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Quarta-feira, Março 31, 2004
EM DEFESA DA MULHER BRASILEIRA
Fernando Tanajura Menezes
É fato comum quando se fala aqui nos Estados Unidos sobre o Brasil
para um estrangeiro, especialmente para um americano,
desperta a imagem de:
"Ah, Rio de Janeiro, as mulheres nos seus minúsculos biquinis..."
O tom é de que as mulheres brasileiras estão sempre disponíveis
como a fruta numa árvore, que é só estender a mão e pode-se colhê-la facilmente.
Nós que vivemos na grande Nova Iorque e adjacências
sabemos perfeitamente que a imagem da mulher brasileira
é associada de imediato com a da go-go girl, da mulher que se
desnuda sem preconceitos para ganhar a vida e, de certa forma,
a brasileira é um "objeto fácil" para os padrões internacionais.
Este fenômeno já foi estudado por antropólogos,
foi tema de teses, motivo de debates,
assunto de reportagens e até argumento de livros.
Além do decantado bum-bum brasileiro,
a segunda imagem é a da baby-sitter ou da barmaid.
Não que estas ocupações sejam degradantes para
quaisquer pessoas, pois são honestas e de
alguma forma úteis à sociedade,
mas a rotulação conseqüente é um
preconceito contra o qual levanto a minha voz.
Residente há mais de vinte anos neste país,
ainda vejo acontecer isso diariamente, apesar
de o fato não corresponder à fama.
Conheço muita gente que é indiferente a esta situação,
e mesmo não se importa ou, simplesmente, acha normal
esta inclinação. Muitas conterrâneas até se sentem
linsojeadas quando se diz que a mulher tropical é
cheia de sensualidade, o que acho natural, porém muitas delas,
quando isso escutam, mudam o tom da voz e se
apressam num trejeito às vezes malicioso,
atrapalhando sensualidade com vulgaridade.
É meu ponto de vista que a mulher tem a obrigação
de apresentar uma postura digna,
conservando o mais que possa o seu charme, o seu encanto, o seu mistério.
A mulher brasileira, como qualquer imigrante de outras
partes do mundo, vem para terra do Tio Sam em busca
de dias melhores e vão à luta.
Na minha busca incessante do pão-nosso-de-cada-dia,
sou obrigado a me relacionar com muitas delas em diferentes
categorias sociais e níveis econômicos diversos.
Assim conheço escritoras, jornalistas, donas-de-casa,
engenheiras, cantoras e artistas em geral.
Tenho amigas e conhecidas que trabalham no ramo da hotelaria,
turismo, restaurante, aviação e comércio.
Existem também as que limpam casas,
tomam conta de efermos e velhinhos, outras
cozinham divinamente, são recepcionistas
de bancos e estabelecimentos comerciais ou simplesmente
estudam e recebem a mesada da família.
Vejo em todas elas a imagem normal de qualquer mulher
de outros países e, em algumas delas, posso até pôr o
rótulo de heroínas, pois além de se manterem com dignidade
em terras estrangeiras e procurarem avançar em
suas carreiras, ajudam a sustentar suas famílias,
aqui ou no Brasil. Outras tantas, além de cuidar da casa,
do marido e dos filhos, dirigem negócios, publicam revistas,
estudam e contribuem de forma honesta para a sociedade em que vivem.
Em recentes encontros em Newark (NJ) e
Boston (MA) de escritores brasileiros que vivem nos
Estados Unidos em que tive a honra de participar,
me foi dada a oportunidade de conversar com muitas
conterrâneas que estão aqui na batalha: trabalhando em restaurantes,
hospitais, lojas, bibliotecas, hotéis ou outro qualquer
lugar que qualquer mulher do mundo trabalhe.
Pelo exposto, a brasileira não é tão diferente das
outras mulheres do planeta: é a mãe, a noiva,
a esposa, a irmã, a namorada, a vizinha, a prima,
a tia, a amiga de todos nós.
Está na hora de dar um basta a esta tendência de
dizer que a mulher brasileira é sinônimo de mulher fácil
e com este BASTA fazer emergir uma nova concepção
da imagem das nossas patrícias.
