
6:56 PM
O Canto de um Rio em sua Vida
Adino Bandeira
Há dias ouvia o canto de um rio em sua vida.
Tanto que resolveu consultar o mar,
pai e mãe donde vêm e pronde vão todas as águas.
Perguntou-lhe do rio cantante e do que trazia.
“Alegrias e tristezas, mas felicidade ao fim do dia”.
Enigmático, enfiou os pés na areia onde
onda se bronzeia, molhou-se até quando não mais
podia e correu idéias por toda praia que se fez imaginar.
Lavou-se em essência e seguiu tranqüilo,
sereno como o fim da tarde.
Rabiscado por Andarilha descalça
5:25 PM
CONTINUO SEM SABER DE MIM
Carla Dias
Estava nessa correria, tropecei, caí, levantei, sacudi a poeira e dei a volta pela sala, procurando bugigangas que arquivo na alma, enquanto falava com as paredes, reiterando o mantra: essa não sou eu.
Não sou a pessoa que encontro a cada manhã, o olhar enevoado, a rotina desprovida daqueles gracejos usuais, provocados pela vontade de pensá-la colorida; a rotina lírica, atrevida.
A ousadia me dispensou há tempos, pois até mesmo ela tem de se alimentar. E ando dando de comer a ela somente as raspas, os restos, a letargia. As esperas vãs.
Hoje um estranho me pediu informação sobre ônibus e, do nada, disse para eu não cortar mais os cabelos. Será que ele enxergou do lado contrário do espelho, alcançando o quando eu parecia mais certa, cabendo em mim, ainda que descabida de tudo? E, certamente, mais descabelada...
Dei a informação sobre o ônibus e ignorei os cabelos.
Antes que me esqueça de esclarecer: não era apenas sobre ônibus pra Lapa e cabelos cortados. O estranho disse que era recado de Iemanjá. E eu sorri da ironia... O que desejaria a rainha do mar de uma pessoa que mantém os pés no concreto há tanto tempo?
Há pessoas sensíveis nessas ruas e, às vezes, encontro alguma que me faz re-experimentar o passado e o trampolim para o futuro; desvendar delícias no presente. E a confusão amarga, mas depois se torna agridoce.
Estava zanzando, rodopiando sem destino pelo quarto. Sambei tristezas ancestrais; distraí mágoas com meio-sorrisos. Invadi o passado e trouxe de volta as lembranças de mim, quando pensava no amanhã como ele fosse um milagre certeiro: acordar, enxergar, tocar, experimentar.
No meu dentro, a rotina ainda tem seus momentos de excentricidade: flerta com distâncias, embarga mágoas; tem amor arisco, doce, tresloucado. Nessa rotina, os sabores se misturam, os perfumes também.
Assopro samambaias, balelas me inspiram verdades. E clamo para que precipícios cuspam frenesis e eu possa colhê-los feito buquê de noiva que foi lançado. Quero noivar com indecências, das que apimentam amor à beira da mesmice.
Meus erros me fortalecem, mas também me levam a ensimesmar. E lá no mais profundo de mim, necessito de gritos, tambores alucinados, noites a sós com as promessas de realização sendo cumpridas.
Há uma de mim que vive meu fora, e ela é cética, prática, medrosa. Há uma de mim que vive meu dentro, e ela não é, porque se transforma constantemente, com a mesma euforia dos sentimentos. Elas se sentam, lado a lado, parecem irmãs, mas brigam pela minha alma. E é justamente essa uma de mim, a que nasce dessa disputa, que busco reconquistar, porque ela tem flores nos cabelos, esperança no coração, música na alma, poesia nas veias.
A miscelânea de sensações me faz doer o estômago, ao mesmo tempo em que me acalma: ainda tenho jeito.

Rabiscado por Andarilha descalça
11:03 AM
Homem: Convexo - côncavo
Maria Cristina Castilho de Andrade
Era um homem convexo. Sua imagem destacava-se na planície de margaridas e girassóis. Ali ficava toda tarde, sentado sobre os calcanhares, com o olhar perdido na imensidão. Sua idade era um acúmulo de décadas, e a vida ia passando, sem interromper, como as nuvens no ritmo do ar em movimento.
Observava-o de meus dias. Observava-me de suas horas, pois não sabia quantas faltavam. Eu supunha, ainda, que lhe restavam todos os dias.
Resolveu, quando julgou-me preparada, intro-duzir-me em seu álbum de recordações. A capa lembrava-me uma moldura antiga com foto da família reunida em almoço de festa.
