{Essencialmente } spacer
spacer
spacer
powered by blogger Comments:

{Sexta-feira, Abril 30, 2004}

 

Da Chuva ao Poeta
Roberta Tostes


(para Teófilo Tostes, ou simplesmente Téo, meu irmão querido)

Poderia chover de novo, como tem feito São Pedro à moda mineira, calado, um pouco resoluto demais - prá não dizer teimoso - os destinos dessa terra molhada lá fora que eu cheiro como se o passado fosse. Cheiro como quem sorve da terra seus nutrientes, e apresenta raízes improváveis que se assemelham com as raízes das plantas. Observo o cenário que avistei semana passada da janela do ônibus: canteiros alagados pela submissão à chuva. Eu salva das marés, porém embriagada, a inalar o odor de terra misturada com água, com tudo que brota de dentro da terra e que ajuda as plantas a crescer. Colhido como se fossem flores, eu retiro da atmosfera esse cheiro único que eu só sou capaz de sentir quando chove. Como se fossem Canteiros na voz de um Raimundo Fagner! Na voz infantil do meu irmão a cantar memórias perdidas. Um menino que passa parte da infância se apaixonando por música e fazendo poesia, só poderia ser o que é hoje: um homem de bem. Um menino que passa a vida aos risos, quando o mote de suas primeiras horas foi tão trágico, poderia ser tudo nessa vida! Um menino renascido. Bastasse escolher 'quero ser mágico' ; e sua força de criança irmanada à força de alma, correriam de mãos dadas pelos labirintos das leis da natureza, que é feita de razoável dose de magia quando se quer viver muito. Poderia ser o que quiser! E choveria pela manhã, para que a poesia desabrochasse à tarde. Deve ter sido um dia de chuva, o dia em que algum médico trouxe meu irmão à vida e percebeu que o menino devia ser batizado às pressas, para que Deus não o levasse pagão. Deve ter chovido muito lá pelo céu também enquanto decidiam em reunião diviníssima se o menino voltava, ou se o menino vivia. E o menino viveu. Passou por uns perrengues, mas viveu. Jogou bola, brincou tudo e brincou tanto! Arremessou a bola da vida com tanta força, que hoje é homem feito. E seu sorriso é essa pérola linda. E sua vida é essa graça que ensina. E sua força de viver me arremessa de volta à vida. Como quando arremessou o menino na terra. E fez dele mais frágil. E fez dele o mais forte. Amanhã poderia chover de novo assim que o sol despertasse. Para que eu também despertasse, para que eu chovesse junto com as flores, para que o cheiro da terra molhada me embriagasse de novo no trajeto prá casa, e as pétalas dos meus dedos se abrissem na oferenda do carinho. Assim que amanhecesse, o menino que canta Pavarotti de manhã e desabrocha poeta à tarde, ganharia as cores faiscantes do arco-íris. E os pingos d'água seriam gentis com as nossas lágrimas. Também com os sorrisos.


posted by ANDARILHA DESCALÇA 9:49 AM

Comments:

{Quinta-feira, Abril 29, 2004}

 

Um Bicho Traiçoeiro
Felipe Jucá


Dia desses, juro, senti saudades da minha velha Olivetti. Aquela sobre a qual escrevi um crônica ressaltando-lhe as virtudes, bem como seus inconfundíveis méritos. Mais do que isso: agradecendo-lhe a honesta e doce parceria cristalizada ao longo de várias décadas.

Contei que sobre seu acolhedor teclado me debrucei, por incontáveis horas, confiando-lhe sonhos, segredos, angústias, e momentos de alegria plena. E que ela, ao final, me entregava, em letra de forma, tudo o que meu coração lhe contara, em segredo e espontaneamente...

Fora uma crônica de despedida? Sim: eu acabava de aderir ao computador. Cometeria, porém, u'a imperdoável ingratidão se, ao ingressar no mundo maravilhoso da informática, esquecesse, definitivamente, minha surrada Olivetti. Ela que me fizera conhecido, como jornalista, e, na advocacia, me ajudara a comprar o pão de cada dia.

Não. Não seria o computador, com sua arrasadora beleza, surpreendente precisão, e elegante sabedoria que me faria olvidar minha singela Olivetti.

Muito bem. Instalado o computador, comecei a trabalhar, embevecido e espantado com tudo o que o micro, imponente e inteligente, me oferecia, durante vinte e quatro horas.

Comprei dicionários e livros especializados, para bem palmear os caminhos da informática. E, principalmente, para iniciar, com segurança, minhas andanças pelos caminhos maravilhosos da Internet.

E fui me apaixonado. Tinha o mundo distante poucos centímetros dos meus olhos. Informações à beça! Um ratinho muito esperto, ao ser tocado de leve, dava ao internauta calouro o que há tempos ele procurava na literatura, na arte, na música e na religião.

Na redação de textos, e no correio eletrônico concentrei maiores atenções. Era possível me comunicar, imediatamente, com conhecidos e desconhecidos em qualquer parte do mundo. Passei, em questão de segundos, a falar com os filhos, que moram longe, através de longos e carinhosos e-mails. Um barato!

Mas foi redigindo textos que me realizei ao aderir ao computador. Reescrevi velhas crônicas, rabisquei outras tantas, dando a cada uma a feição e os contornos oferecidos pelo Word.

Até ousei enviar alguns escritos, apelidados de crônicas, para um site amigo que, generosamente, fê-los circular pelo mundo.

Deslumbrado, esqueci que o computador, apesar de gostoso, atraente, surpreendente, é um bicho traiçoeiro. Veja o leitor o que aconteceu.

Naquele dia, pela manhã, o Power, não sei porquê, pifou.

Meu computador, tão palavroso, de repente ficou mudo! Entrei em pânico. De uma hora para outra, me senti abandonado, distante de tudo e de todos; fora da Terra; personagem de uma insólita e inquietante solidão...

Como se leva uma criancinha desacordada ao pediatra, botei minha CPU nos braços, e procurei o técnico. A caminho da oficina, insistia em perguntar: afinal, por que meu computador silenciara? O quê de mal lhe fizera? Dúvidas... dúvidas... desolação, pânico, e nada mais.

Pânico, não porque pagaria caro pelo conserto da máquina. Pânico porque podia ter perdido oitenta e três crônicas guardadas no meu HD. Confiando na sorte, nunca me preocupara em botar meu trabalho em disquetes.

Na oficina, o técnico, com cara de médico de UTI, depois de realizar os necessários testes, sentenciou: "A Fonte queimou. Só outra. O HD, vamos lutar para salvá-lo." Diante de tão desolador diagnóstico, quase chorei... Àquela altura, tudo me parecia irremediavelmente perdido. Pensei: Diabo, por que, em tempo hábil, não retirei minhas crônicas das entranhas do meu computador? Inexperiência? Displicência? As duas coisas juntas, conclui, depois de um profundo exame de consciência.

E passei a lamentar: Ah! minhas crônicas... na calada da noite, sumariamente destruídas pelo meu computador. Uma imperdoável traição. Foi aí que me lembrei, com saudades, da minha velha Olivetti...


Horas depois, o técnico telefonou pra me dizer que o HD estava salvo. E que todas as minhas crônicas estavam à minha disposição. Apesar do susto, valera a lição.


posted by ANDARILHA DESCALÇA 8:28 AM

Comments:

{Quarta-feira, Abril 28, 2004}

 



Corações e Mentes - A Solidão Nesses Tempos Tenebrosos
Silas Corrêa Leite


"As pessoas necessitam de esperança/As pessoas necessitam
de amor/As pessoas necessitam da confiança de um
companheiro/As pessoas necessitam de
amor para tornar boa uma vida/As pessoas
necessitam de fé em uma mão
que ajuda..."

(ABBA)





-Hoje, primeira sexta-feira de um abril outonal, mal o beiço da tarde arredondou losangos laranjas num pôr-de-sol distante ( que vestia o pijama do prelúdio ao longe) e uma querida amiga professora me ligou algo estranhamente tímida, até sondou-me antes de completar a ligação se identificando, sofregamente respirou fundo, mediu bem as palavras num muxoxo indisfarçável, e, depois, ao quase estourar, chorando copiosamente, disse estar mesmo em falta comigo, de alguma maneira, em seguida, soluçando ainda engoliu a seco um silêncio pesaroso, arrematou o contato completo e formal, pediu perdão ou circunstancial coisa assim, se entendi bem, e enfeitou o pavão da inteira ternura naquele mavioso reencontro em elo de contato, finalmente, então, desabafando:
-Andamos solitários.

Pensei, incontinente, com meus botões de laranjeiras íntimas, num oportuno parafrasear o Mestre Pascal:

-A solidão nos atrai.

-A propósito, aliás, tenho um poemeto dos idos Anos 60 que, mal-e-mal acaba assim, no arremate de sua feitura: "Acompanhe a maioria/Ande sozinho..." Deve ser isso.

-Andamos tristes, desconfiados, solitários pela própria natureza. Com azedumes camuflados de risos curtos, decorados. Já não cantamos mais belos calipsos no banheiro, nem abraçamos mais nossas irmãs vaidosas, sequer jogamos bola de gude com nossos filhotes, mal-e-mal agradecemos o virado de feijão-com-couve de uma parente prendada, pois estamos nos acostumando a ser casca grossa, sem seca, turrões, fechados em nossa mediocridade, num mundo-sombra paredemeia com o desconforto, a insegurança, a falta de perspectiva, o sonho medrando no coração transido, pisado, nesses tempos pós-moderno de muito ouro e pouco pão, em que a globalização é mais do que um consumo idiota; tempos tenebrosos do insano lucro amoral e inumano, de broncas riquezas injustas e poses pífias, em antros de sadios escorpiões arrotando mediocridades com fachadas de araque, máscaras escondendo falsidades com grifes, e posses com vazios nos corações e mentes, de improbos sobreviventes das plumas e paetês, longe de um tempo em que éramos todos jovens, e sonhávamos justiça, liberdade, pães e pétalas aos descamisados, os excluídos sociais. Éramos felizes e não sabíamos?

-Temos nossa caixa de correio eletrônico, e mal lemos os alôs dos amigos, pedindo, quase implorando um carinho virtual, escondidos com seqüelas várias em gaiolas-apartamentos, na liturgia de uma tevê imbecil, ou no favo de uma falta de diálogo, de amor, de prazer, beirando a uma tentativa de abismo, esperando o galo cantar três vezes para, finalmente, em depressão mal identificada, negarmos a vida, provocarmos a ruptura terminal do fim sem pé nem cabeça.

-Recebemos cartas de amigos e parentes, mas nunca respondemos. Não medimos a pena. Não perdemos tempo com afetos primordiais assim. Não temos tempo. Telefonam, insistem, e nunca estamos. Nossa caixa postal no celular é de enfeite, está isolada, não queremos elos, nem bênçãos. Quantas vezes, cansados de nós, do trivial, do cotidiano, da rotina marota que nos engoda o prumo e nos açoda o vício do álcool ou das aventuras de burrezas pegajentas, não ligamos para casa ¿ para nós mesmos ¿ querendo ouvir a nossa própria voz do outro lado da linha, nos identificando quando, puros, benvidamos a palavra amiga, o beijo, o abraço, o aperto de mãos, quando agradecemos o contato, pois estávamos em nós e amávamos amizades, buscas, pertencimentos.

-Agora estamos todos perdidos no ralo do dia. A poupança não vale nada, é um embuste, os imbecis posudos e poliglotas estão no poder, o plano econômico do FMI é um embuste financeiro (de agiotas do capital internacional), nossa utopia virou lenda, e, a nossa única e presencial terapia táctil é mesmo, trocadilhando, "ter a pia" cheia de louça para lavar - da comida importada, tirada do freezer ou pedida por código (ai que saudades do manjar dos deuses), quando temos o carnê do aparelho bocó para pagar (a propaganda do regime para emagrecer nos logrou), temos o dízimo da violência neoliberal (acreditávamos num sociólogo marxista e honesto que se prostituiu), e ainda temos o arame da consciência pagando o pato de nosso desconforto íntimo, talvez, já reinando uma separação no casamento, um câncer no ego, um adeus escondido ao sonho impossível.

