, 2004}

 
Amor

"Quem é que nunca teve um Marcelo, um Felipe, um Ricardo, um Júlio ou um Alexandre na vida? Tudo bem, pode ser uma Juliana, uma Ana, uma Patrícia ou uma Aline...
Paquerar é bom, mas chega uma hora que cansa! Cansa na hora que você percebe que ter 10 pessoas ao mesmo tempo é o mesmo que não ter nenhuma, e ter apenas uma, é o mesmo que possuir 10 ao mesmo tempo!
A "fila" anda, a coleção de "figurinhas" cresce, a conta de telefone é sempre altíssima. Mas e ai? O que isso te acrescenta? Nessas horas sempre surge aquela tradicional perguntinha: Por que aquela pessoa pela qual você trocaria qualquer programa por um simples filme com pipoca abraçadinho no sofá da sala não despenca logo na sua vida ???
Se o tal "amor" é impontual e imprevisível que se dane! Não adianta, as pessoas são impacientes! São e sempre vão ser! Tem gente que diz que não é... "Eu não sou ansioso, as coisas acontecem quando tem que acontecer." Mentira! Por dentro todo ser humano é igual: impaciente, sonhador, iludido... Jura de pé junto que não, mas vive sempre em busca da famosa cara metade!
Pode dar o nome que quiser : amor, alma gêmea, par perfeito, a outra metade da laranja... No fim dá tudo no mesmo. Pode soar brega, cafona... Mas é a realidade. Inclusive o assunto "amor" é sempre cafonérrimo.
Acredito que o status de cafona surgiu porque a grande maioria das pessoas nunca teve a oportunidade de viver um grande amor. Poucas pessoas experimentaram nesta vida a sensação de sonhar acordada, de dormir do lado do telefone, de ter os olhos brilhando, de desfilar com aquele sorriso de borboleta azul estampado no rosto...
Não lembro se foi o Wando ou se foi o Reginaldo Rossi que disse em uma entrevista que se a Marisa Monte não tivesse optado pelo "Amor I love you" e que se o Caetano não tivesse dito "Tô me sentindo muito sozinho.." eles não venderiam mais nenhum disco. Não adianta, o publico gosta e vibra com o "brega". Não adianta tapar o sol com a peneira. Por mais que você não admita:

-Você ficou triste porque o Leonardo di Caprio morreu em Titanic" e ficou feliz porque a Julia Roberts e o Richard Gere acabaram juntos em "Uma Linda Mulher";

-Existe pelo menos uma música sertaneja ou um pagodinho" que te deixe com dor de cotovelo;

-Quando você está solteiro e vê um casall aos beijos e abraços no meio da rua você sente a maior inveja;

-Você já se pegou escrevendo o seu nome e o da pessoa pelo qual você esta apaixonada no espelho embaçado do banheiro, ou num pedacinho de papel;

-Você já se viu cantando o mantra "Toca telefone toca" em alguma das sextas-feiras de sua vida, ou qualquer outro dia que seja;

-Você já enfiou os pés pelas mãos algumaa vez na vida e se atirou de cabeça numa "relação" sem nem perceber que você mal conhecia a outra pessoa e que com este seu jeito de agir ela te acharia um tremendo louco;

-Você, assim como nos contos de fada, soonha em escutar um dia o tal "E foram felizes para sempre".

Bem , preciso continuar? Ok, acho que não... Negue o quanto quiser, mas sei que já passou por isso, e se não passou, não sabe o quanto esta perdendo.... O problema de resistir a uma tentação é que você pode não ter uma segunda chance"

Luiz Fernando Veríssimo
posted by ANDARILHA DESCALÇA 10:49 PM

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