Suas mãos trêmulas viravam as folhas secas, de coração úmido, da última para a primeira. Via a mãe, com colo de cantiga, a ninar o que restou dos sonhos, numa cadeira de balanço. Vi o pai, de olhar austero, marcado pelo acontecer dos anos, à espera de um braço que o sustentasse nos degraus finais. Encontrei lacunas entre os irmãos. Explicou-me que não voltariam, mas, com certeza, de que se veriam depois.
Detive-me nas expressões de riso. Em todas elas um fitar de olhos sem sorriso, percebendo que no próximo flash poderiam ser apenas melancolia.
Encontrei-o, numa página, menino. Sabia-o vestido de calças curtas a empinar uma enorme pipa, colocando nela todos os seus anseios. Vestira-se também, em outra época, de marinheiro. Buscava a ilha de Robison Crusoé.
Não lhes posso dizer que as páginas eram com-pletamente tristes, mas sim profundamente fortes.
Não se resumia naquele álbum de folhas acinzentadas. Fora mais. Fora muito mais. Fora um guerreiro que partira para a luta, levando nas mãos um ramo de lírio, e no coldre um botão de cravo vermelho. Fora um navegante que trouxera, nos cabelos, respingos de mistério. Fora um desbravador, que retornara trazendo um feixe de raios prateados.
Era um homem convexo. Nele, detinham-se borboletas, abelhas, avezinhas que fugiam do frio. Nele, parava a brisa, com gosto de amora madura. Nele, pairavam folhas recém-nascidas.
A voz cansada sussurrava melodias. Os passos lentos, trôpegos, acabavam por chegar às laranjeiras e pessegueiros floridos. Os olhos despiam-se da catarata e enxergavam atrás das cordilheiras...
Sem que me desse conta, tornou-se um homem côncavo. Em sua depressão brotaram hortênsias, quaresmeiras... Sua imagem se diluiu na planície outonal.
Hoje, quando abro janelas, não o vejo como antes. Procuro, inutilmente, sua silhueta. Vem, então, a saudade daquele que deixou seu contorno nas pétalas rosadas das terras alcalinas.
Homem convexo-côncavo..... Grande homem, homem por inteiro.
Rabiscado por Andarilha descalça
7:23 PM
ALGO MAIS NO NATAL
Senhor Jesus!
Diante do Natal, que te lembra
a glória na manjedoura,
nós te agradecemos:
a música da oração;
o regozijo da fé;
a mensagem de amor;
a alegria do lar;
o apelo a fraternidade;
o júbilo da esperança;
a bênção do trabalho;
a confiança no bem;
o tesouro da tua paz;
a palavra da Boa Nova;
e a confiança no futuro!...
Entretanto, oh! Divino Mestre,
de corações voltados para o teu coração,
nós te suplicamos algo mais! ...
Concede-nos, Senhor,
o dom inefável da humildade
para que tenhamos a precisa coragem
de seguir-te os exemplos!
EMMANUEL,
do livro “Luz do Coração”
Psicografia de Francisco Cândido Xavier

Rabiscado por Andarilha descalça
3:03 PM
As asas
Um homem demora muito tempo a fazer-se.
Não somos como aqueles passarinhos que se soltam na imensidão dos céus pouco tempo depois de terem visto a luz.
Trazemos em nós uma semente que demora a germinar, que gasta nessa tarefa muitos anos de agitação e silêncio. É assim, decerto, porque está destinada a dar um fruto muito maior que o do pássaro.
Temos, sem dúvida, uma alma: raciocinamos, temos sede de conhecer, somos capazes de amar e de escolher.
Um animal come necessariamente, se tiver fome e o alimento estiver ao seu alcance.
Um homem, nas mesmas circunstâncias, pode não o fazer. Porque, por exemplo, resolveu fazer dieta. Ou porque escolheu dar o seu alimento a outro que tinha mais fome do que ele. Tem a possibilidade de viver de acordo com outros critérios.
Há muitos séculos que chamamos alma a esse "não sei quê" que faz parte de nós e nos permite viver num plano superior ao das coisas simplesmente materiais. É como se possuíssemos uma espécie de asas.
Sabemos apreciar um sofá confortável, um sono reparador, um bom bife com batatas fritas. Mas precisamos de mais do que isso.
E damos por nós a perguntar "porquê?", ou a discutir idéias. E descobrimos que há qualquer coisa - não feita de células ou moléculas - que nos comove e nos atrai numa paisagem, num gesto de heroísmo, num poema, na música.