-Não, não estamos ficando velhos. Estamos ficando cegos. Há olhos de ver, e olhos de Enxergar. Estamos nos acostumando com a mediocridade que nutre e viça na sociedade de novos ricos e antigos burgueses podres com culpas nos cartórios das consciências pesadas. Ficamos órfãos do socialismo de resultados, perdemos vínculos, noções, estamos cada vez mais parecido com o óbvio ululante que ri do boçal, que chuta estatísticas, que acredita nas mentiras estatais e nas vaidades com bumbuns bem torneados, enquanto a cultura vai pro vinagre, pro brejo, e a nossa noção de ridículo beira o caos, ao infame. E estamos perdidos de nós mesmos.

-Nossa igreja atual é um neo-esoterismo tantã de fien-de-sécle, uns florais comprados em camelôs feitos traficantes com imunidade parlamentar ou contrabandistas informais, quando rejeitamos a um Deus vivo e acreditamos em pieguices pseudomodernas, babaquaras carismáticos de ocasião, cientistas de laboratórios, orações emboabas de almanaques rendidas das cavernas do obscuro, livros pseudo-laicos trazidos literalmente dos confins dos judas, pois com isso pensamos que pensamos, achamos que somos o que não somos, já que rezamos ao mesmo tempo para Deus e para o diabo, no mesmo diapazom, olhando para cima em busca do que está vivo em nosso íntimo, uma fécula vivíssima dentro de nós mesmos, e disfarçamos com rímel e palavrões-chaves, quase senhas do hades, que estamos bem, mas estamos ferrados, perdidos, entregues às moscas da mesmice e ao terrorismo dos grandes shoppings que nos acatam, nos sondam, mas nos vigiam com alta tecnologia de primeiro mundo em câmaras secretas, e só acreditam em nossos cartões de crédito, nossos podres poderes de consumo alienado, não nas navalhas de nossos olhos retrucando, nossos atos reprovando, nossas mãos limpas por causa dos que morrem à míngua na periferia de mestiços entregues à má sorte da miséria, da fome e do labirinto do crime. O holocausto do neoliberalismo.

Aquele irmão adorado, imprudente e infeliz, que cesta básica de afeto demorado precisa? Aquele benquisto serviçal vizinho de décadas, que se mudou para a rua da amargura, que cédula de nossa consciência cívica e cidadã precisa? Aquele atuante colega professor, amigo, saudável, adorado, comunicativo, dinâmico, que nos troçou por destemperos, em que hospital deixou a mão da discórdia, em que não-lugar chorou com medo de ser simples ou louco, em que jardim do éter respira por aparelho a falta de condição humana no humanus?

-A solidão do animal rastejante ou não, visa uma perspectiva de predação, de sobrevivência por instinto genético recorrente, mas a do bicho homem visa o esconderijo de não mais se revelar verdadeiro, crível, mesmo que em profissão errada gerando poderes, em ocasional terapeuta de convênio, em cirurgião estético de final de semana, em bar famoso para beber o repetido gol que nunca foi bonito (só fomos dopados para acreditar que foi), nem o filme foi bom (só assistimos pra nos dizermos atualizados ao zero, ao nada), nem a música presta mas a cantamos por decorar o mau gosto, quando o neto, já depois de ter sofrido o open-doping da mídia dança se rebolando todo, sexualidade precoce, e dizendo, pobre coitado, que vai votar naquela mulher que é filha do próprio estrume políticos de tempos de arbítrio com o crime organizado financiando essa nossa - que resultou - literalmente em democracia de embuste, feito panacéia de entidades em rede de interesses, que parecem ser melhores do que verdades inteiras, paisanas.

-Não, meus diletos contemporâneos, não estamos vacinados contra ódio, nem contra amarguras mal disfarçadas no psicossomático, somos testemunhos de opositores mambembes, de idílios garbosos a peso de ouro, de livros bobos que a crítica cada vez pior louva, de programecos de tevê que se parecem cada vez mais conosco, de tanto que são tolos, ignóbeis, viciados em lixo.

-Sim, somos reféns em casa, entre grades, na solidão desses micro infernos que produzimos, quando mal bondiamos o filho imberbe, mal conferimos a nota escolar da filha teen, mal sabemos o que sabemos, pois estamos indo de roldão nesse pedágio neoliberal, tempos de travessia difícil em que nos matamos para sobreviver dentro do possível, e a úlcera já se mostra, o estresse futuro nos aguarda, e o recado na secretária eletrônica esperará para sempre, o bip não deu sinal de oportuno retorno, a carta que não respondemos ainda não dói na parede da memória, o alô que não retornamos não foi auditado pelo id e a consciência, porque, bem ou mal, estamos insensíveis, e, a bem da verdade, os imbecis estão no poder mais fomos nós que os elegemos, por isso, de uma forma ou de outra, direta ou indiretamente SOMOS TODOS CULPADOS.

Sim, SOMOS TODOS CULPADOS pela violência generalizada, pela impunidade por atacado, pela corrupção endêmica institucionalizada em todos os níveis, pelo boçal jeitinho brasileiro de levar vantagem em tudo, pelo mote amoral (do nefasto modus operandi) que prega em alto bom tom que "rouba e ainda diz que faz" - e tem alto índice de perspectiva de voto - porque, a bem da verdade, se aceitamos um ladrão, também somos ladrões, de nossa consciência, de nós mesmos, de nossa cidadania, todos babaquaras postos na moenda dos dias que nos tornam tristes, todos confinados entre quatro paredes de mesmices e jogos de esconde-esconde, entre a catedral do ego doentio e as fugas etílicas, noctívagas, pois estamos mais sós do que nunca, e, como diz um antigo Blues meu, talvez mereçamos mesmo:

"Estamos todos sozinhos/Além do que percebemos/Somos sempre tão mesquinhos/Quem sabe até merecemos/Estamos todos sozinhos/Basta olhar pra nós mesmos...!" (Blues Cazuza)

-Deixe de responder ao e-mail que insiste num contato terno, e morra sozinha, clandestina, abandonada, sem amor e sem apoio. Deixe de retornar o alô (de qualquer forma que venha) e caia em si quando for tarde demais, muito tarde, se já não é tarde para sempre.

-Sabe, cara pálida, sabe Baby, como carneiros tosquiados aceitamos as coisas como elas são, não vivemos mais por um ideal, um sonho, ou sequer para mudar o mundo, mudar as coisas para melhor, para que a vida seja melhor, a cidade volte a ser limpa e ordeira, nossos filhos sejam grudes em carinho e afeição, nossos parentes confiem plenamente em nós, no amor e na dor, nosso vizinho seja íntimo, caseiro, familiar, nossa saudade seja a mais forte forma de amor, nosso abraço seja demorado por estima valorada, nossos olhos tenham mimos de luzes em cada reencontro, e, aquela busca de paz e convivência seja de novo salutar, mesmo com problemas distantes, graves guerras, carestias de encomendas (a América Rica), nós ainda voltaremos a ser melhor do que as situações de conflitos, porque, poetando, "Na mão direita temos uma roseira/Que dá flor a vida inteira... "

-Talvez, mudando a nós mesmos, mudando depois nossa casa, nosso meio, quem sabe, aos poucos, paulatinamente, com nosso exemplo progressivo e eficaz, poderemos, num crescendo, no futuro, até mudar o mundo, nem capitalismo e nem socialismo, mas sempre HUMANISMO, e de resultados para a maioria absoluta e carente da população.

-Ou que você, janota ou boçal, continue o mesmo de sempre, inconseqüente e burro de carga. Ora, deixe de rascunhar o esboço de uma prestativa carta, e quando você menos esperar verá que quem contatou você, de repente teve um derrame ou sofreu um desastre. Não pense mais no parente distante que foi pau pra toda obra, no amigo (que valia ouro) que você perdeu, no funcionário que foi um esteio, no colega que foi ombro amigo, e, vá, vá sim, vá correndo, vá depressa, tomar um avião (carimbe seu passaporte de angústia) - para fugir, para fugir! ¿ para ir se esconder sendo mais um anônimo com sotaque latino de cucaracha nas ruas fétidas de Nova York, mais um bocó solitário e capenga num chalé em Búzios, mais um saranga tomando água de coco com dengue no Rio de Janeiro, mais um turista-vítima a pegar malária numa viagem qualquer no norte ou nordeste, quando o que você procura é tudo uma soma de:

01)-Falta de amor 02)-Falta de família 03)-Falta de amigos 04)-Falta de Deus 05)-Nenhuma das alternativas, mas, tudo, num balanço final, uma falta de opção de você para você voltar a ser o que é, e não ter nunca mais vergonha de se olhar no espelho, olhar-se nos olhos e ter noção real e estimada daquilo que fizeram com você, e do que você fez do que fizeram.

-E o pior de tudo, falta de vergonha na cara para gritar contra todo esse estado de coisas, brios para berrar ¿ o bom cabrito é o que berra, diz o adágio popular ¿ contra o governo hipócrita e injusto, contra a mídia tendenciosa e parcial, contra os violentos, os burros, os insanos, os drogados, os pervertidos, porque, final de contas, alguém tem que discordar de tanta calhordice por atacado, não é mesmo?. Você nem imagina, mas Shakespeere ainda vale hoje em dia, quanto à citação clássica de Hamlet: "Há mais coisas entre o céu e a terra/Do que sonha a nossa vã filosofia..." E depois, nunca diga "Não conheço, portanto é falso". Esse é o famoso Apotema de Narada: -Devemos estudar para conhecer, conhecer para termos a compreensão, e compreendermos para então podermos julgar..."

-Falando sério: o que levamos dessa vida? Quantos anos de vida você tem? De onde viemos, para onde vamos? Você é bom? Para quem? Bom para você mesmo é egoísmo e tempo perdido; você passou em brancas nuvens pela vida, perdeu a viagem, pode ser que tenha tempo para mudar cursos e trajetos, ou pode ser que, finalmente a estupidez tenha vencido e sua solidão seja apenas um jeito camuflado de você estar morto por dentro, só esperando a carranca do último suspiro, o cálice do pré-fim e a última trombeta soar, pois você é responsável pelos que amam você, e, vamos e venhamos, se não houver outra vida, nem um novo céu e uma nova terra, o que você fez desse estojo que hoje carrega coração e mente entrevados em lutas contra moinhos e ventos de erranças e vulgaridades?

-Ainda é tempo de acordar, despertarmos de um pesadelo que parece real, porque não movemos uma palha (com sensibilidade e polidez, saradinhos da alma), para então nos levantarmos de nós, paradoxalmente olhando para nós mesmos, pensando seriamente em buscas, confrontos e mudanças sem molduras, porque, afinal, é essa a razão de existirmos: para adquirirmos técnicas de Vôos. E depois, vamos e venhamos: TUDO NO MUNDO ESTÁ DANDO RESPOSTAS. O que demora é o tempo para você finalmente fazer as suas Perguntas!


Poeta Professor Silas Corrêa Leite ¿ De Itararé-SP ¿ Membro da UBE-União Brasileira de Escritores ¿ Pós-graduado em Educação, Literatura, Relações Raciais e Inteligência Emocional.



posted by ANDARILHA DESCALÇA 8:32 AM

Comments:

{Terça-feira, Abril 27, 2004}

 

Não Se Clona o Prazer
Paulo Rodrigues de Moraes Castro

Cada texto que escrevo, crônica, poema, conto, sinto como sendo mais um filho meu, uma "pequena criatura", como diria o escritor carioca Rubem Fonseca. O mesmo sinto em cada receita que assino e carimbo, em cada beijo que dou nas pessoas que amo, percebo que minha assinatura muda a cada nova carta que envio. Esse prazer pelo novo é gerador de mais prazer e de mais novidade, em um círculo vicioso que não faz mal, não cria dependência, renasce, transcende o momento anterior em direção a um atual de surpresas, novos filhotes.

Quero, já logo de chegada, deixar claro meu intuito aqui: existe uma equação básica e universal, o prazer cria o novo e o novo cria o prazer.

O estereótipo cria desprazer, adoecimento, cabelos brancos entrelaçados com secas longas barbas descuidadas. A morte.