Cabe a todos nós, mulheres e homens,
residentes no Brasil ou no estrangeiro, l
utarmos por este objetivo:
gritemos em defesa da imagem da mulher brasileira.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 9:33 AM
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Terça-feira, Março 30, 2004
Imaginação
Hideraldo Montenegro
Chovia. Tudo estava em repouso, calmo.
A vida era germinada em silêncio, sutilmente.
Ele caminhava manso, com segurança.
Havia uma altivez em seu porte.
Entre os homens era o que mais demonstrava certeza.
Estava convicto do seu estado.
Tudo o que podia acontecer agora, inevitavelmente, era progredir.
Ele andava como, em cada passo, progredisse.
Tinha, portanto, prazer em caminhar. O quanto já havia andado na vida?
Não conseguia se recordar da extensão.
Seu prazer, em caminhar, era tamanho que não via aquilo
como um espaço a ser vencido, percorrido.
Na chuva ou no sol ele sempre estava ali na estrada.
O olhar sempre à frente. Para ele, o passado não existia.
Era só o presente, de estar ali, e o futuro que
sempre se abria à sua frente.
Era verdadeiramente um homem de perspectiva.
Assim, estava sempre feliz e sorridente.
Às vezes, é certo, haviam pedras em seu caminho,
mas ele sabia que elas ficariam para trás.
Às vezes, até sorria quando levava um tropeção.
Tinha se adiantado mais.
Agora, com a chuva, estava se sentindo mais calmo
do que o normal. Estava feliz, satisfeito.
Sentia que tinha vivido plenamente.
Para ele, não eram os fatos que contavam.
Ele mesmo não tinha uma história. Nunca viveu uma aventura.
Nem mesmo, quando criança, tinha brigado com os
colegas de escola. Não havia nada, em sua vida, para contar.
Entretanto, viveu plenamente. Para ele, viver era sentir
a vida e, isto, sempre sentiu.
Assim, não tinha inveja de ninguém.
Aliás, nem sabia o que significava inveja.
Nunca disputou mulheres, jogos, empregos ou opiniões.
Vivia a maior parte do tempo calado.
Porém, sua mente era brilhante.
Tinha uma lucidez e uma sabedoria admiráveis.
O seu enterro foi no dia seguinte.
Ainda chovia. Todos lamentavam a vida que ele
tinha levado e não conseguiam entender
aquele riso estampado em seu rosto.
Afinal, desde que nasceu, nunca pôde
andar com os seus próprios pés.
Na verdade, nunca pôde andar realmente.
Nasceu paraplégico, porém, tinha uma imaginação fabulosa.
Entretanto, foi um exemplo de alegria e bom senso.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 9:02 AM
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Segunda-feira, Março 29, 2004
Lunáticos
Nilze Costa e Silva
Ser distraído é ser diferente, é ser minoria.
Taxados de loucos, lunáticos, lesados, abestados,
nunca merecemos a centésima chance, pelo menos.
Abrir uma sombrinha no segundo andar de um edifício,
mesmo que só esteja chovendo lá fora, pode até provocar risos.
Mas para nós, que andamos no mundo da lua, lunáticos assumidos,
torna-se um verdadeiro estigma.
Melhor que o dentista nem me tivesse lembrado da sombrinha esquecida.
Foi só ele lembrar e eu acionar imediatamente a dita cuja.
Fiquei lá, a esperar o elevador, enquanto todos me olhavam
como se eu fosse um ser de outro planeta.
Tentei buscar em mim algo de errado que
estivesse chamando atenção. Foi quando olhei para o teto e
descobri que não chovia no segundo andar.
Enfrentei a todos e, de pirraça, mantive a sombrinha aberta,
até o elevador chegar e eu perceber que ele era pequeno
demais para nós duas- eu e a sombrinha. Resolvi fechá-la
e descer mesmo pela escada, afinal eram só dois andares...
Por falar em escada, esta parece me perseguir.
Desisti de transar aquele barzinho legal debaixo da escada
do meu antigo apartamento duplex, por uma simples derrapada verbal.
O desenhista, que planejou a estante da minha biblioteca,
chegou para receber o dinheiro do seu trabalho e eu
aproveitei para lembrar o que já havíamos falado antes:
- E aí, Aderaldo, quando é que a gente vai transar debaixo da escada?