Há uma beleza e um bem que não são feitos de nada que se possa tocar. Que não estão nas coisas, embora as coisas nos levem a eles. Aquilo que é apenas material - acabamos sempre por o descobrir - sabe a pouco e não nos enche as medidas. Mas leva tempo a chegar aí.
Leva tempo até percebermos, por exemplo, que existe uma paz que não é a paz das coisas, mas sim uma harmonia interior que resulta de um comportamento correto. E que é esse o gênero de paz que nos interessa; que não nos basta aquela paz que é feita somente de ausência de vento ou de guerra.
Um homem tem de crescer não apenas corporalmente. Deve atingir uma envergadura que ultrapassa em muito o âmbito das coisas materiais. Deve fazer-se... homem.
É um caminho já de si longo. Ainda por cima, cometemos com frequência a burrice de termos medo de ganhar asas. De largar um pouco esses outros bens - mais pequenos, mais baixos, mais... animais. É olhar e ver como muitas vezes nos afadigamos correndo atrás da posse de bens materiais e dos prazeres que não são senão para o corpo e de que também gostamos. Ter, gozar, curtir, comprar, comprar... Ter, ter, ter.
Mas sucede que o ter e o comprar e o curtir - usados de um modo exagerado, como fazemos - nos atrasam. Perdemos tempo.
Quem vive obcecado com a posse de prazeres e bens materiais não tem acesso aos prazeres da alma. Passa ao lado do bem e da beleza e do amor. Porque escolheu um nível para a sua vida - o mais cômodo - e escolher uma coisa é sacrificar as outras. Não é possível alcançar o topo da montanha e, simultaneamente, permanecer deitado à sombra lá em baixo.
Portanto, apressemo-nos. Pois, como escreveu o poeta, ter é tardar...
(Paulo Geraldo)
Rabiscado por Andarilha descalça
9:20 AM
"Vê mais longe a gaivota que voa mais alto"
Na superfície do azul brilhante do céu, tentando a custo manter as asas numa dolorosa curva, Fernão Capelo Gaivota levanta o bico a trinta metros de altura. E voa. Voar é muito importante, tão ou mais importante que viver, que comer, pelo menos para Fernão, uma gaivota que pensa e sente o sabor do infinito. E verdade, que é caro pensar diferentemente do resto do bando, passar dias inteiros só voando, só aprendendo a voar, longe do comum dos mortais, estes que se contentam com o que são, na pobreza das limitações. Para Fernão é diferente, evoluir é necessário, a vida é o desconhecido. Afinal uma gaivota que se preza tem de viver o brilho das estrelas, analisar de perto o paraíso, respirar ares mais leves e mais afáveis. Viver é conquistar, não limitar o ilimitável. Sempre haverá o que aprender. Sempre.
«Então isto é o paraíso», pensou, e teve de sorrir de si próprio. Não era lá muito respeitoso analisar o paraíso, no preciso momento em que se preparava para entrar nele.
Durante muito tempo Fernão esqueceu-se do mundo onde vivia, aquele local onde o Bando vivia com os olhos completamente cerrados em relação ao prazer de voar, utilizando as asas como meros meios para atingir o fim de procurar e lutar pela comida. Mas, de vez em quando, e só por um momento, lembrava-se.
Lembrou-se numa manhã em que saíra com o instrutor, enquanto as outras gaivotas descansavam na praia, após uma sessão de voos de asa dobrada.
- Onde estão os outros, Henrique? – perguntou, em silêncio... - Por que somos tão poucos aqui? Lá do sítio de onde venho...
- ... milhares e milhares de gaivotas. Eu sei. – Henrique abanou a cabeça. – A única resposta que encontro, Fernão, é que tu és um pássaro, num milhão. A maior parte de nós percorreu um longo caminho. Fomos de um mundo para outro que era quase igual ao primeiro, sem nos preocuparmos com o destino, vivendo o momento. Fazes alguma ideia de quantas vidas teremos de viver antes de compreendermos que há coisas mais importantes do que comer, lutar ou disputar o poder no Bando? Mil vidas, Fernão, dez mil vidas! E, depois, mais cem vidas até começarmos a aprender que a perfeição existe, e outras cem para constatar que o nosso objectivo na vida é conseguir a perfeição e pô-la em prática. As mesmas regras se aplicam, agora, a nós: escolhemos o nosso mundo através do que aprendemos neste. Se não aprendermos nada, então o próximo mundo será igual a este, com as mesmas limitações e obstáculos a vencer.