Dentro dessas duas afirmações, uma positiva e outra negativa, abro para a nova Maria e o novo Pedro de cada semana, um campo onde possamos pensar algumas questões que de tão atuais, já parecem saturadas, incansavelmente discutidas em todos os meios de comunicação, mesas redondas, fóruns "sapientes".

Voltemos à metáfora do filho, da cria. Gostoso é encontrar bonitos olhos, quere-los perto de você para um variável "sempre", amar esses olhos, faze-los fechar juntos com os teus quando os rostos se tocarem com os corpos. Então, esperar pelos nove meses, sem saber como virá a mistura aleatória do caldeirão de genes e outras energias impensáveis, implicadas na criação. E nasce a criança, a pequena criatura, que logo terá as próprias histórias para contar, suas novidades, surpresas que nos fazem rir de orgulho, vaidade e lembrança de como tudo começou: meus olhos nos teus. Prazer renovado.

Então, surge a questão da clonagem humana, os debates da bio-ética, levantam-se padres, cientistas, governantes e gritam seus argumentos para todos os ventos sagrados ou profanos, escreve-se uma novela oportunista, o IBOPE agradece com sua gentileza selvagem. Porém, o que todos se esquecem é que o que está no centro das mesas de discussão, não é apenas se o homem está querendo imitar Deus, se os genes irão substituir as Sagradas Escrituras, mas algo bem mais básico: o assassinato consentido do prazer e da novidade, a crucificação de Eros, com os pregos da mesmice cientificamente calculada.

Não é uma discussão apenas para os doutores seculares ou papais, mas principalmente para aqueles, que mesmo sem títulos, ainda são capazes de se viciar no círculo das paixões humanas.

Qual seria meu prazer, agora, nesse exato momento, se eu soubesse que meu texto seria lido por olhos e mentes absolutamente iguais em opiniões? Nenhum, eu morreria de tédio, sem pedir para ser clonado.

O mesmo para os "reality shows", em que o problema não está apenas no uso irrestrito de palavrões, nas cenas de sexo e na discussão intelectualizada, ou raivosa, que isso tudo gera. O ponto está na própria contradição de termos: como "shows" (isso é, espetáculos forjados, copiados, repetidos, enlatados, em última instância, "clonados" do país perfeito das Américas) podem estar ligados à "realidade"? A vida real, para existir e continuar existindo sobre essa nossa Terra, não depende de quinhentos mil reais, prêmio que condicionará as atitudes de todos aqueles ratos - atores por semanas e semanas de encenação laboratorial, mas depende, novamente, desse instinto básico que viemos conversando até aqui: o prazer pela novidade, a entrega ao inesperado. Mais intolerável que as palavras de baixo calão (que todos nós falamos, sobre ou sob "edredons"), é saber que no decorrer do dia, ouviremos várias vezes o repeteco:

" - Faz Parte...."

Faz parte? Parte do que? De nada, se o que nos causa o prazer é exatamente o que "não faz parte", o inusitado a se perpetuar como tal, que só o humano pode oferecer. Não é à toa que a heroína de um programa como esse seja uma ridícula boneca inerte.

Não teremos nunca a segurança de que acordaremos amanhã com a pessoa querida, que a morte não chegará repentinamente, que um raio vindo do céu não possa estragar nosso penteado. Mas aí é que está a graça. Nunca saberemos, por outro lado, que tipo de prazer um esbarrar na esquina pode ter a revelar.

Uma semana de prazeres , meus caros.

"Esqueci de uma coisa . Temos que matar o filho ."
( Rubem Fonseca )


Paulo Rodrigues de Moraes Castro é psiquiatra e psicoterapeuta


posted by ANDARILHA DESCALÇA 9:18 AM

Comments:

{Segunda-feira, Abril 26, 2004}

 

Água de Ti
Jorge Gomes da Silva - Portugal

Percorri em silêncio o nosso caminho. Só pensei em ti.
Em nós também, mas agridem-me as lembranças de
um tempo que há muito deixei de viver.
Em nós, pensei menos um bocadinho.
Lembrei-me de como as árvores no horizonte se transformavam
por magia em guerreiros gigantes, guardiões da passagem
mais nobre para os montes distantes, mesmo na fronteira do paraíso,
quando ainda bricavamos ali.
E afinal o paraíso eras tu, bem o sei agora.

Escapa-se das minhas mãos a água do riacho,
como por entre os dedos fugiu a última madeixa do teu
lindo cabelo negro que tive a sorte de acariciar.
O cabelo longo que molhavas com alegria, junto à agua que corria.
E eu, encostado a uma rocha, olhava para ti e ficava feliz.

Na boca amarga-me amor o acre da saudade,
mastigada com solidão. A água fresca do riacho não me adoça
o coração azedo e não mata a sede,
a que mais me atormenta, muita sede de ti.

Mas bebo muita, bebo toda quanto posso,
que quando o teu sorriso se fez beijo,
chapinhavamos os dois, a água já aqui corria.
Se for a mesma, aquela mesma que te tocava,
prometo todos os dias aqui virei, em silêncio pelo caminho,
dar à alma a tua boca e à minha boca uma ilusão.



posted by ANDARILHA DESCALÇA 9:11 AM

Comments:

{Domingo, Abril 25, 2004}

 
Nós, as máquinas
Vander Claudio


Às vezes eu paro e fico imaginando como será o mundo do futuro, onde, presume-se, todas as coisas serão controladas por computador. Sinto um frio na espinha ao deduzir que me tornarei um refém dessas máquinas extremamente impessoais, uma vez que serão elas que me dirão o que devo fazer, e não o contrário, como funciona hoje. O futuro, neste ponto, é tenebroso.

Tenebroso também é constatar o fato de que este futuro não está mais tão distante quanto imaginamos. Já hoje muitos não mais se vêem sem a utilização diária de um microcomputador, sem as facilidades de um e-mail ou sem a informação on line, disponibilizada na Internet. Sentem-se completamente nus quando não estão plugados, e o sentimento de um disco rígido sendo formatado é o mesmo que traz a convalescência após ter adoecido. Um modem queimado é, para alguns, como um braço engessado. A impressão que isso dá é a de que estamos nos fundindo com a máquina e que somos, de certa forma, o protótipo do homem cibernético citado em inúmeros livros e filmes de ficção científica.

É difícil ter de admitir isso, mas tenho medo do futuro. Tenho medo de que, algum dia, alguma máquina metida a besta pense e decida por mim, seja lá o que for. Arrepia-me a hipótese de que uma geringonça qualquer venha a escolher minhas cuecas ou de ter que dar satisfações de minha vida à uma torradeira. Sinto-me angustiado quando lembro que tudo hoje já é controlado por computador, desde um simples sinal de trânsito às mais sofisticadas armas nucleares. Uma pane geral seria o caos.

Penso que, algum dia, as máquinas irão se revoltar contra nós, seus criadores. Talvez esta revolta já esteja sendo maquinada (trocadilho infame!) em algum lugar do planeta, e sendo transmitida via cable moden, linha telefônica ou fios elétricos para todas as geringonças do mundo. É paradoxal ter de escrever isso utilizando um computador, pois o mesmo irá saber que eu já conheço as suas intenções e, a partir de hoje, olharemos desconfiados um para o outro. Nossa relação de amizade acaba de ir por água abaixo. Logo agora que eu pensava instalar aqui uma linha ADSL que me permitisse ficar mais tempo conectado; logo agora que eu estava iniciando um romance com minha secretária eletrônica!





posted by ANDARILHA DESCALÇA 5:04 PM

Comments:

{Sábado, Abril 24, 2004}

 

Por que o budismo encanta o Ocidente?
Frei Betto

O budismo faz tanto sucesso no Ocidente porque possui características que correspondem às tendências da pós-modernidade neoliberal. Num mundo em que muitas religiões se sustentam em estruturas autoritárias e apresentam desvios fundamentalistas, o budismo apresenta-se como uma não-religião, uma filosofia de vida que não possui hierarquias, estruturas nem códigos canônicos. No budismo não há a idéia de Deus, nem de pecado. Centrado no indivíduo e baseado na prática da yoga e da meditação, o budismo não exige compromissos sociais de seus adeptos, nem submissão a uma comunidade ou crença em verdades reveladas. Há, contudo, muitos budistas engajados em lutas sociais e políticas.
Nessa cultura do elixir da eterna juventude, em que envelhecimento e morte são encarados, não como destinos, mas como fatalidades, o budismo oferece a crença na reencarnação, hoje abraçada por Norman Mailer. Acreditar que será possível viver outras vidas além dessa é sempre consolo e esperança para quem se deixa seduzir pela idéia da imortalidade e não se sente plenamente realizado nessa existência.
Outro aspecto do budismo que o torna tão palatável no Ocidente é a sua adequação a qualquer tendência religiosa. Pode-se ser católico ou protestante e abraçar o budismo como disciplina mental e espiritual, sem conflitos. Mesclar diferentes tradições religiosas é uma tendência crescente para quem respira a ideologia pós-moderna do individualismo exacerbado, segundo a qual cada um de nós pode ser seu próprio papa ou pastor, sem necessidade de referências objetivas.
Como método espiritual, o budismo é de grande riqueza, pois nos ensina a lidar, sem angústia, com o sofrimento; a limpar a mente de inquietações; a adotar atitudes éticas; a esvaziar o coração de vaidades e ambições desmedidas; a ir ao encontro do mais íntimo de nós mesmos, lá onde habita aquele Outro que funda a nossa verdadeira identidade.



posted by ANDARILHA DESCALÇA 4:04 PM

Comments:

{Sexta-feira, Abril 23, 2004}

 

Infância e sabedoria
Luiz Caversan


Hoje vi uma senhora caminhando na rua.
Ia com seu passo vagaroso, um pouquinho curvada,
os cabelos brancos como que coroando a cabeça pequena.

Diminui o ritmo de meus passos para poder observá-la um
pouco mais por trás, aquela figura frágil, e que contrastava
com a "modernidade" e a agitação de tudo à volta.

À medida que ia ultrapassando aquela senhora, tomando cuidado
para manter distância suficiente para observá-la, fui ficando
cada vez mais encantado. Seu semblante era absolutamente sereno.
O olhar firme no horizonte e o princípio de sorriso nos lábios
me instigaram ainda mais, a ponto de eu indelicadamente permanecer olhando.

Percebendo meu interesse, ela se voltou para mim e
me fitou com seus olhos claros e profundos.
Então sorriu de verdade, um sorriso luminoso, contagiante.

Sem saber o que fazer, disse "bom dia", no que fui prontamente
correspondido pela senhora, que imediatamente voltou a mirar
seu caminho e a segui-lo, firme e já não tão forte assim,
mas com a segurança de quem sabe de onde veio e
para onde vai, com toda a experiência dos anos a apoiá-la.

Fiquei a imaginar a vida daquela mulher, todas as suas lutas e
experiências passadas, tudo o que tinha vivenciado para chegar ali,
passando dos 80 anos, segura e confiante,
rumo ao caminho que se lhe abria à frente.

Foi então que, meio sem saber por qual razão,
me lembrei das crianças. Ou melhor, da importância
e da necessidade de ser criança.
Daí a recordar do texto denominado
"Tudo o que eu precisava saber eu aprendi no jardim da infância",
do escritor Robert Fulghum, foi um instante.
Não conheço mais nada desse autor, apenas
o texto do qual me lembrei.
Mas é um texto que me enternece porque boa parte do
que verdadeiramente importa na vida está ali,
nos anos mais tenros de nossas vidas.
Sempre esteve; a gente que não percebe.

Eis o texto. Vale a pena lê-lo:

"A maior parte do que eu realmente precisava saber
sobre viver e o que fazer e como ser,
eu aprendi no jardim da infância.
Na verdade, a sabedoria não está lá no alto morro da faculdade,
mas sim bem ali, na caixa de areia da escolinha.

As coisas que aprendi foram estas: reparta as coisas,
jogue limpo, não bata nos outros, ponha as coisas
de volta onde as encontrou, limpe a bagunça que você fez,
não pegue coisas que não são suas, diga que você
sente muito quando machucou alguém, lave as mãos antes de comer,
puxe a descarga, biscoitos e leite quentinho fazem bem.