O outro se fez de desentendido e ficou a olhar alternadamente
para mim e para o meu marido.
Tive que me apressar e consertar em tempo hábil:
"quero dizer, transar o barzinho de que te falei,
aproveitando o espaço, debaixo da escada"...
O pior de ser distraído é que pouca gente nos leva a sério,
o que considero um desrespeito à diferença. Certa vez ia num ônibus lotado.
Eu, pequenininha, não alcançava o cordão que
alerta o motorista da nossa parada.
E pedi a um moço mais alto que eu:
- O senhor dá descarga aí, por favor?
Ora, o gajo deve ter pensado que eu era uma louca ou
uma tremenda de uma gozadora. Para complicar ainda mais,
achei que devia balbuciar alguma coisa, embora
percebesse o erro que cometera: "Obrigada! Ou, desculpe".
Era desculpa ou obrigada? Já nem sabia mais.
O certo é que desci bem rápido, enrubescida,
tendo a certeza de que alguns me olhavam ainda, curiosos.
O desrespeito com os distraídos, a certa altura,
chega a ser chocante. Certa vez em outro ônibus
perguntei ao trocador: "quanto é esse ônibus?"
A resposta foi infame:
"Ele não está à venda não, minha senhora!"
Vestir roupa pelo avesso, descer do ônibus várias paradas
depois do ponto, chegar num enterro e falar:
"Olá, tudo bem?", não é nada. O pior é entregar um cheque assinado
no caixa do banco e sair sem esperar o dinheiro;
deixar o carro no estacionamento, ir para casa de ônibus,
procurar o carro na garagem e ligar para polícia comunicando o
roubo do veículo; colocar farinha ou sal no suco para adoçá-lo;
quebrar um ovo com a força maior que a vontade de comê-lo e
ver o conteúdo escorrer entre os dedos; colocar detergente
na salada pensando ser vinagre; fazer conta no celular ou
discar na máquina de calcular; procurar os óculos pela casa
toda com eles na ponta do nariz;
esquecer de pentear os cabelos e até de vestir as calcinhas.
E de tirar também!
Pois não é que eu fui um dia ao ginecologista fazer a
minha prevenção, quando ele me entregou uma bata e falou
que eu tirasse toda a roupa e a vestisse com a
abertura para a frente. Enquanto isso,
conversávamos, ele da sala e eu do banheiro.
Fiz tudo o que ele mandou ou pelo menos julgava ter feito.
Quando saí ele pediu para eu deitar na maca, na posição ginecológica.
- O que é isso? - espantou-se.
Não era nada não... Eu esquecera o principal: tirar a calcinha.
A piadinha era inevitável: "Imagine se fosse pra outra coisa...."
Gracinha, aquele doutor!
Dei um sorriso amarelo e tratei logo de mudar de assunto.
O pior mesmo da distração é que às vezes a gente
não lembra de que é casado ou casada e sai por aí
querendo se apaixonar; Lunática e nefelibata,
esqueço às vezes que ando por linhas tortas e
esbarro nas letras quase imperceptíveis do amor.
O chão se evade sob meus pés!
Perco-me de mim, volatizo-me, esqueço de me procurar,
de me encontrar, de me ver bem de perto e sinto
até saudades do meu rosto.
Certa vez minha imagem se perdeu no espelho,
e eu fiquei lá, menina sempre, sem me atualizar no tempo e no espaço.
Às vezes, nem lembro que cresci...
Um dia esqueci até de morrer.
E vou esquecer sempre, pois os distraídos, os lunáticos
e os loucos nunca lembram a hora certa de partir
e estão sempre perdendo o vôo.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 10:34 AM
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Domingo, Março 28, 2004
Por Entre Ruas
Lucilene Machado
Acordei pensando no que tenho para fazer hoje .
De repente me lembrei que é domingo e que posso escolher o que desejo.
Posso por exemplo, voltar a dormir ouvindo músicas,
posso me deixar envolver por um clima de nostalgia, posso entristecer...
ou posso respirar fundo e por para tocar "Aleluia" de Händel.