- Chiang, este mundo não é o paraíso, pois não?
O Mais Velho sorriu, ao luar.
- Bem, mas que acontece depois? Para onde vamos? O paraíso não existe?
- Não, Fernão, o paraíso não existe. O paraíso não é um lugar, nem um tempo. O paraíso é ser-se perfeito.
- Voas com muita velocidade, não voas?
- Eu... eu gosto da velocidade - respondeu Fernão, surpreendido mas orgulhoso por o Mais Velho ter reparado.
- Vais começar a aproximar-te do paraíso, Fernão, no momento em que alcançares a velocidade perfeita. E isso não é voar a mil e quinhentos quilómetros à hora, nem a um milhão e quinhentos mil, nem voar à velocidade da luz. É que nenhum número é um limite e a perfeição não tem limites. A velocidade perfeita, meu filho, é estar ali.
Sem avisar, Chiang evaporou-se e apareceu junto à água, a uma distância de quinze metros, por um breve instante. Depois, voltou a desaparecer e pairou, por uma fracção de segundos ao lado de Fernão.
- É engraçado - disse.
Fernão ficou atordoado. Esqueceu-se de fazer perguntas acerca do paraíso.
- Como se faz isso? Qual é a sensação? Até onde se pode ir?
- Desde que o desejes, podes ir a qualquer lugar, em qualquer momento – disse-lhe o Mais Velho. – Fui a todos os lugares sempre que quis. - Olhou o mar, pensativo.
- É estranho... As gaivotas que desprezam a perfeição por amor ao movimento não chegam a parte alguma, lentamente. Aqueles que trocam o prazer de voar pela perfeição, vão a qualquer parte, instantaneamente. Lembra-te, Fernão, o paraíso não é um lugar nem um tempo, porque lugar e tempo não significam nada.
- Tu tens a liberdade de ser tu próprio, o teu verdadeiro eu, Aqui e Agora; nada se pode interpor no teu caminho. Essa é a Lei da Grande Gaivota, a Lei que É.
- Queres dizer que posso voar?
- Quero dizer que és livre! O truque consiste em tentar ultrapassar as nossas limitações, com calma e paciência...
Todo o vosso corpo, desde a ponta de uma asa até à ponta de outra asa – costumava dizer Fernão -, não é mais do que o vosso próprio pensamento, uma forma que podem ver. Quebrem as correntes do pensamento e conseguirão quebrar as correntes do corpo.
(“Fernão Capelo Gaivota” – Richard Bach)
Rabiscado por Andarilha descalça
11:38 PM
Silêncio! Há uma prece no ar
Nilton Bustamante,
A paz, convertida em prece que a alma exclama, serve-nos para oferecer ao espaço assimétrico as inúmeras coisas, acontecimentos que o burburinho do dia a dia não nos permitira saber seus tamanhos, nem tão pouco seus sentidos.
Tal façanha, que encanta – sim, tudo que se aprimora eleva-se à boa razão - é só um começo de entendimento da pequena andança no imaginário da realidade idealizada por uma vontade de subtrair as indecências para resultar a altaneira consciência cósmica.
O ato de respeitar o tempo que se vive, servindo-se do passado como placa sinalizadora para vislumbrar um amanhã cuja ciência exata é o amor, é o procedimento de quem exclama, da alma, a prece convertida em paz.
Silêncio, por favor, há uma prece no ar.
Rabiscado por Andarilha descalça
5:05 PM
Manual do ser perfeito
Aonde você foi??
Por onde você andou?
Alguém ai me diz por que a gente tem que ser o tempo todo controlado por todo mundo??
Porque as pessoas simplesmente não tomam conta da suas vidas e nos deixam cuidar da nossa??
Veja bem, se todo mundo cuidasse exclusivamente da sua vida e eu digo exclusivamente no sentido mais estrito da palavra, todo mundo ia ter mais tempo pra todo mundo, pra se relacionar melhor, pra ser feliz...
Porque tem alguns assuntos que você não é capaz de contar a ninguém??
Só por medos das criticas??? Quais criticas?? As que você receberá na cara?? Ou as que serão feitas quando você não estiver perto?
Não sei a sua forma de pensar mas, pra mim o melhor é assumir, assumir o erro, mostrar que também tem fraquezas... Desta forma, você não se tornará o super homem ao de seus filhos, nem o carinha perfeito da rua pra sua namorada. Eles saberão que você faria tudo por eles porem, que não é capaz de fazer o impossível.