Viva uma vida equilibrada: aprenda um pouco, pense um pouco,
desenhe e pinte e cante e dance e brinque
e trabalhe um pouco todos os dias.

Tire um cochilo todas as tardes.
Quando você sair por aí, preste atenção no trânsito e caminhe,
de mãos dadas, junto com os outros.

Observe os milagres acontecerem ao seu redor.
Lembre-se do feijãozinho no algodão molhado, no copinho plástico.
As raízes crescem para baixo e ninguém sabe
como ou por que, mas todos somos assim.

Peixinhos dourados e porquinhos da Índia e ratinhos
brancos e mesmo o feijãozinho do copinho plástico
--todos morrem. Nós também.
E lembre do livro do Joãozinho e Maria e a
primeira palavra que você aprendeu, sem perceber.

A maior palavra de todas:
OLHE !!!!! Tudo o que você precisa mesmo saber está aí,
em algum lugar. As regras básicas do convívio humano,
o amor, os princípios de higiene; ecologia, política e saúde.
Pense como o mundo seria melhor se todos, todo mundo,
na hora do lanche tomasse um copo de leite com biscoitos
e depois pegasse o seu cobertorzinho e tirasse uma soneca.

Ou se tivéssemos uma regra básica, na nossa nação e
em todas as nações, de pôr as coisas de volta nos lugares
onde as encontramos e de limpar a nossa própria bagunça.

E será sempre verdade, não importa quantos anos você tenha,
se você sair ¤por aí, pelo mundo afora, o melhor mesmo
é poder dar as mãos aos outros, e caminhar sempre juntos."



posted by ANDARILHA DESCALÇA 10:01 AM

Comments:

{Quinta-feira, Abril 22, 2004}

 


Crônica do amor amor e perseguição


"As pessoas ficam procurando o amor como solução para seus problemas quando,
na realidade, o amor é a recompensa por você ter resolvido os seus
problemas"
Norman Mailer.

Copiem, decorem, aprendam...

Temos a mania de achar que amor é algo que se busca. Buscamos nos bares,
buscamos na internet, buscamos o amor na parada de ônibus. Como um jogo de
esconde-esconde, procuramos pelo amor que está oculto dentro das boates, nas
salas de aula, nas platéias de teatro. Ele certamente está por ali, você
quase pode sentir seu cheiro, precisa apenas
descobri-lo, agarrá-lo o mais rápido possível, "pois só o amor salva, só o
amor constrói, só o amor traz felicidade..."
Há quem acredite que o amor é medicamento. Pelo contrário. Se vc está
deprimido, histérico, ou ansioso demais, o amor não se aproxima, e, caso o
faça, vai frustrar tal expectativa, porque o amor quer ser recebido com
saúde e leveza, ele não suporta a idéia de ser ingerido de 4 em 4 horas,
como um antibiótico para combater as bactérias da solidão e falta de
auto-estima. Você já ouviu muitas vezes alguém dizer "quando eu menos
esperava, quando eu havia desistido de procurar, o amor apareceu."
Claro, o amor, quer ser bem tratado, por isso escolhe as pessoas que, antes
de tudo, tratam bem de si mesmas. O amor, ao contrário do que se pensa, não
tem que vir antes de tudo. Antes de estabilizar a carreira profissional,
antes de fazer amigos, antes de viajar pelo mundo, de curtir a vida. Ele não
é garantia de que, aparecendo, tudo mais dará certo. Queremos o amor como
pré-requisito para o sucesso nos outros setores, quando, na verdade, o amor
espera primeiro você ser feliz para só então surgir, sem máscara nem
fantasia. É pegar ou largar.
Para quem acha que isso é chantagem, arrisco-me a sair em favor do amor: ser
feliz é uma exigência razoável, e não é tarefa complicada. Felizes são
aqueles que aprendem a administrar seus conflitos, que aceitam suas
oscilações de humor, que dão o melhor de si e não se autoflagelam por causa
de erros que cometem. Felicidade é serenidade. Não tem nada haver com
piscinas, carros e muito menos com príncipes encantados. O amor é o prêmio
para quem relaxa.

As pessoas ficam procurando amor como solução de seus problemas quando, na
realidade, o amor é a recompensa por você ter resolvido seus problemas...

Martha Medeiros

posted by ANDARILHA DESCALÇA 8:35 AM

Comments:

{Quarta-feira, Abril 21, 2004}

 
Coração leve

Leonardo Boff

Quem é ¿gente boa¿ tem um coração leve. Que é ter um coração leve?
Talvez pelo reverso, o coração pesado, possamos entender um pouco.
Ter coração pesado é viver preocupado e até neurótico por causa do emprego,
do salário, das contas a pagar, da escola das crianças, das drogas,
da violência das ruas, da bala perdida. E se tem um negócio:
como enfrentar a concorrência, como incorporar tecnologia nova,
como ser mais eficiente na administração? O coração pesado
não nos deixa dormir tranquilos. Por que ?
Para responder a esta questão, precisamos cavar fundo no tipo
de civilização que criamos e mundializamos. Nossa civilização é
extremamente complexa. Mas um motor escondido move todas
as rodas e bielas: a vontade de poder e seu exercício
na forma de dominação. Queremos dominar a natureza,
chegar até seus últimos confins, dominar as forças da
sociedade, dominar as energias psíquicas, dominar
o código da vida. E tirar de tudo proveito, mesmo
com custos ecológicos funestos. Essa civilização produziu
em nós dois sentimentos: um de exaltação e outro de medo.
Exaltação, pela tecnociência que tantas facilidades trouxe à
nossa vida, fazendo com que crianças morram menos e
idosos vivam mais e nos levando até à Lua. Medo, pela
capacidade de destruição em massa que ela proporciona.
O fim da história humana não é mais coisa de Deus,
mas coisa dos homens, pois montamos o princípio
de nossa auto-destruição.
Para limitar essa capacidade de demência, inventamos
os direitos dos humanos, dos animais, da natureza e o
conceito da dignidade da Terra. Mesmo assim qual é o
resultado final e existencial desse processo civilizatório?
O coração pesado. Perdemos a confiança na vida e o prazer
inocente de viver. Exilamo-nos da Terra e rompemos os laços
de fraternidade que nos uniam à natureza.
O que o ser humano mais teme é o outro ser humano.
Ele está só com seu poder-dominação. E quanto mais
acumula poder, mais tenso fica seu rosto, mais fundas,
as rugas, mais inseguro, o olhar.
Não sabemos para onde vamos.
E o nosso coração fica cada vez mais pesado.
Como gestar um coração leve? Começando a viver
já agora dois valores que fundam outro princípio civilizatório:
a simplicidade e a humildade voluntárias. A simplicidade não é
a espontaneidade natural do inocente.
É fruto de uma maturidade humana. Surge quando afastamos
o que separa o eu do outro e da natureza, que é a
vontade de possuir e dominar. Removido este obstáculo,
descobrimos que somos todos irmãos e irmãs,
da estrela e de cada ser vivo. São Francisco de Assis é o
arquétipo desse modo de ser. A humildade é colocar-se no
mesmo chão onde estão todos os seres e perceber o
mesmo húmus do qual todos vivem. Chuang-Tzu é o
arquétipo deste valor (veja a Via de Chuang-Tzu).
Ele conseguia ver o Tao tanto no esterco quanto no príncipe.
O efeito desta visão para esses mestres, do Ocidente e do
Oriente, era a conquista de um coração leve.
Terás um coração leve se enxergares nos canteiros da
rua o verde e nele a flor que sorri. Se ao olhar para cima
veres, além dos prédios, a nuvem que passa.
Se ao encontrar um pobre conseguires encher teus
olhos com sua presença e vê-lo como irmão.
Se fizeres tudo isso, saberás o que é viver
com o coração leve. Não serás amargo nem ganancioso.
Contigo começa outro tipo de civilização.
E poderás dormir sem o peso duma pedra no peito.
Por causa do coração leve.


posted by ANDARILHA DESCALÇA 7:16 PM

Comments:

{Terça-feira, Abril 20, 2004}

 

CARTA PARA A DANUZA LEÃO

Oi Danuza,

Bom dia, aqui são 8.30 da manhã, acabo de botar a minha "tropa"
prá fora de casa (leia-se: marido e filhos), tirei a mesa do
café-da-manhã, coloquei umas roupas sujas na máquina,
os pratos e xícaras na "dishwasher" (que eu não sei como
se chama isso em português), abri meu computador prá ler
os e-mails e é justamente isso que faço neste exato momento.
Deu prá você ver o tanto de coisa que eu já fiz a essas horas da "madrugada"?
Bem que eu queria dormir mais um pouquinho...
mas vida de dona-de-casa é isso aí.
Apesar que, vamos dizer a verdade,
sou uma dona-de-casa do futuro pois não é qualquer uma que
abre o computador prá escrever e-mails a essas horas, não acha?
Quer coisa mais legal do que ver que tem e-mail prá gente?
É a mesma sensação de ver o carteiro chegando com carta na mão.
Tecnologia moderna, minha filha!
Daqui a pouco vou para o meu atelier pintar.
Sou artista plástica e de vez em quando também
dou uma de "escritora/poetisa"... quando "baixa o santo" eu escrevo.
Ultimamente até que o santo tem baixado com bastante frequência
pois tenho escrito coisas profundas e cheias de sentimento.
Melancolia? Nostalgia? Um pouco dos dois, talvez.
Eu gosto de desabafar em minhas crônicas, é a maneira que
encontrei para tentar diminuir a saudade que sinto das coisas do passado.
Aqui na Áustria eu sou um pouco de tudo: uma mistura de mãe,
esposa, professora particular (dos filhos), empregada (artigo de luxo na Europa),
cozinheira, lavadeira, faxineira, médica, psicóloga, artista
plástica, escritora - nesta exata sequência.
Às vezes não me sobra tempo para me dedicar
à arte que trago dentro de mim.
Hoje um amigo me escreveu um e-mail contando-me do
pão com café-com-leite, ritual de todos os dias para o café-da-manhã.
Bastou para que eu me lembrasse dos meus
cafés-da-manhã lá em casa. Nossa! Que delícia!
Danuza, você teria um faniquito se soubesse o que eu
adorava fazer: eu "pochava" o meu pão na xícara!
Era aquela "lambuzeira"!
Voce já escreveu um livro sobre etiquetas sociais,
que por sinal eu já li e achei bastante interessante, mas,
aqui entre nós Danuza, quem é o santo que faz tudo aquilo
que você aconselha fazer (ou NÃO fazer) em seu livro?
Ah! sejamos sinceras: vai me dizer que lá na sua cozinha,
quando ninguém está por perto olhando, você também não dá uma
"pochadinha" do seu pão no café-com-leite? E não é bom?
Olhe, você me perdoe, mas aquelas suas etiquetas
sociais podem servir para as madames da "high society"
mas prá nós, normais plebeus que apreciam as coisas boas da vida,
o livro não tá com nada!
Ok, você pode até me dizer que isso é uma perversidade,
sou ciente que você está certa, mas NÃO É BOM?
Você tem padaria ao lado da sua casa?
Já sentiu o cheirinho gostoso de pão feito na hora?
Pois então, vá lá na padaria, compre um pão tipo baguete,
chegue em casa, vá prá sua cozinha,
feche a porta prá ninguém ver e faça isso:
Ferva o leite, adicione um pouquinho de café forte
(feito na hora é melhor), pique o pão em pedaços grandes
- faça isso com as mãos e não com a faca - e comece
a cerimônia de "pochar" .
Minha filha, você saberá o que é bom na vida.
E as "dondocas" para quem você escreveu o
seu livro que se danem! Deixe que elas vivam sem
conhecer as coisas boas que a vida nos dá...
e custam tão pouco. Deixe que elas se preocupem
com o preço do Pitangui na próxima operação de "lifting".
Danuza, um dia ainda vamos nos encontrar e eu
quero convidá-la a tomar um café-com-leite lá no bar
da Rodoviaria de Mogi Mirim. Talvez você queira usar peruca
e óculos escuros para nao ser reconhecida, não faz mal,
eu saberei entender.
O importante é conhecer o outro lado da vida
- aquele que você parece ter esquecido que existe.
E, depois que for lá em Mogi, verá o que é bom!