Posso também recordar e, sobretudo, escrever. Mas nada disso
me faz tanta falta hoje, quanto caminhar por entre ruas.
E o meu coração tem tantas ruas! Algumas inesquecíveis.
E, parodiando Drummond eu diria "As ruas são tantas e cabem nesta janela".
Janela de onde eu as observo. Umas mais estreitas, outras mais largas...
algumas que eu gostaria de percorrer agora mas, não tenho resistência para chegar até lá.
Mesmo que daqui eu quase consiga avistá-las.
É incompreensível como as coisas próximas podem
estar situadas tão distantes. Acho que eu teria de estudar
geografia para compreender as distâncias, ou estudar física
para descobrir que força estranha é essa que implode aqui
dentro como se as paredes do meu coração se desmoronassem
em pedras que, rolando pelas ribanceiras de mim
deixam o meu peito cheio de pó. No entanto, antes que
essas incertezas embacem as minhas vistas com suas nuvens invisíveis,
desço as escadas e encaro a primeira rua que, como não poderia deixar de ser,
é a rua da minha casa. Uma rua pequena e torta.
Uma rua que me olha de esguelha e vai se abrindo enquanto eu sigo.
Não é todo mundo que tem o privilégio de morar numa rua poética feito a minha.
E eu amo essa rua. Engraçado, eu nunca tive coragem de dizer isso.
Deve ser porque desde criança fui habituada a esconder os
sentimentos de amor. Ainda hoje tenho dificuldades em manifestá-los.
Parece que o amor é um tesouro tão valioso que a gente tem de
esconder e esconder bem lá no mais profundo esconderijo para que ninguém veja.
Então, inibidos de exprimir ou celebrar as coisas do amor ¿
e digo no plural porque sei que a maioria das pessoas têm essa dificuldade -
a gente fica dando ênfase na prosódia enquanto engole a tônica.
Mas isso não é problema de cunho gramatical, deixa eu prosseguir
antes que o pensamento tome outro rumo e siga pela contramão e
hoje é domingo, dia de altar. Domingo lá em casa, era dia sagrado.
A gente tinha até determinadas peças de roupas reservadas para vestir.
E eu botava meia de seda com rendas. E hoje meia de seda é sinônimo
de sensualidade. Mas, toda mulher deve usar meia de seda, pelo menos
aos domingos. Mas deixemos esse assunto pra depois, porque a
essa altura já estou em outra rua onde ipês rosas prenunciam a primavera.
Piso as flores que parecem estender um tapete para eu passar.
Sou mulher feita e refeita. Sou livre para caminhar pelas ruas.
Sou frágil, mas coleciono lutas que me fizeram forte.
Mesmo que pela manhã dores pulsam no peito, tenho essa fúria,
essa força, esse amor terno de flores, pedras e miçangas.
Esse amor pequenino cravado na retina dos meus olhos
que suscita a vontade de vestir uma meia de seda. Mas ninguém sabe.
Ninguém sabe que eu amo e que carrego comigo este amor que não sei dizer,
não sei cantar, mas que faz, às vezes, gotejar uma lágrima quente...
talvez os cães saibam. Os mesmos que me seguiram desde casa e
que farejam os meus passos. Os três me olham e se lambem.
Parecem que falam de mim. Depois entram no pátio de uma casa de carne.
Acho que me enganei. Eles não me seguiam. Quantos pensamentos em vão!
O pensamento é assim mesmo, a gente acumula tanta suposição e nem
pode confiar no que pensa. Agora, por exemplo, estou pensando que
é muito doloroso pisar nessas flores, tenho a sensação
de estar pisando o corpo de Cristo. Acho que é porque é domingo.
Melhor eu prosseguir com os meus passos e com os meus pensamentos.
Há muitas ruas abertas esperando por mim e de repente,
eu até descubro que a eternidade seja uma rua sem fim.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 7:57 PM
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Sexta-feira, Março 26, 2004
A mulher da calcinha de algodão
Andre Debevec
Ela anda pela casa com o jeito mais despreocupado do mundo.
Cabelo castanho quase ondulado na manhã de uma lembrança.
Pegando a torrada besuntada de geléia diet com a pontinha dos dedos,
acha que está mais gorda do que queria estar, como toda mulher.