Quantas decepções acontecem quando anos de perfeições são quebrados por um segundo de fraqueza??
Sinceramente, acho que seria demais ate para o próprio senhor perfeito descobrir que também falha, e o pior, que falha na frente dos outros.
Por isso meus amigos se mostrem, se abram e não deixem que as pessoas a sua volta não conheçam os seus defeitos. È muito mais fácil amar seres imperfeitos, semelhantes a nós, do que ser apaixonado pela mocinha da novela, que vive a vida que todos gostariam de ter mas que se acaba, seis meses depois, no ultimo capitulo.
Quem foi que disse que após o FIM. Ela viveu feliz pra sempre??? Que ela arrumou um ótimo emprego de gerente-de-supervisao-3-para-assuntos-de-coçasaquismo-com-salario-de-10-mil-por-mês???? Que ela teve filhos que não se drogam e que tiram ótimas notas na escola?? Que ela tem um plano de saúde que cobre ate a gripe da prima dela de terceiro grau?? Enfim, que ela teve uma vida perfeita sem um pingüinho de preocupação sequer ao lado do seu príncipe novela das oito.
Sejamos realistas meus caros...
Reconhecer que somos imperfeitos é o primeiro passo para a perfeição.
Reconhecer os erros, é caminhar na direção da paz interior.
Não que eu tenha que viver a vida sofrendo, após reconhecer minha imperfeição, tentando ser perfeito.
È somente ser feliz imperfeito, tentando corrigir o que der, e se ao fim ainda longe da perfeição estiver, ainda assim ser feliz, por que fui feliz tentando, por ter percorrido a caminhada, mesmo não atingindo a linha de chegada....
Julio Ramos
Rabiscado por Andarilha descalça
8:34 PM
Dominado Pelo Amor
Já houve tempo em que eu pensei que tivesse domínio sobre mim mesmo;
Houve momentos em que eu enaltecido pensei que soubesse o que fazer da vida e quando fazer;
Em alguns momentos eu me senti forte o bastante para escolher o caminho que meu coração deveria percorrer...
Hoje eu não me sinto capaz de lutar contra o meu coração que é muito mais forte que eu;
Hoje é ele quem decide o que devo fazer e quando fazer.
Perdi a capacidade de escolher o que fazer, ouço sempre a voz do coração;
Sinto-me fraco para lutar contra o meu coração;
Sou e estou dominado pelo amor que por tanto tempo evitei.
Ah, como eu perdi tempo evitando o amor!
O amor supera tudo...
O tempo, por mais severo que pareça,
A distância, por maior que seja,
A força, por mais invencível.
Sinto-me um vencedor
Sinto-me um sonhador
Sinto-me muito feliz
Hoje eu tenho tudo aquilo que inconscientemente sempre busquei.
Estou dominado pelo amor e por ele me deixo guiar.
Tony Fraga
Rabiscado por Andarilha descalça
10:32 PM
Todos os sentimentos podem conduzir ao amor e à paixão. Todos: o ódio, a compaixão, a indiferença, a veneração, a amizade, o medo e até mesmo o desprezo. Sim, todos os sentimentos... excepto um: a gratidão. A gratidão é uma dívida: todo o homem paga as suas dívidas... mas o amor não é dinheiro.
Ivan Turgueniev
Rabiscado por Andarilha descalça
7:58 PM
RESPIREI UM VERSO CHEIO DE VOCÊ!
Suspirei um verso que o ar expeliu na súplica do desabafo!
Contei minuto a minuto e o meu tempo não passou!
Ouvi as horas vencidas reclamando à minha insônia do tamanho incômodo que eu causava à sua rotina indefinida de
sempre passar no mesmo lugar e jamais se repetir por ser sempre outra hora de desilusão!
Forcei os olhos para não embebedar as mãos que sorviam de cansaço esfregando-se uma na outra negando a dura
realidade - sofrer de solidão!
Talvez não exista mal maior, mas remédio, ainda, não encontrei para aliviar os olhos, as mãos, a boca e o coração que tanto esfrega a caneta no papel produzindo respingos de amor!
Respirei um verso cheio de você!
Rabiscado por Andarilha descalça
11:33 AM
O garoto que podia voar
No palco de sua velhice ele não cultiva mais muitas saudades. Existe uma, no entanto, tão grande e forte que mais do que saudade é presença. Nos olhos surpresos, no riso maroto, na absurda esperança, bem no fundo do espelho ainda mora o garoto que podia voar.