Tchau. Até qualquer hora.

Rosângela Scheithauer



posted by ANDARILHA DESCALÇA 8:29 AM

Comments:

{Segunda-feira, Abril 19, 2004}

 
Monólogo

Viegas Fernandes da Costa


Que fazer se há estes dias em que tudo que nos resta é
a vontade de uma lágrima que insiste em não correr?
E nada nos basta... nada nos basta...

Que fazer se há estes dias em que, impotentes,
observamos o perfil de um rosto alheio que nos
despe suas angústias, e tudo que nos resta é
calar em cumplicidade?
E o grande carrossel, insano carrossel,
com seus cavalinhos coloridos, os lábios
pintados de um rubro assustador, girando,
subindo e descendo... subindo e descendo...
O movimento acompanhado por aquela musiquinha de
parque de diversões, monótona musiquinha
de parque de diversões, repetindo-se infinitamente...
infinitamente... Que fazer se o carrossel não pára?
Há dias em que nos faltam as palavras, nada temos a dizer!
Há dias, no entanto, em que o autômato ato de respirar
se transforma em literatura. E como são doces estes dias
de bolha de sabão! Pudéssemos vivê-los sempre!
Ah, e o carrossel, e os cavalinhos coloridos, e a musiquinha
de parque de diversões, tudo nos apetece o espírito nestes dias de bolha de sabão!
Mas há sempre estes dias em que o desejo de berrar o que o velho
Raul já cantava se faz presente.
E então saímos como sombras urbanas a gritar em
silêncio para que o mundo pare e nos permita descer!
Mas o mundo não pára, sabemos, e, teimosos, insistimos.
Há dias de Cabul, de Bagdá, de Madri; há dias de Torres Gêmeas
e dias de meninos-bomba! Há dias, no entanto, em que impassíveis
observamos a breve lágrima que resvala sobre o perfil
daquele rosto alheio que atravessa a noite, e nos calamos.

E esta lágrima, pequeno pingente de dor, é tudo que passa a existir.


posted by ANDARILHA DESCALÇA 12:41 PM

Comments:

{Domingo, Abril 18, 2004}

 

Falem mal, mas...
Leila Míccolis

Em um conceituado jornal alternativo deste mês,
na seção de correspondência, uma leitora assim se referia a mim:
"Tô achando que a Marcha da Mulher no Brasil vai muito devagar,
sem a divulgação necessária...
Leila Míccolis quieta com suas Palavras em Blocos, Maricá...
ela foi um puta exemplo de pique militante nos meus passos iniciais,
depois retirou-se. Não será este o caminho menos árduo?".
A responsável pelo jornal publicou a carta, mas escreveu-me um bilhetinho:
"espero que o comentário não vá ferir a sua susceptibilidade".
Respondi-lhe que não, se ferisse alguém seria apenas a própria leitora,
que acabava de assinar um atestado público de desconhecimento
total a meu respeito. Nunca escrevi tanto, nunca fui tão lida e,
como minha guerrilha sempre foi através da palavra, principalmente a poética,
nunca fui tão atuante e conhecida. Quanto à "quieta em suas Palavras,
em Blocos, Maricá" não entendi o porquê de Palavras com letra maiúscula
(acaso haverá palavras maiores do que as outras?)
nem o porquê das reticências depois de Maricá
(o que deverei subentender do que foi omitido?).
Acredito na literatura como força viva, mutante, atuante e permanente.
Por conseguinte, nenhuma palavra consciente é quieta, seja no Rio de Janeiro -
e Maricá é Rio -, na China ou em Nova Iorque.
Vejam o que recebemos semana passada:
"Reitero aqui minha satisfação em encontrá-los e minha disposição
de exibir um link para Blocos, arriscando-me até a perder a clientela".
Por quê um site literário pode ser ameaçador?
Porque lida com fagulhas capazes de mudar a mentalidade das
pessoas e de promover grandes transformações nas estruturas sociais.
É como lidar com material inflamável e com múltiplos
explosivos o tempo inteiro. Essa não é bem a idéia que faço de quietude.
A Internet, porém, parece continuar distante e desconhecida,
principalmente dos setores mais conservadores; tenho a
impressão de que muitos ainda a consideram um meio de
comunicação bastante suspeito, tal como, na década de 70,
os mimeógrafos o eram para o regime militar. Sendo assim,
há quem julgue que paramos no tempo e no espaço só porque não
continuamos a fazer exatamente o que fazíamos
nas décadas anteriores. Será que caminho menos
árduo não é justamente o dessas pessoas, que não
acompanham nem a evolução dos tempos nem os novos
meios de comunicação? Menos árduo não será o achismo
("tô achando") em vez da averiguação ?
Outro exemplo típico da cobrança do meu sumiço
(às vezes de forma velada, outras de modo grosseiro)
é meu desaparecimento dos palcos em bares,
nos eventos de poesia. Acontece que nunca fiz isso para aparecer.
Meu showzinho "A pequena notável" sempre foi
mambembe (inclusive escrito e dirigido por mim mesma).
Talvez por esta descontração agradasse tanto.
Não era teatro, nem nunca pretendeu ser -
não quero enveredar por outra profissão que não a de escritora.
Era mais um modo de atuar, de me emocionar com a
reação imediata do público, vibrando na hora, comentando depois.
Porém não tem muito sentido repeti-lo agora -
não criei mais poesias específicas para o show, e
falar as mesmas me parece desgastante, nem tanto
pelo público, que é sempre diferente, mas pela incômoda
sensação pessoal do déjà vu, ou do déjà dit.
Com uma agravante: agora, em geral, os poetas convidados
não merecem a consideração nem de um chope-cortesia; ao contrário,
pagam duas vezes para se apresentar: o seu próprio couvert artístico,
além da consumação (óbvio). Não se trata, pois, de um ato poético,
mas de divulgação gratuita do bar, usando a arte como pano de fundo.
E ainda há quem me diga que o movimento poético está
ressurgindo na noite carioca ou que: "melhor isso do que nada".
Não sei.
A verdade é que "estou noutra", em outro momento,
nada parecido com o retiro de Maricá, pintado pela leitora reticente.
Aqui, agitos não faltam, até por tratar-se de uma cidade pequena,
em que há tudo por fazer e se construir. De qualquer modo,
mesmo que fosse verdade, mesmo que eu tivesse me "aposentado"
da vida, já tinha dado minha intensa contribuição pessoal à coletividade,
sendo merecedora do direito ao descanso, como todos
os mortais ativos ou inertes do planeta, independente
do ranço de patrulhamentos ideológicos - herança amarga
dos anos da repressão. Porém quem me critica, faz o quê agora:
continua descansando, esperando de mim ou de outros o "avanço da causa"?
Por quê não assume a frente, em vez de choramingar nostalgias?
Como diz meu amigo Tanussi Cardoso em um de seus versos, "
quem vive de passado é bolero". De uma única coisa tenho certeza: nenhum movimento está devagar no Brasil só porque não tenho comparecido às últimas palestras.
No entanto, não nego, há um dado que me agride na mensagem:
o disfarce do elogio para suavizar a crítica pessoal infundada;
o embuste da admiração e da estima, que nunca houve,
para aparentar imparcialidade ou pelo menos
um certo distanciamento crítico. É contra esta falsidade que sempre me i
nsurgi, em todas as minhas obras (gestuais e literárias). No entanto, vejo
que no limiar do novo século ainda não sabemos ser honestos com os
nossos sentimentos, não sabemos ser leal em nossas colocações,
não sabemos discordar sem usar subterfúgios ou mesmo ofender.
Daí, se até a presente data sequer aprendemos a deixar de ser hipócritas,
como falar de Marchas da Mulher no Brasil? Nada contra, mas nunca marchei
em paradas, nem estou parada. Continuo na batalha, na minha batalha,
que sempre foi muito pessoal, que nunca se enquadrou em rótulos ou
categorias estanques e, muito menos, em rígidas militâncias
(nunca me alistei ou me filiei a exércitos).
Sempre agi de acordo com a minha consciência individual,
que tem muito de universal e pouco de partidária.
Existe o famoso provérbio: "falem mal, mas falem de mim".
No meio artístico é raro quem não o adote; "ser lembrado" a
qualquer custo, a qualquer preço, é um dos principais mandamentos

de quem quer estar sempre por cima da "carne seca"
(acho muito sugestiva esta expressão). Não contem comigo para
aplaudir a propaganda negativa, que sempre perturba e conturba mais do que alegra.
Cheira-me a "dos males, o menor", conformista, ou, no melhor dos casos,
a alegria pela metade de um "prêmio de consolação". Baseada na teoria
Junguiana da sincronicidade, espero. de preferência, continuar atraindo os
meus afins, conservando-me no anonimato para todos os que não perceberam
ainda que o combate corpo-a-corpo hoje, depois da AIDS, passa por outros
canais além da política do corpo, sendo mais amplo e também mais sutil.
Destes quero me ocultar ao máximo, e por isso a eles encarecidamente peço:
"falem mal, mas... esqueçam de mim".


posted by ANDARILHA DESCALÇA 4:51 PM

Comments:

{Sábado, Abril 17, 2004}

 

Antes do Dia Partir

(Martha Medeiros)

O que valeu a pena hoje? Sempre tem alguma coisa.
Um telefonema. Um filme...

Paulo Mendes Campos, em uma de suas crônicas
reunidas no livro O Amor Acaba, diz que devemos nos
empenhar em não deixar o dia partir inultilmente.
Eu tenho, há anos, isso como lema.

É pieguice, mas antes de dormir, quando o
dia que passou está dando o prefixo e saindo do ar,
eu penso: o que valeu a pena hoje?
Sempre tem alguma coisa. Uma proposta de trabalho.
Um telefonema. Um filme.
Um corte de cabelo que deu certo.
Até uma briga pode ter sido útil, caso tenha
iluminado o que andava ermo dentro da gente.

Já para algumas pessoas, ganhar o dia é ganhar mesmo:
ganhar um aumento, ganhar na loteria, ganhar um pedido
de casamento, ganhar uma licitação, ganhar uma partida.

Mas para quem valoriza apenas as megavitórias, sobram
centenas de outros dias em que, aparentemente,
nada acontece, e geralmente são essas pessoas que
vivem dizendo que a vida não é boa, e seguem cultivando
sua angústia existencial com carinho e uísque,
mesmo já tendo seu superapartamento, sua bela esposa,
seu carro do ano e um salário aditivado.

Nas últimas semanas, meus dias foram salvos por detalhes.

Uma segunda-feira valeu por um programa
de rádio que fez um tributo aos Beatles e que me
arrepiou, me transportou para uma época legal da vida,
me fez querer dividir aquele momento com pessoas que
são importantes pra mim.

Na terça, meu dia não foi em vão porque uma pessoa que
amo muito recebeu um diagnóstico positivo de
uma doença que poderia ser mais séria.

Na quarta, o dia foi ganho porque o aluno de uma
escola me pediu para tirar uma foto com ele.

Na quinta, uma amiga que eu não via há meses ligou me
convidando para almoçar.

Na sexta, o dia não partiu inultilmente só por causa de
um cachorro-quente.

E assim correm os dias, presenteando a gente com uma
música, um crepúsculo, um instante especial que
acaba compensando 24 horas banais.

Claro que tem dias que não servem pra nada,
dias em que ninguém nos surpreende, o trabalho não
rende e as horas se arrastam melancólicas, sem falar
naqueles dias em que tudo dá errado:
batemos o carro, perdemos um cliente
e o encontro da noite é desmarcado.