É linda em sua imperfeição. O camisão gigantesco é secular e faz
questão de não esconder nenhum furinho feito pelo tempo.
Desbotado, é provavelmente uma das coisas que mais guarda o
seu cheiro matinal totalmente viciante.
O beijo morto, dado ainda nos lençóis, vem entre um sussurro
ainda ininteligível de que a preguiça era maior que ela e os
cabelos desgrenhados pela noite. Nenhuma mulher acorda
parecendo que está num anúncio de margarina, mas qualquer
propaganda perderia em naturalidade para seus miados.
Ela tem manias e defeitos como todo ser vivo e adora me tascar
um beijo mesmo antes de escovar os dentes.
É uma dessas mulheres mágicas em sua simplicidade.
À luz da manhã de um domingo qualquer, lendo seu jornalzinho,
pergunta algo que sabe que não sei só para poder fazer graça de mim.
Fica feliz quando me ensina uma palavra nova, cantarola uma música
que nunca tocou no radio, mas que só ela sabe de cor.
Tem calcinhas chiques para ocasiões especiais,
cheias de rendas como troféus para quem a despe.
Ela sabe onde comprar aquela cinta liga alucinante que faz qualquer
homem babar, e certamente tem, pelo menos, uma guardada
da forma mais despreocupada possível na gaveta que você nunca abre.
Reclama da minha barba mal feita que, às vezes,
roça em sua nuca ou em suas coxas.
Adora quando falo do seu umbigo ou quando peço para ela
parar de me morder porque marca.
Vive falando mal da celulite que imagina estar invadindo seu corpo.
É lasciva o suficiente para conseguir tudo que quer com
uma chantagenzinha emocional barata.
Me chama por um apelido que só ela usa e fala sarcasticamente
mal de qualquer coisa que eu escreva só pra depois pular no meu
colo dizendo que era brincadeira. Deixa a gola quase esgarçada do
camisão para me mostrar o ombro e,
quando salta pra pegar mais café, me diz cinicamente que
é para parar de olhar pra sua bunda.
A mulher da calcinha de algodão branco.
Como tantas outras calcinhas que contam histórias
secando nas torneiras do chuveiro.
As calcinhas comuns, sem ocasiões especiais,
sem desculpas por não serem sempre novas e lindas.
A mulher que reclama quando como algo que ela odeia,
a mulher que aperta meu pneuzinho perguntando de quem são aquelas carnes.
Existem poucas cenas mais completas do que assistir ao sono
dela em sua calcinha branca de algodão.
Acho que a calcinha me fascina justamente pela sua idéia de cumplicidade.
De sempre estar ali. Pendurada no banheiro, dobradinha em cima
da cama esperando sumir numa interminável gaveta ou andando
pela casa antes de se esconder dentro de uma calça numa terça-feira.
Essa mulher é a que no elevador me puxa com o olhar mais tarado
do mundo e, segundos antes da porta abrir, me pergunta como está o decote.
A mulher da calcinha de algodão anda por aí, todos os dias,
desapercebida em sua simplicidade, fingindo uma timidez educada
que esconde seu senso de humor debochado e sua vontade eterna
em me ver bebendo vinho nas curvas de suas costas
enquanto compromissos esperam.
Ela é uma mulher, como tantas outras, incomparável.
Mesmo quando a gravidade inevitavelmente ganha suas batalhas
e o tempo a lembre nas aulas de ginástica que ela não tem mais 17 anos.
E daí se as pernas forem mais finas do que ela sempre quis que fossem?
E daí se seu pé não apareceria em outdoors de sandálias?
Sei que ela sempre vai elogiar as magrelas que trabalham como
cabides ambulantes para os grandes nomes da moda.
Sei que ela sempre vai dizer que eu preferiria ver a Gisele Bundchen
de biquíni numa revista do que tê-la ao meu lado.
E essa é uma das coisas boas dela.
Eu sei de um monte de coisas e ainda não me cansei disso.
A mulher da calcinha de algodão sempre vai ter algo inteligente
ou debochado para dizer, sempre vai reclamar que eu deveria dirigir
com mais calma e fazer pouco das outras mulheres
que foram menos que ela na minha vida.