Voava com os pássaros, com as pipas, com os aviões e, principalmente, com a imaginação. O espaço absoluto, sem porteiras, sem donos e sem pecados era o seu lugar, o grande desafio do mais pesado ser o mais leve. Tudo o que contrariava a gravidade o atraía e, afinal, tornou-se trapezista num circo mambembe.
Nos poucos segundos que separavam os trapézios, ele realizava o sonho de Ícaro e pairava na eternidade do desafio de não ter asas e mesmo assim voar. Era uma brisa, uma ave, um presságio, e quase queria não encontrar a outra barra e continuar voando para sempre. A tensão que precedia o início do salto valia pela sensação de não ter corpo, de fazer parte do vento.
Depois, as leis físicas que governam o destino dos homens e não permitem que eles sejam anjos, trouxeram-no para o lugar comum dos que rastejam no universo dos bens de consumo. Tentou ser prático, objetivo, mas apenas sonhou e envelheceu sonhando.
O menino fugiu para dentro do espelho, onde os dois se encontram, todos os dias, sem reclamações nem reprimendas, somente lembranças de um jovem trapezista e histórias de um velho que ainda voa, agora por muito mais tempo e num espaço cada vez maior, nas quimeras infinitas da poesia.
Alberto Cohen
Rabiscado por Andarilha descalça
9:46 AM
A Beleza Feminina
Ryoki Inoe
Escuto, indiscreto sem querer, a conversa do casalzinho que está à mesa ao lado da minha, em um restaurante qualquer.
Muito séria, a mocinha pergunta:
- O que é que você considera "uma mulher bonita"?
Galante e até mesmo um pouco anacrônico, o rapaz responde:
- Uma mulher como você...
Não posso deixar de considerá-lo cavalheiro mas, da mesma maneira, eu o acho um pouco pobre no que diz respeito à definição.
Sorrio, com tristeza, de mim mesmo.
Se sou capaz de me julgar capacitado à crítica, essa capacidade se deve apenas à idade... O que tenho, no fundo, não passa daquele ciúme nostálgico que bem pode ser explicado como "inveja da juventude"...
A mocinha, mais objetiva e bastante exigente, não se contenta com aquela resposta e reclama:
- Você não disse nada. Não respondeu à minha pergunta.
Muito mais esperto do que eu poderia imaginar, o rapaz lhe dá um beijinho, outro e mais outro, atacando imediatamente em seguida seu prato, deixando o assunto tombar por terra.
Está decidido a não responder, a não se comprometer...
Pois bem, cara mocinha, minha bela menina-mulher... Já que seu companheiro não satisfez sua curiosidade, vou procurar fazê-lo.
Em primeiro lugar, não pense você que a presença destes cabelos brancos e destas rugas que maldosamente já começam a me circundar os olhos e a tornar mais duro o meu sorriso, sejam motivos suficientes para você me classificar de "velho". Posso ser mais idoso que você e seu companheiro juntos, mas ainda falta muito para que eu me considere velho e ultrapassado.
No fundo, esses anos todos que já vivi, no mínimo serviram para que certos conceitos meus sejam um bocado diferentes da média, sejam talvez muito subjetivos e até difíceis de explicar mas, pode acreditar, minha menina bonita, são conceitos trabalhados, vivenciados e muito analisados...
Conceitos que, pelo menos, me satisfazem e que, no que diz respeito à beleza feminina, pode ser que a satisfaçam também.
Certa vez, ouvi um desses filósofos de bar dizer que o belo na mulher é exatamente aquilo que se contrapõe ao feio do homem.
Talvez seja esta uma boa maneira de entender como e por que mulheres tão bonitas se casam com homens tão feios... e vice-versa.
Mas, em minha opinião, são balelas, ginásticas mentais e palavrório inútil.
Uma mulher é bela por que...
É simplesmente bela.
Ao lado da parte física, a matéria harmoniosamente constituída, as linhas e curvas esteticamente bem equilibradas, há algo mais, há qualquer coisa que faz com que o homem que a vê sinta, de repente, um enlevo todo especial e a deseje...
Sim, ele pode desejá-la e de muitas maneiras.
Talvez até mesmo como eu a estou desejando agora, sem nem sequer pensar em qualquer coisa que seja diferente de um platonismo até fora de moda.
É esse algo mais, essa aura que circunda a mulher que é bela, que é capaz de fazer com que uma criança - esse serzinho que ainda não tem maldade em sua alma, que não tem malícia alguma em seu coração e não possui qualquer idéia carnal em sua mente -a veja e diga, com um sorriso encabulado:
- Você é bonita...