Pois estou pra dizer que até a tristeza
pode tornar um dia especial, só que não ficaremos
sabendo disso na hora, e sim lá adiante, naquele lugar
chamado futuro, onde tudo se justifica.
É muita condescendência com o cotidiano, eu sei,
mas não deixar o dia de hoje partir inutilmente
é o único meio de a gente aguardar
com entusiasmo o dia de amanhã.

posted by ANDARILHA DESCALÇA 5:08 PM

Comments:

{Sexta-feira, Abril 16, 2004}

 

Mulher
Danuza Leão

Quantas mentiras nos contaram...
Tantas que a gente bem cedo começa
a se achar culpada por ser incompetente
e sem condições de fazer da vida uma sucessão de vitórias
e felicidades.
Uma das mentiras foi que nós, mulheres,
podemos conciliar perfeitamente as funções
de mãe, esposa, companheira e amante,
e ainda por cima ter uma carreira profissional brilhante.
É muito simples: não é sempre que podemos...
Quando você se dedica de corpo e alma a seu filho recém-nascido,
que na hora certa de mamar dorme e que à noite,
quando devia estar dormindo, chora com fome,
não consegue estar bem sexy quando o marido chega,
para cumprir um dos papéis considerados obrigatórios
na trajetória de uma mulher moderna: a de amante.
Aliás, nem a de companheira;
quem vai conseguir trocar uma idéia
sobre a poluição da Baía de Guanabara se saiu do trabalho
e passou no supermercado rapidinho para comprar uma massa
e um molho pronto para resolver o jantar,
e ainda por cima está deprimida porque não teve tempo
de fazer uma escova ?
Mas as revistas femininas estão aí,
querendo convencer as mulheres e os maridos
de que um peixinho com ervas no forno
com uma batatinha cozida al dente,
acompanhado por uma salada
e um vinhozinho branco é facílimo de fazer,
sem esquecer as flores e as velas acesas é claro
e com isso o casamento continuará tendo
aquele toque de glamour fundamental para que dure
por muitos e muitos anos.
Ah, quanta mentira.
Outra grande, diz respeito à mulher que trabalha.
No começo, ela até tenta se vestir com capricho,
usar sapato de salto e estar sempre maquiada,
mas cedo se vão as ilusões.
Entre em qualquer local de trabalho pelas 4 da tarde
e vai ver um bando de mulheres maltratadas,
com o cabelo horrendo, a cara lavada,
e sem um pingo do glamour - aquele - das executivas da Madison.
Dizem que o trabalho enobrece, o que pode até ser verdade.
Mas ele também envelhece, destrói e enruga a pele,
e quando se percebe a guerra já está perdida.
Não adianta: uma mulher glamurosa
e pronta a fazer todos os charmes,
aqueles que enlouquecem os homens,
precisa fundamentalmente de duas coisas: tempo e dinheiro.
Tempo para hidratar os cabelos,
lembrar de tomar seus 37 radicais livres,
tempo para a hidroginástica,
para ter uma massagista tailandesa
e um acupunturista que a relaxe;
tempo para fazer musculação, alongamento,
comprar uma sandália nova para o verão, fazer as unhas,
depilação; e dinheiro para tudo isso
e ainda para pagar uma excelente empregada.
É muito interessante a imagem da mulher
que depois do expediente vai ao toalete
- uma toalete cuja luz é insuportavelmente branca e fria,
retoca a maquiagem, coloca os brincos,
põe a meia preta que está na bolsa desde de manhã e vai,
alegremente, para uma happy hour.
Aliás, se as empresas trocassem a iluminação de seus elevadores
e de seus banheiros por lâmpadas âmbar,
os índices de produtividade iriam ao infinito;
não há auto-estima feminina que resista
quando elas se olham nos espelhos desses recintos.
Felizes são as mulheres que têm cinco minutos - só cinco
- para decidir a roupa que vão usar no trabalho;
na luta contra o relógio o uniforme termina sendo preto ou bege,
para que tudo combine sem que um só minuto seja perdido.
Mas têm outras, com filhos já crescidos:
essas, quando chegam em casa,
têm que conversar com as crianças,
perguntar como foi o dia na escola,
procurar entender por que eles estão agressivas,
por que o rendimento escolar está baixo.
E ainda têm outras que, com ou sem filhos,
ainda têm um namorado que apronta,
e sem o qual elas acham que não conseguem viver
(segundo um conhecedor da alma humana,
só existem três coisas sem as quais não se pode viver: ar, água e pão).
Convenhamos que é difícil ser uma mulher de verdade;
impossível para muitas, eu diria ....


posted by ANDARILHA DESCALÇA 10:12 AM

Comments:

{Quinta-feira, Abril 15, 2004}

 

O que temos feito de nós...
Clarice Lispector


"Olhe para todos a seu redor e veja o
que temos feito de nós.
Não temos amado, acima de todas as coisas.
Não temos aceito o que não entendemos
porque não queremos passar por tolos.
Temos amontoado coisas, coisas e coisas,
mas não temos um ao outro.
Não temos nenhuma alegria que
já não esteja catalogada.
Temos construído catedrais, e ficado
do lado de fora, pois as catedrais
que nós mesmos construímos,
tememos que sejam armadilhas.
Não nos temos entregue a nós mesmos,
pois isso seria o começo de uma vida
larga e nós a tememos. Temos evitado
cair de joelhos diante do primeiro de
nós que por amor diga: tens medo.
Temos organizado associações e
clubes sorridentes onde se serve
com ou sem soda.
Temos procurado nos salvar,
mas sem usar a palavra salvação
para não nos envergonharmos
de ser inocentes.
Não temos usado a palavra amor
para não termos de reconhecer sua
contextura de ódio, de ciúme e de
tantos outros contraditórios.
Temos mantido em segredo a nossa morte
para tornar nossa vida possível.
Muitos de nós fazem arte por não
saber como é a outra coisa.
Temos disfarçado com falso amor a
nossa indiferença, sabendo que nossa
indiferença é angústia disfarçada.
Temos disfarçado com o pequeno medo o
grande medo maior e por isso nunca falamos
o que realmente importa.
Falar no que realmente importa
é considerado uma gafe.
Não temos adorado por termos a sensata
mesquinhez de nos lembrarmos a tempo
dos falsos deuses.
Não temos sido puros e ingênuos para
não rirmos de nós mesmos e para que
no fim do dia possamos dizer
"pelo menos não fui tolo" e
assim não ficarmos perplexos a
ntes de apagar a luz.
Temos sorrido em público do que
não sorriríamos quando ficássemos sozinhos.
Temos chamado de fraqueza a nossa candura.
Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo.
E a tudo isso consideramos a
vitória nossa de cada dia."


posted by ANDARILHA DESCALÇA 11:22 AM

Comments:

{Quarta-feira, Abril 14, 2004}

 

Só é possível filosofar em alemão!
( Friedrich Nietzsche )


Pode-se prometer atos, mas não sentimentos;
pois estes são involuntários.
Quem promete a alguém amá-lo sempre,
ou sempre odiá-lo ou ser-lhe sempre fiel,
promete algo que não está em seu poder;
mas ele pode prometer atos que normalmente são
conseqüência do amor, do ódio, da fidelidade,
mas também podem nascer de outros motivos:
pois caminhos e motivos diversos conduzem a um ato.
A promessa de sempre amar alguém significa, portanto:
enquanto eu te amar, demonstrarei com atos o meu amor;
se eu não mais te amar, continuarei praticando esses
mesmos atos, ainda que por outros motivos:
de modo que na cabeça de nossos semelhantes
permanece a ilusão de que o amor é imutável e
sempre o mesmo. Portanto, prometemos a continuidade
da aparência do amor quando, se cegar a nós mesmos,
juramos a alguém amor eterno.




posted by ANDARILHA DESCALÇA 9:42 AM

Comments:

{Terça-feira, Abril 13, 2004}

 

Intertextualidades
Tchello d'Barros


Sebos são lugares onde se comercializam livros usados.
Isso todo mundo sabe.
O que muitos talvez não saibam é que tais lojas recebem
os visitantes mais ecléticos, formando uma galeria de
personagens tão ou mais interessantes que os que povoam
os livros nas estantes. São intelectuais em busca de obras raras,
estudantes procurando livros técnicos, artistas, escritores,
donas-de-casa e gente de todo naipe em busca de preciosidades
a baixo custo, num lugar onde até mesmo relíquias têm status de novidade.

Dia destes, ao procurar por um volume de ¿O Profeta¿,
do anglo/indiano Gibran Kalil Gibran, sem encontrá-lo,
acabei topando com um exemplar do ¿Rubayat¿, obra poética
do persa setecentista Omar Khayann.
Meu dia de sorte.
Ao retirá-lo da estante, ouvi quando o livro disse tchau!
aos outros dois volumes que o ladeavam.
Estes, responderam educadamente e até desejaram-lhe boa sorte.
Nessa altura da crônica, julgo importante avisar que aqui
neste espaço é permitido que os livros conversem entre si.
Curioso com esse diálogo inusitado, permiti que
eles proseassem ainda um pouco mais.

O primeiro deles, a ¿Odisséia¿, de Homero, disse que
por ser de uma edição antiga, já havia sido lido várias
vezes e morou em uma biblioteca pública.
Depois, por não ter sido devolvido, residiu por muito tempo
numa coleção particular.
Contou que enquanto era lido, aproveitava para ler o rosto
de seus leitores. Parece que o mais interessante havia
sido um professor de história ou literatura, já aposentado,
que lia os versos comparando-os com outra edição,
cujos textos eram em prosa. Seu semblante denunciava que
ao estudar o passado do herói grego Ulysses,
tentava entender nossa atual civilização caótica e desenfreada.

O segundo livro, era ¿O Pequeno Príncipe¿, de Antoine de Saint Exupery,
por sua vez, narrou que leu poucos rostos até o momento.
Tinha sido comprado como presente para um adolescente,
mas o garoto era fissurado em jogos de vídeo e contentou-se em
olhar apenas as figurinhas. Um ano mais tarde,
teria sido lido pela irmã, que tencionava ser miss ou modelo.
Pela expressão do rosto, a moçoila não havia captado muito
bem as sutis mensagens e ensinamentos da obra do aviador
francês que gostava de visitar Florianópolis.
Mesmo assim foi uma experiência inesquecível,
já que ela possuía um belo par de olhos esverdeados,
duas gotas do Atlântico flutuando na superfície daquele semblante.
Contou ainda que o mais marcante foi ter convivido
com dois vizinhos famosos. De um lado, ¿Histórias Extraordinárias¿,
de Edgar Allan Poe, e do outro, nada menos que
¿A Divina Comédia¿, de Dante Alighieri. Ambos lhe davam calafrios,
mas estava cercado por um pouco do melhor já produzido pela história da literatura.

Nesse ponto, eu já estava quase saindo do sebo,
quando aqueles dois livros perguntaram ao meu ¿Rubayat¿
sobre suas leituras. Nosso amigo, com a voz um tanto
romântica e meio embriagada de vinho, contou que até o
momento havia sido lido, coincidentemente por três poetas.
Acrescentou ainda, não sem certo orgulho, que o povo em
geral ainda não descobriu tal preciosidade.
Continuou, dizendo que no próprio sebo, durante os dois
dias apenas em que ali ficou, fora vizinho de um exemplar
autografado de ¿O Código das Águas¿, de Lindolf Bell.
Tal livro estava indignado por, mesmo com a assinatura do poeta,
ter sido vendido para um sebo, ou melhor, foi trocado por
umas revistas de auto-ajuda. Lembrava-se ainda da expressão
emocionada do poeta ao fazer a dedicatória em sua página virgem.
Depois dessa, os livros despediram-se cordialmente,
e, pensativo, fui para casa.

Nessa noite, principiei a primeira leitura do ¿Rubayat¿,
mas não antes de um oportuno beijo e de uma
apropriada taça de vinho tinto.