Esta mulher fica menstruada e reclama disso,
sempre fala que fica inchada e se acha um barangão quando está de mau humor.
Esta mulher é falível e real. Além de ser apaixonada por mim
deve andar por aí olhando discretamente pra outros homens
(sem nunca fazer nada), pode certamente comentar de meus
defeitinhos para suas amigas ou ainda sonhar em ir a uma praia sem areia,
que se amontoa dentro do seu velho biquíni.
Ela vive, toma decisões erradas e ostenta outros milhões de defeitos.
Todos eles apaixonantes, porque vêm de alguém real e não
de uma boneca de cera sem personalidade
que muito homem queria ter para mostrar pros amigos.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 8:49 AM
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Quinta-feira, Março 25, 2004
Pressa emocional
"Entre uma multidão haverá uma que te resista.
Mesmo as que resistem, gostam de ser cortejadas.
E, se falhares, não sairás prejudicado com isso.
Mas por que hás de falhar?
Quando há sempre uma grata volúpia nova e se o
coração é mais seduzido pelo que lhe é estranho?"
(Pablius Ovídius Naso - Ovídio, para os íntimos da poesia e da arte de amar).
Está na imprensa - dos jornais mais sérios às revistas de futilidades -
a história do homem que declinou o convite de uma artista global,
resistindo ao assédio para acompanhá-la até a alcova e ter com ela
uma noite de amor que prometia ser quente.
A noite acabou com ela indo para casa sozinha e ele recebendo
as mais cruéis piadinhas do clube dos machões, além do título de pipoqueiro.
A espantosa velocidade do mundo moderno e toda sua
tecnologia vêm impondo um ritmo frenético aos seres humanos
em todas as suas emoções. Há uma busca desesperada de viver
o emocional em sua total plenitude. Mais do que qualquer outro sentimento,
o amor, a paixão e a libido, que quase se confundem,
não escaparam desta armadilha que eu chamo de "urgência emocional".
O mundo tem pressa e as pessoas também, todos querendo se
apaixonar, se dar bem ou sangrar, não importa, desde que seja
num átimo de segundo. O amor talvez seja a mais brusca e surpreendente
experiência afetiva que toma conta do ser humano.
Com um objeto excitante e de um valor inestimável,
provoca um derrame de reações glandulares,
mexe com o corpo e com a alma das pessoas.
É praticamente impossível permanecer emocionalmente neutro
diante da pessoa amada. Este desejo de aproximação é quase irresistível.
Não sei se por carência afetiva, pressa de viver estas emoções,
ou até mesmo falta de prática nestes jogos para adultos,
acho que as mulheres, depois que se libertaram do jugo
opressivo talibã de praticamente 30 anos atrás, não estão
sabendo jogar este jogo. A mulher está se deixando vulgarizar pela mídia -
afinal, elas só pensam nisso! - e passou a encarar os homens como se fosse outro homem.
Aparentemente, ela não está sabendo lidar com a liberdade
conquistada tão duramente, que causou mudanças significativas no mundo ocidental.
A cada dia, aumentam os artigos nas revistas femininas,
escritos por homens, abordando o assunto. Recentemente, um deles
reclamava o direito de ser um pouquinho machista, querendo pagar a
conta no restaurante, etc; outro que li, escrito por um jovem e bem
sucedido publicitário, discorria sobre sua busca daquilo que chamou
de "mulher-calcinha-de-algodão", ou seja, a mulher natural.
Aquela mulher que não tem vergonha de ser ela mesma,
que não usa uma superprodução para agradar no primeiro encontro.
Aquela que, em vez de estabelecer para si objetivos e modelos inatingíveis,
procura valorizar o que ela tem de mais particular para encantar,
sem temer a celulite e as rugas.
Os homens acusaram o golpe e estão se retraindo.
Eles sempre foram naturalmente os predadores,
os caçadores e tornaram-se mestres na arte da conquista,
chegando a escrever verdadeiros manuais a este respeito mesmo sabendo que
depois de tudo, são eles que serão fatalmente conquistados pela mulher amada.