Seria, essa aura, uma expressão ectoplásmica da bondade?
Não sei...
Não sei definir muito bem o que possa ser a bondade feminina.
Seria a capacidade de se entregar ao amor, de se dedicar ao homem que ama, de se desdobrar como diz Raimundo Corrêa, "desfiando fibra por fibra o coração" em relação a seus filhos? Ou seria a bondade apenas o fato de ser cordata, dócil, simpática e sempre pronta a servir?
Há mulheres belas que não são assim...
Têm sua vida própria, seu brilho próprio, independem de todo e qualquer homem, não querem saber de filhos - estes atrapalhariam seus objetivos - e nem por isso deixam de ser belas, deixam de ser desejadas...
Mas...
Olhando-me interiormente, avaliando a experiência que estes cabelos brancos provam, penso se estas mulheres, belas, belíssimas, maravilhosas e atraentes, mulheres por quem um homem seria capaz de cometer as maiores loucuras, penso se elas continuarão merecedoras de toda essa devoção... dentro de trinta anos.
Sim.
Dentro de trinta anos, quando a chamada "idade madura" chegar, com o grisalho nos cabelos, as juntas já um tanto rígidas, a disposição para tudo, bem arrefecida, a vida marcada por desencontros e desencantos, por desilusões e frustrações, será que essas mulheres continuarão belas?
Ou será que em seus rostos, já então vincados, não estará mais presente do que qualquer outra coisa, o amargor decorrente de tudo o que foi vivido, de tudo quanto foi passado, sofrido e,
sobretudo, de todos os momentos perdidos na perseguição de um ideal, de uma meta que, fundamentalmente, não era a sua?
Veja, minha bela menina-mulher...
Sim, pois você é bela, pelo menos ainda...
Continue assim como a vejo, olhando com carinho para esse bobalhão que está à sua frente... Continue a ser como é, a pensar como uma menina e a agir como uma mulher.
Talvez seja esse o segredo...
Tenha suas metas, persiga-as. Alcance-as. Realize seus sonhos materiais, profissionais, financeiros. Conquiste seu lugar na cruel sociedade, seja alguém, vença!
Mas, para que continue a ser bela, para que até mesmo esse apolônico imbecil que a tem hoje, continue a seus pés, é preciso apenas uma coisa: é preciso que você jamais deixe de ser,
simplesmente, mulher...
Rabiscado por Andarilha descalça
10:59 PM
Há Sempre Uma Perda Em Cada Encontro
Arthur Da Távola
Cada encontro está carregado da perda, ou de perdas. Às vezes duas pessoas que se amam (casados, solteiros, amantes, namorados) se encontram e são felizes. Ao fim da felicidade um deles chora, ou fica triste, ou baixa os olhos, ou é invadido por inexplicável melancolia. É a perda que está escondida no deslumbramento de cada encontro. O encontro humano é tão raro que, quando surge, vem carregado de todas as experiências de desencontros que a pessoa já teve e que a espécie já sofreu. Quando você está perto de alguém e não consegue expressar tudo o que está claro e simples na sua cabeça, você está tendo um desencontro. Aquela pessoa que lhe dá um extremo cansaço de explicar as coisas, é alguém com quem você se desencontra. Aquele que só emite, pouco lhe dando condições de intercalar os seus pontos de vista, é outro com quem você se desencontra. Aquele a quem você admira tanto, que lhe impede de falar, também é um agente de desencontro, por mais encontros que você tenha com a arte dele. A pessoa que só pensa naquilo em que vai falar e não naquilo que você está dizendo para ela, é alguém com quem você se desencontra. A pessoa que já vem conversar com você, com posições definidas e tomadas, é alguém com quem você se desencontrará. Alguém que o ama ou o detesta, sem nunca ter sofrido ao seu lado, é alguém desencontrado com você. Cada desencontro é perda, porque é a irrealização do que teria sido uma possibilidade. É a experiência de tantos desencontros o que marca os raros encontros que a vida permite. A própria vida é uma espécie de ante-sala do grande Encontro (com o Todo?, com o Nada?). Por isso talvez seja uma provocação de desencontros preparatórios da penetração na essência do Ser. Mas, por isso ou por aquilo, cada encontro está carregado de perda. A perda é mais adivinhada do que sentida. E no ato de sentir-se feliz, intensamente feliz, associa-se a idéias do passageiro que é tudo, do amanhã cheio de interrogações, da exceção que aquilo significa. E uma tristeza muito particular se instala: a tristeza feliz. A tristeza feliz, não a que deriva das grandes dores, frustrações ou amarguras. É a que se associa ao momento bom, como a perda inerente a cada encontro, como sentimento de certeza de que tudo aquilo passará... Tristeza feliz é a que só surge depois dos encontros verdadeiros, tão raros. Encontros verdadeiros são os que se dão de ‘self` (si mesmo) para ‘self`, e não de inteligência para inteligência, de concordância para concordância, de interesse para interesse. Os encontros verdadeiros prescindem de palavras. Prescindem até, do clássico ‘precisamos conversar’... Quem se alegra demais se distancia da felicidade. Felicidade está mais próxima da paz que da alegria, do silêncio que da festa, do encontro que do debate. A alegria é ‘um Dom Divino, filha do alto Eliseu’, como diz Schiller, o poeta, no verso que abre a ‘Nona Sinfonia’ de Beethoven, mas ouso dizer que ela é divina na medida em que é um Dom, uma graça, uma centelha doada aos homens, para enfrentar a vida.