Tchello d'Barros é escritor, palestrante e promotor cultural.

posted by ANDARILHA DESCALÇA 9:26 AM

Comments:

{Segunda-feira, Abril 12, 2004}

 
A crônica original
Leon Eliachar

Fazer crônica não é escrever palavras bonitas
nem construir frases de efeito,
nem falar dos inimigos, nem elogiar amigos,
nem descrever paisagens,
nem contar casos fictícios querendo dar a impressão de verdadeiros,
nem procurar assunto na falta de assunto,
nem encher uma lauda pra dizer
que o dólar está subindo, nem responder cartas de leitores,
nem inventar cartas
para fingir que recebeu, nem tentar convencer ninguém
que a vida é de amargar,
nem querer impingir nos outros que em tudo há poesia,
nem achar tudo triste,
nem achar tudo alegre, nem falar de sua solidão,
nem de seus problemas,
nem dizer o que fez ontem ou o que vai fazer amanhã,
nem desabafar seus problemas,
nem enumerar seus vícios, nem querer corrigir os dos outros,
nem bancar o cabotino,
nem o falso modesto, nem imaginar o tipo de mulher ideal,
nem provocar enquetes,
nem manter polêmicas, nem analisar a situação internacional,
nem combater o governo, nem defende-lo, nem dizer o que faria
se fosse o presidente da República, nem contar numa segunda-feira
onde passou o fim de semana, nem lutar pela semana inglesa,
nem transcrever artigos de revistas estrangeiras,
nem rememorar velhos tempos,
nem citar amigos para fazer igrejinhas, nem anunciar a primavera,
nem falar na falta d'água, nem endeusar os jogadores de futebol,
nem proclamar que o Brasil está à beira do abismo,
nem combater o cinema nacional, nem criticar o nosso teatro,
nem ironizar as quase vitórias das nossas misses,
nem fazer previsões para as campanhas eleitorais,
nem tirar conclusão de coisa alguma.
- E você consegue fazer uma crônica sem nada disso?
- Claro: olha aí pra cima.


posted by ANDARILHA DESCALÇA 10:36 AM

Comments:

{Domingo, Abril 11, 2004}

 

Clarice Lispector

"Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto
de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma.
Até cortar os defeitos pode ser perigoso -
Nunca se sabe qual o defeito
que sustenta nosso edifício inteiro...
Há certos momentos em que o primeiro dever
a realizar é em relação a si mesmo.
Quase quatro anos me transformaram muito.
Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade
e todo interesse pelas coisas.
Você já viu como um touro castrado se transforma em boi?
Assim fiquei eu...Para me adaptar ao que era inadaptável,
para vencer minhas repulsas e meus sonhos,
tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma
que poderia fazer mal aos outros e a mim.
E com isso cortei também a minha força.
Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo
o que imagina que é ruim em você - não copie uma pessoa ideal,
copie você mesma - é esse seu único meio de viver.
Juro por Deus que, se houvesse um céu,
uma pessoa que se sacrificou por covardia ia ser punida
e iria para um inferno qualquer.
Se é que uma vida morna não é ser punida
por essa mesma mornidão!!
Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence
é tudo o que sua vida exige. Parece uma vida amoral.
Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo.
Gostaria mesmo que você me visse e assistisse
minha vida sem eu saber.
Ver o que pode suceder quando se pactua
com a comodidade da alma".


"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa.
Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está
querendo alterar as coisas.
A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."

posted by ANDARILHA DESCALÇA 7:16 PM

Comments:

{Quarta-feira, Abril 07, 2004}

 

Pazcoa

Átila

Mais uma daquelas datas especiais chegou.
Aquela em que a gente procura adoçar a vida do pessoal querido,
principalmente com chocolate, muito chocolate.
É maravilhoso passear pelos corredores dos grandes mercados
repletos de ovos de páscoa. Todos os tipos, cores e aromas.
Parece uma floresta de delícias,
uma afronta aos vigilantes do peso!
Nós compramos, presenteamos, nos preocupamos,
buscamos mostrar carinho através do presente e
mesmo assim, após tudo terminar, nos encontramos
com uma realidade que incomoda um pouco,
algo que lá no fundo nos faz lembrar que mais um daqueles
momentos de prazer passou e que continuamos os mesmos.
Falta a paz. Esse sentimento está presente
em qualquer pessoa normal.
Os presentes parecem nos aproximar mais
das pessoas queridas, embora saibamos que
ninguém pode comprar paz, amor, dedicação e amizade.

Isso me faz lembrar que o maior presente de Páscoa veio gratuitamente.
É bem mais importante que uns poucos, ou muitos,
gramas de chocolate e traz consigo uma paz que não termina,
que permanece para muito além das datas especiais.
Foi Jesus que morreu e ressuscitou para trazer paz ao
todo de sua vida e em qualquer situação. É paz na páscoa!

Quando é que você vai receber esse sensacional presente?
Basta abrir o coração e firmar um pacto eterno com Ele.
A Bíblia diz que se você falar com Ele em uma oração simples,
não aquelas decoradas, mas de coração pedir que
venha dominar sua vida e controlá-la totalmente
de maneira que você o obedeça sempre, então,
terá a paz que começa agora mesmo e invade a
eternidade, sua eternidade.

Vamos comprar ovos de Páscoa? Pode ser,
gosto de chocolate, mas o que me importa
agora é ver você voltando para casa depois
da festa acabar, pondo a cabeça no
travesseiro e percebendo que a decisão de
entregar-se a Jesus trouxe a paz que nada
antes pôde suprir, mesmo que a tenha procurado...

Aí, sim, será uma bela PáZcoa!

Avaliar, decidir para mudar ...

Um abraço.





posted by ANDARILHA DESCALÇA 9:22 AM

Comments:

{Terça-feira, Abril 06, 2004}

 


Pura Seda
Rosa Pena

Ele entrou em minha vida pela porta da minha carência.
Minha existência estava um caos.
Meu coração parecia uma lata de lixo:
garrafas vazias de ilusões, jornais velhos de esperanças,
cacos de amores passados.
Achei que desta vez seria quase eterno.
Meu estado de alma valeria uma nota no jornal:
"Mulher tocada pela vertigem da paixão".
Hoje a manchete seria diferente.
Lembrei-me do programa Fantástico,
que falava sobre manual de instrução
para eletrodomésticos.
Outro dia, li o da minha máquina de lavar.
Ela é fraca, sempre apresenta defeitos.
Como o meu coração, esse também não é uma Brastemp.
Atentei que existem dois comandos:
automático e manual. Peças pesadas,
peças leves. Sempre usei o automático.
Aperto um botão e sai funcionando sozinho.
Muitas roupas já desbotaram, outras mancharam,
algumas rasgaram. A maioria teve seu tempo
de uso extremamente diminuído.
A pressa enfeiou-as. Estragou-as.
Ah... as minhas relações com o amor são
parecidíssimas. Sempre esqueço que existe
o botão das peças delicadas.
Com ele é permitido regular a lavagem.
Ficam um pouquinho de molho,
torcem devagar e não centrifugam para secagem rápida.
Então, percebo que o amor é pura seda.
Não deve sequer ser levado à máquina.
Lava-se com a mão, bem devagarinho.
Não se torce; usa-se um sabonete delicado;
deixa-se secando ao tempo, sem pregadores,
para não marcá-lo. A opção manual dá
mais trabalho, mas permite que se usufrua
por muito mais tempo da beleza original.
Perdi há pouco uma lingerie linda. Rasgou.
O amor que entrou tão de repente, pela porta
da frente, foi tratado como brim. Centrifuguei demais.
Ficou cheio de marcas, esgarçado.
Desbotou em semanas.
Ontem rasgou-se definitivamente.
Saiu pela porta dos fundos, para a lixeira.
Foi fazer companhia aos outros cacos que lá estão.
Estranhamente não chorei. Estou ficando acostumada.
"Je ne suis jamais seul avec ma solitude" (George Moustaki)
Ele diz que nunca fica só, pois tem a
solidão ao seu lado.


posted by ANDARILHA DESCALÇA 9:17 AM

Comments:

{Segunda-feira, Abril 05, 2004}

 

Por que não falar da morte ?
Psicóloga Sandramaria G.Gomes

Enquanto refletia sobre o tema do artigo deste mês
lembrei-me que 2 de Novembro é Dia de Finados.
Senti, então, um desejo de escrever sobre a morte.
Coincidentemente, ao chegar no hospital em que
trabalho pela manhã, soube que perdemos uma
criança vitimada pelo câncer.
Meu pensamento voa longe sentindo (como é doloroso)
a perda de mais um paciente.
Logo aumenta o desejo de estudar cada
vez mais o assunto para contribuir com estas crianças,
familiares e amigos. Assim eles poderiam
assimilar melhor a morte como parte da vida.
Mas as pessoas iriam ler este artigo ?
Será que seus olhares não correriam rápido
demais para evitá-lo ?
Possivelmente sim !!!
Porém, costumo dizer que sou teimosa
e grandes desafios sempre me atraem;
então, resolvi escrever. Entrei no quarto
vazio e senti a sua ausência.....
Voltei à minha sala, mexi no arquivo e
redescobri em seus últimos desenhos os
sinais da despedida.
Balões suaves subindo ao céu,
uma casa pintada com giz de cêra preto
e dois corações entrelaçados( também pretos )
com os dizeres " eu e você".
Me comovi profundamente e veio uma
percepção tão grande de como as crianças
nos "falam" da morte....
como nosso inconsciente denuncia sutil e
escancarado ao mesmo tempo.
Então, como as crianças, eu usarei
símbolos, metáforas para falar sobre a
finitude e a terminalidade de nossos dias,
o valor de cada segundo que sempre ocupados
com o dia seguinte deixamos passar.
O sol se põe para nascer em um novo dia.
Ele pousa suavemente no horizonte e vai sumindo....
bem devagar.A noite chega para o descanso dos justos ....
e dos injustos !.
As folhas caem secas no chão deixando
lugar para outras que virão verdes.... verdinhas.
As folhas secas fazem sempre aquele
barulhinho gostoso estralando aos nossos pés.
Os passarinhos, as formigas....
todos os seres vivem e morrem.
Outro dia eu ví uma cigarra seca,
esturricada no tronco de uma árvore.
Ela tinha trocado a sua casca para
ganhar asas e voar!!!!.Tudo é assim.
Tem seu tempo de nascer, florir e morrer.
Igual ao Pé de Romã do meu vizinho;
as vezes me surpreende avermelhando
o chão com suas flores, outras vezes
com romãs tão secas que lembram as
múmias do Egito.
Mas o Pé de Romã está sempre lá.
Cheio de bolas de vários tamanhos...
florido e com passarinhos ariscos
todas as manhãs. Um dia este Pé de Romã
vai parar de sombrear, florir, avermelhar
e adocicar a vida de tantas gerações.
Ah!. Você sabe que Romã lido de trás
para frente quer dizer "Amor" ?.
Então esse é o segredo e a única
coisa que faz com que consigamos
deixar a morte conosco num momentinho,
lendo este artigo, refletindo e não fugindo
como crianças com medo do escuro,
e então, podemos perceber que longe
de nos levar nos deixa mais vivos e
atentos à capacidade de Amar e Ser Feliz.