Mas no mundo moderno parece não haver mais lugar para o amor,
para tolos românticos com suas flores e flertes. Só há lugar para a paixão fugaz
e passageira. As mulheres continuam cada vez mais belas fêmeas,
mas estão, às pressas, sufocando sua natureza e isto acaba se
traduzindo em solidão. Até parece que estão lendo nossos manuais de conquista
de ponta-cabeça. Ovídio, o mestre, simplesmente não acreditaria!
Marissom Ricardo Roso
posted by ANDARILHA DESCALÇA 3:48 PM
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Saudade
por Ana Miranda
Os meus amigos niilistas diriam que a saudade não existe,
que não existe a saudade de um país, de um neto distante,
da mulher amada, da aurora de nossas vidas que
os anos não trazem mais, diriam que aquilo que chamamos saudade
é apenas um sentimento de que perdemos alguma coisa nossa dentro de nós
mesmos e não somos capazes de encontrar, diriam que saudade é
apenas a nostalgia do outro, que sentimos saudades do que gostaríamos de ser,
saudades do futuro, saudades do paraíso, do que não soubemos agarrar,
do que não pudemos viver, do que nos foi oferecido e deixamos escapar,
e o nome verdadeiro da saudade seria possessividade, ah teorias,
diriam que sente saudades aquele que não ama a si mesmo o bastante para
se bastar a si mesmo, mas, meu Deus, quem é o bastardo que
se basta a si mesmo? Somos todos órfãos de nós mesmos,
Clarice Lispector escreveu a bela frase, Ah quando eu morrer vou sentir
tanta saudade de mim... e diriam que sentimos saudades de nós mesmos,
mas seja assim, seja assado, a saudade dói, e como dói, e parece
que mais da metade da humanidade passa mais da metade da vida
sentindo saudade, seja a saudade assim ou assada e tenha este
nome ou tenha outro, a verdade é que ela fica ali como um buraco no peito,
um vazio, uma frente fria que não passa, uma muda cotovia,
a saudade é uma contra-flor, diria o poeta Marco Lucchesi,
a saudade é a sombra do nada, a superfície do nada, o não-perdão
por aquilo que se foi, ou que nunca foi nem é e nem será, e vagamos
à procura de um rosto, de uma infância, de um país, de um paraíso perdido,
em estado de quase, o quase-ser no quase-dia, e a saudade nos deixa
sensíveis, pálidos e felizes, reclamando a vida, ansiando o outro,
invadidos pela inquietação dos anjos, e cheios de pedaços
perdidos aos nossos pés ou dentro de nós graças a Deus,
e somos escritos pelo vento, perto do fundo das coisas,
tomados das memórias, das miragens e dos sonhos que,
de outro modo, não poderíamos ver.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 1:46 PM
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A BÊNÇÃO DAS LÁGRIMAS
Rubens C. Romanelli
Bendita a lágrima em que se cristaliza o acervo atroz de nossas dores e
se dilui o negro fel de nossas mágoas.
Bendita a lágrima a cuja tona flutuam farrapos sombrios de sonhos dourados e
em cujo fundo vagueiam espectros tristonhos de esperanças mortas.
Bendita a lágrima dos que carpem a desdita de nascerem sem teto e
choram a desgraça de viverem sem pão.
Bendita a lágrima dos que jamais conheceram um afeto de mãe e
nunca provaram um carinho de espôsa.
Bendita a lágrima, desafôgo amigo dos que são sós e
consôlo ardente dos que são tristes.
Bendita a lágrima dos que põem sôbre os ombros a cruz de seu próximo e
o ajudam a escalar o calvário da existência.
Bendita a lágrima dos que buscam, errantes, o calor de um afeto e
sòmente encontram o frio do desprêzo.
Bendita a lágrima dos que sofrem injustiças pelos ideais que defendem e
só colhem ingratidões pelo bem que semeiam.
Bendita a lágrima que erige no cérebro um templo à Verdade e
converte o coração num sacrário de Amor.
Bendita a lágrima que aflora, escaldante, nas noites do sofrimento e
esplende como um sol nas manhãs da redenção.
Bendita, enfim, a lágrima, gôta de luz das auroras celestes e
síntese terrena do orvalho divino.
posted by ANDARILHA DESCALÇA 11:11 AM
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