Eu diria que a alegria não é felicidade, e que a felicidade, muitas vezes, está mais perto da tristeza do que da alegria. Felicidade está mais perto da tristeza, porque a certeza da perda sempre se instala a cada vez em que estamos felizes. Cada encontro está carregado de perda. Nesta vida. E até na outra, que se existe (e permitirá o encontro redentor), precisou da perda desta vida. E esta certeza – a da perda – a que provoca aquela lágrima ou aquela angústia, que a gente não sabe porque às vezes se instala após os verdadeiros encontros. Há sempre uma despedida em cada alegria. Há sempre um ‘e depois’, após cada felicidade. Há sempre uma saudade na hora de cada encontro. Antecipada.
Rabiscado por Andarilha descalça
10:12 PM
A arte é longa
Charles Kiefer
Tento dormir, mas a dor na cabeça, na garganta e nas articulações espantou o sono. Tenho febre e a horrível sensação que a acompanha, uma vontade de enroscar-me em mim mesmo, uma vontade de jogar-me no abismo subjetivo que deseja devorar-me.
Levanto, vou à sala e aproveito o tempo para refletir sobre minha tese a respeito do conto. Abandonei quase tudo, exceto minhas oficinas literárias, para dedicar-me a duas obras: Sofia, minha filha de grandes olhos azuis, e o doutorado abandonado há seis anos. Ambas crescem, em mim e fora de mim.
Constato, sem muita perplexidade, que os autores que estou analisando, Poe, Cortazar, Tchecov, Kafka e Borges, mais que a paixão comum pelo conto, compartilharam outra coisa: a doença. Edgar Allan Poe era dipsomaníaco e opiômano.
Julio Cortazar sofria de um mal estranho. Era, ele próprio, mais estranho que seus personagens. Um distúrbio genético impedia que parasse de crescer. Morreu com estatura de gigante, duplamente.
Anton Tchecov e Franz Kafka finaram-se sob a insídia da tuberculose, à meia-idade.
E Jorge Luís Borges, talvez o maior contista de todos os tempos, além de suicida fracassado, era impotente e cego.
Poe, delirante, escreveu contos oníricos.
Cortazar, com o corpo tomado, criou uma supra-realidade, povoada por Cronópios e Famas. Tchecov e Kafka, talvez por que lhes faltasse o ar, escreveram contos brevíssimos. Borges, saudoso de sua biblioteca, desenvolveu uma memória enciclopédica. Os seres saudáveis, dedicam-se aos esportes.
Aos doentios, sobra-lhes a arte, em suas múltiplas manifestações.
Recordo-me da infância - efeito secundário da febre -, quando tinha que ficar em casa, aprisionado, prisioneiro de minha própria asma. Talvez os livros em minha vida tenham sido consequência da falta de saúde. O assunto, de certa forma, já foi muito bem examinado por Teixeira Coelho, em As fúrias da mente. Ele rastreia, na cultura ocidental, a nefasta influência da melancolia e da depressão sobre a nossa produção artística.
O mapeamento do código genético e a eliminação sistemática das falhas geradoras das doenças podem levar-nos, num futuro não muito distante, ao fim da arte.
Deliro. É efeito da febre.
Como, nesse futuro, a saúde não será um patrimônio público, somente os ricos nascerão geneticamente saudáveis - enfim o Ubermensch nietzschiniano -, os pobres continuarão poetas, músicos, contistas.
A arte é longa.
Rabiscado por Andarilha descalça