Psicóloga Membro da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia


posted by ANDARILHA DESCALÇA 10:44 AM

Comments:

{Domingo, Abril 04, 2004}

 

O pai de todos nós
Zuenir Ventura

No meu tempo, a gente o chamava de "pai dos burros",
sem se dar conta de que burro era esse tempo,
pois o dicionário sempre foi uma indispensável
e esclarecedora companhia para qualquer homem inteligente.
Mesmo nas redações de jornais de antigamente,
ele era objeto raro: preferia-se perguntar
discretamente ao vizinho "como se escreve perturbar?"
do que passar a "vergonha" de ser apanhado em plena
consulta a quem de fato sabe o que diz.
Se agora os dicionários viraram até motivo de
disputa comercial, o fenômeno pode ser
considerado um bom indício, sinal de inteligência
dos leitores brasileiros, não de burrice.
Temos deles pelo menos três monumentais exemplos:
o "Aurélio", com mais de 20 anos de existência,
o "Michaelis", que se atualizou depois de quinze anos,
e o "Houaiss", o caçula, com mais ou menos a
idade do novo século. Os três juntos já venderam
cerca de 15 milhões de exemplares.
É ou não é um bom indício cultural?
A lexicógrafa Marina Baird Ferreira,
viúva de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira,
acha que se os dois amigos estivessem vivos,
Antonio Houaiss e seu marido, eles estariam
satisfeitos com a saudável discussão para
saber qual é o melhor entre os
nossos excelentes dicionários.
O dicionário é um objeto lúdico que
se presta a muita brincadeira. Como as
palavras têm vida _ nascem, envelhecem e,
ao contrário da gente, podem renascer,
uma boa diversão intelectual é observar
como elas crescem, se desenvolvem,
desaparecem, voltam.
Quando em 1992 Dodô Brandão estava filmando
"3 Antônios & 1 Jobim", um documentário
sobre Tom, Houaiss, Cândido e Callado,
assisti a uma cena memorável.
Tanto quanto Houaiss, Tom adorava as palavras
e freqüentava assiduamente os dicionários
(orgulhava-se da coleção que tinha
em português e inglês). Como se esperava,
a conversa entre os quatro começou por etimologia,
semântica, lexicografia, radicais de nomes etc.
Foi quando o compositor resolveu contar a
história de alguém que numa churrascaria
(certamente ele mesmo) queria provar a
origem da língua portuguesa. O relato foi
um show hilário de erudição vocabular:
"E rodava mais um chope", Tom começou.
"E cada um tinha que dizer uma palavra de origem árabe:
álgebra, alfarrábio, alcachofra, alcaparra, alcova,
almofada, alcaide, almoxarifado, almoço, armazém,
agulha, algibeira, alface, alfafa...
E o negócio ia correndo bem, o chope
era muito, o cara não estava agüentando mais...
E tome chope, tome chope, então ele disse: '
com licença, eu vou al banheiro'."
Houaiss ficou impressionado porque Tom
não errou uma só palavra,
e elas saíram sem hesitação. Aliás,
foi nessa entrevista que o nosso erudito professor
se definiu, a si e à obra que já vinha desenvolvendo
e que era sua paixão: "Sou um operário da palavra,
aquele que pega os tijolinhos e constrói o edifício,
que se chama dicionário".
Além de edifício, o dicionário é também uma espécie
de mapa vocabular do tempo. Pela posição de uma
palavra num verbete, pelo espaço que ocupa,
pelo destaque que recebe, pode-se deduzir
como o mundo e as coisas mudaram. Possuo o
último "Aurélio", o "Houaiss" e uma
edição do "Michaelis", de 1987, bem antiguinha.
Comparar como certos termos se comportam em um
ou outro dicionário ajuda a entender a época.
Tome-se, por exemplo, uma das palavras que
mais metem medo hoje, pois dá nome a um dos
piores flagelos de nosso tempo: síndrome.
No meu exemplar de 14 anos atrás,
ela ocupava não mais que duas linhas: "
Conjunto de sintomas que se apresentam
numa doença e que a caracterizam".
Era isso e não mais que isso.
Hoje, "Síndrome" ocupa 73 linhas no Aurélio
e 97 no Houaiss. O mais sintomático não é
nem a extensão, mas a variedade do conteúdo.
Além da Síndrome de imunodeficiência
adquirida (a Sida, como se diz em Portugal
e na França, ou Aids, como é conhecida aqui
e nos países anglo-saxões), aparece no "Houaiss"
uma diversidade assustadora dessas patologias.
Há mais de dez para atormentar o homem moderno:
de Estocolmo, Down, angústia respiratória,
Adams Stokes, pânico, adaptação, abstinência, menopausa.
Nessa categoria de palavras que metem medo,
há ainda outras, como vírus, seqüela, overdose,
tráfico, tsuname, maligno, vaca louca,
que são também sinais do tempo.
"Bala perdida", por exemplo, não
aparece no "Aurélio", mas já é
uma acepção no "Houaiss".
Nas próxima edições, corre-se o risco de que
a expressão seja incorporada como mais uma síndrome.

posted by ANDARILHA DESCALÇA 3:35 PM

Comments:

{Sexta-feira, Abril 02, 2004}

 


Sabes Receber O Amor ?
Artur da Távola

Do ponto de vista de quem recebe, o amor ganha contornos
bem diferentes daqueles existentes do ponto de vista de quem
dá. E é tão raro o empate entre dar e receber!...
Há pessoas absolutamente incapazes de receber o amor.
Outras há que filtram o amor recebido segundo a sua maneira
de ser, reduzindo (ou ampliando) o afeto ganho através de suas
lentes (existenciais) de aumento ou diminuição.
Quem pode dizer com segurança que sabe avaliar o amor recebido?
Outras há, ainda, que só conseguem amar quando recebem
amor, não admitindo dar sem receber. Há, também, o tipo de
pessoa que não dará (amor) jamais, pois só sabe receber.
E existe aquela outra que quer e precisa receber, porém não sabe
o que fazer quando (e quanto) recebe; transforma-se, então,
numa carência viva a andar por aí, em todos despertando
(por insuspeitadas habilidades) o desejo de algo lhe dar.
Receber o amor é como saber gastar (gostar?). Já reparou que
há pessoas que não sabem gastar? Muitas sabem ganhar muito
dinheiro: mas depois não o sabem gastar. Receber o amor é
como saber gastar (gastar o amor de quem lhe está dando).
É necessário fazer com que o investimento amoroso recebido
renda frutos, juros, dividendos em quem o recebe.
Para novos investimentos e lucros humanos. Há quem o saiba fazer
(ou seja, saiba receber). Há quem não o saiba e gaste o (amor)
recebido de uma só vez, sem qualquer noção do quanto
custou para quem o deu.
O problema de receber o amor é fundamental, porque ele
determina o prosseguimento ou não da doação.
O núcleo do problema está na forma pela qual cada
pessoa recebe o amor, modelando-o.
De que valerá um amor maior que o mundo, se a forma pela
qual se o recebe é diminuta? Um amor de pequena estatura
doado a alguém pode ser recebido como a dádiva suprema.
Será (soará), então, enorme!
Daí que amor está também, além de dar, em saber receber.
Saber receber, embora pareça passivo, é ativo.
Receber, se possível avaliando a intensidade com que é dado e,
se for mais possível, ainda, retribuir na exata medida.
Saber receber é tão amar quanto doar um amor.
Se todos soubessem receber não haveria a graça infinita
dos desencontros do amor, geradores dos encontros.
Receber o amor é tão difícil quanto amar! É que amar
desobriga, e receber o amor parece que prende as pessoas,
tutela-as, aprisiona-as, quando deveria ser exatamente o
contrário, pois saber receber é tão grandioso e difícil quanto saber dar.


posted by ANDARILHA DESCALÇA 8:34 AM

Comments:

{Quinta-feira, Abril 01, 2004}

 

Quatro mulheres e muito amor
Frei Betto


Comemora-se o Dia Internacional da Mulher a 8 de março.
Metade da humanidade é mulher e a outra metade,
filhos de mulheres. A um observador desatento estas
quatro mulheres que me fascinam seriam figuras
contraditórias entre si. Todo paradoxo, porém,
é um enigma, chave da sabedoria.

Maria, a mãe de Jesus, cujo nome prefiro ao título
de Nossa Senhora, sempre me impressionou pela ousadia.
Numa sociedade patriarcal, ela assume radicalmente os
desígnios divinos, a ponto de abraçar uma gravidez
que confundiu o próprio noivo, José, deixando-a,
aos olhos alheios, sob suspeita de adultério.
Um dos sinais de que somos capazes de fazer a
vontade de Deus é, sem ressentimentos,
manter-nos indiferentes à opinião alheia.

Extasiada pela graça recebida, ela canta,
no Magnificat, o prenúncio do significado
da presença de Jesus entre nós,
acentuando que o Senhor "derrubou de
seus tronos os poderosos e elevou os humildes;
saciou de bens os famintos e aos ricos
despediu de mãos vazias" (Lucas 1. 52-53).

Prima de Isabel, mãe de João Batista, ela
presenciou a militância e a morte de João
e de seu filho em favor de um novo tempo
- o Reino de Deus - livre de injustiças
.João é degolado por denunciar a corrupção
das autoridades e Jesus crucificado sob
acusação de blasfêmia e de subversão.
Sem jamais reter para si o filho que veio
para servir a todos, Maria é agraciada
por assistir à Ressurreição e preceder-nos,
por sua assunção, na glória da comunhão trinitária.

Em Maria, Deus ama a mulher que gera o
Amor feito carne. Quis ele que a encarnação
tivesse início nas entranhas de uma camponesa
palestinense, tão pobre que se viu obrigada
a dar à luz num cocho, entre animais.

Tais fatos tanto incomodam que buscamos
amenizá-los realçando a "docilidade" de Maria,
como se os homens fossem deuses a cujos desígnios
devem se submeter as mulheres, e emoldurando o
presépio natalino num conto de fadas.
Hipácia, nascida em Alexandria em 370,
foi a última grande cabeça científica a
trabalhar na famosa biblioteca daquela cidade.
Astrônoma, física, matemática e filósofa,
consta que era muito bonita e nunca se casou.
O cristianismo estava em plena expansão e
todo saber que não coincidisse com seus dogmas
era considerado suspeito de paganismo.
Como Plotino, Hipácia era discípula da
escola neoplatônica fundada em Alexandria
por Amônio Sacas, no século III.
Isso a tornava alvo das suspeitas de Cirilo,
patriarca de Alexandria.
Apesar da oposição do bispo, continuou a
escrever e a ensinar. Em 415, foi atacada
por cristãos fanáticos, seguidores de Cirilo,
que a arrancaram de sua charrete, rasgaram
suas vestes e, armados de conchas,
esfolaram-na. Depois queimaram toda a sua obra
e seu nome foi esquecido. Em contrapartida,
Cirilo foi canonizado. Hipácia deixou-nos,
contudo, o exemplo de que uma mulher tem o
direito de ser independente de cabeça e de coração.
Teresa de Ávila (1515-1582) viveu na Espanha
da conquista da América, época de Las Casas e
Góngora, Cervantes e Lope de Vega. Monja carmelita,
até 47 anos pouco escreveu. Movida por irrefreável
paixão divina, a pedido de seus confessores,
relatou em seis livros, uma coletânea de cartas
e algumas poesias, o modo como se deixou possuir
por seu Amado, a ponto de exclamar:
"Morro por não morrer". A adolescente que
jogava xadrez e lia romances de cavalaria,
quando adulta percorreu a Espanha fundando
comunidades, nas quais centenas de moças
mergulharam na aventura da busca de Deus.
Encarada com suspeitas pela Inquisição,
que requisitou suas obras, e pelo representante
papal na Espanha, que a considerava
"desobediente contumaz", Teresa jamais
se considerou uma santa, pelo contrário,
e mesmo quando descrevia suas experiências
místicas fazia questão de observar:
"Como se há de entender isto, não o sei;
justamente este não-entender é que
me causa grande alegria".
Teresa de Jesus resgatou dos céus o Deus medieval
e, em pleno Renascimento, centrou-O no
coração humano. Fora da experiência da oração,
quem melhor nos revela a mística de Teresa
não é um teólogo, mas um pintor que lhe foi
contemporâneo, El Greco, cujas obras de
flamejante colorido expressa o que ela
sentira e ensinara, convicta de que todo
ser humano é chamado a ser, nas palavras
de seu amigo João da Cruz, uma chama viva de amor.

A quarta mulher nasceu em 1926, nos EUA,
com o nome de Norma Jean Mortenson.
Criança, sonhou que estava nua numa igreja.
Adolescente, posou despida para fotos de calendários
e, logo, tornou-se um dos maiores mitos de Hollywood,
onde ficou famosa como Marilyn Monroe.
Seu talento despontou em filmes como
Os homens preferem as louras (1953),
O pecado mora ao lado (1955),
Quanto mais quente melhor (1959) e
Os desajustados (1960).

Vítima da canibalização da máquina
publicitária e sufocada por uma carência
que a induziu a intensa rotatividade afetiva,
Marilyn Monroe foi encontrada morta em sua cama,
na manhã de 5 de agosto de 1962.
Talvez tenha ingerido forte dose de
barbitúricos ou, quem sabe,
sido assassinada para que seu
silêncio assegurasse o êxito da carreira
política de amantes que posavam em público
como católicos exemplares.
Tinha em mãos o telefone.
Para quem teria ligado?
Nunca se soube.
O poeta e místico Ernesto Cardenal sugere que,
do outro lado da linha, Deus atendeu.

Frei Betto é autor de "Gosto de uva" (Garamond), entre outros livros.



posted by ANDARILHA DESCALÇA 10:18 AM

spacer